“Hoje, está comprovado que o ensino a distância não perde nada em qualidade para o ensino presencial”

Reitor da Unitins afirma que a instituição saiu da crise para ganhar credibilidade com a sociedade do Tocantins

Gilson Cavalcante

Gilson Cavalcante

Gilson Cavalcante

A Fundação Universidade do Tocantins (Unitins), que viveu uma profunda crise durante anos, hoje caminha para ser uma instituição respeitada e com credibilidade junto à sociedade. Pelo menos é o que garante o reitor da instituição, Joaber Divino Macedo. Na entrevista exclusiva ao Jornal Opção, Macedo afirma que a Unitins pode ser um forte instrumento de desenvolvimento do Estado, levando em conta a preservação do meio ambiente. E sustenta que o ensino a distância, modalidade que a instituição adotou após a crise, não perde em nada para o ensino presencial. Macedo revela que as pesquisas no Estado ainda são muito incipientes, mas adianta que a Universidade tem uma parceria com a Embrapa, em Formoso do Araguaia, região Sudoeste do Estado, para o desenvolvimento de uma variedade de arroz adaptada ao clima e ao solo tocantinenses, que é a várzea. “Nós temos uma alta produtividade na região de várzea aqui no Tocantins em fase de crescimento, mas nós não temos ainda uma variedade adeaquada para essa várzea”, observa. Na sua avaliação, o desenvolvimento de variedades adaptadas à região significa menos agrotóxicos e menos defensivos agrícolas. “Não há como falar em tecnologia hoje sem estar aliada à preservação do meio ambiente; não há como avançar em pesquisa sem levar em consideração a questão ética, aspecto que a universidade tem que ter como premissa básica, tem que se pautar. Nós temos condições de utilizar a tecnologia preservando o meio ambiente, produzindo alimentos de forma equilibrada, sem agredir a natureza”.

Joaber Macedo é natural de Ceres (GO) e está no Tocantins desde 1989. Especializou-se em Auditoria Governamental, em Conta­bilidade Pública e em Língua Portuguesa. Além disso, tem MBA em Administração para Executivos, pela Fundação Instituto de Administração (FIA), ligada à Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FeaUsp). É servidor de carreira do Tribunal de Contas do Estado (TCE/TO) desde 1991, onde exerceu as funções de coordenador de Fiscalização Estadual; diretor-deral de Administração e Finanças e chefe de gabinete da presidência. No Executivo tocantinense, ocupou os cargos de diretor de Controle Interno da Secretaria da Fazenda, secretário executivo e sub-secretário da Secretaria do Trabalho e Ação Social e em 2005, assumiu a Pró-Reitoria de Administração e Finanças da Unitins. Joaber também foi membro do Conselho Curador da Universidade. Em janeiro de 2011 foi nomeado para assumir a reitoria da Unitins.

A Unitins tem um histórico de problemas que a acompanha desde que foi criada. Praticamente deixou de existir quando cedeu toda a sua estrutura para a UFT. Recentemente, foi alvo da maior crise do ensino a distância. O Estado tem sido incompetente na gestão da universidade?
Ao ceder sua estrutura física, toda a sua infraestrutura para a criação da Universidade Federal do Tocantins (UFT), que na época foi uma conquista, a Unitins deu todo o suporte necessário para a implantação da instituição em nível federal. Foi uma questão inovadora, porque a Unitins era multicampi, estrutura esta que também foi cedida para a UFT. Como a universidade cedeu toda a sua infraestrutura, a Unitins começou a atuar somente no ensino a distância, abolindo, portanto, o ensino presencial. No início, a instituição começou a atuar na formação de professores, porque o Tocantins, naquela época, necessitava desse tipo de formação, o Estado era muito carente nessa área. Grande parte dos professores era leiga e essa opção pela formação de professores foi muito útil e atendeu o que o Estado necessitava naquela época. Depois, veio a parceria com uma empresa privada para ampliar a oferta de ensino a distância, quando se deu o ingresso de alunos do Brasil inteiro, foram mais de 1.200 localidades. Esse foi um desafio muito grande, porque a demanda era atender milhares de alunos em mais de 1.200 locais. Até o MEC normatizar o ensino a distância houve um descredenciamento desse tipo de modalidade de ensino, o que acabou gerando uma série de problemas para a Unitins. Ou seja, a empresa parceira (Eadcon), quando terminou o contrato, simplesmente fechou os polos e deixou a instituição para atender os alunos, porque esses alunos eram da Unitins e não da empresa parceira. Desde o começo da crise, em maio de 2009, que atingiu a Fundação Universidade do Tocantins (Unitins), que culminou no seu descredenciamento pelo Ministério da Educação (MEC), em agosto, a instituição perdeu mais de 40 mil acadêmicos, o que corresponde a 44%. Antes do descredenciamento, a instituição possuia 92 mil alunos matriculados em todo o País, restando pouco mais de 51 mil acadêmicos. A partir do momento em que um aluno ingressa numa instituição de ensino, ele não tem só deveres, mas também direitos. Eles tinham que se formar, foi então que a Universidade deu a oportunidade desse aluno ter ingresso na instituição para ele ter o seu curso superior. Agora, chegar a esse ponto de atender a esses milhares de alunos em todas as partes do Brasil foi um grande desafio. No curso de Serviço Social, por exemplo, houve uma interferência do conselho da categoria que, em 2008, baixou uma resolução que limitou o atendimento em campo de estágio do curso para que os assistentes sociais pudessem atender aos alunos. Isso criou uma situação muito grave na instituição, porque, na época, a Unitins tinha mais de 20 mil alunos nesse curso. Quer dizer, uma quantidade dessas de alunos para fazer estágio com campo limitado no País gerou uma crise. Esses alunos não tinham os seus direitos atendidos pela universidade, o que criou um passivo judicial muito perigoso. Mas nós enfrentamos o problema de frente. Nesses últimos anos, nós atendemos praticamente todos os alunos do ensino a distância (EAD). É lógico que nós ainda temos um passivo judicial que vai levar alguns anos para ser resolvido.

