“Fizemos planejamento para garantir acesso e sucesso aos nossos alunos”

Secretária de Educação afirma que greve dos professores deflagrada no ano passado não impediu a reorganização do setor, incluindo a estrutura curricular

Foto: Elias Oliveira

Dock Júnior

Diagnóstico apurado e efetivo sobre a realidade da educação no Tocantins norteou mudanças na área, a começar pelo currículo e pelo fortalecimento da aprendizagem. Esse é o trunfo maior da titular da Secretaria de Estado da Educação, Juventude e Esportes (Seduc), Wanessa Sechim, neste início de mais um ano letivo. Ela tem formação em pedagogia e especialização em Planejamento Educacional, além de qualificação profissional pelo Programa de Capacitação em Serviço da Gestão Escolar (Progestão) e curso de Administração Pública Contemporânea pela Educon/Unitins.

Com vasta experiência na área educacional, possui experiência em todos os setores da educação básica ao ensino superior. Atuou como professora, supervisora escolar, diretora e orientadora pedagógica em instituições de ensino no Estado do Espírito Santo. No Tocantins, ingressou na docência do ensino superior lecionando nos cursos de Pedagogia e Matemática na Fundação Universidade do Tocantins, no Campus de Arraias, no sul do Estado.

Servidora de carreira da Educação tocantinense, Wanessa Zavarese Sechim foi coordenadora Regional de Ensino Pedagógico na Diretoria Regional de Educação (DRE) de Dianópolis e nomeada delegada Regional de Ensino de Gurupi. Trabalhou também como assessora de Planejamento da Seduc e foi membro do Conselho Estadual de Educação do Tocantins. No Espírito Santo, foi subsecretária de Estado de Educação Básica e Profissional (Sedu/ES), secretária municipal de Educação de Vila Velha e secretária municipal de Educação, Cultura e Esporte de Nova Venécia.

A sra. assumiu a Seduc em junho de 2016, após o governador Marcelo Miranda deixar claro em discurso que a educação era um setor prioritário da sua administração. Concomitantemente, a sra. disse que a primeira ação à frente da pasta seria realizar o mapeamento da atual conjuntura da educação da rede estadual para a retomada do planejamento estratégico. O que a sra. encontrou? O que ainda precisa ser feito? Quais as prioridades da secretaria nesse momento?

Assumi a pasta em 27 de junho de 2016 e três dias após minha posse, iniciou-se o período de férias escolares. Tão logo foi reiniciado o semestre em agosto, após decorrer apenas nove dias, foi deflagrada uma greve de professores, que se prolongou até meados de novembro. Foram aproximadamente 70 dias letivos de paralisação e mais de 90 dias corridos.

É importante ressaltar que das 515 escolas da rede estadual, 302 não paralisaram em nenhum momento suas atividades, 126 pararam parcialmente e 87 paralisaram totalmente. Portanto, 2016 foi um ano atípico para a educação no Tocantins. Foram seis meses de administração em meio a dificuldades, agravada por uma crise financeira que grassa por todo país, que acaba por atingir todos os Estados e municípios.

Várias avaliações foram divulgadas em 2016 e se tornaram conhecidas pela sociedade brasileira, como o resultado do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), que, infelizmente, comprovaram que a educação nacional não conseguiu avançar muito nos últimos dez anos. O Estado do Tocantins, naturalmente, está inserido neste contexto e há a necessidade de melhorias no processo de ensino e aprendizagem.

Simultaneamente a divulgação dos resultados, a equipe da Seduc e das diretorias regionais – às quais aproveito o momento para agradecê-las – iniciaram um diagnóstico apurado e efetivo sobre a realidade da educação no Tocantins, com bases nos dados oficiais. Entendemos que precisávamos fazer grandes mudanças, começando pelo currículo e pelo fortalecimento da aprendizagem. Definimos objetivos e metas claras, voltadas para a garantia do acesso, do atendimento,
da permanência e do sucesso dos nossos alunos. Esse diagnóstico norteará os anos de 2017 e 2018.

Como já exposto, os professores da rede estadual declararam greve no segundo semestre de 2016. Evidentemente que tal fato influiu no calendário escolar. Como a sra. contornou esse problema e quais as soluções apresentadas?

Foi uma situação atípica, visto que não houve unanimidade em relação ao movimento grevista. Por isso, cada uma das escolas – com autorização desta Pasta, elaborou novos calendários visando a reposição das aulas. É que algumas escolas paralisaram por 20 dias, outras por 40 dias e algumas delas pelo período total. Nestas circunstâncias, a melhor saída era a adoção do bom senso. Em 2017, algumas escolas iniciaram repondo aulas de 2016. Outras começam o semestre letivo normalmente, sem sábados letivos e com possibilidade de alcançar melhores resultados.

