“Não sou inimiga do governador Carlesse”

Senadora diz que, mesmo não tendo aliança política com o democrata, tem a obrigação de trabalhar para liberar recursos para o Estado

Katia Abreu, senadora pelo Estado do Tocantins | Foto: Agência Senado

Sob a ótica da senadora Kátia Abreu (PDT) eleger prefeitos comprometidos com as cidades e as comunidades é mais importante que apegos a partidos políticos. Além disso, ela pontua que não é inimiga do governador Mauro Carlesse e nem tampouco tem feito oposição ao governo, enfatizando seu compromisso com as lutas e demandas do Estado do Tocantins.

Psicóloga por formação e figura política exponencial da política tocantinense, Kátia Regina Abreu foi eleita deputada federal em 2002. Já em 2006 disputou as eleições para o Senado, obtendo êxito para exercer o mandato por oito anos. Em 2014 foi reeleita e reconduzida ao cargo até 2022, tendo exercido durante o governo da ex-presidente Dilma Rousseff, o cargo de Ministra da Agricultura.

 No que concerne ao novo momento que vive o país, após as eleições de 2018, qual a sua avaliação acerca governo do presidente Bolsonaro?

Todos sabem que não votei no Bolsonaro, mesmo porque fui candidata a vice-presidente da república na chapa encabeçada por Ciro Gomes (PDT). Mas mesmo que não fosse candidata, não votaria nele pela forma radical que ele se coloca. Eu creio que o Brasil precisa de pacificação e não de posições fortes ou extremadas como as dele. Eu não estava enganada, pois mesmo após eleito continua com uma certa agressividade em suas palavras, que não trazem quaisquer benefícios.

Entretanto, reconheço que medidas importantes foram propostas por ele e, após estudos e análises, foram aprovadas pelo Congresso Nacional. Faço parte deste contexto e votei a favor de algumas matérias, porque creio que já se findou aquele tempo que “tudo que for do governo sou contra, ou tudo que for proposto por ele, sou a favor”. O que for bom para o Brasil, o Congresso tem a obrigação de votar e não estamos votando a favor ou contra o Bolsonaro: estamos votando pelo bem do país.

Estamos num estágio avançado, próximo a um parlamentarismo, onde o Congresso está fazendo valer suas vontades, suas análises e ideias, sem amarras e atrelamentos ao governo federal.

Finalizando, creio que é razoável esperar mais um ano para ver os resultados das votações importantes de 2019. Temos que ter esperança e otimismo, porque temos 13 milhões de desempregados e 50 milhões na extrema pobreza e isso é o que há de mais importante para ser solucionado.

Como representante da classe ruralista e considerando a alta da carne no mercado interno, aliado a uma interpretação equivocada – por parte da imprensa – poderia nos esclarecer qual é a sua real visão acerca dessa situação?

Agradeço a oportunidade de esclarecer. Na verdade, não há um cidadão racional, que tenha um mínimo de sensibilidade, que diga que a carne não encareceu, pois realmente está mais cara. O Brasil e a Argentina são os maiores consumidores de carne vermelha do mundo e, com esse preço, naturalmente as pessoas procuraram alternativas e deixaram de consumir carne vermelha todos os dias.

O preço do produto final subiu açougues e, aliado a isso, o poder de compra dos brasileiros sofreu uma queda drástica. O mesmo salário recebido anteriormente, hoje não tem o mesmo poder de compra e isso causa revolta na população.

Inobstante a isso, os produtores de carne experimentaram quedas sucessivas, desde a produção até o abate, dos preços da carne. Às vezes, a carne aumenta para o consumidor final, mas o agropecuarista – lá na base – muitas vezes não recebe esse aumento. Aliás, ele é o último a receber, na verdade. Pelas contas das entidades ligadas ao setor, os produtores ainda não se recuperaram adequadamente das perdas que eles experimentaram nos últimos dez anos. Foi essa visão econômica e de mercado que eu dizer e explicar, porém, entenderam equivocadamente.

