“Mandatos coletivos só funcionam na esquerda, porque a direita é conservadora”

Thamires Lima, Alexandre Peara e Edu Alves falam da proposta do coletivo Somos para a cena política do Tocantins

Thamires Lima, Edu Alves e Alexandre Peara, do coletivo Somos: alternativa à política tradicional do Tocantins | Foto: Divulgação

Eles são jovens, ousados e dispostos a lutar por uma nova lógica no exercício do mandato legislativo. São integrantes do Coletivo Somos, o primeiro movimento de mandato coletivo do Tocantins.  “Surgimos da necessidade de ocupar um espaço na Câmara Municipal de Palmas, uma das mais conservadoras e homofóbicas do País, se não for a mais. Daqui saíram pérolas como projeto de lei para proibir o uso da palavra “gênero” por professores, chegando até mesmo ao absurdo de ter restrição de cores. Teve vereador proibindo o uso da imagem do arco-íris”, revelam, ao explicar a origem do momento que teve início na eleição de 2020, com a proposta de mandato coletivo.

Os porta-vozes do movimento explicam que os mandatos coletivos propõem romper com o modelo parlamentar baseado no velho sistema político oligárquico dominado pela direita centrista. No qual o poder é concentrado nas mãos de poucas pessoas, donos do capital financeiro e que não representam o povo. “A ideia é não concentrar poder, mas compartilhar sempre”. defendem. O grupo avalia que começa a incomodar a política tradicional porque está sabendo fiscalizar e resgatando o debate por questões que os parlamentares não se interessam.

Os integrantes do movimento explicam que cada coletivo se organiza de uma forma. No caso deles, “o Somos vai construir o gabinete de forma que, na prática diária, as tarefas sejam compartilhadas e discutidas com os membros do coletivo como um todo. As decisões de projetos a serem apresentados, as falas na tribuna, o ouvir as pessoas na cidade ou no Estado, queremos que tudo isso seja feito de forma conjunta, debatido e alinhado coletivamente”, apregoam.

Coerentes com a proposta do grupo, preferiram conceder uma entrevista “coletiva” com participação dos porta-vozes do grupo – Thamires Lima, Edu Alves e Alexandre Peara – as respostas foram construídas coletivamente com participação de todos indistintamente. Portanto uma entrevista um pouco diferente do habitual, compartilhada e certamente muito mais rica. Nesta conversa com o Jornal Opção, os porta-vozes falaram da proposta do coletivo para estas eleições, em qual partido vão se alojar e qual a meta que pretendem alcançar.

Qual o projeto do Somos para as eleições de 2022?

A proposta é que consigamos emplacar em duas frentes de campanha. Uma para deputado estadual, em que teremos o Alexandre Peara como porta-voz e representante na urna, e para deputada federal, com a Thamires Lima. Em ambas as campanhas, segue a lógica de representação dos co-deputados, com pessoas de outras cidades do Estado, não só de Palmas. Já temos um representante em Araguaína, o Edu Alves, e estamos conversando com possíveis nomes em Gurupi e Porto Nacional. A vantagem de se trabalhar com o Coletivo é que as pessoas não votam em uma figura em específico, mas no projeto construído em conjunto com todos os integrantes do Somos.

“Nas eleições deste ano, um dos principais posicionamentos que temos é o combate ao bolsonarismo”

Novamente o Somos vai utilizar a estrutura partidária do PSB para disputar as eleições, qual o posicionamento do movimento em relação ao candidato ao governo e à presidência da República?

