“Não vamos institucionalizar a prática homossexual, nem fazer que as escolas perpetuem esses valores”

Deputado Eli Borges: em defesa da família tradicional brasileira | Foto: Facebook

Deputado Eli Borges: em defesa da família tradicional brasileira | Foto: Facebook

Gilson Cavalcante 

O tão polêmico beijo gay entre as duas personagens vividas por Nathália Timberg e Fernanda Montenegro, na novela Babilônia, da Rede Globo, mexeu também com os preceitos religiosos do deputado estadual Eli Borges (Pros), que é pastor evangélico.

O beijo entre as duas octogenárias levou o parlamentar a apresentar uma nota de repúdio contra o que ele classificou de cena que afronta princípios da família tradicional.

“A referida novela, assim como outras anteriormente exibidas pela Rede Globo, tem clara intenção de afrontar os cristãos em suas convicções e princípios, querendo trazer, de forma impositiva para quase toda a sociedade brasileira, o modismo denominado por eles de ‘outra forma de amar’, contrariando nossos costumes, usos e tradições”, argumenta o parlamentar, na entrevista que concedeu com exclusividade ao Jornal Opção, em que também fala sobre os planos do seu partido, o Pros, do qual é o presidente regional, e as eleições municipais de 2016.

Um partido novo como o Pros tem condições de disputar as eleições municipais de 2016, com chances de êxito nas urnas?

Nós temos um projeto de colocarmos o Pros nos 139 municípios do Estado, daqui até as eleições do ano que vem e elegermos vereadores em todas as cidades; prefeitos e vices em algumas cidades. É uma meta.

E Palmas?

Em nossa capital é uma discussão que vai continuar acontecendo. Dessa vez, eu tenho pretensões de me candidatar a prefeito. Mas o Pros tem bons nomes na cidade que podem sonhar com isso. E, quem sabe, alguém pode vir para o partido e ousar ser prefeito de Palmas? Então, é uma discussão que vai ocorrer com tranquilidade, nós vamos fazer uma boa composição.

O Pros, que com apenas um representante na Assembleia Legislativa, é um partido que está na base do governo. A estratégia é ampliar a coligação governista para o pleito do próximo ano?

O deputado Eli Borges, que é presidente regional do Pros, tem uma posição de apoio ao governo, mas o partido, institucionalmente, ainda não se reuniu para deliberar sobre o apoio da legenda. Então, não posso dar a resposta do Pros fazendo parte do grupo de partidos do governo enquanto não reunir a Executiva. Quanto à minha postura de deputado, estou defendendo esse apoio ao Palácio Araguaia por causa do momento que o Tocantins vive.

O Pros pode ser o carro-chefe para a formação de uma aliança política com outros partidos pequenos, com vistas à disputa das eleições municipais do ano que vem?

O Pros, na minha gestão como presidente, tem a intenção de se estabelecer no Tocantins como o mais decente e organizado dos partidos, com um time de lideranças qualificadas e preparado para todos os níveis de disputa.

O sr. foi um peemedebista histórico, no entanto abandonou o partido. O que o levou, de fato, a se desligar da legenda pela qual o sr. ingressou na vida pública?

Historicamente, eu participei do PMDB. Ocorre que no pleito passado, eu percebia que o partido estava numa crise de identidade e eu não sabia qual seria o desfecho disso. Nas minhas pretensões de disputar a prefeitura de Palmas, em 2012, o PMDB não me respaldou nessa postulação.

Portanto, achei que estava na hora de comandar um partido político. Aderi ao Pros, que foi comandado um período pelo senador Ataídes Oliveira (hoje presidente regional do PSDB), que deixou o partido e eu assumi comando. Portanto, eu tenho uma grande missão: fazer do Pros um caminho, uma alternativa para aqueles que sonham com a política idealista e decente.

O Senado aprovou, recentemente, em segunda votação, o impedimento de coligações partidárias para as eleições proporcionais. O Pros pode ser prejudicado com isso?

Eu não acho que seja prejudicial, pode até ajudar, porque isso está acontecendo em um tempo em que nós temos como reagir com trabalho, fazendo em todos os municípios um bom time competitivo visando tornar o Pros um partido até mais forte. Porém, acho que é uma reforma interesseira, porque, na reforma política, eu acho que temos que discutir outros assuntos que considero de maior relevância.

Quais, por exemplo?
Existem alguns pontos que uma reforma política séria deve pontuar. Por exemplo, o fato de as pesquisas eleitorais manipularem dados, mudando rumos. Temos que discutir isso com profundidade.

O segundo ponto que julgo muito importante que seja discutido é o famoso tempo de televisão, em que muitos partidos pequenos — não todos, mas a grande maioria deles — vende seu espaço para os partidos grandes para aumentar o tempo de televisão. Isso torna a disputa majoritária desigual, porque a prática de muitas legendas pequenas é recorrente e outros fazem composições sem nenhum critério do ponto de vista ideológico ou político.

