“A contribuição do PT será de corpo e alma para que o governo dê certo”

Senador que assume a vaga deixada pela ministra Kátia Abreu confia que a nova gestão estadual dará certo, porém, não se furta em dar dicas ao novo governador

Antônio Gonçalves

Foto: Antônio Gonçalves

Gilson Cavalcante

O suplente de senador Donizete Nogueira (PT), que assumirá a cadeira deixada pela ministra Kátia Abreu (PMDB) a partir do dia 1º de fevereiro, sustenta que o seu partido está satisfeito com o qui­nhão da administração do novo governador Marcelo Miranda (PMDB). No entanto, fez a seguinte observação na entrevista que concedeu ao Jornal Opção: “O que nós precisamos é de planejamento integrado, com gestão eficiente. Não é propria­­mente o choque de gestão. Não adianta muito você, de repente, diminuir os gastos, enxugar a máquina e não ter condições de dar as respostas que a sociedade espera”. Nogueira garante que no Senado terá como bandeira principal a defesa da agricultura familiar e entende que o Tocantins está preparado para começar o seu processo de agroindustrialização. “O PT vai contribuir para que o modelo de gestão do governador Marcelo Miranda seja um marco na história do nosso Estado”.

O PT já apresentou o nome do deputado eleito Paulo Mourão para ser avaliado com a futura base governista de apoio ao governador Marcelo Miranda, na disputa pela presidência da Assembleia Legis­lativa. Como estão as articulações para fechar um provável consenso?
O PT cumpriu o papel que lhe cabia até o momento. Nós temos três deputados estaduais (Paulo Mourão, José Roberto e Amália Santana) e foi discutido internamente qual dos três nomes seria colocado à disposição do governador Marcelo Miranda para ajudá-lo na eleição da nova Mesa Diretora da Casa e da presidência. A decisão do partido foi pelo deputado Paulo Mourão. Essa é a parte que nos cabia enquanto partido. Agora cabe ao governador, que, do meu ponto de vista, deve ser o maestro desse processo. Não que ele (Marcelo Miranda) tenha que interferir na Assembleia Legislativa, mas porque todo governo precisa de uma base aliada e essa base precisa estar instrumentalizada para trabalhar os projetos do governo na Casa. O PT, até onde nós discutimos, vai estar nesse momento sob a orientação do governador. Se ele compreender que o companheiro Paulo Mourão é o nome ideal para o momento, o PT também sairá a campo para conversar com outros parlamentares em defesa de Paulo Mourão. Agora, a bola está com os deputados e com o governador.

A mesma coligação que elegeu Marcelo Miranda pode ser mantida ou até ampliada, com vistas às eleições municipais de 2016?
Pessoalmente, estou um pouco ansioso, agoniado. Mas acho que nós devíamos ter feito toda a discussão da composição de governo com os olhos nas eleições de 2016. Mas eu percebi que não foi assim que traba­lhamos. Como isso não foi feito, agora a gente precisa botar o governo para andar, fazer funcionar a máquina administrativa e aí a gente começar a refletir sobre as eleições municipais de 2016. No que depender do PT, e de mim especialmente, manteremos essa base aliada na disputa das eleições de 2016, porque o PT, quando veio para a aliança de 2014, disse para os partidos coligados (PMDB, PV e PSD) que nós não estávamos fazendo uma aliança apenas tática, não era apenas uma aliança eleitoral. Nós queremos que esse bloco político se constitua em um bloco para um plano estratégico, que vá discutir o Estado para os próximos 30 anos e aproveitar do momento de estar no governo para poder fazer esse debate com a sociedade. Que Estado nós queremos ter para daqui a 30 anos, quanto isso vai custar e quem pagará isso. E, acima de tudo, discutir com a sociedade como resolver os problemas que essa sociedade enfrenta hoje. Quem votou nos deputados, no senador e no governador não votou para trabalhar no lugar deles, votou na expectativa de que quem foi eleito vá resolver os problemas. Meu pai tinha um ditado que era o seguinte: “Trabalho de criança pode ser pouco, mas não aproveitar é lucro”. Como eu sou contra criança trabalhar, criança tem que estar na escola, eu acho que o trabalho que nós temos que fazer agora é um trabalho consciente de que o Estado precisa, a partir do vencimento dessa, que foi a hegemonia política muito forte nesses últimos vinte anos, construir um novo grupo político que gerencie o processo para fazer o Estado dar o salto de qualidade que ele precisa no campo do desenvolvimento e qualidade de vida, além de ser o Estado com uma economia mais ativa no País. E não se faz isso só com vontade, você faz isso tendo vontade e articulando um bloco de apoio que comungue dos mesmos objetivos e que possa até ter divergências táticas, mas que supere essas divergências. E as eleições municipais podem representar um processo desses. Pode haver desencontros em alguns municípios e, se houver desencontros, as lideranças têm que ter a capacidade de superá-los na base em nome desse projeto estratégico, do momento que o Estado precisa viver. Eu acredito que esse novo governo é um go­ver­no que vai demarcar uma nova diferença para o nosso Estado e, se depender do PT, a nossa contribuição será de corpo e alma, diuturnamente, para que tudo dê certo e a gente esteja, daqui a quatro anos, em condições de dialogar com a população e ser reconhecido pelo trabalho que foi feito.