A representação partidária é muito importante. Não podemos colocar os partidos políticos de lado, porque política exige organização e os partidos são parte fundamentais e necessários não só no processo eleitoral, mas em toda a construção de projeto do País. Temos que recuperar esta premissa. Nas eleições deste ano, um dos principais posicionamentos que temos é o combate ao bolsonarismo. Sendo assim, estamos perfeitamente alinhados com o PSB no apoio a campanha do Lula (Luís Inácio), inclusive com a indicação do vice na chapa. Aqui no Estado a diretriz é a de termos o nosso próprio palanque nas proporcionais na luta contra o atraso. Nossas bandeiras defendidas estão ligadas à diminuição das desigualdades sociais. Por isso lutaremos onde couber nos âmbitos legislativos, por uma fiscalização eficiente dos executivos; por políticas públicas de geração de emprego e de combate à fome; pela valorização dos direitos trabalhistas; por uma política de segurança alimentar; contra os entreguismos e em defesa da nossa soberania; sempre a favor de ações para baixar o custo de vida como a redução dos preços dos combustíveis e do gás de cozinha; pela volta de políticas habitacionais; em defesa do SUS (Sistema Único de Saúde); e mais do que nunca defendendo a retomada de investimentos na educação, nas universidades e na ciência e pesquisa. Não somos os típicos políticos tão conhecidos no Tocantins, que estão sempre na base de quem está no Poder. Temos lado e temos posicionamento.

A propósito, qual é o alinhamento ideológico do movimento, de que lado vocês estão?

O Somos se posiciona à esquerda. A troca de ideias ajuda muito na elaboração de ações em que buscamos sempre beneficiar os trabalhadores e as ditas minorias que, na verdade, são a maioria dos brasileiros, mas que estão alijados de exercer poder político.

“O Somos é o primeiro mandato coletivo do Tocantins. Surgimos da necessidade de ocupar um espaço na Câmara Municipal de Palmas”

Como surgiu o movimento no Tocantins e qual é a meta de vocês?

O Somos é o primeiro mandato coletivo do Tocantins. Surgimos primeiro da necessidade de ocupar um espaço na Câmara Municipal de Palmas, uma das mais conservadoras e homofóbicas do País, se não for a mais. Daqui saíram pérolas como projeto de lei para proibir o uso da palavra “gênero” por professores, chegando até mesmo ao absurdo de ter restrição de cores. Teve vereador proibindo o uso da imagem do arco-íris em um dos CMEIs (Centro Municipal de Educação Infantil). O arco-íris que sempre foi uma forma lúdica de crianças aprenderem cores, olha que absurdo! Fora discursos associando a homossexualidade com pedofilia e ao estupro, que foram devidamente denunciados por nós. E junto a tudo isso, também há falta de transparência da Casa de Leis, que já foi apontada como a mais cara do País, a que mais gasta mal os recursos que recebe. Então, o que nos une e o que nos motiva é preencher estes espaços políticos que tem deixado as minorias de fora, tem cometido abusos e também tem feito um mal-uso do dinheiro público.

O Somos exerce o seu ativismo político de várias formas, qual é bandeira principal do movimento?

Nos baseamos a partir de valores. Diversidade, participação popular e eficiência. Dentro de cada uma temos defesas que não abrimos mão. Da diversidade, por exemplo, somos uma das únicas pré-candidaturas até agora que tem a defesa e proteção dos direitos da população LGBTQIA+ como prioridade. E não é algo de agora. Nos últimos anos temos trabalhado para garantir alimentos para pessoas da nossa comunidade em situação de vulnerabilidade, orientações jurídicas em casos específicos, entre outras ações. É de nossa autoria também a primeira ação civil e criminal por homofobia, proposta pelo Ministério Público contra um vereador de Araguaína. Nossa luta é constante. No segundo ponto, da participação popular, temos cobrado rotineiramente maior transparência dos gastos e das ações do poder público.

Integrantes do coletivo Somos | Foto: Divulgação

As pessoas têm acompanhado e sabem o quanto o Somos tem revelado informações que políticos não gostariam que fossem divulgadas. Isso incomoda. E detalhe, somos contra regalias que os políticos aprovam para si mesmos. Em breve estaremos divulgando um levantamento sobre o auxílio-moradia dos deputados estaduais. Coisa totalmente absurda. O Somos incomoda por saber fiscalizar. Em terceiro lugar, buscamos sempre trabalhar da melhor maneira para que os resultados sejam satisfatórios. Dividimos demandas e funções para colher frutos do trabalho desenvolvido, afinal várias mãos trabalham mais. Temos valores. Por isso, precisamos firmar um compromisso com o óbvio que, em tempos de negacionismo, precisa ser dito, reafirmado e defendido.

