“Foi a descoberta de uma vida paradisíaca nas Américas que acabou com a monarquia no Brasil”

Escritor mostra, por meio de pesquisa, que a fuga da colonização formou o que o país é atualmente

Escritor, documentarista e fotógrafo Alexandre Acampora | Foto: Lia Mara

Escritor, documentarista e fotógrafo Alexandre Acampora | Foto: Lia Mara

Gilson Cavalcante

De acordo com o escritor, documentarista e fotógrafo Alexandre Acampora, no início do século XV, havia 40 milhões de índios no Brasil, número que foi reduzido para 3 milhões em apenas dez anos. “Quer dizer, nunca houve massacre de índio igual na humanidade. Essas populações foram dizimadas”, sustenta Acampora, na entrevista que concedeu ao Jornal Opção. Ele é autor do livro “Burangaba”, que deve ser lançado em breve. A obra foi contemplada no edital da Funarte sobre cultura negra e contém mais de 300 páginas, com depoimentos e fotografias. O pano de fundo do livro é a comunidade Jacuba, de Natividade, no Sudeste tocantinense, cenário que o escritor utiliza para contar uma série de episódios socioculturais e místico-espirituais. Acampora levanta, também, outra discussão paradigmática sobre a inexistência do mameluco. Na sua pesquisa, ele diz que o mameluco não é uma categoria antropológica. As categorias antropológicas, segundo afirma, são o cafuzo, o mulato e o caboclo, que representam as várias integrações dos europeus com o índio e o negro. “Eu descobri que o mameluco é um vassalo dos monarcas árabes e um hábil guerreiro. Os mamelucos foram usados como mercenários”, conta.

Ele cita na obra que Dom Sebastião, o rei que praticamente governou o primeiro período de colonização do Brasil, era aliado do grande Califa do Marrocos. “Dom Sebastião morre na batalha de Alcácer-Quibir, que hoje é interpretada pelas Cavalhadas. Mas ele (Dom Sebastião) morre nessa batalha lutando ao lado de um monarca mulçumano, que era seu aliado. Essas alianças eram muito comuns entre monarquias da Europa e grupos de líderes políticos da África. A maioria dos exércitos do mundo era formada por mercenários. Então, a verdade é que muito provavelmente foram utilizados mamelucos reais como mercenários na frente das Bandeiras. O que a história oficial descreve é que os mamelucos eram guerreiros imbatíveis e matavam os índios sem piedade, faziam empalamentos”.

O sr. está com um novo livro, cujo nome é curioso: “Burangaba”. O que é essa obra, que participou e foi contemplada no edital do Ministério da Cultura, pelo Rio de Janeiro, mas tem o Tocantins como pano de fundo?
Burangaba é como uma jacuba, uma massa, uma mescla, uma mistura de vários elementos. A palavra é um neologismo e significa uma mistura de buriti, manga e mangaba, cuja polpa é batida com farinha e água, como se fosse uma sembereba, que se usa muito por essas plagas do Tocantins, como alimento. É um alimento do sertanejo, alimento de sobrevivência, muito apreciado pelos afrodescendentes. Alimento criado e apreciado pela cultura da comunidade do Jacuba, em Natividade.

Por que o sr. recorreu à essa metáfora para fazer uma obra com mais de 300 páginas?
O livro é sobre a gênese e a arte de Romana de Natividade. A Ro­mana, para mim, é a Mãe Anímica do Tocantins. Ela teria o valor que a Mãe Menininha do Gantois tem para a Bahia. E que outros líderes religiosos possam ter para outras comunidades. Agora, acontece que a Romana tem uma particularidade muito forte, muito original, ela mitificou a arte que produz (em arame, cimento, madeira e pedra canga). A religião de Romana resulta de uma produção artística, resulta de uma projeção de sentimentos, uma projeção de visão de mundo. Ela estruturou uma mitologia, estruturou uma narrativa mágica, que amarra toda a criação dela. E essa mitologia é como uma burangaba, uma mistura de vários elementos.

Quem é Romana?
Romana é a líder de uma comunidade de centenas de seguidores, adeptos, médiuns espíritas formados por ela, vizinhos, músicos e foliões. Frequentam também essa comunidade os parentes, irmãos e primos e peregrinos à busca de cura e conforto espiritual. Seu trabalho artístico-religioso agrupa múltiplas referências. Não se poderia nomear sua mitologia no contexto do candomblé e menos ainda na umbanda, mesmo que o ecletismo indique uma complexidade superior ao conceito de sincretismo. Africanos não identificavam seus símbolos por substituição aos dos cristãos por aceitação de influências, ao contrário, mascaravam os orixás com imagens cristãs para escapar da opressão e da censura do colonizador. Esse hábito da fuga à opressão aos cultos africanos ainda hoje é percebido nas imagens e preces adotadas e criadas por Romana. Vários arquétipos da Igreja Católica estão presentes, como na umbanda. E ali, na arte de Romana, parecem servir como ilustração a uma nova e original criação do sagrado. Tal qual o budismo, que se auto define como arte e não como religião, traduziremos o trabalho de Romana de Natividade.

