“É possível o setor privado tomar conta da implantação da Hidrovia Tocantins-Araguaia”

Economista da Sedetur diz que é necessário investimento em torno de R$ 6 bilhões no modal

Foto:  Zezinha Carvalho

Foto: Zezinha Carvalho

Gilson Cavalcante

“A hidrovia tem um potencial muito grande e estamos acabando de perceber que ela é um equipamento de uma importância tão grande, que é possível o setor privado tomar conta dela, por intermédio de uma concessão ou de uma PPP, fazer todos os investimentos, construir as eclusas, 12 portos, 12 armazéns, balizamento, sinalização, enfim, fazer todo investimento, que a gente estima que seja em torno de R$ 6 bilhões.” A especulação é do economista Vilmar Carneiro, superintendente de Desenvolvimento Econômico da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Turismo do Estado (Sedetur). Na entrevista exclusiva a Jornal Opção, ele garante que os investimentos vão retornar aos seus investidores, seguramente, dentro de dez anos. De acordo com Carneiro, a hidrovia poderia chegar a uma extensão de até 1.500 km, com um custo que, historicamente, em nível global, não deveria representar mais que 15%, 20% do modal rodoviário, que opera hoje nos níveis entre 16 e 18 centavos a tonelada transportada por quilômetro. Essa mesma distância pelo transporte hidroviário – explica ele – poderia cair, no mínimo, para até 50% e essa hidrovia se tornar um investimento altamente lucrativo.

Apesar da crise econômico-financeira por que passa Tocantins, a política de investimentos do Estado está está estagnada?
Aqui na Secretaria de Desen­volvimento Econômico e Turismo do Estado, nós temos uma visão muito diferente do que ocorre em outros órgãos de governo e um pouco também diferente do que a mídia nacional publica no dia a dia. A mídia vem fazendo uma campanha de derrotismo no País e o bicho não é tão feio como se pinta. A verdade é que temos dificuldades que são setoriais e a mídia não ressalta isso de forma pontual. O exemplo é que o setor primário no Brasil está dando resultados muito expressivos, crescendo a mais de 10% ao ano. E nesse ano não está sendo diferente. É uma espécie de redenção da economia brasileira para não cairmos num fosso, porque o setor primário produz alimentos, produtos que o mundo inteiro precisa. O Brasil tem uma boa oferta de alimentos. No Tocantins, sendo uma região cuja economia está fundamentada basicamente no setor primário, ainda, o nosso desejo é que o setor secundário venha se instalar e processar nossos grãos, nossos alimentos. O setor de serviços também vem crescendo de uma forma bastante representativa, o Tocantins se apresenta com um cenário diferente, que vem sendo registrado historicamente nos números, comprovando que o crescimento do nosso Estado tem sido acima da média nacional e, principalmente, dos demais Estados da região Norte do País. Isso porque nós somos uma região de encontro de ecótonos, mas com preponderância do ambiente de Cerrado e esse ambiente tem sido, nos últimos 20 anos, um ambiente de maior avanço de fronteira agrícola no Brasil. O Tocantins é, agora, a bola da vez.

Mas esse cenário considerado privilegiado e vantajoso tem atraído investidores nacionais e estrangeiros?
Na nossa rotina, recebemos, diariamente, uma boa quantidade de pretensos investidores, que não são somente do setor primário, principalmente de empresários de outros países, cujas empresas são estratégicas para a segurança alimentar em várias partes do mundo. Essas organizações se apresentam aqui com esta bandeira, e o Tocantins é receptivo a isso porque o ambiente é propício para a implantação desses negócios. Outro aspecto que merece ser ressaltado é que nós temos uma produção de sementes saudáveis, na região do Vale do Araguaia, no período não chuvoso e, pelo processo de irrigação radicular, produz sementes saudáveis. Esta produção tem destaque global hoje e grandes empresas internacionais já demonstram interesse por essa região. Lá (na região do Vale do Araguaia) planta-se uma semente com fungos, com doenças e ela produz uma semente saudável.

O Tocantins pode ser o celeiro do Brasil e de boa parte do mundo?
Um dos celeiros, não podemos dizer que sejamos exclusivos, mas reconhecermos que temos este destaque. Outro aspecto interessante é que a quantidade de produtores do setor primário que estão ampliando os seus negócios é muito grande, porque nós temos bem definido as áreas de produção e as áreas de preservação, com mais de 50% destinados às áreas de preservação e pouco mais de 49% destinado às áreas de produção. O zoneamento ecológico-econômico determina uma condição de produção com segurança sustentável.