A crise, então, está sendo administrada a contento?
O mais grave foi resolvido, que é o caso do curso de Serviço Social, que dependiam de estágios. Esses estágios serão concluídos até dezembro deste ano. Nós hoje temos pouco mais de 400 alunos, para quem já teve mais de 20 mil, foi um grande avanço.

De onde vem o dinheiro para alimentar o Fundo para gerir a Instituição?
O governo do Estado assumiu a maior parte, ou seja, a folha de pagamento dos servidores o Estado assumiu 100%, o que viabilizou a gente fazer esse atendimento. Se não fosse o governo estadual fazer esse suporte financeiro para pagar os professores da EAD e dos supervisores de estágios (chegou a mais de 300 no Brasil inteiro), não teríamos como atender esses alunos e a instituição, hoje, estaria inviabilizada. Ao longo desse tempo, muitos alunos ingressaram com ações na Justiça e agora a gente tem que responder a essas ações judiciais.

A Unitins, hoje, é vista com mais credibilidade perante a sociedade?
A gente percebe a volta da credibilidade da instituição pela ouvidoria. Hoje, nossa ouvidoria recebe bastantes elogios, o que no passado não acontecia. A demanda, hoje, na ouvidoria diminuiu bastante, porque nós estamos atendendo a esses alunos de uma forma que os alunos que já se formam adquirem o seu diploma, e nós o encaminhos para o endereço do aluno, via correios. O atendimento é bem rápido. Hoje, nós não temos mais pendências com alunos da instituição. Temos pendências, sim, com outros alunos que vão concluir seus cursos em outras instituições, porque o tempo para estes alunos formarem na Unitins já jubilou.

E os polos da instituição pelo interior do Estado estão funcionando satisfatoriamente ou carecem de mais investimentos e ampliações?
Como a Eadcon fechou os polos com o fim do contrato de parceria, nós um contrato diretamente com os polos. Eles eram terceirizados com outros empresários. Então, fizemos um contrato com esses empresários para eles atenderem o restante dos alunos e os demais polos que fecharam, nossos supervisores de estágios atendiam os alunos in loco, o que facilitou muito. Outra coisa, através do site da Unitins o aluno fazia tudo, não necessitando fazer o deslocamento. De sua casa, ele podia fazer todo procedimento, desde matrícula à escolha das disciplinas ofertadas. Fizemos, inclusive, editais para alunos que haviam perdido sua matrícula ou tinha sido reprovados, para que eles pudessem reingressar à instituição e se formar. Esses alunos não podem reclamar que a universidade não deu as oportunidades para eles concluírem os seus cursos. Com três novos campi localizados nos municípios de Dianópolis, Augustinópolis e Araguatins, a Unitins passa a atender mais 1.500 alunos nos cursos de Direito, Administração, Ciências Contábeis, Tecnologia em Gestão Ambiental, Enfermagem, Pedagogia, Letras e Tecnologia em Gestão de Agro­negócio. Em Palmas, a instituição já conta com 800 vagas distribuídas em quatro cursos e atualmente está em fase final a construção de sua nova sede. Se quisermos que o Estado continue se desenvolvendo, temos que fortalecer a educação em todas as regiões, e no interior a carência é muito grande. A expansão da Unitins vem fortalecer uma das suas missões, que é o desenvolvimento do ensino. Muitos dos nossos cursos são de licenciatura e, ao chegar ao interior do Estado, estamos também fortalecendo o ensino fundamental e médio com as formações que oferecemos aos professores.

