“Não sou contra os homossexuais, mas tenho o direito de discordar deles”

Deputado não descarta ele ou o vereador Junior Geo disputar a Prefeitura de Palmas pelo Pros, mas lembra que as discussões sobre alianças estão em curso

Deputado estadual Eli Dias Borges | Foto: Divulgação

Deputado estadual Eli Dias Borges | Foto: Divulgação

Dock Júnior

Independência. Essa e a profissão de fé do deputado estadual Eli Dias Borges, ao explicar porque às vezes vota contra propostas do governador Marcelo Miranda, mesmo sendo da base governista. Foi o caso da proposta do Executivo sobre a taxa de inspeção veicular ambiental. O parlamentar pertence à bancada evangélica e, ao ensejo, falou ao Jornal Opção sobre sua atuação parlamentar, projetos sociais e sucessão municipal, expondo ainda suas convicções acerca do homossexualismo e ideologia de gênero. Homem de profundas convicções religiosas, ele prega, em todos os discursos, os princípios morais cristãos. Com mais de 30 anos de mandatos, Eli Borges é natural de Ipameri (GO) e fez carreira no Banco do Brasil.

Recentemente o sr. votou contra a taxa de inspeção veicular ambiental proposta pelo Executivo, sob a alegação que os tocantinenses já pagam impostos demais. Esse posicionamento não é um tanto quanto contraditório, uma vez que o sr. é parte integrante da base de sustentação do governador Marcelo Miranda?
Não está escrito em nenhum lugar, nem mesmo na Constituição, que o Poder Legislativo deve se portar como situação ou oposição. Isso é apenas cultural. Respeito muito o governador Marcelo Miranda, temos um bom diálogo e, na medida do possível, tenho ajudando-o nas boas ações de governo, no entanto, não tenho dever de concordar com tudo que ele propõe. Ele compreende isso. A realidade do nosso Estado é que as pessoas têm um poder aquisitivo pequeno e não achei justo que a população arcasse com mais essa tarifa. É nessas horas que o parlamentar deve representar o sentimento popular e votar de acordo com sua decência, convicções e independência.

Quanto a eleição da mesa diretora da Assembleia Legislativa, como o sr. classifica?
Tenho boas relações tanto com o deputado Damaso, quanto com o deputado Carlesse. Sempre ouço os dois lados. A minha visão acerca da renovação de poderes é muito forte. Sempre defendi que o mandato presidencial na casa legislativa fosse de apenas um ano, de forma tal que pelo menos quatro parlamentares assumissem aquele posto. O processo deve ser sempre democrático. Naturalmente, todos são amigos e passado esse embate, o processo e o trâmite legislativo retomará seu curso.

Quais são suas ações ou projetos que poderiam ser consideradas de extrema importância para o Tocantins nas suas quatro legislaturas?
O histórico, como não poderia deixar de ser, é de milhares de requerimentos e centenas de projetos de lei. Divido a minha atuação em três partes: primeiro, minha postura no parlamento na hora de votar; segundo, minha atuação de gabinete – se eu tenho assessores remunerados pelo poder público então suas ações devem ser voltadas para o povo. Tenho programas como “Meu emprego, meu sonho”, que já encaminhou mais de duas mil pessoas para o mercado de trabalho, após cursos a custo zero para a sociedade. Há ainda o programa “Social resgate”, que já teve várias edições e consiste em levar o gabinete para as ruas e atender os menos favorecidos. Já o projeto “Interagindo” tem por objetivo ir às ruas todas as semanas e ouvir a sociedade, trazendo suas demandas para o gabinete, transformando-as em requerimentos, projetos de lei ou para servir de embasamento para o debate. Em terceiro lugar, mantenho um assessor jurídico dentro do gabinete para pessoas menos favorecidas, desde que as causas sejam decentes. Não permito o patrocínio de pedidos espúrios. É um gabinete de portas abertas aos anseios da sociedade. Jamais pergunto a quem me procura em quem ela votou ou de qual partido ela é. Procuro seguir princípios cristãos em defesa de quem esteja necessitado, seja por fome, doença ou outra razão significante. Fazia isso antes de ser político e continuo fazendo.

