As lições da eleição suplementar

A vitória insofismável de Mauro Carlesse sobre Vicentinho Alves confirma que ter a máquina governamental é um trunfo e tanto

Governador Mauro Carlesse: forte para candidatura à reeleição em outubro

Com as eleições suplementares encerradas no dia 24 passado, e a posse dos eleitos designada para o dia 9 de julho, uma série infindável de lições deve ser absorvida pelos políticos do Estado do Tocan­tins. A primeira delas, sem dúvidas, é que ter a “chave do cofre” vale muito na disputa. Não que isso seja novidade, mas é que nesta eleição isso restou evidenciado às escâncaras.

Alguém poderia dizer: “Ah, mas o Gaguim e o Sandoval também tinham a máquina na mão e quando enfrentaram as disputas diretas, perderam”. Sim, este é um fato verdadeiro, contudo, está ligado intimamente à falta de traquejo dos candidatos, como também a envergadura dos adversários que enfrentaram: Siqueira Campos (DEM) e Marcelo Miranda (MDB).

Em relação ao tema chave do cofre, diga-se de passagem, o governador interino jogou pesado quando o assunto foi a distribuição da grana. Antecipou o pagamento dos servidores públicos para o início de cada mês e regularizou plano de saúde.

Além disso, investiu em ações pontuais na saúde e conseguiu reduzir filas e desocupar corredores de hospitais. Pagou uma emenda aqui e outra acolá, o que gerou, inclusive, operações da Polícia Federal na Secretaria da Fazenda e que pode trazer futuros problemas, todavia nas outras áreas críticas do governo, não teve condições de fazer muito. É que ainda está em vigor – até sua posse – uma liminar judicial que o impede de efetuar pagamentos de gastos que não sejam emergenciais ou urgentes.

Vicentinho Alves: erros primários levaram à derrota anunciada

Voltando ao resultado das urnas e suas lições, é necessário analisar os números finais. No primeiro turno, 174.275 eleitores votaram em Mauro Carlesse (PHS); 127.758 em Vicen­tinho (PR); 123.103 em Amastha (PSB); 90.033 em Kátia Abreu (PDT); 56.952 em Marlon Reis (Rede); 14.660 em branco; 121.877 optaram por anular o voto e, por fim, 306.877 decidiram não ir às urnas.

Já no segundo turno, de um total de 1.018.329 eleitores aptos a votar, 368.553 marcaram Carlesse, dobrando o número de votos recebidos na primeira etapa, 121.908 escolheram Vicentinho, 17.209 em branco, 155.627 anularam e 355.032 se abstiveram.

Em suma, todas opções disponíveis aumentaram seus números, exceto Vicentinho, na medida em que nem os eleitores que haviam creditado seu voto a ele no primeiro turno, repetiram o ato. Um fenômeno que merece, inclusive, um estudo mais profundo. Poucas vezes se ouviu dizer que um candidato não conseguiu sequer repetir em segundo turno a votação do primeiro. É verdadeiramente preocupante para as pretensões políticas do senador.

O número de pessoas que não se conectaram ao processo eleitoral suplementar também é surpreendente. Se no primeiro turno 443.414 eleitores resolveram se abster, votar em branco ou nulo, no segundo turno, esse número cresceu assustadoramente para 527.868. Uma “grande banana”, portanto, para os políticos e suas propostas.

Legitimidade

Quanto ao candidato Carlesse, com 75,14% dos votos contra 24,86% do adversário, está legitimado para o exercício do cargo até 31 de dezembro deste ano, visto que a legislação eleitoral lhe favoreceu, ao contabilizar apenas os votos válidos.

Trata-se de um prenúncio para as eleições ordinárias de outubro? Talvez. Uma eventual reeleição de Carlesse passa necessariamente pelas suas condutas à frente do Palácio Araguaia entre os dias 9 de julho (posse) e 7 de outubro (primeiro turno da eleição ordinária). Ele terá três meses para provar aos tocantinenses que é capaz de gerir a máquina pública com cautela, eficiência e resultados práticos, sem, contudo, se deslumbrar com o poder e tropeçar em obstáculos inerentes ao cargo, atraindo investigações desnecessárias para o centro do Poder Executivo.

A Vicentinho Alves resta a reflexão. Ele assumiu o cargo de senador em 2011, após o TSE não permitir que o vencedor das eleições, Marcelo Miranda, tomasse posse. Seus oito anos no exercício do mandato – pelo jeito – não foram bem avaliados pela população.

Esta história de se postar ora ao lado de Siqueira Campos, ora ao lado de Marcelo e, ainda, “chutar” o aliado político e prefeito de Araguaína, Ronaldo Dimas, foi um “tiro no pé”. Os números são claros e não se trata de conjecturas. Vicentinho foi solenemente rejeitado pelos eleitores do Tocantins e perdeu, não apenas para o adversário Carlesse, mas também para os votos nulos.

Foi inacreditável, em que pese essa derrota acachapante ter dado mostras que iria ocorrer. Quando Vicentinho não ganhou em nenhum colégio eleitoral expressivo no primeiro turno, perdendo, inclusive, em sua terra natal, Porto Nacional – da qual já foi prefeito –, era um claro sinal de que as coisas não iriam correr bem.

O eleitor tocantinense ainda é, na sua grande maioria, provinciano. A capital Palmas é uma ilha, politicamente falando. O voto é politizado por essas bandas, mas lá no sertão, o eleitor, simplório em sua grande maioria, não aceita mudanças para outro grupo político. “Ou o cabra é Siqueira ou é Miranda” é o que se ouve pelos rincões do Tocantins.

Os senadores Vicentinho Alves, Kátia Abreu e Ataídes Oliveira não compreenderam a lógica – simplista, porque não dizer (?) – desse eleitorado. Os três navegaram nos dois redutos e isso os eleitores não perdoam. Resultado: votações pífias.

Quanto a Carlos Amastha, ainda precisa se livrar da soberba e, também, entender que o voto do eleitor sertanejo é mais tradicional e avalia, de esguelha, as condutas e discursos dos candidatos.

Sotaque atrapalha

Por mais incrível que possa parecer, uma das coisas que Amastha precisa solucionar é o carregado sotaque estrangeiro. É que mesmo após mais de 25 anos radicado no Brasil, seu português é sofrível e sua dicção, péssima. Aquele eleitor lá do interior nem sequer entende o que o candidato está dizendo.

Talvez Amastha não tenha humildade para reconhecer, mas a primeira atitude a ser tomada é procurar – urgentemente – um profissional da fonoaudiologia. Inobstante a isso, o ex-prefeito de Palmas precisa reconhecer que a formação de um grupo político é necessária, porque sozinho não se ganha eleições, entretanto, todo cuidado é pouco para escolher os parceiros de jornada. Optar por um PT esfacelado, que nem sequer veio para sua campanha integralmente, foi suicídio eleitoral.

O PT, cujo líder maior se encontra encarcerado, está em franco descenso, é fato, e há muito mais pessoas que rejeitam o partido e seus membros do que simpatizantes. Aliar-se a um partido amplamente rejeitado, portanto, fez com que Amastha perdesse muitos votos. Os adversários até agradeceram quando o colombiano anunciou a aliança.

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