Assembleia Legislativa pode se renovar em mais de 50%

Mais de 600 nomes estarão na disputa por uma cadeira no Parlamento estadual na eleição mais disputada da história

Plenário da Aleto, que pode passar por grande renovação nas próximas eleições| Foto: Isis Oliveira

As eleições de 2022 no Tocantins se projetam como uma das mais disputadas da história do novo Estado, em todos os níveis. Para o governo, para o Senado, para a Câmara Federal e, não poderia ser diferente, para a Assembleia Legislativa (Aleto). Nesse caso, a disputa se verifica principalmente no número de concorrentes. Levantamento junto aos partidos aponta que mais de 600 nomes estarão na disputa por uma cadeira do Parlamento estadual, o que poderá ter como resultado imediato uma renovação significativa no plenário da Casa. Analistas aponta que a renovação pode ultrapassar 50%.

Eles afirmam que as mudanças na legislação eleitoral, com o advento da federação e o fim das coligações pressionando pelo lançamento de chapas completas como o fator determinante para o aumento direto do contingente de pré-candidatos a deputado estadual. Na eleição de 2018 cerca de 300 candidatos foram às urnas disputando as 24 cadeiras do Legislativo Estadual, alcançando uma renovação de 40%. Este ano a previsão é que 600 nomes, envolvendo 21 legendas com registro junto ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE), a maioria de pequenos partidos, estarão buscando conquistar assento na Assembleia Legislativa. Um crescimento significativo que reflete o interesse maior pela participação política e maior opção de escolha para o eleitor.

Na formação atual da Assembleia Legislativa pelo menos nove deputados estão com mais de três mandatos consecutivos. Desses, Eduardo do Dertins (Cidadania) e Toinho Andrade (Republicanos), atual presidente da Casa, exercem o quinto mandato. Ambos ganharam a primeira oportunidade de representar o povo no Parlamento em 2003 e, de lá pra cá, não saíram mais.

A estratégia se popularizou no meio político com a denominação de “chapinha”, o nome que se dá para uma chapa de deputado estadual ou federal, do qual não conta detentores de mandato, permitindo uma maior igualdade de condições na disputa. A “chapinha” se contrapõe às grandes coligações partidárias que garantem eleição para os detentores de mandato. Segundo dirigentes partidários que adotam a metodologia da “chapinha”, dizem que, além de criar condições de igualdade, favorece ainda o empenho de todos os candidatos, pois qualquer um que integra a chapa tem condições de ser o eleito, somando a votação dos demais.

O empresário Lucas Marques virou uma espécie de consultor dessa metodologia que vem sendo replicada nas eleições no Tocantins desde 2008 e que foi responsável pela eleição de nomes desconhecidos que hoje fazem carreira na política do Estado. “Os políticos que têm mandato têm também poder financeiro e influência, com muita gente empregada. Se não tiver uma estratégia para concorrer com essas máquinas eleitorais, a disputa fica desleal”, alerta o empresário e consultor. “Enquanto um candidato com mandato tem, por exemplo, 600 comissionados, outro que está fora disso tem muita dificuldade para conduzir a campanha”, explica Lucas, que foi um dos primeiros dirigentes partidários a recorrer à metodologia da “chapinha”.

Lucas explica que o segredo da formação da “chapinha” é juntar candidatos com o mesmo potencial de voto, evitando um desequilíbrio muito grande, o que, segundo ele, é prejudicial, pois obriga os que têm menor potencial a servir de escada para os mais fortes. “Quando todo mundo é do mesmo tamanho não tem a estrela, mas tem a constelação; todo mundo acha que pode ser ele o eleito, então todos vão produzir”, ensina o dirigente, que ressalta que quando se forma uma chapa onde tem um deputado, este é a estrela e inibe um maior empenho dos outros, pois “ninguém quer calçar estrela”, comenta.

