“Espero que o governador tenha soluções para a crise”

Deputado federal do PSD nega ter se encontrado com Marcelo Miranda, mas diz que a porta para o diálogo está aberta

Irajá Abreu: PSD presente no Estado

Foto: Divulgação

Dock Junior

Um balanço de seu partido, que voltou a ser forte no Tocantins, e de sua atuação como congressista em Brasília. É o que faz nesta entrevista o deputado federal Irajá Abreu, empresário e produtor rural, natural de Goiânia e graduado em Publicidade e Propaganda, cuja base política fica entre Palmas e Gurupi. O parlamentar é filho de Irajá Silvestre e da senadora Kátia Regina Abreu, ministra da Agricultura. Bem situado acerca do contexto político brasileiro, o deputado recebeu o Jornal Opção no diretório do PSD, que ele preside no Tocantins. Em recesso parlamentar na Câmara Federal, em Brasília, o parlamentar esteve em plena atividade no Estado, durante esse período. Ele falou sobre seus mandatos, a condução da sigla partidária no Estado, possíveis alianças e suas perspectivas para a eleição municipal de 2016.

O sr. se reuniu com o governador Marcelo Miranda recentemente, como foi divulgado? Existe possibilidade de retomada da aliança e que algumas pastas fiquem com seu grupamento político?
Esse encontro nunca aconteceu. Respeito muito o jornalista Cleber Toledo, mas quando eu li a reportagem sobre esse boato, eu liguei para ele e desmenti o encontro. Também disse que ele deveria ter checado a informação comigo, já que ele tem acesso a mim. Compreendo que ele tem as fontes jornalísticas dele, mas de fato, esse encontro nunca existiu, e nem tampouco para negociar secretarias.
Todavia, o fato de não havido esse suposto encontro, não significa que não estamos abertos ao diálogo com quem quer que seja. Estamos dispostos a discutir política sempre, com governador, senadores, deputados, prefeitos ou vereadores, visando o bem do Estado do Tocantins.

Como é a sua relação com o governador Marcelo Miranda, bem como com os seus pares federais e estaduais e também com os senadores pelo Tocantins?
Uma relação muito respeitosa dentro da própria bancada tocantinense, tanto deputados quanto senadores. Todos nós temos demonstrado compromisso com os municípios tocantinenses que representamos, colaborando para o sucesso do Estado. Para que ocorra esse sucesso, é necessário que governo do Estado tenha êxito na sua gestão e com toda franqueza torço para o Marcelo Miranda faça um bom governo, mesmo porque o sucesso do governo dele trará ganhos para toda a população tocantinense. Sabemos das dificuldades que o governo tem enfrentado e não é apenas o Tocantins, pois a maioria dos outros entes federados assim como a própria União passam por um momento de crise. Mas eu espero que o governo tenha muita responsabilidade e sabedoria para saber lidar com essa crise econômica de forma a encontrar as melhores soluções.
Quanto aos deputados estaduais, tenho convivência com a grande maioria deles e trocamos muitas experiências. Claro que meus encontros mais assíduos e mais próximos são com os dois deputados do meu partido, Valdemar Junior e Toinho Andrade. Temos feito reuniões quase que mensais com vereadores, prefeitos e membros da executiva estadual. Há harmonia entre os membros do partido e poucas divergências. Nossa relação é amistosa e eles têm demonstrado, quase unanimemente, que confiam no meu trabalho na condução do partido e me sinto gratificado por isso.

Este ano tem eleições municipais e dentro deste contexto é evidente que o PSD vai se posicionar em várias localidades, quer seja lançando candidaturas, quer seja apoiando aliados políticos. Já há um posicionamento partidário pelo menos nas seis maiores cidades, que são Palmas, Araguaína, Colinas, Gurupi, Paraíso e Porto Nacional?
Não, o que existe, por enquanto, são diálogos constantes com prefeitos candidatos à reeleição e com pré-candidatos. O PSD fez parte da coligação que elegeu o governador Marcelo Miranda e a senadora Kátia Abreu, no entanto, não participa ativamente do governo. Tomamos outros rumos tanto na capital, por mais incrível que possa parecer, visto que o prefeito Carlos Amastha já foi um desafeto, e no interior e buscamos espaços nas administrações municipais, principalmente nas cidades citadas. Traçamos essa estratégia visando ajudar, através das nossas lideranças aliadas aos referidos prefeitos, os municípios tocantinenses. Naquele momento, fizemos alianças administrativas, mas não houve compromissos de alianças eleitorais. Isto ficou claro desde o início.

