“No Tocantins, o PMDB atualmente está sem pé, sem cabeça e sem rumo”

Prefeito de Paraíso defende Marcelo Miranda com dicas para “melhor governar”

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Gilson Cavalcante

 

Gilson Cavalcante

O ex-governador Moisés Avelino (PMDB) disse que vai encerrar sua carreira política como prefeito de Paraíso. Mas não confirmou se em 2016 ou 2020. “Estou fazendo um trabalho para provar ao povo de Paraíso e ao Estado que é possível fazer muito com pouca coisa, com competência, transparência e honestidade. Eu estou calando a boca de meus adversários em Paraíso com trabalho e não respondo críticas”, afirmou o peemedebista na entrevista exclusiva que concedeu ao Jornal Opção. Avelino ainda não despachou com o governador Marcelo Miranda (PMDB) para falar sobre as necessidades de seu município, o que espera fazer dentro de 60 dias. No entanto, adianta que a maioria das prefeituras tocantinenses está quebrada, e o único recurso de que dispõe é do FPM. “Existem municípios que nem ICMS recebem”, observa. Ele acha que o governador tem que definir como vai tratar os prefeitos, mas pondera que nesses três primeiros meses é o tempo que Marcelo Miranda tem que se dedicar para colocar a administração estadual em ordem. O ex-governador entende ainda que o Brasil e o Tocantins estão precisando de novas lideranças para resgatar a credibilidade da classe política que, segundo ele, está bastante desgastada.

Que análise o sr. faz sobre o novo cenário político tocantinense, com o retorno de Marcelo Miranda ao governo do Estado?
Nós estamos entendendo o seguinte: são apenas 30 dias de governo e o governador está tomado pé da situação; de como encontrou a administração pública estadual. Portanto, não há tempo suficiente para fazer uma análise mais profunda. Mas eu acho que o governo tem um período curto de uns noventa dias para colocar a casa em ordem, concluir a nomeação de sua equipe e, então, dentro de três meses tem que dizer para o que veio, porque o nosso povo não quer saber o que foi encontrado, quer saber o que vai se fazer. As dificuldades de mudanças de um governo para outro, naturalmente, tem essas dificuldades, para analisar e se planejar o que vai ser feito.

Com todas essas dificuldades, o que o sr. acha que será o grande desafio do novo governo? Seria a falta de recursos para alavancar o crescimento do Estado ou um novo plano de desenvolvimento que possa empolgar a sociedade?
Na realidade, pelo que se sabe por intermédio da imprensa, a máquina administrativa do Estado está muito pesada, cheia e, com isso, trará muitas dificuldades para a gestão na questão financeira. Mas é o que estou dizendo: a sociedade não quer saber o que o governo encontrou, quer saber o que se vai buscar. Eu acho que o tal choque de gestão tem que ser feito nas áreas prioritárias e, acima de tudo, principalmente na questão dos gastos públicos. É preciso cortar o que é supérfluo para arrecadarmos mais, porque nós temos uma inadimplência muito grande e isso é muito natural. Em todo lugar tem, as prefeituras têm, o Estado tem. Se nós não nos organizarmos, cumprindo o nosso dever, não conseguiremos sair desse estágio em que estamos (o Estado). Vejo que o planejamento é a parte fundamental e determinante de qualquer sucesso administrativo. É o planejamento que vai estabelecer as prioridades do governo. Lá em Paraíso eu digo que nós não temos crise, temos dificuldades; digo que nós vamos vencer com competência, com honradez, com transparência, honestidade e com planejamento. Se nós temos, por exemplo, dez assuntos importantes para resolver e não podemos resolver todos, temos que priorizar os que julgamos mais prementes. Nós vamos, então, resolvendo pelo planejamento. É isso que estamos fazendo. Lá em Paraíso, é proibido falar em crise, desde quando assumi a prefeitura há dois anos. Lá se fala em dificuldades que estão sendo vencidas com competência e, acima de tudo, com amor ao nosso povo e ao município.