Que avaliação vocês fazem da primeira experiência que foi a eleição de Palmas, em 2020, em que o coletivo conquistou a suplência na Câmara de Vereadores e já tiveram a oportunidade de exercer o mandato?

Foi uma experiência bastante positiva, alcançar a suplência. Surpreendeu muitos que não acreditavam no nosso Projeto. Porém há um detalhe. Só funcionou e funciona porque “somos” de esquerda, “somos” organizados e temos independência para decidir os nossos rumos. Tivemos pouco dinheiro, mas muito recurso humano. Por isso agradecemos a cada pessoa que nos ajudou nessa caminhada. É bom lembrar que ainda não assumimos uma cadeira na Câmara Municipal de Palmas. Muitos ali dentro fizeram o possível e o impossível para que a gente não entrasse. Destaque para a presidente da Casa (Janad Valcari), uma bolsonarista de carteirinha. Ela é a pessoa que tem mais medo do que a gente poderia descobrir ali dentro, caso tivéssemos assumido.

“Os mandatos coletivos propõem é romper com o modelo parlamentar baseado no velho sistema político oligárquico”

Qual é o formato do mandato coletivo que vocês defendem?

Primeiramente que a proposta de mandato coletivo é de esquerda. Temos visto algumas propostas sem pé nem cabeça por aí, por isso é importante deixar isso claro. Nos miramos muito nos exemplos que já existem pelo Brasil à fora. Iniciativas como a “Gabinetona”, de Minas Gerais,  “Juntas” de Pernambuco, e o “Nós”, da Câmara de São Luís (MA). De forma geral, o que os mandatos coletivos propõem é romper com o modelo parlamentar baseado no velho sistema político oligárquico dominado pela direita centrista. Padrão este institucionalizado e monopolizado, no qual o poder é concentrado nas mãos de poucas pessoas, donos do capital financeiro e que não representam o povo. A ideia é não concentrar poder, mas compartilhar sempre.

Como exercer o mandato coletivo com a atual legislação eleitoral que diz que o mandato é individual?

Bom, uma única pessoa vai ceder o CPF e a foto para cumprir a burocracia eleitoral. Mas o nome que aparece na urna é o do Coletivo Somos. Ao chegar ao cargo, cada coletivo tem uma forma própria de se organizar. O Somos vai construir o gabinete de forma que, na prática diária, as tarefas sejam compartilhadas e discutidas com os membros do coletivo como um todo. As decisões de projetos a serem apresentados, as falas na tribuna, o ouvir as pessoas na cidade ou no Estado, queremos que tudo isso seja feito de forma conjunta, debatido e alinhado coletivamente.

Vários segmentos no Tocantins estão se organizando em torno da ideia de mandato coletivo que vocês são pioneiros, como avaliam essas iniciativas?

É um movimento positivo, de forma geral. Mas reforçamos, mandatos coletivos só funcionam na esquerda, porque a direita é conservadora. Mandatos coletivos são diversos. E essa é uma coisa que já está acontecendo. Os mesmos grupos que estão há anos se perpetuando nos espaços de poder tocantinense se apropriando desta nova forma de organização política para não largar o “osso”.

Como fazer política propositiva, em torno de ideias, com responsabilidade, em sistema corrompido pelo abuso do poder econômico, eufemismo para compra de voto?

Esta é a pergunta de milhões. Mas acreditamos que a para defender uma ideia é preciso primeiro traçar nossos valores, que serão pilares de um projeto, elaborado de forma conjunta, que atinja realmente interesses da população. E, depois deste projeto construído, manter a coerência em torno dele e dos valores que o sustentam. Poderíamos dizer que esta é a expressão chave para consolidar o envolvimento das pessoas para com um projeto político: coerência de ações.

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