Passadas as eleições estaduais, vencedores e derrotados já iniciam articulações político-partidárias visando conquistar a prefeitura da capital tocantinense daqui a dois anos

Após fazer duras críticas ao Pros, Sargento Aragão deverá procurar outra legenda para disputar a prefeitura de Palmas
Após fazer duras críticas ao Pros, Sargento Aragão deverá procurar outra legenda para disputar a prefeitura de Palmas

Gilson Cavalcante

Tão logo as eleições estaduais foram definidas, a sucessão municipal de 2016 já entrou na ordem do dia, principalmente em Palmas. O primeiro a se manifestar que vai disputar a prefeitura da capital foi o deputado estadual Sargento Aragão, que concorreu ao Senado pelo Pros e obteve mais de 15% dos votos (o triplo do que as pesquisas mostraram), ficando em terceiro lugar. Ainda é muito cedo para fazer qualquer prognóstico, mas o quadro sucessório em Palmas deve contar com quatro candidaturas.

Insatisfeito por não ter recebido nenhum apoio do Pros na campanha eleitoral, de acordo com suas declarações, Aragão adiantou que vai sair do partido e já está articulando uma nova legenda para se filiar. Pela expressiva votação que obteve em Palmas (38,83% dos votos), o deputado acha que saiu com cacife político-eleitoral para postular a prefeitura.

Polêmico por natureza e adversário visceral do siqueirismo, Aragão deve procurar uma legenda que esteja alinhada com o grupo do governador eleito Marcelo Miranda (PMDB), para enfrentar o prefeito Carlos Amastha (PP), de quem era aliado e se tornou o principal desafeto. “Vou começar, de imediato, a buscar entendimentos com as lideranças de partidos e apresentar o nosso projeto”, disse, sem dar indícios em qual legenda irá se filiar.
Aragão foi do PPS, partido pelo qual se aliou ao PP de Amastha a fim de disputar a prefeitura de Palmas em 2012, na condição de vice-prefeito. O colombiano foi eleito, mas Aragão rompeu com ele logo que assumiu o comando da prefeitura, devido a desentendimentos que surgiram logo na formação do secretariado.

Desgostoso com a postura de Amastha, Aragão abriu mão de ser vice-prefeito porque entendeu que no Paço Municipal seu espaço político seria minado, decidindo permanecer como deputado estadual. No ano passado, deixou o PPS, que já tinha se entendido com o Palácio Ara­guaia, e abrigou-se no então recém-criado Pros.

Desafios

O projeto político do parlamentar, no entanto, pode enfrentar alguns obstáculos, o que vai exigir dele habilidade para convencer as lideranças de partidos históricos a abraçar sua causa. Para o PMDB Aragão não deve ir, visto que vai encontrar fortes resistências, principalmente da senadora reeleita Kátia Abreu, a quem ele denomina de “rainha do motosserra”. No PSD, partido que tem como liderança o deputado federal Irajá Abreu, filho da senadora, também está descartado o seu ingresso. Das legendas que coligaram com Marcelo Miranda, restam PV e PT. Qual dos dois arriscaria encampar uma candidatura de Aragão à prefeitura de Palmas? O PMDB nunca teve a oportunidade de administrar o município e o momento poderia ser em 2016, aproveitando o resultado das urnas de 2014.

Outro aspecto a se considerar é que o deputado estadual Marcelo Lelis, do PV, pode voltar a sonhar com a prefeitura da capital daqui a dois anos. Isso porque o parlamentar ainda nutre esperanças de reverter o processo do Superior Tribunal Federal (STF), que decidiu pelo indeferimento de sua candidatura a vice-governador na chapa de Marcelo Miranda por abuso de poder econômico durante campanha eleitoral de 2012 pela prefeitura de Palmas.

Lelis, caso consiga reverter a situação, seria um forte concorrente ao Paço Municipal com o apoio do Palácio Araguaia. Iria, portanto, para a terceira disputa em condições favoráveis.
A saída para Aragão, portanto, seria se filiar a um novo partido ou a uma legenda de menor representatividade eleitoral e tentar uma aliança com os chamados “nanicos”. Logo, um desafio que o deputado terá que enfrentar para concorrer à prefeitura. Ele acha que não existe argumento melhor que a votação que obteve em Palmas para vender sua ideia a possíveis aliados para 2016.

