“Não quero usar a ATM como trampolim para outros cargos”

Reeleito para a Prefeitura de São Félix do Tocantins, com a maior votação proporcional do Estado, o pessedista afirma prioridade com a estruturação do ecoturismo no Jalapão

Prefeito Marlen Rodrigues | Foto: reprodução

Dock Júnior

A maior votação proporcional no Estado na eleição de 2016. Esse trunfo é de Marlen Ribeiro Rodrigues, do PSD, reeleito para a Prefeitura de São Félix do Tocantins, com 82% dos votos. A cidade, localizada ao leste do território tocantinense, que pertence ao polo ecoturístico do Jalapão, é conhecida por suas particularidades como o Fervedouro do Alecrim, um poço de água morna e borbulhante em decorrência das nascentes que brotam da areia (no qual a pessoa não afunda), além da magistral Serra da Catedral. O município é rota cativa do Rally dos Sertões, bem como muito conhecido pelo cultivo natural e sustentável do “internacional” capim dourado e, justamente por isso, o prefeito promete priorizar ações de estímulo à atividade.

Filiado ao PSD, o prefeito busca agora fomentar o cooperativismo entre os pequenos municípios e, para tanto, é candidato declarado à presidência da Associação Tocantinense dos Municípios (ATM) e fala do que pretende fazer se ganhar a confiança de seu pares para dirigir a entidade — a eleição será no dia 10 de fevereiro.

Tocantinense de Porto Nacional, Marlen Rodrigues é graduado em história pela Unitins com mestrado em ciência da educação pela Faculdade Autônoma de Asunción, Paraguai. Professor concursado do Estado, está radicado em São Félix do Tocantins desde 2002, quando assumiu o cargo efetivo.

Sua gestão à frente da Prefeitura de São Félix do Tocantins, entre 2012/2016, foi aprovada por mais de 80% da população. Como avalia essa resposta das urnas e quais são os fatores que considera preponderantes para que isso ocorresse?
Pautei a gestão sempre pelo respeito ao próximo, pelo cidadão que necessita dos serviços públicos de saúde, educação e assistência social. O trato com a comunidade é baseado na sinceridade e respeito, porque a gente deve tratar as pessoas como gostaríamos de ser tratados. Fui alçado ao cargo de prefeito pela vontade da população e exatamente por isso, devo satisfações a ela. Quis retribuir e justificar as expectativas que foram lançadas sobre mim. E, graças a Deus, deu certo.

Trata-se de um município pequeno, com cerca de 1.600 habitantes, que na sua maioria, infelizmente, ainda dependem basicamente de repasses e assistencialismos do governo federal e da própria prefeitura. O comércio ainda é incipiente. Particularmente, estamos – ao mesmo tempo – perto e longe da capital. Próximos em razão da distância, 260 km; longe, porque desse trajeto, 150 km são de estrada sem pavimentação, cortando o deserto do Jalapão. Esse mesmo fator atrai o turismo de aventura, off-road, que a partir de um certo tempo começou a alavancar e hoje se tornou um dos pilares de sustentação do município.

Amargamos, por anos consecutivos, a marca de um dos menores PIBs do país. Contudo, seguimos a lição do Imperador do país asiático Butão, e paradoxalmente deixamos de utilizar o PIB, primando pelo FIB, que é a Felicidade Interna Bruta. Nesse campo, posso afirmar que temos índices altíssimos. A qualidade de vida do nosso povo é muito boa com aquilo que nós temos disponível.

E quanto ao novo mandato que lhe foi entregue por aquela comunidade, quais são as perspectivas?
Muito trabalho, assim como no primeiro mandato. Porém, no momento, atravessamos uma crise política-financeira no Brasil, bastante complicada. Lógico que isto afeta as pessoas e os municípios, e, confesso que os últimos dois anos foram bem difíceis. Entretanto, creio que as chamadas “medidas impopulares” adotadas pelo governo federal podem surtir efeitos e resultados, melhorando a vida dos brasileiros.

