“Há espaço para candidaturas alternativas como a nossa”

Candidato a governador pelo Psol anuncia a implantação de uma gestão profissional com enxugamento da máquina, escentralização administrativa e valorização da meritocracia como metas prioritárias do seu plano de governo

Élvio Quirino, candidato do Psol ao governo: “O cidadão será o foco da nossa gestão”

Élvio Quirino, candidato do Psol ao governo: “O cidadão será o foco da nossa gestão”

Ruy Bucar

Ele é o primeiro candidato a governador do Tocantins escolhido em convenção do seu partido. O professor Élvio Quirino, do PSol tem consciência do enorme desafio que tem pela frente. Tocar uma campanha por um partido nanico, sem recursos e com chances remotas de vencer as eleições, num Estado tradicionalmente comandado por grandes forças políticas. “Como o tema da nossa campanha é o cidadão em primeiro lugar, o cidadão também tem que de certa forma nos ajudar a mudar esse modelo de gestão e o modelo de prática política”, ressalta o candidato, que se diz otimista com a possibilidade de fazer uma campanha diferente, propositiva.

Élvio Quirino avalia que o fato de ser desconhecido da grande massa de eleitor não diminui as suas chances neste pleito, que tudo indica será marcado pelo sentimento de mudança. “Temos o exemplo do Carlos Amastha aqui em Palmas que tinha 1% das intenções de voto, jamais imaginado em sã consciência de qualquer analista nas áreas de sociologia política que ele poderia vencer as eleições e eu acredito que a vitória dele diz respeito ao conteúdo programático e a qualidade do debate que fez com os outros candidatos.”

Para o candidato do PSol esta será uma das eleições mais disputadas da história do Estado, mas diferente de outros pleitos de forte polarização entre governo e oposição, desta vez, segundo ele, há espaço para as candidaturas alternativas. Quirino prevê que a eleição será decidida no segundo turno e qualquer um dos candidatos tem chances reais de vencer. “Para nós, do ponto de vista do PSol pode ser aquilo que na economia o pessoal chama de janela de oportunidade”, analisa o candidato confiante na vitória.

Nesta entrevista exclusiva ao Jornal Opção o professor Élvio Quirino fala um pouco das suas propostas, e da crise institucional que vive o Tocantins. Ele alerta que a Lei da Ficha Limpa está sendo usada no Tocantins para eliminar concorrentes que podem ameaçar a hegemonia do poder local comandada pela família Siqueira Campos. O candidato se refere ao ex-governador Marcelo Miranda e o deputado Marcelo Lelis, cujas contas estariam sendo rejeitadas nos órgãos colegiados neste período eleitoral, com a nítida intenção de prejudicá-los.

O sr. leva vantagem por sair na frente como candidato a governador, ganha mais tempo para as articulações?
Ganho mais tempo para tentar dialogar com a população. A partir de agora temos mais liberdade junto aos meios de comunicação, às redes sociais e também jaos movimentos sociais, aos sindicatos, associações, para iniciar esse trabalho. Nós queremos junto ao candidato ao Senado, o Joaquim Rocha, fazer esse trabalho. Vamos fazer um planejamento dessa etapa para os próximos 15 e depois mais os 30 dias a partir do registro da candidatura nessa direção, e sempre explorando os meios alternativos de comunicação, principalmente o rádio. Acreditamos muito no rádio.

Será uma campanha alternativa com base na qualidade das propostas, em vez movimentação política?
Uma campanha de um partido pequeno, que não tem muitos recursos financeiros, que não tem um tempo de televisão muito grande, é muito racional fazer isso. Nós estamos iniciando um processo de dialogar também com os profissionais liberais de várias áreas para a gente formar um comitê de campanha de voluntários, de pessoas que queiram mudar a política e ajudar a implementar as nossas ideias, as nossas propostas. Penso que ninguém faz nada sozinho, você faz a partir do momento que você começa, a partir das suas ideias e seus projetos, aglutinar as pessoas em torno desses projetos e dessas ideias. Então a tarefa agora é como fazer com que esses projetos e ideias cheguem ao cidadão comum que está lá longe. O Estado é grande, são 139 municípios, a nossa estrutura é pequena, mas nós somos criativos e precisamos fazer um movimento de cidadania em torno da nossa campanha e do nosso projeto, trazer as pessoas para que elas se envolvam porque sem a população e sem o cidadão comum a nossa campanha não vai a lugar nenhum. Temos dificuldades de atrair as grandes empresas, os grandes investidores, as grandes financiadoras de campanha no Estado, e como o tema da nossa campanha é o cidadão em primeiro lugar, o cidadão também tem que de certa forma nos ajudar a mudar esse modelo de gestão e de prática política.