É importante ressaltar esses números minuciosamente: das 515 unidades escolares, 362 escolas iniciaram normalmente suas atividades no dia 23 de ja­neiro passado, ou seja, 72% de­las, o que representa mais de 100 mil alunos. As outras unidades estão em processo de reposição, de acordo com o tempo de paralisação, e encerrarão o ano letivo 2016 em fevereiro. Outras tantas, apenas em março de 2017.

Visando unificar o calendário escolar, a Secretaria da Educação já definiu que o prazo limite para o encerramento das atividades de 2017: 19 de janeiro de 2018. A partir do ano que vem, o planejamento é que todas as escolas sigam o mesmo calendário e cronogramas.

E quanto ao calendário letivo de 2017, em razão da greve, o que ficou definido?

Para aquelas unidades escolares que não tiveram paralisação, iniciamos o ano letivo em 23 de janeiro e já colocamos fim aos sábados letivos. O foco é no planejamento pedagógico e no processo de ensino/aprendizagem, e realizaremos, por exemplo, dois simulados para o Enem, um em março e outro em setembro, para que o aluno treine e viva o clima do exame.

Não bastava mudar o calendário, era necessário mudar o currículo. A escola precisa apoiar os alunos a realizarem seus sonhos. Ouvindo-os, pudemos entender que seus maiores anseios são: entrar na faculdade e, segundo, se inserir no mercado de trabalho. Analisando o que oferecíamos, percebemos que havia um grande hiato. Por isso reorganizamos tudo isso, inclusive a estrutura curricular. Re­du­zimos o número de alunos por sala de aula e também as aulas de 60 para 50 minutos. Aumen­ta­mos a carga de quatro aulas diárias para cinco, por consequência, de 20 aulas por semana para 25. Aumentamos também o número de aulas de português e matemática, em todos os níveis de ensino e mo­da­lidades, porque era necessário au­mentar o desempenho dos alunos nes­sas duas áreas, além das disciplinas de redação e inglês desde o nível fun­damental. Incluímos também as disciplinas física e química ainda no nono ano, preparando-os definitivamente, para ingressar no ensino médio.

Em contrapartida, desde o início do movimento paredista, a Secretaria da Educação afirmou que o governo do Estado era sensível às causas dos servidores públicos tocantinenses e se mantinha aberta ao diálogo com todas as categorias para que os direitos de todos fossem garantidos, dentro da atual realidade de crise econômica brasileira. Contudo, o presidente da entidade classista tem criticado sua postura, principalmente em relação a adoção de vários calendários letivos. Como a sra. recebe essas manifestações e como lida com isso?

Me reuni várias vezes com os dirigentes das entidades de classe, uma vez que o diálogo está sempre aberto. Ouvimos as reivindicações dos professores, por intermédio do sindicato. Penso que o caminho para uma greve que não foi unificada, não poderia ser a adoção de um calendário padronizado, face às es­pecificidades de cada escola. Por is­so, abri o precedente para que cada u­ma das unidades escolares se reorganizasse de forma a cumprir o número de horas/aulas exigidos, mes­mo porque além da fiscalização da própria Secretaria, o Ministério Pú­blico também acompanhará tal car­ga horária, na condição de fiscal da lei. Estou, portanto, tranquila em re­lação a estas críticas, visto que o em­basamento para tal decisão teve como princípio prioritário, o bom senso.

No dia 19 de janeiro iniciou-se o período de renovação de matrículas e transferência automática para alunos da rede estadual. Para tanto, os estudantes utilizaram a ferramenta denominada SGE. Como funciona essa nova modalidade de ingresso e transferência?

É um sistema de matrícula que já se encontra em operação, mas ainda em fase experimental, visto que ainda necessita alguns avanços e aperfeiçoamentos. Todavia, há uma equipe de plantão em um número 0800 para esclarecimentos de eventuais dúvidas acerca do sistema, informações sobre endereços das escolas e outras, para aqueles que não utilizam a internet. A área de tecnologia foi eficiente e o sistema atendeu bem as expectativas iniciais. Os próprios pais, por exemplo, se adaptaram bem à nova modalidade de matrícula, que potencializa possíveis transferências para escolas mais próximas da residência de cada um, ou que visam confluir interesses de dois irmãos estudarem na mesma unidade escolar.

a escola tem obrigação social de ensinar ler, escrever e contar, contudo, a educação na sua essência — princípios e va­lores— deve vir de berço. esse papel da educação humanizada é interdisciplinar” | Foto: Divulgação

Muito se fala em educação humanizada, bem como em focar o aluno e seu processo de aprendizagem. Como isso funciona na essência?