Da tribuna da Assembleia Legis­lativa, na terça-feira, 7, Aragão fez o seguinte desabafo: “Venci todos os meus adversários diretos e indiretos na capital: a senadora Kátia Abreu e Eduardo Gomes”. Fez questão de dizer que venceu o prefeito Carlos Amastha (PP), que pediu voto contra sua candidatura. O parlamentar criticou os institutos de pesquisas e a Organização Jaime Câmara. Na sua avaliação, os resultados da votação contrariaram todas as estatísticas dos institutos.

Outros possíveis postulantes

Na seara das especulações os prováveis nomes que devem ir para a disputa são o prefeito Carlos Amastha (PP), o deputado federal Eduardo Gomes (SD), derrotado para o Senado, e o ex-prefeito Raul Filho, que deve ser expulso do PT dentro de poucos dias por não seguir as orientações do partido. Raul aliou-se nas eleições deste ano com o governador Sandoval Cardoso (SD).

Amastha tem realizado obras importantes na cidade, mas, durante a campanha eleitoral, tomou atitudes consideradas imaturas politicamente. Por isso mesmo, acreditam analistas políticos, que o prefeito terá dificuldades para fazer alianças com vistas à sua reeleição. Indispôs-se com lideranças importantes que o ajudaram na eleição em 2012 e atacou eventuais aliados para 2016.

O prefeito achou que tinha prestígio e popularidade altas e investiu publicamente em duas candidaturas que não obtiveram êxito: Thiago Andrino (federal) e Major Negreiros (estadual), ambos do seu partido, o PP. Andrino foi seu secretário e Negreiros presidente da Câmara de Vereadores de Palmas. Conclusão: saiu derrotado no primeiro embate eleitoral após ter sido eleito prefeito de Palmas. Resta a Amastha recompor os cacos de suas intempestividades e tentar aglutinar novas forças, o que não é nada fácil para um estrangeiro com mania de grandeza e de comportamento pernóstico em determinadas situações.

A situação política do ex-prefeito Raul Filho também não é nada fácil. Na berlinda desde que entregou o mandato a Amastha, em janeiro de 2013, o ainda petista, terá que buscar guarida junto ao grupo siqueirista para tentar se reabilitar politicamente. Não se sabe se o deputado estadual eleito Eduardo Siqueira Campos (PTB) vai acolhê-lo e permitir o espaço de que precisa, caso queira disputar a prefeitura pela terceira vez.

O discurso de Raul Filho ainda é uma incógnita. Pode ser que ele reapareça se lançando como vítima de um grande complô dentro do PT ou com uma justificativa que convença os palmenses do porquê de seu alinhamento com o Palácio Araguaia. O dilema do ex-prefeito: para onde ir, com quem ir ou ficar esperando o cavalo passar arreado na porta de sua casa? Se ficar em cima do muro por muito tempo, pode cair um temporal e ele acabar se afogando no mar das indecisões.

Raul não conseguiu nem reeleger a sua esposa Solange Duailibe (SD) a deputada estadual. Ela, que antecipou a possibilidade de ressurreição política do marido, se jogando nas confortáveis acomodações palacianas, sabia que, a qualquer momento, poderia ser expulsa do PT e cuidou logo de se acomodar no SD do governador Sandoval Cardoso. Contava com seu charme e beleza para ser reeleita, mas se descuidou nos discursos inflamados de outrora. Solange deve disputar a prefeitura de Ara­guaçu, de onde surgiu para o mundo da política.

Para o ex-tucano Eduardo Go­mes, que ficará sem o mandato de deputado federal a partir do final do ano, visto que perdeu a disputa ao Senado para Kátia Abreu, a lógica é arriscar na disputa pela prefeitura de Palmas. Como a política também é a arte da perversidade, Gomes pode, muito bem, passar uma “rasteira” no prefeito Amastha e sair candidato, numa composição com outras forças. O prefeito pode também desistir da reeleição para disputar o governo estadual em 2018, com o compromisso de apoio do bloco dos dois Eduardos, o Gomes e o Siqueira. Mas, em política, os acordos a médio e longo prazos não funcionam. Os adversários de hoje podem ser os aliados de amanhã. E a banda segue tocando e o povo aplaudindo.