Em relação ao potencial ecoturístico do Jalapão, como fazer para explorá-lo de maneira sustentável?
O Jalapão era totalmente isolado até bem pouco tempo, sem qualquer via de acesso. Vivemos praticamente o começo da exploração e devemos ser criteriosos. Não adianta apenas desenvolver estruturas físicas, é necessário desenvolver estruturas humanas. Não apenas em São Félix, mas olhando o macro, as cidades que compõe o polo ecoturístico precisam preparar a população local para receber os turistas, na medida em que esses aventureiros querem fazer trilhas, visitar cachoeiras, etc., no entanto, à noite eles querem descansar em lugares confortáveis e hoje há poucas acomodações capazes de atender esse turista.

É necessário também que a pavimentação asfáltica seja construída. A via de acesso é importante para a chegada do desenvolvimento, basta analisar os outros pontos turísticos do país. A ampla maioria deles tem boas
estruturas rodoviárias ou aéreas. Esse turismo off-road deve ser iniciado após o visitante chegar na cidade e não no próprio trajeto. Veja: uma estrada acessível incentivaria até mesmo os próprios tocantinenses a visitar o Jalapão, eles muitas vezes não o fazem porque possuem apenas carros de passeio, inadequado para estradas arenosas. Nesse momento, voltamos à questão da sustentabilidade: temos que incentivar esse habitante nativo a se preparar, por exemplo, para ter automóveis apropriados para locação ao turista. Empreendi esforços também para convencer empresários a investirem nesse potencial turístico. Um deles, a partir de fevereiro, vai dar início a construção de uma pousada com 48 apartamentos, justamente para fomentar o turismo, além de gerar empregos na cidade.

Voltando a questão da estrada que dá acesso à cidade, em que pese não ser pavimentada, o governo do Estado, através do Dertins, mantém a via em boas condições de tráfego. Contudo, há um financiamento internacional aprovado com a Cooperativa Latino-Americana de Fomento, que visa o desenvolvimento de ações de incentivo ao turismo no Jalapão. Dentre estas ações, está a pavimentação asfáltica de alguns trechos, como de Lagoa do Tocantins a Mateiros, passando por São Félix.

Como conciliar esse paradoxo entre o desenvolvimento, sustentabilidade e preservação do ecossistema?
Em que pese mais adiante de Mateiros haver terras férteis para o cultivo da soja e outras culturas, que é a região conhecida como Mato­piba, o município de São Félix não tem essa vocação. A pecuária também é apenas de subsistência. Por isso, os investimentos devem ser em turismo autossustentável. Já nos tornamos a cidade que mais cresce, porcentualmente falando, no recebimento do ICMS ecológico, fruto deste trabalho de conservação e preservação integral do meio ambiente.

Outra particularidade da região é o cultivo natural do capim dourado, manejada por uma tradicional comunidade Quilombola, que preserva suas tradições, festas e culturas. Essas pessoas são de uma importância ímpar para o município, até mesmo porque são independentes e autossustentáveis – cultivam além do capim dourado, laranjas, cana-de-açúcar, hortaliças, etc. – e pouco dependem do poder público, a não ser nas questões de manutenção das vias de acesso.

Falando em partidarismo, como avalia o desempenho de sua sigla, o PSD, na eleição passada?
O partido está entre os três maiores do Estado do Tocantins, em número de prefeituras e votos obtidos nas últimas eleições. Houve um considerável crescimento da sigla. Isto se deve ao contínuo apoio dos seus líderes nacionais às bases de sustentação, não há dúvidas. As emendas parlamentares têm chegado aos municípios, por intermédio do deputado federal Irajá Abreu, do deputado estadual Toinho Andrade e a senadora Katia Abreu (PMDB).

São cifras consideráveis para o tamanho da nossa cidade, e vamos executar os projetos, cujas emendas já estão orçadas, em 2017. Elas estão basicamente direcionadas a obras de infraestrutura, posto de saúde, escolas e também transporte escolar.

