Velhos caciques que comandaram o Estado nas primeiras décadas estão saindo de cena e abrindo espaço para uma nova geração

Não há como desconhecer a importância destas eleições na reconfiguração do poder no Tocantins. Pela primeira vez na história política do Estado se desenha uma eleição sem a presença dos velhos caciques que ao longo de mais de três décadas deram as cartas na política local, exerceram influências em todos os pleitos e se revezaram no poder. Isso não acontece por acaso. É resultado de um rompimento das elites lá atrás.

Em 2004, o jovem governador Marcelo Miranda, que foi eleito pela União do Tocantins, em 2002, com as bênçãos de Siqueira Campos, rompe com o velho líder, derrotando-o na eleição seguinte de 2006, dando origem ao mirandismo, um braço da União do Tocantins, que iria ajudar a enfraquecê-la.

Siqueira e Marcelo não se enfrentariam mais em novos pleitos, mas se revezariam no comando do Palácio Araguaia. Siqueira volta em 2010, para o seu quarto mandato e Marcelo Miranda em 2014, para o terceiro. Em 2018 o siqueirismo ainda revive com a eleição de Mauro Carlesse e desaparece de vez com o seu afastamento e depois renúncia, em 2022. O mirandismo sobrevive na expectativa de poder de Ronaldo Dimas, mas sem força para fazer alguma diferença no pleito.

Sem os caciques em campo a previsão é de uma eleição bem diferente, ao que tudo indica, mais equilibrada e naturalmente mais democrática. Diz-se no meio político que será uma eleição tão importante que pode marcar o surgimento de um novo ciclo do poder no Estado. Polarizada como outras, mas definitivamente sem a sombra dos “donos do poder”, e sua enorme capacidade de reproduzi-lo.

Pasmem, em 33 anos de Tocantins, Siqueira Campos, Moisés Avelino, Marcelo Miranda e Mauro Carlesse foram os únicos governadores eleitos pelo voto popular. Siqueira, quatro vezes; Marcelo Miranda, três vezes, cassado duas; Moisés Avelino, uma vez e Mauro Carlesse duas vezes, incluindo a eleição suplementar, convocada para completar o restante do mandato por conta da cassação do governador Marcelo Miranda, em 2018.

Registre-se que Marcelo Miranda entrou para a história como o primeiro governador a ser cassado duas vezes. Siqueira, além dos quatro mandados elegeu ainda dois governadores, o próprio Marcelo, no primeiro mandato, em 2002, e Mauro Carlesse, em 2018. O siqueirismo não registra cassação na sua biografia, mas soma três renúncias, duas como manobras para tentar a permanência no poder e uma fugindo de cassação.

Outros nomes também governaram o Estado, mas por pouco tempo – Raimundo Nonato Pires dos Santos, (Raimundo Boi), Carlos Henrique Gaguim e Sandoval Cardoso – foram eleitos indiretamente, pela Assembleia Legislativa, no caso de Boi, foi o vice que ascendeu ao cargo com a renúncia do titular, Siqueira Campos, que deixou o governo para disputar a reeleição.

A possibilidade de uma mudança mais profunda capaz de mudar a cara do poder se dá ainda pelo fato de todos os pré-candidatos – Ronaldo Dimas (PL) Wanderlei Barbosa (Republicanos), Paulo Mourão (PT), Laurez Moreira (PDT) e Osires Damaso (PSC) – disputarem o cargo pela primeira vez, e principalmente porque chegam a esta condição sem a indicação dos velhos líderes, requisito básico para alcançar o poder no Tocantins.  A indicação era o caminho mais curto para a conquista do poder.

Neste sentido é compreensível que todos os pré-candidatos ao governo – Dimas, Wanderlei, Mourão, Laurez e Damaso – tenham alguma ligação com uma das grandes organizações políticas que dominaram o poder no Estado, senão com as duas. Mas nenhum deles tem apoio da estrutura de poder que deu sustentação aos governadores do passado.

Dimas surge na política em 2002 como candidato a deputado federal eleito na chapa da União do Tocantins. Em 2006 compõe a chapa de Siqueira na vice, que perde para Marcelo Miranda. Dimas é filho político do siqueirismo. É o herdeiro mais provável da conformação ideológica que deu vida a União do Tocantins.

Wanderlei Barbosa surge em 88, como vereador eleito de Porto Nacional, representando o então Distrito de Taquaruçu do Porto, na chapa do prefeito Vicentinho Alves, da União do Tocantins. Wanderlei em 2004 rompe com a União do Tocantins para apoiar o candidato a prefeito Raul Filho que vence as eleições e é reeleito em 2008. O jovem político volta a se aproximar do siqueirismo em 2018 quando se torna vice de Mauro Carlesse na disputa da eleição suplementar e na eleição regular. Wanderlei também é um filho político da União do Tocantins. Wanderlei também sofre influência do siqueirismo, mas busca realizar um governo com características próprias.

