“Não há sentido em fazer oposição cega que prejudique a população”

Vereador do PSC, que fez campanha contra Carlos Amastha, explica as razões porque seu partido aderiu à base do prefeito

Dock Júnior

Goianiense radicado no Tocantins desde 1988, Filipe Martins foi por seis anos assessor parlamentar do ex-senador João Ribeiro (falecido em 2015), atuando na base parlamentar central daquele político, Palmas. Posteriormente, exerceu o cargo de chefe de gabinete do ex-vereador de Palmas pastor João Campos. O trabalho social desenvolvido por esses parlamentares também contribuiu sobremaneira para a formação política do jovem vereador, eleito no último pleito, pelo PSC, com 1.831 votos na capital.

Seu interesse pela política teve início ainda jovem, enquanto militante das campanhas de seu pai, pastor Amarildo Martins, que tem em seu currículo o exercício do mandato de deputado federal pelo Tocantins. Amarildo era missionário evangélico e foi um dos primeiros a se instalar em Palmas, quando a capital foi transferida, ainda em 1989. Como integrante da igreja Assembleia de Deus – Madureira, Filipe diz que viu despertar em si a vocação social e o interesse em continuar lutando pelos ideais e direitos das comunidades as quais assistia. O jovem vereador é graduado em Gestão Pública pela Uno­par. É casado há 11 anos e pai de dois filhos.

No que se refere a partidarismo, há quanto tempo o sr. está filiado ao PSC e como avalia o desempenho da sigla nas eleições 2016?
Nunca militei em outro partido. Estou filiado ao PSC desde 2004. Fui vice-presidente estadual, contudo hoje sou apenas um membro da sigla. Atualmente, o presidente metropolitano é o Pastor João Campos e o presidente estadual, o deputado estadual Osires Damaso. O partido está bem estruturado no Tocantins, na medida em que além do próprio Damaso, estão filiados ao partido os parlamentares Jorge Frederico e Junior Evangelista.

Quanto às últimas eleições, considerando que o partido é relativamente pequeno experimentamos boas votações, elegemos vários vereadores e vice-prefeitos. O estigma de partido cristão, e justamente por isso com conceitos éticos arraigados a alguns dogmas, acaba por afastar algumas pessoas da sigla. A bem da verdade, somos uma espécie de sobreviventes nesse meio político.

Temos bons projetos para 2018 e em breve alinharemos as conversas e entendimentos com o Pastor João Campos e o deputado Damaso para decidirmos os melhores caminhos e alianças para o partido.

E quanto ao alinhamento do partido com o prefeito Carlos Amastha (PSB) nesta nova legislatura?
O gestor mostrou-se bem receptivo e por iniciativa dele, já tivemos várias reuniões, em que pese termos sido adversários durante a campanha. Porém, a eleição acabou no dia 2 de outubro do ano passado. Vamos caminhar juntos doravante e o ex-vereador pastor João Campos assumirá a subprefeitura da Região Sul, recentemente criada.

A vontade do povo foi reeleger Amastha à Prefeitura de Palmas e, por essa circunstância, ele é o legítimo representante desta comunidade. Não há sentido fazer uma oposição cega ou radical, que vai acabar por prejudicar a população da cidade. Por esta razão, estamos dispostos a caminhar junto com o prefeito nesta legislatura.

Não podemos permitir que ocorra novamente o que houve no ano passado, quando a Câmara ficou sem votar projetos importantes por mais de cinco meses, fruto de uma insana disputa de poder entre o legislativo e o executivo. Os projetos devem ser colocados em pauta e discutidos, isso é o mais importante. Se vão ser aprovados, é outra história.

Aprovamos nesta semana a autorização para que a Prefeitura de Palmas contraia empréstimos internacionais com o Banco Andino, na ordem de 50 milhões de dólares, destinados a obras de infraestrutura, dentre as quais a implementação de pontes, pavimentação asfáltica de quadras residenciais, que trarão muitas benesses à comunidade palmense. Fui o relator desse projeto na Comissão de Urbanismo e emiti parecer favorável, corroborando o entendimento da Comissão de Constituição e Justiça.

A Câmara Municipal aprovou também, recentemente, o projeto do ex-vereador Pastor João Campos, que prevê a isenção de impostos para templos religiosos em Palmas. Qual a importância dessa lei e em qual contexto ela se insere?
Em que pese a isenção estar prevista no Art. 150 da Constituição Federal de 1988, a capital do Tocantins estava em dissonância com a Carta Magna brasileira. Corrigimos essa distorção, uma vez que, principalmente para mim, gestor administrativo voluntário de um segmento evangélico, era extremamente desgastante e inexplicável. Ora, uma lei municipal não pode sobrepor à Constituição Federal. Quem se atentou para essa discrepância foi o meu pai, pastor Amarildo, que alertou o então vereador pastor João Campos, que apresentou esta emenda ao parlamento municipal. Devido a paralisação da Câmara no ano passado, por um longo período, a discussão não evoluiu, contudo, já nesta legislatura tive a honra de defender embasadamente o projeto em plenário, e graças a Deus foi aprovado por unanimidade.

