“Atualmente, nós não estamos gerando riqueza, mas miséria”

Economista aponta que o tocantinense perdeu o orgulho e diz que irá levar, ao Palácio Araguaia, algumas propostas de governo ao próximo comandante eleito

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Tadeu Zerbini: “O Estado do Tocantins tem problemas que só serão resolvidos com as próximas gerações” | Foto: Gilson Cavalcante

Gilson Cavalcante

Para o economista e professor Tadeu Zerbini, o “brio” do tocantinense precisa ser retomado. No seu entendimento, o problema maior do Estado é o que ele denomina de desmando com o dinheiro público, isto é, a total falta de responsabilidade com os recursos. “Os governos não trabalham com um futuro definido, não sabem o que o Estado vai ser daqui a 20 anos, apesar de gastarem fortunas trazendo Fundação Getúlio Vargas e Fundação não sei quê para fazer o planejamento estratégico.

Assim, quando chega o terceiro mês de governo, o orçamento já está sendo mudado. Zerbini é diretor-executivo da Fapto (Fundação de Apoio Científico e Tecnológico), que atende a Universidade Federal do Tocantins, a Unitins e a Universidade Católica; é diretor da Federação das Microempresas do Estado do Tocantins; e é membro do Comitê de Estudos para a Reorganização do Tocantins (Certo). Em entrevista exclusiva ao Jornal Opção, ele disse que irá apresentar propostas ao governador eleito.

O sr. tem dito que a situação econômico-financeira do Tocantins favorece o possível crescimento do Estado. O que o próximo governador eleito deverá fazer para tentar, pelo menos, minimizar essa situação?
O que temos que verificar é o seguinte: o Estado do Tocantins está numa situação econômico-financeira mito difícil. Embora tenha um potencial de endividamento muito grande, o Estado não tem condições de pagar os em­préstimos que ele fizer, pois não tem liquidez.

O que significa isso?
Por exemplo, se eu tenho um crédito no Banco do Brasil, de R$ 100 mil, mas não tenho como pagar por não ter renda, eu não posso pegar o empréstimo. É isso que ocorre com o Estado, que tem, de fato, um potencial de endividamento grande, pois a lei permite. Porém, ele não tem o dinheiro para pagar o financiamento. Se o faz é irresponsavelmente porque pode até ter o limite para o empréstimo, mas não tem o limite de liquidez para pagar o empréstimo. Então, não tem para onde correr.

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“Uma das coisas que o nosso Estado precisa fazer é transformar a Universidade do Tocantins (Unitins) em uma grande instituição. assim como a USP, em São Paulo, ela teria de ter um papel na qualificação dos professores e nas pesquisas que são necessárias ao desenvolvimento” | Foto: Vivi Asevedo

Qual a saída, então? O que o próximo governador tem que fazer?
Simples. Precisa ter uma decisão política e técnica. O que significa isso? Costumo usar a teoria do caos para explicar isso. Quando se toma uma ação no passado há um desdobramento do qual nada se sabe. O futuro, então, seria diferente de acordo com as decisões tomadas no passado. O Tocantins, por ter sido um Estado criado politicamente, até agora, só teve gestões políticas e não técnicas. Os nossos gestores nunca tiveram experiência de coisa nenhuma e nem a qualificação necessária para isso também. Nós tivemos três governos do Siqueira [Campos], dois do Marcelo Miranda e um do médico Moisés Avelino. Todos trabalharam com aquela política antiga de trocar favores para chegar ao poder. Agora o novo governante tem que tomar decisões importantes. E só tem uma coisa a ser feita: demitir servidores. Não tem outra alternativa.

Quando há troca de governo essa decisão é automática, é praxe.
No dia 31de dezembro, todos os servidores comissionados estarão, automaticamente, exonerados. Isso faz parte do processo. O próximo governador tem que pensar antes de contratar, de atender aos apelos e acordos políticos. O que acontece atualmente? A folha de pagamento dos servidores está bem além do que permite a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Então, quando se tem uma situação dessas, além de despesas com pessoal, tem que dispor de recursos para manutenção da máquina administrativa, que não é barata, além de aquisição de medicamentos, reforma de escolas, hospitais, unidades de saúde e conservação das estradas. Isso se chama manutenção. Desde que o Estado foi iniciado nunca houve preocupação com a manutenção. Os políticos sempre se preocuparam em fazer mais, mas não em manter aquilo que foi feito com qualidade. Então, o governo não vai ter dinheiro suficiente para contratar mais serviços, o que vai levá-lo a enxugar a máquina, inclusive demitindo concursados em estado probatório, para fazer frente à Lei de Res­ponsabilidade Fiscal. A sorte é que essa lei tem sido muito lenta. A verdade é que o Estado não tem dinheiro para investir.