Quanto a outros níveis de atuação, há vários projetos importantes que defendo no parlamento. Ano passado, por exemplo, fui uma das vozes mais firmes da Assembleia no sentido de apresentar projetos de emenda à lei que aumentava a carga tributária. Fui voto vencido, contudo, me posicionei de acordo com minhas convicções. Na discussão do orçamento, as questões de segurança, saúde, o combate às drogas e a defesa dos usuários no sentido de eles terem o direito de se recuperarem, foram minhas prioridades. Também fiz um bom combate no que concerne aumento das custas cartorárias, que eu considerei absurdas. Fiz uma atuação muito forte contra o aumento da carga tributária, visto que isto desestimula a geração de emprego e renda. Há dois meses, fui o primeiro grito no parlamento em relação ao custo dos combustíveis em Palmas, que me pareceu uma espécie de máfia. Se existe cartel ou não, a Justiça é que tem que dizer, porém, eu considerei abusiva a forma como atuavam os postos de combustíveis, mesmo porque Palmas era uma das capitais em que se praticava um dos preços mais altos do País.

Por fim, minha atuação mais forte é defesa das bandeiras como a família. Mais de 60% das minhas emendas foram destinadas para o combate às drogas. Destinei R$ 700 mil da minha emenda individual de R$ 2,9 milhões para a construção da primeira clínica do Tocantins de atendimento ao usuário de drogas que é internado involuntariamente, já que naquele momento ele não é senhor de suas vontades e sim a família dele. O governador já doou a área para a construção dessa obra, e consegui incluir no orçamento mais R$ 1 milhão e meio, que totalizam, portanto, R$ 2 milhões e 200 mil. A obra está orçada em R$ 3 milhões, o que me leva a crer que com um pouco mais de esforço, conseguiremos construir essa clínica de recuperação de toxicômanos de forma involuntária em Palmas. Levarei, com fé em Deus, o mesmo projeto para Araguaína e Gurupi, dois polos que também necessitam desse tipo de atendimento.

Quais foram as razões que o levaram a sair o PMDB, já que o sr. era uma figura exponencial naquela sigla?
Tenho excelentes companheiros dentro do PMDB. É um partido que tem o meu respeito. Todavia, chegou um momento que minha plataforma política ficou inviabilizada lá. Se eu quisesse crescer além do que já conquistei até agora – sete mandatos parlamentares – precisaria buscar guarida em outro partido. Continuo cultivando boas amizades no PMDB, todavia, as duas candidaturas inviabilizadas à Prefeitura de Palmas me fizeram repensar minha continuidade naquele partido. Hoje estou no comando do Pros no Tocantins e quando assumi eram menos de 20 comissões no Estado. Hoje estamos presentes em 128 municípios. Havia cerca de 10 vereadores e hoje temos cerca de 60. Na próxima eleição, temos perspectivas de eleger aproximadamente 150 vereadores.

O sr. é presidente estadual do Pros, enquanto o vereador Junior Geo, um dos mais combativos parlamentares municipais, é o presidente metropolitano. Quais são as perspectivas do Pros para as próximas eleições municipais? A sigla já tem definido as coligações e alianças que fará no que concerne a chapas majoritárias e proporcionais?
Eu e o vereador Geo fomos os mais votados para deputado estadual na capital. Em que pese ele figurar na suplência, obteve votação expressiva na capital, o que prova que fazemos um trabalho sério. Quanto às perspectivas para as próximas eleições no que se refere a chapas majoritárias — prefeitos — há que se aguardar as convenções para falarmos em números exatos, contudo, teremos cerca de 20 candidaturas.

Quanto às possíveis coligações, adotei no Pros a posição de respeito às composições locais. Cada município tem a prerrogativa de escolher qual a melhor aliança para o partido naquela localidade, sem a minha interferência. Minha única exigência é não haja negociações espúrias. Se ficar provado que houve, intervenho imediatamente no diretório. No mais, enquanto presidente, mantenho uma conduta tranquila e democrática.

Quanto à capital, minha base eleitoral, estou debatendo e discutindo com o vereador Junior Geo as melhores alternativas para o partido. Meu nome tem sido citado como pré-candidato, não por iniciativa minha porque já tentei duas vezes, ainda no PMDB, lançar a candidatura e não obtive êxito. Quero, por enquanto, consolidar meu trabalho de deputado estadual e, sendo vontade de Deus, alçar voo federal. Não descarto a hipótese de disputar a prefeitura, contudo, há ainda alguns dias para refletir, conversar com a base e decidir se é mais viável uma candidatura própria ou composições com partidos que tenham bons projetos desenvolvimentistas. O vereador Junior Geo é, por exemplo, um nome forte para disputar a Prefeitura de Palmas, no entanto, precisamos avaliar todos os pormenores.