Qual o principal foco da Unitins nesse momento em que o Tocantins se desponta como uma das últimas fronteiras agrícolas do País?
Nas modalidades de ensino presencial e a distância, atualmente a instituição atende a mais de 3.100 alunos, em 13 municípios, distribuídos em todas as regiões do Tocantins. O nosso foco é o desenvolvimento regional. Para isso, os nossos cursos são definidos considerando a vocação econômica e os aspectos culturais das regiões. É bom que se reforce que a Unitins volta a ser multicampi, com cursos presenciais. Isso ajuda a instituição a diminuir as barreiras no processo de formação profissional. O Bico do Papagaio, por exemplo, possui uma densidade populacional muito grande, mas muitos não têm condições de entrar em um curso superior e levar um dos nossos campi para essa região é muito importante; estamos contribuindo com a formação dos profissionais que atuam no ensino básico. Os alunos do campus de Araguatins ingressaram na instituição, por meio de vestibular, enquanto os alunos de Augustinópolis e Dianópolis foram transferidos de instituições de ensino superior, atendendo ao edital de Transferência lançado pela Unitins. Nesse caso, os estudantes darão continuidade ao seu curso a partir do período em que haviam parado.

Esse contingente de alunos que se formam tem alguma garantia de ingresso no mercado de trabalho ou tem alguma dificuldade por se tratar de ensino a distância? Não há resistência com relação a isso?
Não. Esse preconceito com relação ao ensino a distância caiu bastante. Hoje, está comprovado que o ensino a distância não perde nada em qualidade em relação ao ensino presencial. E no diploma não vem constando nada que diz que o aluno se graduou em ensino a distância. É igual ao ensino presencial. Hoje, o que vemos é que o empenho do aluno em ter uma boa formação pesa muito na sua formação profissional, a parte da instituição é ofertar as condições necessárias para que o aluno estude, se capacite e se forme. O ensino a distância dá muito mais ferramentas, muito mais condições que o ensino presencial.

Como está o projeto de transformar a Unitins em um grande centro de pesquisa e tecnologia, para contribuir com o desenvolvimento do Estado?
A universidade estadual é diferente da universidade federal, que contribui com o desenvolvimento do Estado e do País, só que ela é generalista, ou seja, atua em todas as áreas, e as estaduais têm a obrigação de focar naquilo que o Estado necessita, é mais regional, porque vem a atender as necessidades do Estado para ser um grande instrumento do desenvolvimento regional. Assim, a Unitins tem que priorizar as pesquisas nas áreas que sejam a vocação do Estado. Aqui, a instituição priorizou a área de ciências agrárias, que é uma grande vocação do Estado.

O agronegócio é o carro-chefe da nossa economia e, por isso, carece de investimentos em logística para a agroindustrialização do Estado.
Exatamente. Nós temos situação no Estado em que as pesquisas ainda são muito incipientes. Nós temos um clima e altitude diferentes de outras regiões do País. Nós temos, por exemplo, uma parceira com a Embrapa, em Formoso do Araguaia, para desenvolvermos uma variedade de arroz adaptada ao clima e ao solo tocantinenses, que é a várzea tocantinense. Nós temos uma alta produtividade na região de várzea aqui no Tocantins em fase de crescimento, mas nós não temos ainda uma variedade de arroz que é para a várzea tocantinense. As sementes utilizadas aqui ainda são aquelas desenvolvidas no Rio Grande do Sul, onde a variação de clima e solo é diferente. Portanto, com essa pesquisa, logo teremos uma variedade de arroz genuinamente tocantinense, bem como outras variedades de produtos, que o Tocantins precisa desenvolver. Buscar novas tecnologias é uma obrigação da Unitins, para dar um suporte para o desenvolvimento do Estado. Para isso, a instituição tem que sair da capital e ir para o interior. Concomitantemente, temos a responsabilidade de melhorar a qualidade de ensino no Estado, um papel que ela não pode abrir mão, que é a formação de professores. Uma das áreas que mais empregam no Tocantins é a educação.

Mas esse desenvolvimento do Estado não pode vir a qualquer custo, com prejuízos, por exemplo, ao meio ambiente.
O desenvolvimento de variedades adaptadas à região significa menos agrotóxicos e menos defensivos agrícolas. Não há como falar em tecnologia hoje sem estar aliada à preservação do meio ambiente. Não há como avançar em pesquisa sem levar em consideração a questão ética, aspecto que a universidade tem que ter como premissa básica, tem que se pautar. Nós temos condições de utilizar a tecnologia preservando o meio ambiente, produzindo alimentos de forma equilibrada, sem agredir a natureza.

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