Paulo Mourão surge em 1988, na primeira eleição como candidato a deputado federal eleito pelo partido de Siqueira Campos. Segue uma longa carreira de quatro mandados na União do Tocantins. Em 2004 rompe com o siqueirismo vencendo as eleições para prefeito de Porto Nacional, pelo PT, partido pelo qual pretende disputar o governo do Estado. Mourão é filho político da União do Tocantins.

Laurez Moreira surge como vereador de Dueré, em 82, pelo PMDB; com a criação do Estado adere à União do Tocantins, em 94 conquista cadeira na Assembleia Legislativa, onde permanece por três mandados consecutivos. Em 2006 conquista cadeira na Câmara Federal é reeleito em 2010 e em 2012 conquista a prefeitura de Gurupi, sendo reeleito em 2016. Laurez não nasceu na União do Tocantins, mas se torna siqueirista quando o estado é criado. Laurez organiza uma estrutura partidária tendo o PDT ponta de lança.

O deputado federal Osires Damaso, surge na política em oposição ao siqueirismo, como candidato a prefeito de Paraiso do Tocantins, em 2000, não vencendo as eleições. Em 2006 disputa pela segunda vez uma cadeira na Assembleia Legislativa ficando na primeira suplência, ocupando o cargo no final do mandato. Damaso surge politicamente na oposição ao siqueirismo, mas se torna siqueirista ao seguir carreira.

Como se vê todos os pré-candidatos são líderes oriundos da velha ordem, mas não mais respaldados por ela. É que as alianças que tiveram peso no início do Estado simplesmente não existem mais. Entraram em decadência quando seus líderes começaram a sair de cena. Agora são outros partidos, outros personagens, num outro contexto de novos desafios que apontam para a necessidade urgente de renovação, política, choque de gestão e mudança da cara do poder. As possibilidades de renovação políticas em 2022 alcançam também a Assembleia Legislativa e a representação do Estado do Congresso Nacional.

Estratégias de cada um
Wanderlei Barbosa buscou montar um palanque fora da polarização direita versus esquerda, mas terminou optando por um partido da base do presidente Jair Bolsonaro. Tomou esta decisão levando em conta o perfil conservador do eleitor tocantinense apontado nas pesquisas.

Na prática o governador colou um pé em cada extremo. É do partido do presidente Bolsonaro, mas se o presidente Lula vencer as eleições poderá contar com a senadora Kátia Abreu (PP) como interlocutora e não terá nenhuma dificuldade para se aproximar do petista.

Wanderlei foi acima de tudo pragmático, interessa vencer as eleições, posicionamento ideológico pode valer muito como instrumento de exercício do poder, mas não ganha eleição.

Ronaldo Dimas fez uma articulação para ser candidato por uma legenda nova, o Podemos, em que poderia se apresentar como o novo. Com a renúncia de Carlesse e a ascensão do governador Wanderlei Barbosa, Dimas voltou atrás e se filiou no PL, buscando uma vinculação direta e ao presidente Bolsonaro, numa articulação do senador Eduardo Gomes (PL). Dimas reúne o que há de mais conservador na política tocantinense. Além do PL reúne o Podemos, União Brasil e pode contar com o MDB

Paulo Mourão terá o respaldo da federação PT, PV, e PC do B, a aliança mais à esquerda da política tocantinense. Lula é a principal motivação e também o principal cabo eleitoral da candidatura do PT. A aliança com o PV é nova e pode aglutinar o voto da juventude que se identifica com as bandeiras ambientalistas do partido.

As articulações dos pré-candidatos atendem as necessidades imediatas para estas eleições, mas também para a próxima, de 2026. Nesta perspectiva é que se especula uma união entre Wanderlei Barbosa e Laurez Moreira. Laurez poderia compor a chapa majoritária como vice, podendo ser o sucessor em 2026, tendo em vista que Wanderlei já está sendo candidato a reeleição. Da mesma forma que o senador Eduardo Gomes que abriu mão de ser candidato para apoiar Ronaldo Dimas pode ter negociado o seu apoio para 2026.

As alianças partidárias locais seguem um pouco a lógica da polarização nacional, com seus arranjos próprios. Os partidos tradicionais no Tocantins – DEM, MDB, PSDB, PV e PTB – não terão candidato próprio ao governo do Estado. O espaço está sendo ocupado com legendas novas como Republicanos e Partido Liberal que abrigam os pretensos pré-candidatos com chances reais de vencer as eleições.

Nessa corrida estão todos mais ou menos em pé de igualdade. Vão precisar construir novos arranjos político-partidários que lhes deem condições de disputar as eleições. Junto com novos líderes formam-se novas organizações partidárias.