O sr., na condição de primeiro suplente de senador, vai assumir a cadeira no Senado a partir de fevereiro, com a ida de Kátia Abreu para o Ministério da Agricultura. Qual será a base de sua ação parlamentar?
Ao longo de nossa vida, adotei algumas bandeiras que farão parte dessa nova fase do nosso trabalho. A questão da agricultura familiar é uma bandeira que a gente traz de berço. Sou filho de trabalhador rural, de meeiro, lá em Minas Gerais; nasci na roça, onde vivi até os 12 anos de idade, depois fui estudar. Essa será uma das minhas tarefas no Senado. Não quero estar lá apenas para que cada trabalhador e cada trabalhadora tenha terra. Na verdade, quero trabalhar como minha própria monografia comprovou para mim, que precisamos agregar tecnologia, agregar os três fatores que considero fundamentais para gerar riqueza: a terra, o trabalho e co­nhe­­cimento, para que cada pequeno agricultor, cada pequeno assentado possa ser um empre­endedor, ter o seu negócio, ao invés de apenas ter um pedaço de terra. Sempre observei o nosso Estado – eu cheguei aqui nos idos de 1980 – como um forte potencial de produção de alimentos e, naquela época, quando cheguei aqui, já imaginava que a região precisava se industrializar. Hoje, acho que as condições estão dadas para que o Estado seja agroindustriali­zado Temos uma rede logística muito boa, estamos no centro do Brasil, próximo aos grandes mercados internacionais, então, penso que a vez do Tocantins é agora, de promover o processo de agroindustrialização.

O que o sr. considera de fundamental importância para que a agroindústria seja implantada de fato?
Eu penso que a gente tem as condições objetivas, concretas, dadas. Temos boas terras, temos água em abundância e temos gente com vontade de trabalhar. O que falta, no meu ponto de vista, são algumas coisas como a qualificação do ator social que vai ser o principal promotor dessa agroindustrialização, é preciso criar as condições para que as pessoas estejam preparadas para viver esse momento e tendo mão de obra qualificada de nível para poder dar respostas à demanda desse processo; precisamos atrair mais investidores. Mas acho que o fundamental mesmo não é atrair investidores, e sim, fazermos com que aqueles que estão aqui se transformem em investidores. Muita gente que tem terra, que tem capacidade de produzir, não o faz com maior intensidade por falta de apoio, de investimentos. Falta uma ação objetiva, organizada do Estado como agente estimulador da agroindústria. Acredito que o governador Marcelo Miranda vai criar essas condições para que o Estado seja o indutor no planejamento do modelo que se pretende de desenvolvimento, que modele a indústria que nós queremos e, a partir daí, atraia investidores e transforme os produtores daqui em investidores, dentro desse processo de desenvolvimento pensado pela sociedade e coordenado pelo governo do Estado. Isso é fundamental porque o nosso Estado não pode crescer economicamente e não se desenvolver. Muitas vezes, temos crescimento de riqueza e não temos desenvolvimento.