O foi possível perceber no processo de eleição da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa, em que a oposição saiu vitoriosa nesse primeiro embate com o novo governo, mas que o presidente reeleito, deputado Osires Damaso, pregou um pacto pela governabilidade ao falar em movimento suprapartidário. O sr. acredita nessa disposição da oposição e que o governo tem que aproveitar esse momento?
Verificando o novo quadro na Assembleia Legislativa, observo que temos um Parlamento jovem. E a sociedade espera muito disso, não só pela juventude, mas pela cabeça que devem ter pela sociedade moderna, que exige que todos deem as mãos. Terminaram as eleições, os palanques eleitorais e a sociedade não quer saber do grupo político que governa, parlamentares de vários segmentos políticos. O que importa agora é a retomada do desenvolvimento do Estado, são os grandes projetos, as ações sociais de amparo principalmente às pessoas mais carentes desses investimentos. O que deve prevalecer são as ações para o bem da sociedade como um todo. E esse bem da sociedade implica o entendimento entre os poderes, em um relacionamento entre Executivo e o Legislativo. Que seja um Parlamento que aprove ou não as matérias por questões político-partidárias, mas que prevaleça o interesse da sociedade. A parte política fica para o plano político. Os discursos no dia da posse dos deputados induzem a gente a pensar em esperança e renovação para o nosso povo e, principalmente, para a classe política que está bastante desgastada. E para regatarmos essa credibilidade, realizando ações que o povo possa entender e acreditar nisso, porque uma minoria que faz repercute muito pouco, mas se todos começarem a abraçar essa causa, nós mudamos, inclusive, o pensamento da sociedade com relação aos políticos.

O sr. já chegou a conversar com o governador Marcelo Miranda? Que tipo de relação ele deve manter com os prefeitos?
Na realidade, eu ainda não conversei com o governador Marcelo Miranda. Depois que ele ganhou as eleições, conversei com ele duas vezes, muito superficialmente. Depois que ele tomou posse, eu o visitei uma vez, assim de surpresa. Não estava programado. Eu ainda não solicitei audiência com ele, mas vou esperar uns 60 dias para ele arrumar a casa, para fazer alguns pedidos. Acho que ainda não é hora para se discutir administração, porque o governador ainda está tomando pé da situação para definir suas ações para os municípios, que estão vivendo grandes dificuldades financeiras, estão sucateados. O governo federal levou tudo para o lado dele nessas últimas décadas e joga os encargos em cima das prefeituras. Tem município que está tomando dinheiro emprestado para quitar folha de pagamento dos servidores. As prefeituras só vivem do FPM. Então, tudo isso tem que ser revisto, e o governador Marcelo Miranda tem que definir como ele vai tratar com os prefeitos. Eu ainda não despachei com o governador para falar sobre a minha administração.

Uma saída para os municípios não seria os consórcios para resolver alguns problemas mais prementes?
Eu não acredito em consórcio, porque muitos municípios já tentaram fazer e na prática não funciona. Faz-se um consórcio para levar máquinas para determinado município, permanecendo todo o maquinário apenas 15 dias. Assim, eu dispenso porque não resolve meu problema. Mas existem outras alternativas, outras formas de ajudar os municípios. As prefeituras não sobrevivem mais sem ajuda do Estado e do governo federal, ainda mais no Tocantins, onde a maioria dos municípios é pobre. Inclusive, existem alguns que não recebem nem ICMS, só recebem o FPM, e tende a cair ainda mais, porque o governo federal está em crise, o País está em dificuldade e para retomar o crescimento vai demandar muito tempo, porque os prejuízos foram grandes demais, provocados pelos escândalos recentes, como é o caso da Petrobras. O meu partido, o PMDB, apoia a presidente Dilma, mas eu tenho divergências pessoais com ela e discordo de algumas de suas ações. E o meu comando partidário sabe disso. Por que ela (presidente Dilma) abaixou a taxa de energia elétrica em 18% no período eleitoral e agora aumentou? Foi só para ganhar a eleição? Por que o combustível está aumentando? Porque, ao longo do tempo, foi se tirando dinheiro da Petrobras para pagar outras questões. O que aconteceu? Ela (a empresa) faliu foi sucateada e o petróleo aumentou de preço. Os grandes produtores de petróleo estão vendendo o produto barato, o que piorou nossa situação, porque a nossa dívida aumenta. Portanto, acho que estamos em um ano de crise em nível nacional, situação que vai repercutir nos estados e nos municípios, porque se produz menos e menos empregos são gerados. Diante desse cenário, temos que ter muita criatividade e competência, para superar essas dificuldades, tanto no setor público quanto na iniciativa privada, porque a crise vem em cadeia.

