Marcelo Miranda deve dar o tom da sucessão municipal de 2016

Renovação das eleições deste ano provocou uma profunda mudança no contexto político do Estado. Isso não significa, porém, que quem atendeu às demandas da cidade não tenha chance de reeleição

Prefeitos de Palmas, Araguaína e Gurupi, Carlos Amastha, Ronaldo Dimas e Laurez Moreira: eleitos como oposição no pleito de 2012, apoiaram o siqueirismo na eleição estadual deste ano com a intenção de, na anunciada derrota, ocupar o espaço vago em 2018. Eles têm chances, mas dependerão de alguns fatores

Prefeitos de Palmas, Araguaína e Gurupi, Carlos Amastha, Ronaldo Dimas e Laurez Moreira: eleitos como oposição no pleito de 2012, apoiaram o siqueirismo na eleição estadual deste ano com a intenção de, na anunciada derrota, ocupar o espaço vago em 2018. Eles têm chances, mas dependerão de alguns fatores

Gilson Cavalcante

Em 2016, o cenário político estadual será bem diferente do que o que predominou até as eleições de 2014. Não haverá mais no jogo político a presença forte do ex-governador Siqueira Campos (PSDB), único cabo eleitoral no Tocantins com poder de transferência de voto. Siqueira pode até voltar aos palanques para pedir voto para algum candidato, em algum lugar, mas não será, nem de longe, o líder poderoso que tinha prestígio para eleger quem bem quisesse. Essa condição simplesmente não existe mais.

Sai de cena Siqueira e entra em seu lugar um governante de estilo bem diferente. Democrático, afeito ao diálogo e avesso à dominação política, tão característica a seu antecessor. Marcelo Miranda (PMDB), que passa a comandar o Palácio Araguaia, vai fazer tudo para fazer o processo de mudança que o elegeu alcançar os municípios.

Miranda, porém, não coloca o governo a serviço das disputas municipais e respeita, acima de tudo, o resultado das urnas. Isso significa que as eleições municipais podem ser mais disputadas, sem a inter­ferên­cia do Palácio Araguaia a fim de eleger o maior número de aliados, como aconteceu em 2012, quando o governo chegou ao absurdo de patrocinar os dois candidatos mais competitivos de cada município, numa adulteração completa da vontade popular.

Só para refrescar a memória, em Palmas, dizem que o ex-secretário de Relações Institucionais Eduardo Siqueira Campos (PTB) conseguiu se infiltrar nas três principais candidaturas. Foi ele quem organizou a campanha do deputado Marcelo Lelis (PV), tendo inclusive conseguido atrair o PMDB para a vice; foi ele quem indicou o deputado Sargento Aragão (Pros) para a vice do pepista Carlos Amastha; foi ele também quem negociou a entrada do professor Alan Barbiero (PSB) para ocupar a vice na chapa da deputada Luana Ribeiro (PR). Na tentativa de eleger o prefeito de Palmas, Eduardo acabou apoiando todos os candidatos. E, inexplicavelmente, terminou derrotado, porque o voto em Amastha se mostrou um voto contra o siqueirismo.

Pois bem, o fim do siqueirismo e a eleição consagradora do governador Marcelo Miranda(PMDB), fatos políticos da maior relevância no cenário estadual, certamente terão profunda influência nas eleições municipais de 2016. Acrescenta-se a este contexto o desejo de mudança que ficou bem latente nestas eleições. O que se pode concluir é que teremos eleições com disputas equilibradas com possibilidades de mudanças substanciais, mas também com continuísmo, afinal quem mostrou serviço tem tudo para continuar no comando do seu município.

Porém, para continuar, o prefeito terá necessariamente que mostrar resultado. É bom lembrar que as prefeituras do Tocantins, como todas do país, estão quebradas e sem condições de fazer os investimentos prometidos na campanha. No To­can­tins, há ainda o agravante da falência completa da gestão estadual, que afeta as gestões municipais, tendo em vista que a grande maioria apoiou o governo nas eleições. Muitos prefeitos que não aderiram ao governo, foram cooptados com promessas de obras e benefícios que não vieram.

O prefeito de Palmas, Carlos Amastha (PP), é indiscutivelmente o provável candidato à reeleição mais bem posicionado na disputa de 2016. Faz uma boa gestão, é ousado, tem pretensões de chegar ao Palácio Araguaia e sabe que o caminho mais seguro passa pela reeleição. Amastha não se saiu bem nestas eleições — em que teve a oportunidade de assumir papel decisivo. Avaliou mal o seu capital político e colheu uma derrota que fez estremecer o seu prestígio político. Não se elegeram o gover­nador, senador, deputado federal e nem o deputado estadual que apoiou. Amastha sabe que terá que trabalhar muito até outubro de 2016 para provar que merece continuar no comando do Paço Municipal. E é o que está fazendo.