Existem regiões no Estado, por exemplo, com alta produtividade de grãos, mas com IDH baixo.
Exatamente. Tem alguma coisa errada aí. Campos Lindos é um exemplo disso, uma das cidades mais pobres do nosso Estado, mas que produz muita riqueza, porque a produção da riqueza não está beneficiando a comunidade? Temos que mudar isso. Não é castigar o produtor com mais impostos, mas encontrar uma saída para que municípios como Campos Lindos desenvolvam a partir daquilo que estão produzindo. O ICMS da energia elétrica, por exemplo. Nós somos um grande produtor de energia e o ICMS é só no consumo, só lá no destino. O Estado fica com aquilo que a gente chama de royalties. Acredito que é muito pouco. Parte do ICMS da energia elétrica tem que beneficiar também o Estado produtor. Ou seja, parte desse tributo tem que ficar aqui no Tocantins. Se lá, a ponta é 17% ou 25%, ficam 10% aqui, o Estado consumidor vai arrecadar 15%, por exemplo. Mas a gente precisa fazer com que, sem penalizar o nosso povo trabalhador, os comerciantes e os industriais que estão se instalando com mais impostos, geremos riqueza a partir das potencialidades que a gente dispõe.

"Temos boas terras e mão de obra, o que falta são investimentos"

“Temos boas terras e mão de obra, o que falta são investimentos”

O agronegócio é praticamente o carro-chefe da economia tocantinense. Existem muitas terras improdutivas no Estado passível de reforma agrária?
Numa época não muito distante, conversando com Roberto Sahi­um, então secretário da Agricultura do Estado, ele me disse que o Estado tinha em torno de cinco milhões de terras consideradas degradadas ou de baixíssima produtividade. Ou seja, boa parte havia sido desmatada e não estava dando o retorno que se espera dela. Hoje, mudou um pouco esse perfil. Saímos viajando, principalmente pelo Sul do Estado, a gente percebeu que cresceu muito nesses últimos anos a produção de soja, haja vista que nós estamos implantando uma esmagadora de soja em Porto Nacional, e Gurupi também tem uma pequena esmagadora produzindo. Mas nós precisamos também sair dessa armadi­lha de ficar só na soja, precisamos avançar para a produção de algodão e milho, por exemplo, além de ou­tras culturas. Não podemos acreditar que só a produção de eucalipto para a produção de carvão e de madeira vai resolver o problema. A produção do agronegócio, quanto mais diversificada, é melhor para o Estado e para as pessoas, porque a monocultura pode nos conduzir, no momento do pico, a um processo grande, mas num momento de uma crise pode nos levar a um fracasso. Temos uma pecuária muito forte, mas a parte agrícola precisa ser desenvolvida ainda mais, no próximo período. Se o Estado tomar as medidas corretas no sentido de incentivar o setor – não estou falando de isenção, estou falando de incentivo –, podemos nos tornar, nos próximos dez ou quinze anos, num dos principais produtores de alimentos do Brasil, concorrendo com os grandes centros que já produzem hoje, uma produção diversificada, com cunho ambientalmente correto, sem degra­dação da natureza e ocupar espaços no mercado internacional, com diferencial, porque a gente pode estar vendendo um produto verde. Imagina que a gente pode agroindustrializar o Estado com base em um conceito ecologicamente correto. Isso seria muito positivo, inclusive para demarcar um diferencial na concorrência internacional e mesmo dentro do País. Então, o agronegócio é o carro-chefe da nossa economia, mas não podemos compreendê-lo só como sendo o grande negócio. Se começarmos a trabalhar desde o pequeno agricultor, como defende a ministra Kátia Abreu, recomendada pela presidente Dilma Rousseff, e tornar esse pequeno agricultor num empresário rural, fazendo com que ele ascenda de uma classe mais baixa para uma mais elevada, com renda e condições de vida melhor, isso também é agro­negócio; é também um negócio que vem da terra e do trabalho, que necessita, para isso, agregar tecnologia. Então, eu acredito que o nosso Estado tem hoje, no momento histórico que estamos vivendo, as melhores condições para se agroindustrializar e ser uma referência na produção de alimentos para o Brasil e para o mundo.