O que o governo tem feito, de fato, para atrais investidores em potencial para o Estado?
O governo tem feito e vem fazendo esforços em buscar parcerias e empreendedores para desenvolver projetos aqui no Tocantins, que passam pela construção das eclusas nas três barragens existentes no Rio Tocantins, derrocamento dos trechos rochosos em seu leito, construção de 12 portos e armazéns de carga e descarga, implantação da sinalização diurna e noturna e balizamento. Estima-se que serão necessários investimentos em torno de R$ 5 bilhões, e nosso esforço agora é nivelar esses entendimentos com todas as forças governamentais, representativas e organizadas da sociedade, visando despertar nossos representantes políticos em todas as esferas para, depois, buscar sensibilizar empreendedores e investidores dispostos a enfrentar esses desafios, por meio de concessões ou parcerias público-privadas, cujo retorno, em princípio, se mostra garantido num espaço razoável de tempo. Esses portos e armazéns poderiam ser construídos nos municípios de Peixe, Brejinho de Nazaré, Porto Nacional, Palmas, Miracema, Pedro Afonso, Itapiratins, Palmenirante, Babaçulândia, Tocantinópolis e Aguiarnópolis, e que esse modal de transporte, integrado à Ferrovia Norte Sul e à BR-153, tornará o Tocantins o caminho mais curto e mais rentável para o escoamento da produção dessa região central do Brasil rumo aos portos da Região Norte para o mundo.

Alguns empreendedores já sinalizaram interesse em instalar algum projeto em território tocantinense?
Alguns grandes empreendedores já iniciaram contatos com o governo do Estado, a exemplo do diretor-geral do grupo Euroconsult no Brasil, Andrés Alvarez Wurten­berger, que, em reunião preliminar, demonstrou interesse na parceria. Agora, vamos a busca de cooperação do governo federal para definirmos um modelo de concessão a ser empregado nessas parcerias público-privadas. Enfim, boa logística, incentivo fiscal e a ampliação da malha viária feitas pelo governo do Estado estão entre os atrativos que trazem grandes indústrias para o Tocantins. Representantes de frigoríficos, processadora de soja, empresa de água mineral, entre outros setores têm buscado o mais novo Estado brasileiro. O Estado tem trabalhado para promover o desenvolvimento da indústria, atraindo, fomentando, estimulando e fazendo as concessões de incentivos fiscais que se formalizam na Secretaria de Desen­volvimento Econômico e Turismo e Secretaria da Fazenda. Apenas nos primeiros meses do ano, dezenas de empresas já buscaram o apoio do governo. Principalmente as que trabalham no ramo da agroindústria, sendo que ao longo dos anos, a agropecuária tem se mostrado um dos setores mais promissores no Estado. O Tocantins conta com um diferencial importante em relação às demais unidades da federação. O governo, hoje, conta com uma confiança grande de todos os setores de investimento, seja do próprio Estado, de fora e também de investidores internacionais. Essa credibilidade é um grande diferencial, e temos também um pacote representativo de normas legais que ofertam vantagens para as empresas que desejam vir ao Tocantins. Além de desenvolver projetos para recuperação das principais rodovias tocantinenses, o governo o estadual também tem apoiado a implementação de empreendimentos que favorecem o escoamento da produção do Estado, como o Ecoporto Praia Norte. O Ecoporto é uma estação de transbordo de cargas e o primeiro porto fluvial interestadual, com papel estratégico no fluxo logístico do país, ligando o Estado ao Oceano Atlântico, com a primeira fase da sua obra inaugurada no mês de março deste ano.

A Hidrovia Tocantins-Araguaia é um projeto antigo, mas parou no tempo. Qual a sua importância para o escoamento de nossa produção?
Aqui no Tocantins, temos encontro de potenciais logísticos. A questão aérea, por exemplo, é de suma importância para a segurança nacional; a ferrovia ligando o País de Norte a Sul. A hidrovia tem um potencial muito grande e estamos acabando de perceber que a hidrovia é um equipamento de uma importância tão grande, que é possível o setor privado tomar conta dela, por intermédio de uma concessão ou de uma PPP, fazer todos os investimentos, construir as eclusas, 12 portos, 12 armazéns, balizamento, sinalização, enfim, fazer todo investimento, que a gente estima que seja em torno de R$ 6 bilhões. Esses investimentos vão retornar aos seus investidores, seguramente, dentro de dez anos. Seria, portanto, o equipamento mais importante para o desenvolvimento regional e para o Brasil. A hidrovia poderia chegar a uma extensão de até 1.500 km, com um custo que, historicamente, em nível global, não deveria representar mais que 15%, 20% do modal rodoviário, que opera hoje nos níveis entre 16 e 18 centavos a tonelada transportada por quilômetro. Essa mesma distância pelo transporte hidroviário poderia cair, no mínimo, para 40% a 50% e essa hidrovia se tornar um investimento altamente lucrativo.

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