Em que pese a humanização da educação ser muito abrangente, cumpre ressaltar que a escola tem uma obrigação social de ensinar ler, escrever e contar, contudo, a educação na sua essência – princípios e va­lores – deve vir de berço. En­tre­tanto, esse papel da educação humanizada é interdisciplinar. Todos nós professores temos a responsabilidade de trabalhar para a formação de cidadãos mais críticos, mais ativos, mais participativos, etc. Essa é a pro­posta. É mais fácil trabalhar tu­do isso quando se tem mais tempo com os alunos, e é exatamente por isso que há uma meta no plano estadual de tempo integral, ampliando a oferta. O Ministério da Educação, inclusive, apoia iniciativas dos governos estaduais para que isso ocorra também no ensino médio, uma vez que há uma oferta muito tímida no Brasil, talvez pelo alto custo. Porém, o Estado do Tocantins irá ampliar essa oferta com mais 12 escolas, com o apoio do MEC: 3 em Araguaína, 3 em Arraias, 2 em Palmas, uma em Colinas, uma em Dianópolis, uma em Gurupi e uma em Tocantinópolis.

Há algum tempo a sra. disse que esta gestão está pautada em quatro eixos: no Acesso, que incluiu todos os meios para que o aluno chegue à escola; no Atendimento, voltado para a qualidade; na Permanência, que será direcionada de acordo com a parte diversificada da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), de forma que combata a evasão escolar; e na Aprendizagem, que envolve a avaliação e o planejamento do processo do último eixo. Esse modelo de gestão já está funcionando no Tocantins ou ainda está em fase de implantação?

Cada um desses eixos possui várias ações em desenvolvimento. O Acesso, por exemplo, se resume a todas as possibilidades de o aluno chegar à escola, que vai desde o transporte escolar – e todas as possibilidades de parcerias com os municípios – até a disponibilização da matrícula na rede, esse ano, algo em torno 180 mil vagas em todo o Estado. Estudos disponíveis no site do FNDE comprovam, e também faço questão de ressaltar, que é mais vantajoso e econômico manter as escolas no campo, nas comunidades quilombolas ou indígenas, em vez de transportar esses alunos por longos quilômetros. O campo há de ser produtivo e isso ocorre apenas se houver desenvolvimento, po­rém, como não poderia deixar ser, o que traz desenvolvimento é a educação.

No que concerne aos eixos Atendimento e Permanência, estão inclusos na proposta pedagógica explicitada anteriormente, que é o estabelecimento do calendário letivo, da estrutura curricular e conteúdos definidos. Para atender bem e com qualidade, evitando a evasão escolar, é necessário uma escola focada na aprendizagem dos alunos. Esse é o desafio.

O quarto eixo, os frutos da Aprendizagem, que é a consequência do trabalho alinhado, articulado e desenvolvido pelas escolas – dentro da proposta pedagógica – visa favorecer e aperfeiçoar o processo de aprendizagem dos nossos alunos no decorrer dos próximos anos.

Recentemente o governo federal lançou o Mediotec, uma extensão do Programa Nacional de Acesso ao ensino técnico para estudantes do ensino médio. O ministro da Educação e o presidente da República anunciaram recursos na ordem de R$ 800 milhões para tal programa. Como ele funciona? O Tocantins foi beneficiado?

Em termos regionais, nosso Estado trabalha com o Pronatec e Redetc, que disponibilizam cursos técnicos de nível médio, que qualificam profissionais para o mundo do trabalho. O primeiro é presencial e o segundo, à distância, que funcionam em vários polos e municípios. Fazemos a cessão de servidores para o funcionamento dos cursos e há toda uma estrutura tecnológica. Quando assumi a Pasta, havia um desafio muito grande a ser enfrentado: certificar tais cursos. Hoje, já receberam os certificados mais de 5 mil alunos em todo o Estado.

Quanto ao Mediotec, nesta primeira fase, o Estado do Tocantins não foi contemplado. Para as próximas edições, buscaremos os mecanismos para que nossos jovens sejam beneficiados pelo programa. É necessário, contudo, destacar a necessidade de professores qualificados e laboratórios equipados para as aulas práticas, que é o grande desafio dos cursos técnicos.

A Seduc, além de ser responsável pela educação estadual, também detém a missão de gerenciar os assuntos da juventude e dos esportes. Quais os projetos mais relevantes destinados a essas áreas?

Há alguns projetos em andamento em relação a juventude, que é focar o fortalecimento e ampliação dos grêmios estudantis. Nesses grêmios há vários líderes que são de fundamental importância para auxiliar a gestão das escolas. Esse protagonismo juvenil precisa ser reaceso no Tocantins. Quando exerci o cargo de diretora regional de Gurupi, implantamos o grêmio estudantil em todas as escolas, inclusive naquelas de ensino fundamental. Os alunos se envolvem verdadeiramente e nos ajudam a entender o que eles precisam e querem da escola e isso é muito importante. Esse é o grande desafio para 2017.

Na área de esportes temos alguns programas e projetos grandiosos, como os jogos estudantis, maratonas e outros, que estão previstos no PPA e que vamos continuar executando, mesmo porque essa é determinação do governador Marcelo Miranda.

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