Quando o sr. começou essa pesquisa?
A pesquisa foi iniciada em 1998. Em 1999 produzimos um filme curta metragem sobre a arte de Romana. Trata-se da película “O Equilíbrio do Eixo do Planeta”, vencedor de uma menção honrosa no Festival Inter­nacional de Cinema Am­biental (Fica) de Goiás. O re­co­nhe­cimento foi obtido na categoria Ecologia e Espiri­tualidade. Depois da realização do filme, aprofundamos nossa relação com o trabalho de Romana e perseguimos o objetivo de historiar sua vida, sua arte e suas ações de fraternidade e compaixão, sua intensa vida comunitária. Fizemos um site, que é a consecução de parte de nossos objetivos. Está subdividido em galerias de fotos com textos e conta com um acervo de 1.200 fotografias retratando o Jacuba, território onde se situa o Centro Bom Jesus de Nazaré, sítio onde Romana define seus fundamentos espirituais e artísticos e onda forma uma co­munidade quilombola de vínculo consanguíneo, todos os seus habitantes são irmãos ou parentes de Romana.

No livro, o sr. cita o escritor argentino Jorge Luís Borges. Por quê?
Num determinado mo­mento do livro, eu sou levado a identificar o parque de esculturas de Romana com o conceito do Aleph, do escritor argentino Jorge Luís Borges, que representa, como símbolo, todo o universo. Estar no parque de Romana de Natividade talvez seja como a experiência do Aleph, a experiência de estar num lugar no momento em que todos os mo­mentos estão juntos, misturados, porque as esculturas representam os saberes da humanidade, que são elaboradas por ela (Romana), que nunca teve uma educação clássica. Na narrativa, favoreço muito o processo educacional, a figura do pai dela, chamado de Mar­colino, já falecido, porque ele era um homem encantado. As pessoas de Natividade iam à casa de Marcolino para escutar suas histórias e memórias. Ele manuscreveu dois romances: “A onça do Jacuba” e o “Sorteado da Pátria”. Este é uma comédia maravilhosa, porque, no mo­mento em que Marcolino foi convocado para tirar o serviço militar (a convocação era feita por sorteio à época) foi um dos sorteados e foi a pé para São Paulo, durante quatro meses de caminhada. Para ir a pé, ele fez uma sandália de couro de anta. Ao chegar ao quartel, a primeira coisa que lhe acontece é o roubo de suas sandálias. Então, ele resolve escrever o romance, que é ótimo, engraçado e irônico, com relação ao papel e o comportamento dentro das instituições.

É possível dizer que ele foi uma influência direta para ela?
Romana é filha de uma homem que deu aos filhos uma educação sensitiva. Eu também proponho no livro que tal educação também seja dada às crianças modernas, para que elas compreendam melhor o potencial energético que elas têm. Marcolino colocava os seus filhos para escutarem o chão, para escutarem barulhos longínquos. Colo­cava os filhos para sentir o vento.

Mas existe outro viés no projeto editorial, que não seja o meramente místico-cultural?
Pois é, o “Burangaba” é justamente uma grande mescla. Eu levanto uma discussão no âmbito da historiografia. Eu estou levantando a seguinte discussão: nos primeiros brasileiros, o verdadeiro sentimento de nacionalidade resulta dos grupos sociais marginalizados à colonização, dos grupos sociais que combateram a colonização como os índios, os negros, os degredados da Justiça, os europeus banidos de todas as nacionalidades. Essas pessoas carregavam um desejo de autonomia, de afirmação, de independência, de construção de uma vida nova. São os descobrimentos que vão influenciar a Revolução Francesa, e isso já foi dito por Eduardo Galeano [jornalista e escritor uruguaio]. Eu não precisei repetir no meu livro, mas é a descoberta dessa vida paradisíaca nas Américas que vai acabar com a monarquia. Os que invernaram primeiro pelos gerais, fugindo do colonizador europeu traziam o sentimento de autonomia e liberdade. Esses são os primeiros brasileiros e esses são os primeiros povoadores do hoje Tocantins. Gente que escapava da Coroa, da violência das Bandeiras, que escapava da violência dos capitães de mato e da violência que foi perpetrada contra os índios, que não têm par na humanidade. O que se calcula – e eu digo no meu livro – é que havia, no início do século XV, 40 milhões de índios no Brasil, falava-se 1.300 idiomas. Dez anos depois, esse número estava reduzido para 3 milhões de pessoas.

Foi um massacre.
Nunca houve massacre de índio igual na humanidade. Essas populações foram dizimadas. Eu levanto, também, outra discussão paradigmática sobre a inexistência do mameluco. O mameluco não é uma categoria antropológica. As categorias antropológicas são o cafuzo, o mulato e o caboclo, representando as várias integrações dos europeus com o índio e com o negro. Eu vim a descobrir que o mameluco é um vassalo dos monarcas árabes e um hábil guerreiro. Os mamelucos foram usados como mercenários. Dom Sebastião, que foi o rei praticamente governou o primeiro período de colonização do Brasil, era aliado do grande Califa do Marrocos. Dom Sebastião morre na batalha de Alcácer-Quibir, que hoje é interpretada pelas Cava­lhadas. Mas ele (Dom Sebas­tião) morre nessa batalha lutando ao lado de um monarca mulçumano, que era seu aliado. Essas alianças eram muito comuns entre monarquias da Europa e grupos de líderes políticos da África. A maioria dos exércitos do mundo era formada por mercenários. Então, a verdade é que muito provavelmente foram utilizados mamelucos reais como mercenários na frente das Bandeiras. O que a história oficial descreve é os mamelucos eram guerreiros imbatíveis e matavam os índios sem piedade, faziam empalamentos. O que pode ter acontecido é os portugueses teram usado mamelucos brasileiros contra cafuzos, mulatos, mas nunca como identidade antropológica.

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