Paradoxalmente, se serve de alento, na minha visão o preço da carne deve cair nos próximos dias. Isso se dá em razão do mercado chinês que antes comprava muito dos Estados Unidos, entretanto, face aos desentendimentos entre aqueles dois países, a China aumentou o volume de compras no mercado brasileiro. Com isso, em breve, o preço da carne brasileira voltará aos patamares normais, o que viabilizará sua compra pelos consumidores finais.

Procede a informação que a Sra. pretende migrar de sigla partidária, do PDT para o Progressistas? Em caso positivo, qual a razão da mudança, visto que faz pouco tempo que se filiou ao PDT?

Ainda não está definido, portanto, permaneço no PDT. Em todo caso, qualquer migração que ocorra, vou trabalhar de forma democrática para eleger os prefeitos aliados, independente das eleições de 2022.

Por enquanto, a prioridade a eleger gestores que tenham compromisso com as pessoas, com a saúde, com a segurança, com a educação e o bem estar delas. Estou convicta e vou procurar candidatos a prefeito que tenham condições administrativas e preparo para promover mudanças, independente de partido político.

Mesmo com a reeleição de alguns senadores, houve em 2018, uma considerável renovação no senado federal, mesmo porque era o pleito que colocaria 2/3 das vagas na disputa eleitoral. Qual a sua percepção acerca dessa renovação e surgimento de novos líderes?

Acho muito importante e democrática essa renovação. O fato não ter sido eleito não significa que o político fez um mandato ruim. A não reeleição está muito ligada, também, ao momento e às ondas da política. O voto é secreto e a população tende, naturalmente, a fazer novas escolhas. Tivemos uma fase de renovação, mas em outras épocas experimentamos a manutenção de antigos líderes. Portanto, temos que encarar isso naturalmente e com tranquilidade, respeitando o estado democrático de direito. Inobstante a isso, a renovação dos pares – na maioria das vezes – é proveitosa, pois traz novas ideias ao parlamento. O eleitor é soberano e cabe a nós, respeitar sua vontade.

Sobre a destinação de suas emendas parlamentares, em 2019, o seu gabinete priorizou alguma área específica? Em caso positivo, qual delas?

Minha prioridade em 2019 foi, sem dúvida, a saúde. E vou continuar em 2020. Vivemos um péssimo momento da saúde, não apenas no Tocantins, mas em todo o Brasil. Há uma série de fatores que contribuem para isso, tais como o elevado número de contratações de médicos, enfermeiros e técnicos administrativos – inchando as folhas de pagamento – que resultam na falta de recursos para compra de medicamentos, cirurgias, internações, custeio da máquina, etc.

Logicamente, isso influi na qualidade do atendimento à população. É necessário sopesar os gastos, pois não adianta ter médicos, mas não realizar cirurgias, ou ter enfermeiros e não haver disponibilidade de medicamentos. Está faltando esse equilíbrio, portanto.

Temos que verificar também os estudos sobre os resultados da saúde nos Estados, como por exemplo, a média de dias que os pacientes permanecem internados, segundo o SUS. O custo é alto e se os pacientes estão ficando além do tempo, há uma ineficiência que deve repensada. Qual é o tempo que os pacientes estão ficando internados no Tocantins? Há pouca observância desses dados e isso traz prejuízos à saúde pública.

 

Em relação ao projeto de duplicação da BR-153 até a cidade de Aliança, como também a conclusão da BR-242 e a Travessia da Ilha do Bananal, qual tem sido o seu posicionamento, como também, quais são suas perspectivas acerca dessas obras?

Quanto a Transbananal, que ligará o Tocantins ao Mato Grosso, possibilitando que a produção daquele Estado seja escoada pela ferrovia Norte-Sul, é de suma importância que saia do papel. Temos que ter foco prioritário nessa obra, porque não é importante apenas para os dois Estados, mas para o país como um todo.