Qual a sua avaliação sobre as novas regras eleitorais publicadas no final do ano passado, que valerão a partir das próximas eleições, em que é o TSE é que vai fixar – com base em montantes das eleições anteriores e critérios estabelecidos naquela norma – os limites de gastos, inclusive o teto máximo das despesas dos candidatos?
Eu sempre encaro mudanças com equilíbrio e cautela. Só saberemos se serão benéficas após as eleições de 2016, que serão um grande teste. Eu prefiro aguardar o desenrolar do próximo pleito para fazer avaliações. É certo, no entanto, que a redução do tempo de campanha – de 90 dias para 45 dias – foi algo digno de aplauso. O período pré-eleitoral era realmente longo, desgastante e dispendioso. Quanto à ausência do financiamento empresarial da campanha, eu entendo como extremamente complicado conciliar tudo isso. Não sei como os candidatos farão para cobrir todas as despesas. Como não sou candidato na próxima eleição, vou ficar de expectador, todavia, saberei tirar todas as lições boas ou ruins para o pleito de 2018.

O PSD tem crescido no Brasil e também no Tocantins. Além do sr., figura nesta sigla partidária o seu irmão, Iratã Abreu, além dos deputados Valdemar JR e Toinho Andrade. Qual sua avaliação do seu partido, nesse momento?
Tive a honra de ajudar a fundar o PSD, em 2012, junto com o hoje ministro Gilberto Kassab. No Estado do Tocantins o PSD já nasceu grande e forte. Elegemos 31 prefeitos e aproximadamente 200 vereadores naquela eleição, nos 139 municípios do Estado. Em 2014, houve um esvaziamento do partido, em razão da criação do Solidariedade. Houve um trabalho do presidente regional daquela sigla, o ex-governador Sandoval – do qual nós éramos oposição – em arregimentar algumas das nossas lideranças. Acabamos por fechar 2014 com apenas 13 prefeitos dos 31 eleitos. Iniciamos em 2015 um trabalho de reorganização, reestruturação e fortalecimento do partido no Estado. Conseguimos um crescimento exponencial no Tocantins e saltamos de 3 mil filiados para 10 mil em 2015, assim como novas lideranças, entre elas, vários prefeitos e vereadores. Agora, ao invés de 13, contamos com 46 prefeitos. Temos 16 diretórios localizados nas principais cidades do Estado e comissões provisórias nos demais municípios. Enfim, voltamos a crescer. Pretendemos lançar 100 candidaturas a prefeito na eleição municipal de 2016, dos quais 38 serão candidatos à reeleição. Hoje o PSD é um das maiores siglas partidárias do Estado do Tocantins.

Em sua primeira eleição, seus votos se concentraram na região central do Estado do Tocantins – Guaraí, Presidente Kennedy e Pedro Afonso. Na sua reeleição eles foram distribuídos mais homogeneamente. Como o sr. recebeu essa última votação e o que considera determinante para que isso ocorresse?
Em 2010, fui votado em 138 municípios, apenas em Lajeado não tive voto. Em 2014, obtive votação em todos as cidades tocantinenses. É claro que no início de uma vida pública como foi em 2010, a gente precisa de um reduto e nunca se chega para sentar na janelinha, é sempre no corredor. Cabe a cada de um nós, a busca do seu espaço e crescimento político com o decorrer do tempo. Naquela ocasião, tive a honra de receber quase 39 mil votos e pude exercer, pela primeira vez, o cargo eletivo de deputado federal. Nestas circunstâncias, vem o dever de casa. Fazer um bom mandato é medida que se impôs e naquela legislatura pude trabalhar pelo Estado, viabilizar recursos para os municípios, a minha obrigação enfim, mas concomitantemente, tive o reconhecimento por parte da população. Creio que por isso, consegui em 2014, ter um melhor desempenho nas urnas: um salto significativo de 38 mil para 63 mil votos. Fiquei entre os mais votados e isso para mim é motivo de muito orgulho e também responsabilidade redobrada.