Um choque de gestão seria a alternativa para que o próximo governador possa viabilizar sua administração?
A saída seria essa. Não tem outra. Quanto recebe um médico hoje? Existem técnicos recebendo em torno de R$ 25 mil de salário. Não temos a mesma realidade de um Estado rico. Nós somos um Estado pobre. Estamos vendo que o Brasil não está crescendo, está com dificuldade de crescimento e com o PIB próximo de zero. Essa é a projeção para este ano e o PIB não vai crescer rapidamente. Ou seja, não vai ter dinheiro novo. O governo federal não pode fazer mais dinheiro sob o risco de alta de inflação. Toda vez que ele aumenta as taxas de juros para conter o consumo, o governo gasta mais pagando os bancos. O FPE (Fundo de Participação dos Estados) não vai crescer de forma satisfatória para bancar o Estado, como estava acontecendo. O ICMS, com tantas isenções que o Estado criou para ser implantado, dando subsídios de tudo quanto é forma para a agricultura e a indústria, não somou em nada para o Estado. A criação de indústrias e empresas custa caro para o Estado.

A industrialização, aliada à questão logística, tem sido um sonho para os gestores que passaram pelo Palácio Araguaia, mas pouca coisa de concreto foi levada adiante. Qual o desafio do próximo governador nesse campo?
É muito difícil, pois é mais um discurso político. Temos que tentar transformar os produtos que temos aqui agregando valores, agregando processo antes de vender esse produto. Só que é mais fácil para o produtor aqui do Estado vender a sua produção de agronegócio para grandes companhias internacionais, que é o caso da Bung e outras. Nós só servimos para alugar as nossas terras. Nós não geramos riquezas. Muito pelo contrário, nós estamos gerando miséria.

O que o governo deve fazer para atrair novas empresas e gerar empregos?
Temos que trabalhar isso como vocação. Nós temos o exemplo da indústria de calçados lá em Colinas, que, depois de gastar um dinheirão no empreendimento, foi embora, porque não podia fazer empréstimo em bancos, uma vez que a área onde ela estava instalada não estava regularizada. Uma das ações que o governo do Tocantins deve empreender para atrair grandes empresas é, primeiro, fazer a regularização fundiária urbana e rural. Quando for fazer um distrito industrial, o governo tem que entregar o projeto totalmente pronto, com asfalto, energia elétrica, água, com escola, com ambiente para os trabalhadores. O caso da Asa Norte, no Bico do Papagaio, foi um sacrifício para fazer poucos quilômetros de asfalto. Qual o empresário que vai se arriscar em território tocantinense nessas condições? Ele prefere ir para um local onde tem tudo pronto. Onde tem posto de saúde, escola e hospital próximo do empreendimento; onde os trabalhadores têm condição para trabalhar.

E como mudar a cabeça do gestor público para transformar essa realidade?
Não tem jeito, infelizmente. Eu que eu recomendo – e isso os grandes homens da nossa história já fizeram – é conhecer outras realidades. É ir para a Europa, Estados Unidos e conhecer projetos programas inovadores e revolucionários. Uma viagem dessas pós-campanha é melhor que um doutorado. Ganhei, ganhei (referindo-se ao próximo governador), agora é saber o que é sucesso lá fora, quais são os parceiros que têm interesse que possam investir aqui. Os políticos têm três tempos: o tempo da campanha eleitoral, o tempo pós-eleição, de transição de governo, e o tempo de governo propriamente dito. Quando chega o momento logo após a posse, a conversa é que o Estado está quebrado, não tem dinheiro para saldar os compromissos financeiros. A desculpa é que está tudo uma bagunça e que é necessário planejar. Aí fica seis meses planejando, ou seja, seis meses fazendo caixa. É difícil. A cultura dos nossos dirigentes não proporciona uma tomada de decisão inovadora porque eles não têm conhecimento e, normalmente, trazem pessoas que não têm a experiência necessária e não trabalha com novas tecnologias e inovações. Quem ele vai colocar em sua equipe de governo? Geralmente parentes ou amigos que usaram a influência para chegar lá. Nós precisamos realmente de tocantinenses, a exemplo daqueles que fizeram movimentos fantásticos no Brasil para a separação de Goiás, pessoas que dedicaram uma vida inteira a isso, mas que ficaram perdidas no tempo. Isso tem que ser retomado. O brio, o orgulho do tocantinense precisa ser retomado.