Estive recentemente com o presidente da Empresa de Projetos e Logísticas (EPL), do governo federal, para tratar do tema. Estou destinando R$ 500 mil reais das minhas emendas para que seja realizado os pré-estudos de viabilidade econômica, até de julho de 2020. Diante dele, haverá definições: 1) Se vai ser toda construída com verbas públicas; 2) Se vai haver parceria pública-privada; 3) Se vai ser totalmente com recursos privados e cobrança de pedágios. A terceira hipótese, ao meu ver, é a mais viável e rápida, contudo, temos que aguardar o resultado final dos estudos.

Quanto à duplicação da BR-153 de Anápolis/GO a Aliança/TO, mostrei minha indignação pelo fato do governo querer fazê-la só daqui a 20 anos. A argumentação é que não há transporte de cargas suficientes que justifiquem a concessão da obra para a iniciativa privada. O presidente da EPL me relatou que depois da crise econômica de 2015 o fluxo diminuiu assustadoramente.

Particularmente, tenho cá minhas dúvidas e não concordo. Quero ver os estudos de viabilidade e os números porque, se anteriormente, já foi licitada – e cancelada em razão da construtora estar envolvida na operação Lava-jato – é porque a duplicação era e continua viável. Precisamos da duplicação ou, no mínimo, uma terceira via nos trechos mais perigosos e com risco de acidentes. Estou atenta a esta demanda e os tocantinenses podem ter certeza que estarei comprometida em lutar por essa duplicação, tão importante para o nosso Tocantins.

Por fim, no que se refere às pontes de Porto Nacional e Xambioá, essenciais para o desenvolvimento do Estado do Tocantins, há da sua parte uma confluência de ações para que tais obras saiam do papel, independentemente de divergências políticas partidárias com o governo estadual?

Em primeiro lugar, quero deixar claro que não tenho divergências com o governo estadual. Na eleição suplementar de 2018, concorri com o atual governador e ele obteve êxito. Já na eleição ordinária de outubro, não concorri ao cargo de governador, pois era candidata a vice-presidente como já expus. O fato de não ter apoiado o atual governador Carlesse não significa que sou inimiga dele.  Eu sou senadora pelo Tocantins e minha obrigação é contribuir com o bem-estar da população e, até mesmo, ajudar o governo estadual nas suas demandas.

Se estivemos em palanques diferentes nas últimas eleições, isso não me faz afastar dos problemas que o governo e o povo enfrenta. É minha obrigação moral lutar pela construção das pontes de Porto Nacional e Xambioá. Nesta última, já havíamos colocado emenda de bancada para construí-la, entretanto, em razão de manobras de um certo político tocantinense – prefiro não citar o nome, mas que perdeu as últimas eleições – que atrapalhou e desviou os recursos para que o próximo governante não concluísse a obra. Atitude abominável e mesquinha que lamento, visto que se isso não houvesse acontecido esta ponte já estaria praticamente concluída.

Quanto à ponte de Porto Nacional, está enquadrada no rol de financiamentos que estão em curso a serem formalizados entre o Governo do Tocantins e a Caixa Econômica Federal, já com protocolo de intenções assinado. Estou torcendo e, também, trabalhando para que o Estado possa se reenquadrar na Letra B – saindo da Letra C – e obter os empréstimos. Por tal razão, nenhum dos parlamentares federais estão destinando recursos específicos para essa obra.

Por falar nesse financiamento, é necessário frisar sua importância de sua concessão, porque além de ajudar os prefeitos em obras municipais, vai erguer a ponte de Porto Nacional. Além disso, tais verbas também serão utilizadas para pagar a contrapartida – 10 milhões – da ampliação do Hospital de Gurupi, cujos outros R$ 40 milhões, eu já houvera conseguido garantir ainda no governo da Dilma Rousseff.

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