O sr. tem formação, é professor universitário e pertence a um partido de esquerda que tem princípios, mas para o cidadão comum é um candidato sem chances de vencer as eleições. Como vencer a indiferença do eleitor, que não adere porque às vezes não conhece?
A chance é pequena às vezes porque o eleitor não nos conhece, mas o processo eleitoral que tem mais de 90 dias para a campanha é a oportunidade de nos fazer conhecer. Então a partir do momento em que a sociedade começa a nos conhecer ela vai abraçando o projeto. Temos o exemplo do Carlos Amastha aqui em Palmas que tinha 1% das intenções de voto, jamais imaginado em sã consciência de qualquer analista nas áreas de sociologia política que ele poderia vencer as eleições. Acredito que a vitória dele nas eleições diz respeito ao conteúdo programático e a qualidade do debate que ele fez com os outros candidatos. Não é só a questão financeira, tática e estratégica, de fato é a qualidade das propostas, a serenidade de apresentá-las, a forma comum de falar ao cidadão, no caso o Amastha é até um colombiano mas conseguiu transmitir a informação ao eleitor. Diferente do Estado que é muito grande, a capital é um território bem menor, mas eu acredito que é possível fazer esse diálogo. Aí a campanha se fortalece por si só. Até digo que a nossa campanha nasceu pequena, mas vai crescer, com certeza, ao longo do tempo. A tarefa maior nossa não é só ganhar as eleições, é fazer um debate qualitativo apresentando as propostas e quem sabe até os nossos adversários, ao longo desse processo eleitoral, vão comprando algumas ideias que nós colocaremos no debate. Agora o potencial de crescimento existe e nós acreditamos que isso fará a diferença.

De que forma está sendo organizado o seu plano de governo para que a sua gestão se torne diferente e melhor do que o que já foi feito até agora?
A principal diferença é a ideia de ter uma gestão mais técnica do aparelho de Estado. Profis­sio­nalizar a gestão pública e transformar a gestão de forma mais meritocrática, que as pessoas que ascendam ao poder dentro da estrutura do Estado tenham competência técnica para administrar os órgãos, não só que tenham vínculação política ao sistema. Essa é a principal diferença. As últimas pesquisas de ordem qualitativa mostram que a população do Tocantins tem interesse de colocar para gerir o aparelho de Estado um perfil mais técnico que político. Nesses 25 anos prevaleceu o perfil político e não tem sido bom os resultados do ponto de vista da gestão pública. Então a ideia de arriscar num perfil mais técnico é racional. O cidadão racionalmente ao ser consultado já está dando a origem e nos orientando na bússola para onde a gente tem de dirigir. Por isso estamos com o foco muito forte nessa questão da gestão pública, de melhorar, qualificar e fazer diferente, em vez de indicar as direções regionais dos órgãos a gente vai deixar os próprios servidores que trabalham alguns até há 20, 25 anos, escolher quem eles querem como seu chefe para que o órgão dê mais resultado à população. Essa é uma das mudanças.

Em síntese, quais as propostas mais importantes do seu plano de governo?
Na área do desenvolvimento econômico precisamos tirar a cultura da dependência da gestão pública tanto no aparelho do Estado como nas prefeituras, para uma economia mais empreendedora do comércio, do serviço, da indústria, em especial da agroindústria, porque o potencial do Tocantins não é indústria, mas a agroindústria. Isso está no nosso plano de governo e com isso se dinamiza a economia do setor privado e aumenta a arrecadação. Precisamos de um Estado mais enxuto e nesse sentido a gente precisa fazer nem é um choque, mas uma tempestade de gestão para diminuir a estrutura do aparelho de Estado. Hoje o Tocantins tem mais de 40 mil empreendedores individuais e queremos apostar nesses microempreendedores individuais para que eles possam se fortalecer e se transformarem em empresas, e essas empresas possam contribuam com a base de arrecadação. Diga-se de passagem 40 mil não é um número pequeno, então precisamos apoiar com crédito, com assistência técnica, com incentivos de várias ordens para que eles cresçam. Eles crescendo cresce toda economia, gera emprego, gera renda e o Tocantins vai sair um pouco dessa dependência cultural do setor público.

O que o sr. pretende fazer para mudar a realidade de falência da saúde?
Queremos colocar o atendimento ao cidadão em primeiro lugar. Hoje vem primeiro a burocracia, e o atendimento é último e às vezes muito demorado. Quando você consegue uma consulta com o médico ele pede exame e os exames também demoram. E demora a conseguir o retorno e uma doença que era primária vira uma doença secundária e quando o paciente consegue levar o laudo que faz a prescrição, e vai atrás do medicamento, não tem, ele fica esperando chegar. É um sistema de saúde, embora focado no SUS, equivocado e que precisa ser melhorado. É isso que nós vamos fazer.