O Certo pode canalizar essa proposta?
Esse é o nosso propósito. Nós paramos com as atividades do Certo, porque começou a ter muito político lá dentro, de todos os matizes. Então, eu falei: “vamos parar com isso, senão vamos perder o controle”. Va­mos retomar as atividades depois das eleições e levar as nossas propostas para o próximo governador.

Já tem alguma proposta em mente para levar ao governador eleito?
Em linhas gerais, sim. Uma das coisas que o nosso Estado precisa é fazer da Universidade do Tocantins (Unitins) uma grande instituição. A Embrapa, por exemplo, é um caso de sucesso no mundo inteiro. A Unitins avançou muito na área da agricultura, muito na pesquisa, mas ninguém reconhece. Tem pessoas qualificadas, de reconhecimento internacional que não são aproveitadas. A Unitins, assim como a USP, em São Paulo, teria que ter um papel para a formação de obra do Estado do Tocantins, para o governo do Estado, para a qualificação dos professores e para as pesquisas que seriam necessárias. Outro ponto importante: nunca os governantes deram apoio e atenção ao setor de tecnologia e inovação no nosso Estado. Quan­do fazem, são esses pequenos editais. Temos que implantar o nosso pólo tecnológico, temos que construir as plataformas. Nós vamos ser bons em quê? É na piscicultura? Então, vamos fazer a plataforma de peixe. Falaram em tanques-rede, mas não teve dinheiro para implantar os projetos.

O Tocantins tem se destacado na imprensa nacional mais pelos escândalos de irregularidades nas gestões públicas. O sr. considera que o nível de corrupção no Estado ainda é grande?
Eu acho que é um dos maiores do Brasil. Aqui a gente tem a “rádio peão” e o que se comenta é isso. Lógico que tem corrupção, porque tudo que é feito é de má qualidade. Se você pagou caro por uma obra, e a qualidade do serviço é péssima, o que aconteceu? Alguém autorizou a empresa a emitir uma nota fiscal cobrando um valor que tinha determinada qualidade. As nossas estradas nunca prestaram. A gente vê obras paradas. Quando se faz um hospital, logo, logo ele apresenta goteiras. A empresa cobra um valor X para fazer Y e acaba fazendo Z. Já tem o problema da licitação, em que para ele ganhar é preciso reduzir o preço dos serviços. O problema maior do Estado do Tocantins é esse desmando com o dinheiro público, a total falta de responsabilidade com os recursos. Os governos não trabalham com um futuro definido, não sabem o que o Estado vai ser daqui a 20 anos, apesar de gastarem fortunas trazendo Fundação Getúlio Vargas, Fundação não sei quê, para fazer o planejamento estratégico. Assim, quando chega o terceiro mês de governo, o orçamento já está mudado e o que foi planejado foi “para o pau”. O PPA nem se fala, pois ninguém sabe o que é isso. Então, não tem sentido um Estado sem objetivo, sem um sonho. Não existe um Estado ao acaso.

O sr. acha que o Tocantins está precisando de novas lideranças políticas, de outra mentalidade que não o clientelismo?
Eu tenho falado muito isso. A responsabilidade do desenvolvimento de um Estado não cabe aos governantes, aos políticos, cabe ao seu povo. Eu acho que o nosso povo está muito omisso, está muito satisfeito com o governo que tem. Nós poderíamos ser muito mais felizes do que somos. E por que isso não acontece? Porque o povo ficou acomodado. Se você grita, lhe arrumam um emprego público. Acho que era preferível todo mundo está passando por dificuldades, porque aí haveria solução.

O sr. acha que os movimentos sociais arrearam as suas bandeiras históricas ou a situação melhorou a tal ponto que os fizeram refluir de suas ideias?
Acho que sim. Estão muito desorganizados e isso precisa melhorar. O que a gente observa hoje nos movimentos sociais é que não estão trabalhando com a sociedade em si, mas como grupos de interesses individuais. O líder comunitário resolveu o problema dele e o resto que se dane. Vemos no Tocantins uma grande casta: poucos ricos, alguns remediados e a maioria pobre. Ainda vivemos em um Estado onde se mora em casas cobertas com palha. Quando se tem um líder comunitário de sucesso, que reúne e discute com a comunidade, logo ele é cooptado para os interesses de um determinado grupo político e é convidado a ser funcionário público. Os movimentos sociais precisam se renovar, eles estão atrasados também, e definir o que querem. O Tocantins é cheio de minorias. Agora, se a gente for verificar esses últimos 25 anos, melhorou muita coisa. Só que nesses 25 anos nós poderíamos ter ganhado 50, porque temos uma população pequena, demandas pequenas e problemas pequenos. Problemas esses de ordem política e jurídica. Quando se fala de saúde, poderíamos ter hospitais de ponta e profissionais de excelente qualidade.