Palmas é sua base eleitoral. O sentimento popular é que a gestão do prefeito Amastha não atendeu às expectativas a que se propôs, bastando para isso, verificar os altos índices de rejeição dele. Qual a sua visão a respeito do mandato dele?
Respeito todos os adversários políticos, de Siqueira Campos a Carlos Amastha. É meu dever político. Todavia, em relação às práticas que eles adotam é meu direito discordar ou não. Pessoalmente, sempre sonhei com uma administração para Palmas, e ainda não consegui ver nesta cidade, que traga novos ingredientes. Por exemplo: há quantos anos sonhamos com uma política desenvolvimentista? Ainda hoje nós importamos hortifrutigranjeiros e lactos. Ainda não conseguimos explorar nosso potencial turístico. Nossa política tributária ainda não é atrativa para empresários se estabelecerem por aqui, gerando emprego e renda para nossa comunidade. Ainda hoje, a logística da cidade não oferece retorno para quem quer empreender.

Sob outro ângulo, em que pese ser uma bela cidade do ponto vista visual, os bastidores acerca da necessidade do emprego, da moradia, da segurança da população em si, da segurança do trânsito, deixam a desejar. Se observarmos o aparelhamento da nossa Guarda Metropolitana, é fácil verificar que ela está mais a serviço das multas do que para a proteção da sociedade. Quantas vezes, nos horários de pico, eles estão prontos para multar, mas não se interessam em ajudar desobstruir o trânsito. Enfim, Palmas se tornou uma máquina arrecadadora. O prefeito adotou a velha máxima romana do pão e circo, em vez de priorizar uma administração propositiva, empre-endedora e que gere riqueza. Desejo uma cidade que os recursos sejam transformadores de sonhos em realidade. Temos localização privilegiada, terras férteis, potencial hídrico, no entanto, importamos quase tudo. Poderíamos fazer de Palmas um polo desenvolvimentista de primeira grandeza, mas não é isso que se vê.

As suas candidaturas têm grande aceitação no meio evangélico, o que acaba por se transformar em votos. Como é a sua relação com esse segmento e o quanto ele representa no seu mandato? Há ações de seu gabinete voltadas para essas comunidades evangélicas?
Os evangélicos são apaixonados por mim e eu por eles, afinal também sou um deles. Porém, toda minha atuação é uma resposta aos princípios éticos cristãos. Nesse caso, não estou agradando os evangélicos, mas também a todos aqueles que acreditam em Cristo. Quando defendo a família, recebo apoio não apenas deles, mas também de católicos e até dos espíritas.

O gabinete não está voltado apenas para o segmento evangélico, está aberto a todos que defendem os princípios éticos cristãos. Seria injusto direcionar as ações para um grupo religioso apenas. Contudo, devo ressaltar que minha atuação é ampla, até mesmo fora do gabinete. Ro­tineiramente, sou convidado para fazer preleções e palestras em escolas, faculdades, comunidades em geral, e na maioria das vezes, pela comunidade evangélica.

Em relação a inserção do conteúdo sobre ideologia de gêneros nas escolas e livros didáticos, o sr. se posicionou radicalmente contrário. O sr. poderia explicar as razões que o levaram a adotar essa conduta?
É simples. É uma conduta coerente, apenas. Sempre deixei claro que a intimidade deve ser vivida na intimidade. A escola não pode ser fábrica de pretensões de grupos ativistas. As instituições escolares lidam com crianças na fase cognitiva, que vai de zero a 7 anos, podendo chegar a 12. Os ativistas apresentam a proposta que na escola deve-se debater tudo. Agora, a figura do debate é curiosa… Ao colocar de um lado um professor adulto e do outro uma criança, que segundo a psicanálise ainda não sabe discernir mandamento, orientação e sugestão, esse debate cai por terra.

Na lei que eu combati, e graças a Deus obtive êxito, havia a propositura desse debate no âmbito escolar através de livros “didáticos”, esquecendo-se que as crianças, como já foi dito, não estão preparadas psicologicamente para receber essas informações. Ora, mas qual a necessidade daquele material, se os livros de biologia e ciências, que estudam a anatomia humana, já tratam dos temas? Eu não posso fugir da ciência para adotar proposições de ideólogos. Até mesmo porque eu não sou contra homossexuais. Estou numa atuação firme contra ativistas, há uma diferença muito grande entre as duas coisas. A grande prova disso é meu gabinete atender a todos sem discriminação. Cheguei a desafiar o LGBT reiterando que eu atendia mais pessoas do grupo deles – dentro do meu dever cristão, quando procurado por qualquer um deles num momento difícil — do que o próprio LGBT como organização.
Outro ângulo deste debate: é conflitante numa sociedade democrática a criminalização de opiniões. Que sociedade é essa que aquele grupo pode me criticar e eu não posso criticar o grupo? Eles podem discordar das minhas opiniões, mas eu não posso discordar deles? Não é possível na sociedade determinado segmento estar acima dos meros mortais.