Resumo: uma composição de partidos grandes com outros menores acaba tendo um tempo, por exemplo, de 8 a 10 minutos na TV, enquanto uma candidatura de um partido que não entrou na coligação fica com apenas dois minutos. Então, o tempo de TV é outro caminho a ser debatido na reforma política. Um terceiro ponto que considero curioso é uma ação no sentido de que, no horário eleitoral gratuito, os custos deveriam ser reduzidos, com base na orientação da Justiça Eleitoral, porque existem muitos candidatos que não dispõem de muitos recursos financeiros, por serem mais idealistas e, às vezes, acabam perdendo o jogo para os poderosos.

Mas o financiamento de campanha eleitoral é um dos pontos que vêm sendo debatidos. Existem controvérsias quanto a ser público ou privado.

Esse projeto do financiamento de campanha, que determina o gasto só daquilo que é financiado é um caminho interessante. Acho que estaríamos moralizando o processo. Eu defendo que o financiamento seja público, porque julgo que seja mais transparente. Outro ponto que considero de suma importância na reforma política é essa permissão para contratar pessoas para as campanhas eleitorais. E muitos candidatos fazem disso um caminho para, através de contrato, remunerar os famosos cabos eleitorais para fazerem boca-de-urna na reta final da campanha.

Os candidatos que dispõem de mais recursos, obviamente, saem com muito mais vantagem. Nesse aspecto, acho que a Justiça Eleitoral deveria ser mais rigorosa. Os poderosos acabam arrebentando os candidatos bem intencionados no esquema. Quando o Brasil mudar a legislação nesse nível, eu acredito que nós estaríamos chegando a uma situação de competitividade equilibrada. Aí sim, teríamos eleições mais sérias, porque nas eleições é que nasce, muitas vezes, o compromisso da malandragem, coisa que nunca fiz.

Outro ponto que defendo na reforma política é a coincidência do calendário eleitoral. Eleições gerais de vereador a presidente da República, o que seria mais econômico e menos desgastante para o eleitorado e para o processo como um todo.

O sr. vê alguma disposição da Casa em discutir alguns pontos da reforma politica?

Existe uma proposta nesse sentido, mas não é a instância mais apropriada. O Estado recebe as determinantes do ordenamento jurídico nacional. O fórum é Brasília, mas a Casa pode contribuir fazendo um chamamento aos segmentos organizados da sociedade para o debate e discussões, o que é muito salutar para a democracia.

A Assembleia Legislativa deve criar em breve duas comissões especiais para discutir adequações à Consti­tuição Estadual e ao Regimento Interno da Casa. Há muitos defasados que precisam de reparos para dinamizar os trabalhos legislativos?

Existe proposta nesse sentido. Agora, espero que haja maturidade de fazer essas adequações de maneira que a emancipação da instituição como Poder harmônico e independente ocorra. Eu não vejo que algumas defasagens no Regimento Interno tenham atrapalhado o andamento dos trabalhos legislativos, vejo que, em alguns momentos, não está havendo a observância do Regimento Interno. Mas em alguns pontos – não são muitos – o documento precisa sofrer alterações.

Depois de dois meses da nova legislatura, em que as discussões se voltaram para a Lei Orçamentária e polêmicas em torno das medidas do Executivo, a Casa agora entra num clima de tranquilidade. Pode se dizer que vai predominar o marasmo?

Não digo marasmo, mas as discussões mais acaloradas tiveram seu pico e agora deve entrar num clima mais ameno, a não ser que aconteça, daqui até o recesso de julho, algo de extraordinário. Mas o Legislativo é feito ondas, ora fervilha, ora fica mais sereno. Mas é o Poder que mais representa o sentimento democrático. É a Casa do debate e o foro das leis.

Como está o relacionamento dos deputados da base aliada com o governador Marcelo Miranda?

Eu devo dizer que todos compreendem o momento que o Estado está vivendo e que está absorvendo a alma do governador, em função da crise, principalmente, com o funcionalismo público. De um lado, os funcionários buscam os seus direitos e do outro, o Executivo tem que cumprir o que determina a Lei de Res­pon­sabilidade Fiscal, e se ele (governo) descumprir pode cair na improbidade administrativa. Então, há um confronto muito forte. Nessa observação, os deputados estão dando um crédito ao governador.

O sr., particularmente, fez algum pedido ao governador?

Não, até porque meu propósito é ajudar o Estado enquanto parlamentar, dando sugestões para o governo. O Estado passa pela maior crise de sua história e eu tenho que ser decente, não com o segmento político, mas com todo o Tocantins.

Nesses três meses de administração, o sr. acredita que houve algum desgaste do governo, a ponto de alterar o cenário político para 2016 e 2018?

Eu acho que nesse momento inicial é natural o desgaste, principalmente porque teve que adotar medidas que contrariaram alguns setores, em função do quadro de crise que herdou de seu antecessor. Até porque haviam muitos sonhos estabelecidos em leis por pessoas que demonstraram não estarem preocupadas com o Estado (referindo-se aos ex-governadores Siqueira Campos e Sandoval Car­doso). E, à medida que esses sonhos não se realizam, a crise, o sentimento e a revolta aparecem no cenário, para, depois, serem contornados com um bom diálogo, uma boa dose de democracia e compreensão. O Tocantins é maior do que todos nós.