Uma auditoria nas contas públicas seria um desafio para o próximo governador?
Não resolve, porque a criação do Estado é muito recente. Isso só vai mudar com futuras gerações, com outras pessoas, porque nas instituições onde transitam as contas públicas não tem problema nenhum para o governante, porque as pessoas que foram nomeadas a esses cargos, de certa forma, têm compromissos com o governante que as nomeou.

O sr. se refere ao Tribunal de Contas?
Tribunal de Contas, Tribunal de Justiça, Ministério Público Estadual. Vivemos em um Es­tado que, em cinco anos, teve quatro governadores e um Tribunal de Justiça que teve cinco desembargadores colocados para fora por prática de corrupção ou por outro tipo de atividade ilícita. Que situação é essa? Uma Assembleia Legislativa que faz o julgamento das contas de um ex-governador às vésperas da eleição e, diga-se de passagem, mal feito. Um Tribunal de Contas que exige certas coisas e depois perde isso ali na frente; um Ministério Público que aciona um governante e nunca resolve a situação. É uma coisa complicada. Acho que nós precisamos ter uma boa educação para os nossos filhos, para que eles sejam grandes líderes, que eles pensem no todo, não só em si e na sua família.

A renúncia do ex-governador Siqueira Campos significa que o siqueirismo foi sepultado de vez da política tocantinense?
Acho que não. Ele amornou. Nós nunca podemos dizer que o Eduardo Siqueira Campos não é um grande político. Ele o é, apesar de estar enfraquecido. E ele estará no cenário político por muitos anos. Acho que o siqueirismo não acabou e nem vai acabar. Isso é uma coisa natural. Nós precisamos é de outros líderes.

ão podemos dizer que Eduardo Siqueira não é um grande político. Ele  é, apesar de estar enfraquecido”

ão podemos dizer que Eduardo Siqueira não é um grande político. Ele é, apesar de estar enfraquecido”

Mesmo com as animosidades criadas com o governador Sandoval Cardoso e as lideranças políticas ligadas ao grupo dele, o siqueirismo vai resistir?
Quando o Estado do Tocan­tins foi constituído, quem implantou tudo foi a família Siqueira Campos. Foi dois anos de governo sem licitação, sem dívidas, dinheiro sobrando para tudo quanto é lado. Nomearam os policiais militares e civis, pessoal do Ministério Público, desembargadores. Não tem como negar o vínculo e pensar que o siqueirismo tem a sua história política enterrada.

Está tudo amarrado, então?
Sem dúvida. Um desembargador tem direito a casa, carro, passagem aérea, sem contar que vai se aposentar um com salário altíssimo. Ele vai preferir estarcom quem politicamente?

O sr. fez parte da equipe do ex-prefeito Raul Filho no último mandato. Acredita que ele não ter disputado nenhum cargo eletivo nessas eleições o enfraqueceu politicamente? Ou o ostracismo é uma estratégia para tentar a disputa pela prefeitura de Palmas, em 2016?
O Raul Filho é uma grande liderança que nós temos no Estado, principalmente em Palmas. Ele parte para uma disputa na Capital com 30% dos votos, sem fazer campanha. O grande problema que ele (Raul) teve foi uma questão partidária, que ele insistiu achando que resolveria a questão em benefício dele e não deu certo.

Mas na eleição para o governo do Estado ele ficou junto com Carlos Amastha no apoio ao governador Sandoval Cardoso. Amas­tha deve ir à reeleição. E aí, como fica essa aliança?
Está junto até quando precisa, quando for conveniente politicamente, mas depois está contra. É assim que o mundo funciona, é o poder. Quando se tem a questão do poder no meio não tem amizade, além de que o Amastha é uma pessoa recém-chegada ao Tocan­tins, é de outro país. O eleitor prefere o pequizinho a outro tipo de comida. O Amastha foi uma grande decepção para grande parte das pessoas que eu conheço, mas tem feito um bom trabalho, e a gente tem que reconhecer isso, pois a cidade está sempre limpa, mais organizada. O problema do Amastha é um só, que ele não consegue conter: a língua. Com isso, ele cria muitos inimigos.

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