O sr. acredita que sua mãe, Kátia Abreu, é capaz de fazer uma espécie de transferência de votos ao sr. e ao seu irmão?
Não resta dúvida que em qualquer profissão – na política não é diferente – o fato de se ter profissionais da família atuando num determinado ramo, facilita a vida dos descendentes, caso eles queiram trilhar os mesmos caminhos. Isso ocorre com famílias bem-sucedidas de médicos, odontólogos, engenheiros, advogados e outras carreiras. Isso abre portas, não resta dúvida. Evidente que apenas essa referência não basta. Cada um constrói sua própria história e por isso trabalho muito na Câmara Federal. Não posso negar que o fato da minha mãe ter sido deputada federal, senadora e ministra, além da liderança que ela exerce, é importante. Minha mãe é um referencial. Procuro aprender com ela nos acertos e também não cometer os mesmos erros. A avaliação que eu faço dessa ligação umbilical não é por um aspecto negativo, muito pelo contrário, vejo como um grande desafio tornar-me pelo menos igual à grandeza dela.

Como o sr. avalia a legislatura anterior e também esta para o qual foi reeleito na Câmara Federal?
Temos que analisar pelos resultados. No primeiro mandato, tive a oportunidade de viabilizar recursos na ordem de R$ 100 milhões para o Estado, direcionados a construção de escolas, ginásios de esportes, campos de futebol, rodovias, pavimentação urbana, compra de maquinário agrícola, etc. Mas não posso avaliar apenas pela obtenção de recursos, uma vez que os institutos de pesquisa e avaliação também possuem dados. A própria revista “Veja” menciona que fui um bom deputado. Não sou o melhor nem tenho a pretensão de sê-lo, tenho erros e acertos, todavia, meu nome é sempre lembrado por eles, que fazem os estudos baseados em dados do congresso. Considero que desempenho um bom papel, cumprindo regiamente com as obrigações para as quais fui eleito, e isso restou claro no termômetro das urnas, quando fui reeleito.

Há poucos dias, o sr. entregou em Araguacema, à prefeita Isabella Simas (PSD), em São Salvador, ao prefeito Charles Evilácio Maciel Barbosa (PSD), e em Aparecida do Rio Negro, ao prefeito Deusimar Amorim (PSDB), patrulhas agrícolas completas – trator e implementos – adquiridas com recursos do Ministério da Agricultura, atualmente comandado por sua mãe. Essa relação estreita com o governo federal facilita a liberação de recursos para o Tocantins?
O que facilita a obtenção e liberação de recursos é o relacionamento, assim como em todos os ramos, comercial e empresarial. Na política não é diferente. Se houver bom trânsito e, principalmente, credibilidade, as chances são grandes. Assim como eu, todos os outros 512 deputados da Câmara poderiam obter recursos em qualquer um dos ministérios, direcionando suas emendas. Não apenas em razão do fato de a minha mãe ser ministra que venho fazendo gestão junto ao Ministério da Agricultura. Venho fazendo isso há tempos, mesmo porque faço parte da bancada da agricultura, pecuária, cadeia produtiva.

O sr. se posiciona na Câmara Federal como um deputado da bancada ruralista?
Mudamos esse conceito. Fazemos parte da bancada de produção de alimentos. Na verdade, há cerca de dez anos, o produtor rural tinha sua imagem ligada a um escravocrata, caloteiro e desmatador. Uma injustiça com o homem do campo. De uns anos para cá, esta imagem mudou muito. A comunicação fez sua parte também ao desmistificar o verdadeiro papel do produtor e a impressão errônea que muitos brasileiros tinham deles. Houve um processo de atualização e de modernização. A bancada ruralista estava associada àquela imagem ruim de outrora. A imagem de hoje, que considero mais justa, é de uma classe que produz alimentos. A nomenclatura que utilizamos hoje é bancada de produção de alimentos e temos entre deputados e senadores, mais de 350 defensores da causa.

Minha mãe, a senadora  Kátia Abreu, é um referencial para mim. Procuro aprender com ela  nos acertos e também não cometer os mesmos erros” | Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