Sua aproximação com o siquei­rismo, que antes combatia, é a sua maior contradição. Mas Amastha não fez isso por ingenuidade, pelo contrário, fez de forma proposital. Amastha deseja ocupar o espaço que foi de Siqueira, o campo liberal de centro-direita, e que vai continuar com certo peso no Estado, mesmo depois do fim do siqueirismo. Amastha quer ser a face moderna do siqueirismo — ou da direita, como queiram; quer ser a renovação do continuísmo, como ele mesmo propôs ao conceituar o governo Sandoval Cardoso (SD). Amastha desejava ter Sandoval no governo para não tê-lo como concorrente em 2018, mas também porque desejava representar o segmento da direita liberal, campo ideológico que o identifica.

O prefeito de Araguaína, Ronaldo Dimas (PR), é o segundo mais bem posicionado em termos de reeleição. Começou a gestão muito devagar, mas, com apoio do Palácio Araguaia, conseguiu decolar. A recuperação das vias públicas é o seu maior feito. A operação de recuperação da malha viária urbana dos municípios, montada pelo governo do Estado para ganhar votos e que foi muito criticada pela oposição que classificou de asfalto “nuguet”, salvou a gestão de Dimas. O prefeito também tem pretensão de disputar o governo do Estado, em 2018, e, por isso, trabalha duro para fazer uma boa gestão, conquistar a reeleição e renunciar para ser candidato.

Outro prefeito que também segue esta mesma estratégia é Laurez Moreira (PSB), de Gurupi, que faz uma administração razoável, ainda bem longe da expectativa dos que o elegeram, mas cada vez mais perto de decolar. Laurez não fala em reeleição, prefere trabalhar e aguardar o momento certo, mas é um nome com chances de, até 2016, empolgar o eleitorado e emplacar a reeleição. É certo que vai conseguir, pois motivação é o que não falta. Laurez também tem um olhar em 2018. Não é por acaso que ele, Amastha e Dimas, eleitos em seus municípios como oposição, fizeram acordo nestas eleições para apoiar o mesmo candidato, embora pertençam a partidos de interesses conflitantes, o que não os impediu de se juntar aos governistas Sandoval Cardoso e Eduardo Siqueira Campos. Perderam a aposta, mas acham que fizeram um bom negócio para o futuro. Apresen­taram-se como fortes candidatos a herdar o patrimônio político do siqueirismo.

O prefeito de Paraíso do Tocantins, Moisés Avelino (PMDB), também deve ser incluído na lista de nomes com potencial para 2018, mas há que se fazer algumas observações importantes. Avelino é avesso ao carreirismo político, portanto não está fazendo um governo pensando em se reeleger e depois disputar o governo do Estado. Avelino, quando foi eleito prefeito, tinha pretensão de tentar voltar ao comando do Palácio Araguaia. Hoje, talvez não tenha mais esta ambição. A eleição do governador Marcelo Miranda praticamente o tirou da disputa de 2018. É que Miranda tem a prioridade de disputar a reeleição. Avelino, por mais que sonhe com o Palácio Araguaia, jamais aceitaria disputar a convenção com o gover­nador.

Outro aspecto a ser considerado é que Avelino não faz um gover­no pensando em reeleição, mas em organizar uma das cidades mais pujantes do Estado, como fez no passado, e que tem muito por fazer. Se for convocado pela sociedade é possível que aceite disputar a reeleição. Do contrário, não vai impor o seu nome. Também, se concluir que a população não aprova o seu governo, nem vai pensar em reeleição. Neste caso, deve ocupar algum cargo no governo do PMDB, depois de encerrar o mandato e, quem sabe, disputar, em 2018, uma das duas cadeiras do Senado. É certo que tem chances reais de se tornar senador.

Com um pouco de ajuda do Palácio Araguaia, pode melhorar o desempenho do seu governo e virar um nome imbatível em 2016. Nestas condições, talvez aceite disputar a reeleição. Porém, se abdicar do di­reito, pode fazer o sucessor, visto que não se pode descartar também o aparecimento de um jovem líder com condições de vencer as eleições e iniciar um novo ciclo político na cidade que o elegeu governador.

