“Ao nos rotular como lixo, o prefeito Amastha nos excluiu do projeto dele”

Deputado federal e presidente do PSD no Estado diz ser contra reeleição para cargos do Poder Executivo e afirma que impeachment de Dilma foi “aviltante”

Foto: Saulo Cruz

Foto: Saulo Cruz

Dock Júnior

O deputado federal Irajá Abreu é natural de Goiânia, graduado em Comunicação Social, Publicidade e Propaganda. É empresário e produtor rural. Disputou e obteve êxito, com expressiva votação, na primeira eleição que disputou em 2010, para deputado federal, sendo reeleito em 2014. Em que pese ser filho da senadora Kátia Abreu e exatamente por isso oriundo de tradicional clã político do Tocantins, o parlamentar tem identidade. Sua atuação na Câmara Federal é independente e coesa e, regionalmente, lidera com dinamismo o PSD no Estado.

Político bem antenado e situado acerca das questões econômicas e políticas, o deputado recebeu o Jornal Opção para uma entrevista em que destacou seus mandatos, cassação de Eduardo Cunha, impeachment de Dilma Rousseff, condução da sigla partidária no Estado, perspectivas para a eleição municipal de 2016, além de tecer pesadas críticas ao prefeito de Palmas, Carlos Amastha.

O PSD hoje é o maior partido do Tocantins, já que detém a maioria de prefeitos e vereadores no Estado. Como presidente regional da sigla, quais as perspectivas do partido para as próximas eleições municipais?
Em que pese todas dificuldades pelas quais passa o País e o Estado do Tocantins – crises política, econômica, ética e moral –, estou bastante animado para o próximo pleito. Tenho o que comemorar: quando assumi o partido em 2014, tínhamos apenas 13 prefeitos e aproximadamente 130 vereadores e 3.600 filiados. Fiz um árduo trabalho para fortalecimento da sigla nesse período e vamos disputar as próximas eleições com 42 prefeitos no exercício do mandato, mais de 150 vereadores e 10 mil filiados.

Esse trabalho surtiu resultado porque, aliado à senadora Kátia Abreu, fizemos uma espécie de união das nossas emendas parlamentares individuais – cada qual possui R$ 15 milhões por ano. Todos esses recursos são destinados a esse grupo de prefeitos filiados ao partido e suas respectivas cidades. É uma forma de prestigiar e alavancar o crescimento daquelas localidades. Todos os anos, cada um desses municípios recebe – sem falta – uma emenda minha e outra da senadora Kátia. Esse modelo adotado assegura aos prefeitos um certo conforto e segurança que eles vão conseguir entregar obras e beneficiar as cidades, todos os anos de sua administração.

Pois bem, nessas eleições teremos 84 candidatos em chapas majoritárias. São 69 candidaturas a prefeito e 15 a vice-prefeito. Também apoiamos outros 14 candidatos de outras cidades, que não estão filiados ao partido. Somando tudo, concorreremos majoritariamente em 98 das 139 cidades tocantinenses. Percorremos o Estado e visitamos todos esses municípios por mais de três vezes, desde o lançamento das pré-candidaturas, e a aceitação tem sido surpreendentemente boa e positiva em todos eles. É que em razão da atual crise política que atravessamos, tive receio acerca da aceitação do eleitorado, contudo, as recepções que venho obtendo no interior do Estado são calorosas, vibrantes e participativas.

Qual é a meta do partido nas próximas eleições?
Dentre os 98 candidatos majoritários, a meta é elegermos mais de 50 prefeitos. Nosso objetivo também é eleger mais de 180 vereadores em todo o Estado. Analisando as pesquisas, enquetes e vendo o clamor das ruas, acredito que esses números são bem factíveis.

Como explicar dois prefeitos filiados — Dr. Fred, em Miranorte, e Muniz, em Tocantínia — optarem por não disputar a reeleição?
Tenho refletido e conversado muito acerca desse tema. Considero como impraticável o instituto da reeleição para cargos do poder executivo e sou favorável à sua extinção. Considero como um equívoco. Implantada na década de 90 por uma PEC, a história se incumbiu em demonstrar que a reeleição não é benéfica para o País, Estados e municípios. É que os governantes após eleitos começam traçar metas e planos de governo visando sua reeleição. Em função disso, moldam seu comportamento e deixam de promover mudanças transformadoras que, certamente, desagradariam alguns segmentos da sociedade. Assim sendo, a meu ver, está explícito a inviabilidade desse instituto. Poderíamos até esticar os mandatos do poder executivo para cinco anos, contudo, precisamos rever e discutir o fim da reeleição para esses cargos.

Em relação aos prefeitos que optaram por não disputar a reeleição, considero que pesaram questões de foro íntimo. O prefeito de Miranorte, por exemplo, é exemplar, um sujeito honesto, sério, ético e correto. Dentro do prazo legal, infelizmente ele fez a opção de não concorrer e o partido acabou por respeitar. Porém, acredito que em função do trabalho prestado àquela comunidade, seria um excelente nome para comandar a cidade por mais um mandato. Enfim, essas questões são inerentes à política e as decisões tomadas pelos atuais gestores são democraticamente respeitadas pela sigla.