Evidentemente, também tenho um bom convívio com o senador Vicentinho e com o deputado Vicentinho Junior, contemporâneos de Porto Nacional, além de outros parlamentares da bancada tocantinense. São mais de 4 milhões de reais em emendas parlamentares para serem investidos no município em 2017. Enquanto administradores, essa busca por parcerias deve ultrapassar essa barreira partidária, em busca do bem-estar das comunidades.

E quanto ao convívio e tratativas com o governador Marcelo Mi­randa, do PMDB?
Excelente, ele tem mostrado zelo e comprometimento com o município e com o Jalapão como um todo. Nossa cidade proporcionou ao Marcelo a maior votação proporcional do Estado: 85% dos votos; à Senadora Kátia Abreu, 82%; ao deputado federal Vicentinho Junior, 79%; e ao deputado estadual Toinho Andrade, 72%.

Governador Marcelo Miranda durante entrevista ao Jornal Opção | Foto: André Saddi

Agora surgiu um novo desafio: a eleição para a presidência da Associação Tocantinense dos Municípios (ATM). Por que o sr. resolveu se candidatar e quais são as perspectivas para o pleito que será realizado no dia 10 de fevereiro?
Caso eu obtenha êxito na eleição, vou adotar na direção da ATM o mesmo modelo de gestão que implantei no município do qual sou o gestor. O método é o mesmo: seriedade, zelo com os recursos, relacionamentos institucionais sólidos, autonomia e legalidade.

A ATM congrega os prefeitos e os municípios e, neste momento, goza de boa credibilidade, fruto do brilhante trabalho do ex-prefeito de Brasilândia João Emídio Felipe de Miranda (PSD). Mas assim como em todas as gestões, ainda há muito para fazer ou aprimorar. Não tenho qualquer intenção de fazer da ATM um trampolim para outros cargos, longe disso. Quero representar os municípios tocantinenses no próximo biênio, fortalecendo, cada vez mais, a instituição.

Há uma boa chance de conseguir a vitória neste pleito. Visitei muitos municípios da região do Bico do Papagaio no norte do Estado e também algumas cidades do Vale do Araguaia. Expus ideias, conversei e debati com os colegas prefeitos e recebi muitos apoios. Num cenário de cinco candidatos, em que pese os concorrentes se mostrarem fortes – Laurez Moreira (PSB), de Gurupi; Vagner Gentil (PSD), de Arraias; Jairo Mariano (PDT), de Pedro Afonso; e Eduardo Ma­druga (PMDB), de Wander­lândia – creio que há chances reais de me eleger. Falo isto porque há um sentimento, por grande parte dos 128 filiados, justamente por serem 85% deles de pequeno porte – assim como São Félix – que comungam das mesmas demandas e dificuldades. Há uma espécie de bairrismo, e nestas circunstâncias, essas características e dificuldades em comum, nos aproximam.

Caso o sr. seja eleito para gerir a ATM, quais seriam os mecanismos adotados para conciliar a gestão da Prefeitura de São Félix e aquela instituição? Qual seria o diferencial do presidente Marlen Rodrigues?
A conciliação não é difícil. Além de haver uma boa proximidade da cidade que governo com a capital, a ATM tem um corpo técnico muito bom, capaz de dar andamento em grande parte das demandas, ficando os atos de gestão reservados para serem discutidos nas minhas visitas semanais.

Creio que a assessoria aos municípios de pequeno porte será o diferencial da gestão. Há muito suporte que pode ser oferecido em termos consultorias em convênios, projetos, etc., e faremos isto com várias equipes, de forma regionalizada, priorizando as especificidades de cada cidade. Precisamos também qualificar nossas equipes – contábil e jurídica – para melhorar ainda mais o suporte aos municípios nas questões coletivas.

Outra preocupação e uma questão que precisa dinamizada e aperfeiçoada é o ATM Hotel. Os pequenos municípios mandam seus funcionários para Palmas para resolver muitas questões burocráticas nos órgãos públicos. O apoio de hospedagem a esse servidor público é de crucial importância, razão pela qual priorizaremos melhorias neste serviço.

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