O prefeito de Porto Nacional, Otoniel Andrade (PSDB), é candidatíssimo à reeleição, seja para ganhar ou perder. Faz um governo morno, bem distante de atender a expectativa do portuense. É um nome forte em 2016 não por causa do trabalho que vem reali­zando, mas porque está no governo. Otoniel é oposição, mas não terá nenhuma dificuldade de apoiar o governo Marcelo Miranda. O primeiro passo será dado em apoio à candidatura do irmão Toinho Andrade (PSD), que pretende disputar a presidência da Assembleia Legislativa. Com o irmão no comando do Parlamento, não terá muita dificuldade de se reeleger, embora tenha adversários fortes no governo e na oposição — o senador Vicentinho Alves (SD) e o deputado Paulo Mourão (PT), para ficar só nos mais importantes.

Os prefeitos de Tocan­tinópolis, Fabion Gomes (PR), e de Colinas, José Santana (PT), já foram reeleitos e, portanto, não são candidatos em 2016. Santana, que exerce o seu quarto mandato de prefeito de Colinas, deve tentar voltar ao Parlamento em 2018 e, até lá, deve ocupar algum cargo no governo federal, após deixar a prefeitura. Gomes, que foi depu­tado por cinco mandatos deve tentar voltar ao Parlamento estadu­al a partir de 2018. Os dois prefeitos têm chances reais de fazer seus sucessores. Em Colinas, o grande adversário do PT é a primeira-dama do Estado Manu­e­la Cardoso (SD), que já disputou a prefeitura da cidade por duas vezes, sem sucesso. A ascensão política certamente estará mais forte em 2016. Em Tocantinó­polis, o grande adversário de Gomes é o ex-prefeito Antenor Queiroz (PSB) ou quem ele indicar.

O prefeito de Pedro Afonso, Jairo Mariano (PDT), é uma revelação. É jovem, ousado e já vem provando que tem competência. Jairo surpreendeu logo no inicio ao cuidar bem da limpeza da cidade e manter um ritmo de realizações que chama atenção com obras por toda a cidade. Destaque para a recuperação e ampliação do asfaltamento urbano. Jairo, embora não admita, é candidato à reeleição e tem todas as condições de ser reeleito. Jairo ga­nhou a confiança do agronegócio, que comanda a economia do município, e tende a consolidar o seu prestigio como o grande líder de um dos mais importantes polos agrícolas do Estado. Se conseguir a reeleição, pode despontar como um nome alternativo para 2018 ou 2022, já que, depois de deixar a prefeitura, vai tentar primeiro conquistar uma cadeira no Parlamento.

Completando a lista das 10 maiores cidades do Estado, vejamos as chances dos prefeitos de Araguatins, no Bico do Papagaio, Lindomar Madalena (PSB), e de Regis Melo (PSDB), de Dianópolis, região Sudeste. Madalena não faz um bom governo. É um prefeito popular, querido pelo povo, mas não um gestor competente. Deixa a desejar no comando da prefeitura. Se for candidato à reeleição, o que certamente vai acontecer, terá poucas chances de vencer. Seus adversários mais fortes são os candidatos derrotados na última eleição Cláudio Santana (PMDB) e Benedito Lima, o Beto do Incra (PT), que tendem a ter os seus nomes lembrados na medida em que Madalena se mantém com baixa avaliação.

Regis de Melo surpreendeu ao vencer uma eleição difícil e tem conseguido realizar algumas obras, mas se vinculou muito ao governo e tende a perder prestigio com a derrocada do siqueirismo. Regis terá que trabalhar muito para chegar em 2016 com chances reais de disputar a reeleição e vencer. Por enquanto, é um nome certo na disputa, mas não com eleição favorável. Seus adversários mais importantes são o ex-prefeito José Salomão (PT), que não conseguiu se eleger deputado esta­du­al, e o ex-prefeito Hercy Filho (PMDB), ligado ao deputado Júnior Coimbra (PMDB), e que ainda deseja tentar voltar ao comando da prefeitura de sua cidade. Novos nomes que cresceram com a eleição de Marcelo Miranda podem surgir até 2016 em Araguatins e Dianó­polis com poder de surpreender nas urnas.

Este é o cenário para 2016 nas 10 maiores cidades do Estado, que, juntas, representam a metade do eleitorado tocantinense. E a tendência é de renovação, ainda que muitos prefeitos, hoje na base do governo e amanhã certamente também, consigam fazer seus sucessores, nos casos de não reeleição. Em que pese os aspectos partidários ou ideológicos, serão eleitos ou reeleitos líderes mais ajustados com o novo tempo que se inicia no Palácio Araguaia. Afinal, a mudança que se verificou no Estado tende a se reproduzir nos municípios. Bom, ainda está muito longe para se fazer previsões, contudo, é certo que aseleições de 2016 podem ampliar o processo de mudança que se iniciou em 2014, com a eleição consagradora de Marcelo Miranda. É esperar para ver o que vai dar.

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