O governador Marcelo Miranda assume o governo com a consciência de que o Estado está quebrado financeiramente. O sr. acredita que 2015 será um ano dedicado apenas para colocar a casa em ordem, ou que vai sobrar dinheiro para investimentos nesse primeiro ano de administração? Qual a sugestão PT para o governo dar cabo nessa crise?
A primeira coisa é o governo não cair nessa armadilha do chamado choque de gestão. O que nós precisamos é de planejamento integrado, com gestão eficiente. Não é propriamente o choque de gestão. Não adianta muito você, de repente, diminuir os gastos, enxugar a máquina e não ter condições de dar as respostas que a sociedade espera. Agora, a outra questão – isso é um pensamento meu – é que se tiver um bom planejamento nós vamos terminar o ano de 2015 em condições de fazer investimentos. O primeiro ano é, para todo e qualquer governo, o ano do planejamento para os próximos três anos. Para o Estado é para os próximos quatro anos, tanto que o Plano Plurianual (PPA) é feito para os três anos do governo atual e para o ano seguinte do próximo governador. Então, o primeiro ano é de arrumação da casa, mas a equipe que está tomando posse é uma equipe preparada e vai saber, com as ferramentas para uma nova meto­dologia de gestão, encontrar saídas para enfrentar os problemas que nos espera. Existem setores que têm gorduras que precisam ser queimadas, outros que estão no osso, que precisa ser completamente recuperado. E o que resolve isso não é só o dinheiro, o que resolve isso é, primeiramente, uma gestão competente, que tenha o planejamento como eixo do projeto que se quer executar.

O PT está satisfeito com o quinhão da administração Marcelo Miranda?
O PT está assumindo no go­ver­no áreas que considero importantes e estratégicas. Na área da defesa social, que envolve os direitos das pessoas, que envolve um gargalo que o Estado enfrenta e representa, na verdade, uma situação nacional, que é o sistema prisional. O PT tem a oportunidade, com os quadros que estão ocupando os espaços, de dar respostas e fortalecer o governo de Marcelo Miranda, com qualidade. Sob a nossa responsabilidade está também o setor de ciência e tecnologia e inovação. Temos dois instrumentos que estão sob nossa responsa­bilidade nessa área e acredito que poderemos fazer um grande trabalho.

Nessa área da pesquisa e da inovação tecnológica, a Universidade do Tocantins (Unitins) deve ter um papel preponderante, se for redimensionada?
A Unitins é fundamental nesse processo. A articulação da área de ciência e tecnologia do Estado, a Fundação de Apoio à Pesquisa, Desenvolvimento Científico e Tecnológico e a universidade são fundamentais. A Unitins já teve um papel mais preponderante no nosso Estado. Eu acredito que agora chegou a hora de recuperarmos a importância dessa universidade estadual, pois ela tem acúmulo. É preciso também colocar na agenda do Estado a Unitins como instrumento estratégico. A Agência de Ciência, Tecnologia e Inovação tem um papel muito importante na articulação do próprio governo e na articulação de setores da sociedade para construir ferramentas que levem o Estado a desenvolver novas tecnologias, desenvolver novos modelos, desenvolver uma visão de que ciência, tecnologia e inovação são estratégicos em qualquer lugar do mundo, tanto que temos o programa “Ciência Sem Fronteira”, que está levando brasileiros, apoiados pelo governo brasileiro, para se prepararem nos grandes centros do mundo. E aqui no Estado não será diferente.

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