O sr. fala em construir seis hospitais. O ex-governador Siqueira Campos prometeu construir 19 e não construiu nenhum. Não é uma meta ousada demais?
Sim, vamos construir seis hospitais regionais de forma muito rápida e de modelo diferente dos sistemas tradicionais, utilizando novos materiais, novas tecnologias de fabricação de construção civil. E com novas formas de editais dessas obras públicas, mais inteligentes e mais eficazes do que as que temos.

O sr. promete fazer uma revolução na área da educação, como vai fazer?
Vamos fazer uma grande revolução na educação nas escolas de tempo integral construindo mais rápido em sistemas mais eficientes. Não podemos demorar dois a três anos pra construir uma escola, depois mais dois a três para equipa-las. O que nós vamos fazer é mudar o modelo e aí disponibilizar também os equipamentos, para não pegar as escolas tradicionais e fazer apenas uma pintura, troca de nome para escola de tempo integral. Isso é meio que irresponsável, nós não podemos estar atrás só de meta e número de escolas, temos que pensar desde o início na qualidade e vamos fazer isso. No ensino médio também precisamos fazer mudança, que é inserir a cultura do empreendedorismo para que o próprio estudante já comece a formação tendo a vivência com essa cultura do mundo dos negócios. Gostaria de acrescentar que uma das principais propostas nossas é montar uma central de elaboração de projetos que não vai servir só ao Estado, mas também a todos os municípios, onde vamos apresentar projetos de melhoria das vias urbanas, do paisagismo sustentável nas pequenas cidades, na questão da acessibilidade nas pequenas cidades, olha o exemplo da cidade de Palmas, em um ano e meio de gestão o prefeito conseguiu trazer 1 bilhão de reais para o orçamento, recursos federais. Se o prefeito da capital trouxe 1 bilhão porque nós não podemos trazer R$ 10 bilhões por meio do governo do Estado? É só elaborar os projetos, não pode é ficar viajando daqui pra Brasília de mãos abanando, achando que só porque tem uma relação com ministro o recurso vem. Não é assim, o Brasil mudou a forma e os governantes não mudaram seu estilo.

Como o sr. avalia o cenário da disputa eleitoral que caminha para ser uma das mais disputadas e ao mesmo tempo com maior grau de judicialização?
De fato vai ser muito disputada. Qualquer um hoje tem condição de ganhar essa eleição, não é uma eleição onde um candidato tem 60% dos votos como em outros Estados. E ainda mais por causa da renúncia do governador e do vice, que nos lança numa situação de muita instabilidade no mundo político. Para nós, para o PSol, pode ser aquilo que na economia o pessoal chama de janela de oportunidade para que a gente consiga, embora o filtro seja muito fino, passar nesse processo.

“O Marcelo Lélis, do PV, tem índice acima de 17% das intenções de voto, então ele se torna uma ameaça a quem domina o aparelho político. Da mesma forma o ex-governador Marcelo Miranda”

“O Marcelo Lélis, do PV, tem índice acima de 17% das intenções de voto, então ele se torna uma ameaça a quem domina o aparelho político. Da mesma forma o ex-governador Marcelo Miranda”, avalia Élvio Quirino

O sr. alerta que Lei da Ficha Limpa pode estar sendo usada no Tocantins para eliminar adversários potencialmente fortes. Como assim?
No caso do Tocantins o Marcelo Lelis, pelo PV, apresenta um índice acima de 17% de intenções de voto, então ele se torna uma grande ameaça para quem está no aparelho político do Estado liderado pelo SD. Ele tem processos que estão tramitando na Justiça aparentemente tendo forças externas ao governo, dentro dos poderes Legislativo, Judiciário para acelerar esses processos, o que é muito ruim para democracia, porque essa lei foi construída no sentido inverso disso, de dar mais liberdade e criar um filtro para que as pessoas que tenham passado ruim não entrem na gestão pública. No caso do Marcelo Miranda, que é muito conhecido no Estado e muito querido também, da mesma forma, o que a gente percebe é que parece que há forças ligadas ao Poder Le­gislativo no sentido de trazer uma condenação muito próxima do período eleitoral, criando dificuldades para esses dois adversários. Até porque as pesquisas qualitativas e quantitativas mostram que Marcelo Miranda, do PMDB, tem mais de 40% das intenções de votos. E pode estar sendo a estratégia dos grupos que estão no poder há 25 anos e indicaram pessoas nos Tribunais de Justiça e de Contas, no Tribunal Regional Eleitoral e tem maioria na Assembleia Legislativa. Então de certa forma acabam tendo o poder de acelerar, de atrasar processos, de pedir vistas de processos, para beirando o processo eleitoral os candidatos não terem chances de ampla defesa a tempo hábil de ingressarem na disputa eleitoral.

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