O presidente do PRTB, publicitário Fred Lustosa, avalia que, com muitos candidatos nas ruas, haverá indiscutivelmente uma pulverização dos votos, jogando para baixo os números dos grandes puxadores de voto em outros pleitos. O dirigente calcula que com esse nível de disputa poucos candidatos vão ultrapassar a marca de 20 mil votos para deputado estadual. O publicitário defende a estratégia dos partidos de lançar “chapinhas” que segundo ele, criam condições de competividade dos pequenos partidos que terão, no conjunto, votos para eleger deputado.

O ex-prefeito de Palmas e ex-candidato a governador Carlos Amastha (PSB) se mostra adepto dessa estratégia eleitoral que tem feito história no Tocantins, mas que, segundo ele, começou em Palmas. Amastha explica que em 2020 decidiu fazer a primeira eleição com chapa pura, pelo PSB, sem coligação para vereador, já antecipando a federação. “Fomos bem sucedidos, elegemos o Júnior Brasão e o Lacerda do Gás e teríamos condições de eleger quatro. Isso não aconteceu porque nós tínhamos candidato na majoritária, Tiago Andrino, o que nos obrigou a fazer o que sempre fizemos: dar o mesmo tratamento para o PSB, Cidadania e PL”, explica.  Amastha acrescenta outra exigência para garantir sucesso ao empreendimento de chapa pura, o revezamento do mandato, beneficiando os suplentes. Segundo o socialista, isso cria um sentimento diferente no grupo.

Chapinha faz história
Lucas aponta que essa metodologia vem desde 2008, na eleição de Palmas. O primeiro partido a praticar essa ideia foi o Partido Trabalhista Nacional (PTN), hoje Podemos. Na época, o PTN lançou chapa pura e sem candidatos com mandato e conseguiu eleger dois vereadores: José do Lago Folha Filho e Divina Márcia, um feito considerado notável, tendo em vista que, para se eleger em Palmas naquela época, além de recursos, era preciso ter estrutura partidária e padrinho político. Divina e Folha foram eleitos à revelia desses critérios tradicionais, inaugurando uma nova forma de fazer política, garante Lucas.

“Em 2012 nós fizemos uma coligação (PRB, PTB, PSL, PHS, PMN) e montamos uma chapinha que elegeu novamente dois vereadores, Cleiton Cardoso (PSL) e Gerson da Mil Coisas (PSL), ambos então sem mandato”, explica o dirigente. Ele lembra que deixaram de ser eleitos pelo menos quatro candidatos com mandato, integrantes de partidos grandes. Lucas conta que a mesma estratégia de coligação entre partidos pequenos (PRB, PTB, PSL, PHS, PMN) foi adotada na eleição para o governo do Estado em 2014, tendo sido responsável pela eleição dos deputados Júnior Evangelista (PRTB) e Cleiton Cardoso (PSL). Naquela eleição, Cleiton e Evangelista deixaram sem mandato 13 candidatos mais votados que eles, mas que não foram eleitos.

Em 2016, a fórmula foi replicada na eleição em Palmas. Elegeu novamente dois vereadores: Vanda Monteiro (PSL) e Gerson da Mil Coisas (PSL), deixando de fora pelo menos três vereadores com mandato. “Em 2018, essa estratégia de chapa sem a presença de deputados foi responsável pela eleição de Ivory de Lira (PCdoB) e Vanda Monteiro (PSL) em “chapinhas” diferentes, com base na mesma lógica. Em 2020, na eleição em Palmas, foram eleitos os estreantes Rubens Uchôa e Juatan Silva, ambos do Cidadania.

Agora em 2022, a prática chega ao auge. Houve, inclusive, um movimento dos grandes partidos como PSB, PSDB e PT, PV e PCdoB de negar legenda para detentores de mandatos. Isto obrigou os deputados a inchar alguns partidos como o Republicanos do governador Wanderlei Barbosa que conta com nove deputados. No meio político a chapa do Republicanos vem sendo chamada de chapa da morte, já que conseguirá no máximo eleger cinco dos nove detentores de mandato. Será degola na certa. Os deputados dos Republicanos dizem que “o que elege é voto” e isso eles garantem que têm. A história da chapinha tem mostrado que só voto não basta.

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