O sr. se posicionou publicamente contra o beijo gay na novela da Rede Globo, inclusive apresentando requerimento na Assembleia repudiando a cena a qual o sr. julga como sendo “um atentado ao pudor”. Por que o preconceito?

Não se trata de preconceito. O assunto, por si só, é polêmico. A minha definição cristalizada é esta: eu respeito qualquer cidadão que faça qualquer opção íntima, não posso concordar, mas tenho o dever de respeitar. No entanto, discordo de algumas coisas como transformar a opção íntima em lei — e quando vira lei, todos têm que obedecer.

Transformar opção íntima em direitos de ser transmitido como estímulo e instituições que têm concessão pública (TV Globo, no caso) me preocupa muito, porque o momento social determina que os pais trabalham fora e as crianças ficam em casa, e nem sempre os pais estão acompanhando os filhos para saber se estes estão preparados para decidir.

Então, o que acontecerá com esses adolescentes e crianças, quando as escolas saírem da função de prepará-los intelectualmente para estimular práticas íntimas por determinação de lei? O que pode acontecer com crianças que receberão esses estímulos através do sistema televisivo, em que a traição acaba virando uma máxima e tendo um final feliz; em que há incesto na novela das sete; em que a prática entre duas pessoas do mesmo sexo vira matéria que todo o Brasil assiste? Tudo isso me preocupa.

Aí vem alguém e diz que é só desligar o aparelho de TV. O problema é que os pais nem sempre estão em casa para obrigar os filhos a desligarem. Acho que não precisa de lei e não somos nós, da família tradicional religiosa, que estamos propondo leis. São aqueles que querem implantar esse novo conceito social, que estão querendo implantar esse comportamento através de leis. As leis têm que servir para todos e não apenas para um segmento.

E eu não posso admitir leis em que eu posso ser criticado e não tenha o direito de criticar, sendo inclusive punido por isso. A referida novela (Babilônia), assim como outras anteriormente exibidas pela Rede Globo, tem clara intenção de afrontar os cristãos em suas convicções e princípios, querendo trazer, de forma impositiva, para quase toda a sociedade brasileira o modismo denominado por eles de “outra forma de amar”, contrariando nossos costumes, usos e tradições.

O sr. não tem receio de que essa postura possa prejudicá-lo política e eleitoralmente?

Eu diria que o homem tem que ter uma posição. E qualquer segmento da sociedade que tenha essas práticas sabe que eu nunca desrespeitei nenhum deles. Inclusive, todos que quiseram dialogar comigo e que pediram a minha ajuda pastoral, eu ofereci essa ajuda. Acho que o direito constitucional é para todos. E quando falo todos, independe do que falam.

Eu só defino da seguinte forma: a intimidade deve ser vivida na intimidade e não devemos buscar as leis para transformar isso num comportamento normal; essa questão tem que ser resolvida no contexto íntimo da família. Um homem tem que ter ousadia para defender as suas convicções. Se alguém entende que vai me enfrentar, estou preparado para o debate. Farei isso com muita tranquilidade, até porque, se algum dia tiver pretensões de estar no Executivo, acho que faria muito mais por aqueles que vivem essas práticas respeitando as determinantes da Constituição Federal do que aqueles que vivem defendendo mas não fazem nada por essas pessoas.

A Igreja faz muito mais por essas pessoas do que aquelas que defendem essas coisas. Sou um cidadão que não tenho nenhum preconceito; que cada um viva a sua intimidade na intimidade, só não concordo em transformar a escola no encaminhamento dessa pretensão através de obrigatoriedade e nem concordo que a televisão deva se servir a isso. Não vamos institucionalizar a prática homossexual através de leis e nem forçar a barra para que as escolas perpetuem esses valores.

Veja vídeo postado na página do deputado:

Uma resposta para ““Não vamos institucionalizar a prática homossexual, nem fazer que as escolas perpetuem esses valores””

  1. Avatar Epaminondas disse:

    O deputado que diz que a intimidade deve ser vivida na intimidade diz também que quer financiamento público de campanha por que é mais transparente.

    Encontrem o erro.

    E pra variar, como o pessoal da “regulamentação da mídia” a-d-o-r-a fazer, confunde “concessão pública” com “agenda política”: Se eu não gosto de tal coisa, a TV, que é concessão pública, não deve passar.

    Se algo que passa na TV agride minha inteligência, o deputado achar melhor censurar do que simplesmente, mudar de canal. “Ah, mas as crianças nem sempre tem os pais em casa”. Pois é, o problema aqui não é o que se tem em casa que destrói os valores, são pais fora de casa. Ou pais que não mediam o que os filhos veem quando na ausência deles.

    O problema não é um beijo de novela. O problema é deixar o controle remoto da TV ao alcance das crianças, sem mediar o que passa. Disto nascem os argumentos estúpidos contra a publicidade infantil ou censura de novela. “Temos que proteger as crianças”, mesmo que isto destrua um dos princípios da democracia, a liberdade de expressão.

    Liberdade de expressão, que ao ser confundida em obrigatoriedade de se ouvir, é da mesma espécie de burrice que acha que sendo concessão, tem agenda política a seguir.

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