Por fim, se permitíssemos isso nas escolas, certamente haveria ou-tros problemas. A grande maioria dos pais são héteros e não aceitariam a instituição escolar fazer esse tipo de estímulo. Os casais homossexuais, por sua vez, também questionariam as escolas sobre o tipo de abordagem hétero que os professores fizessem aos seus filhos. Seria o caos, uma vez que haveria milhares de alegações de descriminação e bullying. Por estas razões, a melhor maneira de preservar todos envolvidos é não tratar desse assunto nas escolas e obedecer apenas ao que determina a Constituição Federal: esse tema é competência exclusiva dos pais.

Os parlamentares pertencentes à bancada evangélica são muitas vezes rotulados como pessoas homofóbicas e preconceituosas. Como o sr. recebe essas críticas e, ao ensejo, como responde essas acusações?
Os ativistas não querem ouvir. Estão a serviço da crítica a qualquer preço. Esperamos eles exporem suas ideias, no entanto, quando vamos expor as nossas – contrárias, evidentemente – iniciam-se vaias e apupos que impedem o debate. Repito: não contra os homossexuais, acredito que eles têm direito de fazer suas escolhas e viverem desse modo. A intimidade deles é algo que diz respeito somente a eles. Eu respeito.

Houve um “beijaço gay” no meu gabinete. Centenas de agressões infundadas e xingamentos, quer seja através de comentários em sites ou mesmo pessoalmente, dos quais eu não retruquei nenhum. Nunca os ataquei e nunca haverei de fazê-lo. Então, pergunto-lhe: quem é o preconceituoso que não se limita ao debate de ideias? Eu, definitivamente, não sou homofóbico, mas questiono: a atitude deles não poderia ser considerada heterofóbica? O pior: muitos deles confundem tudo e enveredam pela “cristofobia”. No Brasil, os números revelam, através de um estudo feito ainda em 2013/2014, que houve mais de 50 mil casos de agressões heterofóbicas, enquanto no mesmo período houve cerca de 300 ataques homofóbicos.
Eu não vejo o país como homofóbico. Não vejo pastores, padres ou pessoas de bem agredindo homossexuais. Ao contrário, vejo eles nos atacando com passeatas gays, beijaços e xingamentos.

Em sua trajetória política consta três mandatos consecutivos como vereador da capital e quatro mandatos como deputado estadual, obtidos em 2002, 2006, 2010 e 2014, com votações que variam de 11 mil a 15 mil votos. Como o sr. avalia essa gangorra e quais os fatores considera determinantes para que essas variantes ocorram?
Toda campanha política tem o seu jeito de ser, diferenças e outros ângulos. Quaisquer pesquisas que eu fizer antes dos pleitos, terei mais intenções de votos que esses números apresentados. Porém quando chegam as eleições, a cultura social ainda clama por políticos endinheirados que resolvam os problemas econômicos e momentâneos dos eleitores. Sobram então, apenas os fiéis que não estão atrás desse tipo de político, mas sim daqueles que cumprem seu papel com honradez, determinação e de forma diferenciada, representam a sociedade.
Essa gangorra é, portanto, natural porque dependendo do tamanho do jogo contra mim, no aspecto financeiro o que sobra nem sempre é que aquilo que me restou da outra vez. Todavia, o mais importante é que em todas elas, Deus me faz triunfar.

Qual a sua ligação com a cidade de Colmeia? Por que o sr. sempre tem expressivas votações naquele município?
São dois fatores. O primeiro é que lá tem dois grupos políticos fortes e um deles me apoia. É uma cidade que sempre polarizou eleições e os grupos são do mesmo tamanho, de um lado ou outro. O segundo se deve ao fato de ser uma das cidades a que mais destinei emendas parlamentares. Então, há um serviço prestado em prol da sociedade.

Como a sr. avalia essas experiências eleitorais e o seu próprio mandato atual?
O meu histórico fala por mim. Mais recentemente, face à internet e às redes sociais, a sociedade está tendo a noção e a oportunidade de ver o meu procedimento político. Porém, historicamente, tenho adotado o perfil de ser um parlamentar independente. A primeira intenção e minha primeira busca é o que pensa a sociedade. No parlamento, voto por ela, em função dos seus anseios, estabelecendo evidentemente, critérios de coerência e ética. Representar não significa votar todas às vezes como a sociedade quer, mas sim da maneira mais correta. Em todos esses mandatos, na maioria das vezes estive na oposição, e isso prova que faço do parlamento um caminho da sociedade que represento, no momento dos debates ou das votações, quando faço a tomada de posição. Ao meu ver, essa é a essência da atuação parlamentar. O Legislativo é um poder e eu sou representante desse poder, e por isso, jamais deve estar atrelado aos outros poderes como órgão meramente protocolar. A independência é mais que salutar e tenho adotado essa postura. l

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