Geralmente, são nesses momentos de crise que as lideranças políticas descobrem caminhos. O sr. acredita que essa crise política e de gestão pública pode gerar um novo momento para o Brasil?
Eu acho que o Brasil está precisando, mais do que nunca, formar lideranças nacionais de credibilidade com o povo, não fazendo favores, mas pelo que fala e defende. Existem muito poucas lideranças com essas características. Um Pedro Simon da vida, para onde ele vai agora? Ele tem credibilidade, ninguém pode falar mal dele. Está saindo da política naquela idade e só com o nome limpo e com a credibilidade que tem. E assim existem outros poucos. Simon não teve oportunidade de sair candidato a presidente da República, por exemplo. Talvez porque seja muito correto. A gestão dos nossos poderes está em más mãos. Pessoas que têm o poder do dinheiro, do emprego, do favor, mas que corrompem os mais humildes inconscientemente pelos favores que fazem, tornando o eleitor seu refém. A sociedade nossa tem que acabar com isso. Eu sou do Nordeste (Piauí) e vejo que pouca coisa mudou. Portanto, acho que as lideranças políticas têm que se renovar. Eu procuro em todos os partidos, inclusive o meu, para saber qual a liderança de nível nacional que tem credibilidade junto ao povo. Existem as lideranças regionais, mas nacional não tem. As lideranças potencializadas que existiam foram afastadas do processo pelo poder econômico.

O Tocantins também tem carência de novas lideranças políticas?
O Tocantins também tem carência de surgimento de novas lideranças, sim. É o que eu disse, temos lideranças regionais, mas nacionais, não. E as que estão aqui (no Tocantins), só sobra o Marcelo Miranda, que está no governo. Qual a outra liderança que existe aqui com poder de fogo?

E o sr., não seria essa liderança política que pode pensar em disputar uma das duas vagas ao Senado em 2018?
Que nada. Não penso nisso, não. Eu não sou mais nada, só prefeito de Paraíso. Veja o que aconteceu com o nosso partido, como está o PMDB no Tocantins? Por que chegou nessa crise? Por causa das lideranças locais. É falha minha? Pode até ser, porque eu tenho minha parcela de contribuição nesse processo a que chegou o PMDB tocantinense. O PMDB, no Tocantins, está sem pé, sem cabeça e sem rumo. Estou esperando mais alguns dias para falar com o governador para ver com ele como vai ficar o nosso partido, porque do jeito que está não pode continuar.

O sr. não pensa em assumir o comando do PMDB o Estado?
De jeito nenhum. Eu não tenho mais disposição para visitar todos os municípios nessa missão. Vou participar da reestruturação do partido se for chamado. Nem chamado eu sou nessas brigalhadas todas. Eu falo lá em Brasília, aqui não. Lá, eu tenho credibilidade. Apesar de tudo, o povo me ouve lá.

Por que a presidente baixou a taxa de energia nas eleições dilmeta
e agora aumentou?”