“Minha mãe, a senadora Kátia Abreu, é um referencial para mim. Procuro aprender com ela
nos acertos e também não cometer os mesmos erros”
| Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Como o sr. classifica a importância da criação do Matopiba e quais são, na sua visão, os benefícios para o Estado do Tocantins? O sr. apresentou emendas à Lei Orçamentária Anual (LOA) da União, para a construção de trecho da BR-235, interligando o Tocantins ao Pará, Maranhão, Piauí, Bahia — Estados do chamado Matopiba —, além de Sergipe. Qual foi valor da emenda? Como isso beneficiaria a região?
Tive a oportunidade em 2015 – e para mim foi uma grande honra – de presidir uma das comissões mais importantes do Congresso Nacional, a Comissão da Agricultura. Na condição de presidente, pude apresentar uma emenda de comissão e a indicação que eu fiz, consultando evidentemente a bancada do Tocantins e também o setor o qual eu represento, foi a construção da BR-235, ligando o Piauí ao Tocantins, visando exportar os grãos ali produzidos até a Ferrovia Norte-Sul, e por fim, exportando a produção pelo porto de Itaqui, no Maranhão. Para o Tocantins também é muito positivo, uma vez que criamos um fluxo de grãos na região de Pedro Afonso. Aquela cidade produz muito, mas em quantidade insuficiente, por exemplo, para a instalação de uma esmagadora de soja, como a Granol, estabelecida em Porto Nacional. Então, esse fluxo novo de grãos que vai se movimentar na BR-235 permitiria a instalação de agroindústrias, que para o Tocantins seria uma grande alternativa, mesmo porque no município de Pedro Afonso já há uma usina de açúcar e álcool. É uma obra, portanto, de grande importância e está orçada em R$ 200 milhões, uma emenda de comissão já aprovada na LOA.
O que se pensou, nesse caso, foi beneficiar a região do Matopiba, extremamente promissora, considerada a última fronteira agrícola do Brasil, que no momento enfrenta dificuldades para escoar sua produção. Há trechos desta estrada que no período das chuvas ficam intransitáveis, quer seja por atoleiros, quer seja pela queda de pontes de madeira. São 73 milhões de hectares – dos quais apenas 8 milhões já estão produzindo – englobando ainda 337 municípios. De acordo com a Embrapa, que fez o mapeamento, podemos chegar a 25 milhões ou 30 milhões, mesmo respeitando todas as limitações legais previstas, como a biodiversidade e a preservação das áreas de preservação ambiental (APAs). Nestas circunstâncias, precisamos alavancar o crescimento dessa região com uma sintonia entre a produção e a infraestrutura. É necessário, portanto, a construção de rodovias que levem a produção às ferrovias e hidrovias, levar energia elétrica àquelas propriedades, formação e qualificação de mão de obra, incentivos fiscais, etc.

O trecho da ferrovia que corta o Estado de norte-sul vai escoar a produção agrícola e como também fará chegar outros bens de consumo aos tocantinenses, como petróleo, por exemplo. Sob a ótica parlamentar, como o sr. vê a importância desse corredor de transporte para o Estado do Tocantins?
A ferrovia ainda está em fase de testes e ajustes no trecho Anápolis até Palmas, mas quando utilizada na sua plenitude será um grande avanço para o Tocantins. O trecho entre Palmas e o porto de Itaqui já exporta os grãos por aqui produzidos como também minérios extraídos em Lagoa da Confusão, no Tocantins, e Marabá, no Pará. Creio que a grande tacada seja construir agroindústrias nas plataformas multimodais que possam processar as commodities de todas as cadeias produtivas.

E qual é o seu balanço final à frente da Comissão da Agricultura em 2015?
Considero muito positivo. Avaliamos o desempenho da comissão pelo número de projetos que são deliberados que acabam por ser aprovados ou não. Em 2015 tivemos 160 matérias deliberadas e esse foi, sem dúvida, o melhor ano da comissão, desde sua implantação.

Qual seu posicionamento sobre a revisão do pacto federativo que majora as cotas de FPE e FPM? Não abalaria as contas e compromissos já firmados pela União?
Tenho conversado constantemente com os prefeitos do Estado e resta claro que a reclamação é unânime. Os recursos advindos do FPM são cada vez mais minguados, enquanto as despesas ou obrigações dos municípios, como educação, infraestrutura e saúde, por exemplo, só aumentam. Essa conta não fecha e uma hora isso vai explodir. Então, a discussão sobre a revisão do pacto federativo é extremamente importante e nós temos que pensar na redivisão do “bolo” entre União, Estados e municípios, de forma que a distribuição fique mais equilibrada, mais justa. É necessário que haja compatibilidade entre as obrigações e a arrecadação. A própria União tem que se readequar e compreender que os Estados e municípios estão sendo sacrificados. Quando ela concede uma redução de IPI para qualquer setor, o primeiro a sofrer o impacto é o município. l

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