Há várias críticas acerca da exploração da fé por parte de alguns líderes religiosos e que, exatamente por isso, a ideia de tributar os templos seria uma forma de sopesar e equilibrar arrecadação em massa, sem a devida contraprestação de contas. Qual a sua visão sobre o tema?
Há “picaretas” em qualquer segmento, profissão ou religião. Essas falhas éticas, fazem parte da natureza de muitos seres humanos. Contudo, o papel social que as igrejas desenvolvem extirpa qualquer possível exploração da fé, por parte de alguns. A igreja é um dos maiores parceiros do poder executivo. Veja bem: as igrejas recebem e amparam os dependentes químicos, de drogas sintéticas ou álcool; também recebem vulneráveis, vítimas de violência sexual ou abusos; acolhem moradores de rua, etc. Tudo isso a custo zero para o Estado, uma vez que as instituições religiosas executam essas ações com as verbas doadas pelos fiéis. Além do mais, o cidadão que vai para igreja louvar a Deus, deixa de se embriagar ou de se drogar, e por consequência, também deixa de causar acidentes no trânsito. É uma série de fatores que comprovam que existe sim a contrapartida social das igrejas para o Estado. Cobrar impostos sobre templos era, verdadeiramente, injusto e uma distorção que precisava ser corrigida.

Após tomar posse como vereador em Palmas, depois de muitos anos de bastidores políticos, o sr. deixou de exercer o papel de coadjuvante para se tornar protagonista. Qual é o seu sentimento após o primeiro mês de mandato?
Primeiramente, muito gratificante. Sinto que minha eleição se deu pela lacuna aberta pelo pastor João Campos, ao registrar sua candidatura a vice-prefeito na chapa de Raul Filho (PR). A nação evangélica clamava por um representante e eu estou muito feliz por ter sido o escolhido. A responsabilidade aumentou, agora tenho o poder de decisão, e represento uma cidade e não apenas as 1.831 pessoas que votaram em mim. Tive uma expressiva votação – mais de 50% dos votos – na região da central da cidade e tenho compromisso com esses eleitores, assim como a população periférica. As ações parlamentares são e serão minuciosamente estudadas, vez que influenciarão no futuro da cidade e das pessoas que nela habitam.

Enalteci durante toda a campanha eleitoral, e continuo com a mesma convicção, que o principal enfoque do meu gabinete será a defesa da família e dos princípios morais, éticos e cristãos. Quaisquer projetos que chegarem ao plenário que tenham o condão de ferir tais princípios basilares da minha fé, serão solenemente rejeitados por mim.

O curso do mandato tem trazido boas surpresas e fui eleito vice-presidente da Comissão de Urbanismo e também presidente do Conselho de Ética. Estou muito comprometido com o cargo vereador e, dentro em breve, apresentaremos vários projetos voltados não apenas para a comunidade evangélica, mas também para a população de Palmas como um todo. Contudo, como ainda estão em fase de estudos, não posso divulgá-los nesse momento.

“O vereador Folha disse que lutaria pela independência do Legislativo Municipal. Fiquei convencido que votar nele para a presidência da casa seria a melhor opção”

Uma prova do seu alinhamento com o prefeito Carlos Amastha foi, logo no primeiro dia de mandato, o voto declarado no candidato dele à presidência da casa legislativa, o vereador reeleito Folha (PSD). Por que essa escolha?
O vereador Folha, logo a após a eleição de 2016, iniciou conversações com vários vereadores, exaltando que se eleito presidente fosse, lutaria pela independência da Câmara. Outra plataforma de sua campanha era não mais permitir esse hiato entre o legislativo e o executivo, que acabou por deixar a Câmara de Vereadores por quatro meses sem votar projetos, que eram extremamente relevantes para a população. Fiquei convencido que votar nele seria a melhor opção.

No que concerne a chamada renovação na Câmara de Palmas, muitos analistas políticos acreditam que ela não ocorreu, na medida em que quatro vereadores não concorreram à reeleição, bem como pelo fato de alguns dos eleitos estarem intimamente ligados a clãs políticos, como é o caso de Tiago Andrino ao prefeito Amastha; Léo Barbosa ao seu pai, o deputado Wanderlei Barbosa; Laudecy Coimbra ao marido, o ex-deputado Junior Coimbra; e, por fim, o sr. que carrega a herança política do ex-deputado federal pastor Amarildo. Como o sr. recebe e lida com essas críticas?
Defendo que houve sim uma marcante renovação na casa legislativa, na medida em que mesmo 4 vereadores deixando de disputar o pleito, outros 15 disputaram e nem todos foram reeleitos.

Acredito que cada um de nós (os novatos) tem seu trabalho prestado, cada qual tem seu valor. Eu, por exemplo, tenho a honra de ser filho de quem sou e o que ele representa para a política tocantinense, contudo, me elegi com méritos próprios, fruto de serviços sociais prestados à sociedade, sem apegos aos estigmas dessa aliança paternalista.

O próprio Léo Barbosa, meu colega de faculdade, vem desenvolvendo um trabalho junto à base dele há muitos anos, independentemente da atuação do pai dele como político. Ele esteve à frente de movimentos estudantis durante nosso curso superior e sua personalidade está ligada a princípios próprios.

Em nome do Jornal Opção, desejo-lhe sorte no mandato que se inicia e que o sr. honre os votos recebidos, colaborando para que a cidade de Palmas seja um lugar melhor para se viver.
Eu que agradeço a oportunidade de falar a esse veículo de comunicação, e por consequência, prestar esclarecimentos aos meus eleitores e à população em geral. Estamos à disposição sempre, meu gabinete estará sempre aberto para a imprensa. Conte comigo.

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