O sr. é um nome forte para o Senado em 2018.
(risos…) Moço, eu estou dizendo que só tenho eu de político na família. Eles (familiares) dizem que o único doido da família metido em política sou eu. Vou encerrar minha carreira política como prefeito de Paraíso. Nem sou, nem deixo de ser candidato à reeleição. Vamos ver o que vai acontecer daqui até lá e na hora certa tomar a decisão. Mas estou fazendo um trabalho para provar ao povo de Paraíso e ao Estado que possível fazer muito com pouca coisa, com competência, transparência e honestidade. Eu estou calando a boca de meus adversários em Paraíso com trabalho e não respondo críticas. Por que o Moisés fez em 10 meses o que o antecessor não fez em quatro anos? E outra: a prefeitura não deve a ninguém, arrumei o município. O que não tive condições de pagar de uma só vez, parcelei. Faço a obra, ela é entregue, o município paga. Só faço se tiver o dinheiro para pagar. Eu tenho dificuldade de profissionais, de material humano.

O sr., quando governador, teve a preocupação de elaborar um plano estratégico de desenvolvimento. Não seria fundamental retomar esse processo para se alcançar o desenvolvimento desejado para o Estado?
Com certeza. O plano que nós fizemos, à época, foi muito pouco divulgado. Mas as suas raízes permaneceram e os governos se utilizando delas. É logico que ele teria que ser aperfeiçoado. O mundo muda, as coisas mudam de um ano para o outro. Portanto, alguns aspectos devem ser atualizados porque estão defasados. Acho que o plano deve ser aperfeiçoado e levado à frente, fazer as adaptações necessárias. Acho que foi o pontapé inicial, que foi muito importante para o Estado.

A descentralização administrativa é algo indispensável para ser colocada em prática, mas que não está no discurso do governo?
Eu acho que para ficar atendendo um prefeito aqui, outro acolá não há necessidade. Pode ser resolvido tudo em Palmas. É preciso ter pessoas (autoridades) que atendam as lideranças municipais com autonomia para realizar aquilo que é possível e para de ficar adiando as decisões. Agora, para descentralizar, colocando um representante do governo em determinadas regiões do Estado não funciona. Já tentaram fazer isso no passado e não funcionou, porque faltou material, politicamente esse representante não teve competência para resolver os problemas. Se determinado secretário não tem condições de decidir sobre determinado assunto, recorre-se ao governador, em Palmas mesmo. Em síntese, a descentralização vai gerar mais despesas e não vai resolver.

As rusgas entre a senadora reeleita Kátia Abreu, quando da época da formação do secretariado, podem prejudicar a reestruturação do PMDB no Estado?
É um assunto muito melindroso para se comentar. Primeiro porque eu não conversei com nenhum dos dois a respeito do acontecido. Segundo, que o episódio, que fiquei sabendo pela imprensa, é muito de ordem pessoal. No entanto, pela estatura do poder político que os dois exercem, acho que ambos têm que entrar num entendimento, porque o Estado não pode pagar por uma divergência momentânea e passageira. Não quero dizer com isso que eles (Marcelo e Kátia) não tenham suas diferenças políticas, mas, administrativamente, não podem deixar de se relacionar para o bem do Tocantins.

A deputada federal Josi Nunes defendeu recentemente que Derval de Paiva assuma o comando do PMDB no Estado. O sr. concorda com a sugestão dela?
Eu acho ainda muito prematuro se falar em nome para assumir o comando do PMDB no Tocantins. Eu não tenho que indicar ninguém. Sou amigo demais do Derval, mas eu acho que tem que começar uma coisa certa. Indicar Pedro ou João, já começa errado. Eu não tenho a menor intenção de ser presidente de partido. Quando tive, perdi a eleição para o Osvaldo Reis. Nunca me arrependi de ter sido candidato. Pediram-me, à época, para eu sair e eu disse que não. Não sou homem de fugir da luta. Pediram-me para eu entrar, disputei e não guardo mágoa de ninguém. Fiquei vice do Osvaldo, como tinha sido combinado e tudo bem. Não estamos na fase de laçar nomes para comandar o partido. A cúpula do partido tem que sentar e discutir os rumos da legenda e detectar onde estão as divergências. E antes de tudo, acabar com essas divergências. Derval é uma liderança altamente capacitada, pode ser até o consenso, mas isso tem que ser conversado com a cúpula partidária e com as bases, para saber o que é melhor para o PMDB.

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