Em Palmas o seu irmão e vereador Iratã Abreu também não quis disputar a reeleição, em que pese tratar-se de um nome de peso do partido. Como o sr. recebeu e avaliou essa decisão?
Iratã fez uma opção de vida, está motivado com projetos privados. Ele entendeu que seria bastante complicado conciliar a vida pública com a vida pessoal e os negócios. Então, ele achou por bem, para evitar conflitos de interesses, dedicar-se apenas àqueles projetos, retirando-se da vida pública, por enquanto. Compreendi o posicionamento dele, mesmo porque é realmente difícil tocar dois projetos – com qualidade e dedicação – ao mesmo tempo.

Em relação a essa reta final de campanha, como percorrer e prestigiar todos os correligionários em tão pouco tempo?
Tenho me dedicado, na condição de presidente da sigla, integralmente a esta questão. Todavia, realmente não seria possível sozinho. Formamos três grupos, dividimos tarefas com a finalidade de percorrer os 98 municípios: A senadora Kátia visitará as cidades do Bico do Papagaio, o deputado Toinho Andrade outras localizadas no centro e sudeste do Estado e eu, por fim, percorrerei os outros dessa extensa lista. Essa declaração de apoio aos candidatos é importante, além de firmar compromissos nos palanques de viabilizar obras e investimentos, contribuindo com o crescimento das cidades.

Especificamente em relação à eleição na capital Palmas, quais são as suas perspectivas?
Há vários nomes com grande potencial: o atual vereador Folha, com grandes chances de reeleição; o Diogo Fernandes, que obteve expressiva votação na última eleição como candidato a deputado estadual; o ex-vereador Carlos Braga, um nome muito respeitado na cidade; o PC Lustosa, candidato que obteve boa votação em 2012 – atualmente é suplente – e tem chances reais de obter êxito desta vez, entre tantos outros bons nomes no partido, que estão na batalha pelo voto popular para nos representar na Câmara de Vereadores.

Creio que o coeficiente eleitoral de Palmas será entre 5.800 e 6.200 votos. Nesse contexto, temos a pretensão e expectativa de eleger pelo menos quatro vereadores nesta coligação entabulada com o PR, mesmo porque este partido tem em seus quadros o vereador Lúcio Campelo, um candidato também com grandes chances de ser eleito. Mas a eleição em Palmas é sempre uma caixinha de surpresas, não obedece muito às tendências e previsões. Por exemplo: a eleição da prefeita Nilmar Ruiz era dada como certa, todavia não ocorreu; a reeleição do Raul Filho, que poucos acreditavam, aconteceu; a eleição do favorito Marcelo Lelis – ao contrário de todas as previsões – também não ocorreu. É muito temerário, portanto, bancar o êxito de alguém.

Em relação à campanha majoritária em Palmas, o PSD optou por apoiar o candidato Raul Filho (PR). Como isso se deu e porque o partido se inclinou a compor com essa chapa?
Tivemos uma experiência de convivência administrativa – e não eleitoral – com o prefeito Amastha. Ocupamos, após o seu convite, espaços e cargos na Prefeitura de Palmas com o objetivo de ajudá-lo na gestão do município. Dentro das nossas possibilidades – eu como deputado federal, a Kátia como ministra da Agricultura e o Toinho como deputado estadual – ajudamos a angariar e viabilizar convênios e recursos para a cidade. Foram de dezenas de obras que já foram concluídas e outras que ainda estão em andamento. É possível afirmar que houve contribuições consideráveis para o desenvolvimento dessa cidade.

No que concerne a caminhar junto com ele no processo eleitoral, já é outro contexto. O prefeito Amastha, desde sua primeira campanha e também na atual, vem se posicionando nos seus discursos no sentido que a classe política – em especial a tocantinense – é desacreditada, mal-intencionada, entre outros adjetivos pejorativos. Particularmente, eu discordo. Defendo a classe a que pertenço. Tenho orgulho de trabalhar honestamente, no seio político, para ajudar o Estado e cidade de Palmas a crescerem. Então, se o prefeito rotula toda essa classe e também os partidos – incluindo o PSD, eu e a senadora Kátia – como “lixos”, nos sentimos excluídos do projeto dele. Por tal razão, decidimos seguir junto com um grupo político que consideramos que tem um excelente histórico e foi de suma importância para a construção de Palmas e do Tocantins. Todos nós, enquanto tocantinenses ou não, demos nossa contribuição para o fortalecimento deste Estado e desta capital. Repugnamos a conduta do prefeito Amastha quando ele discursa trazendo todos os méritos apenas para si, como se apenas ele fosse honesto, trabalhador e competente, enfim, o dono da razão.

O sentimento que nos une para nos contrapor a essa infâmia é nos unirmos para retomar o controle da Prefeitura de Palmas. O atual gestor de Palmas adota o discurso que a administração dele é o divisor de águas, que Palmas só passou a ser cidade depois dele, o que não é verdade, não tem o mínimo cabimento. É como se todos os esforços que toda sociedade palmense fez até 2012 não valesse absolutamente nada. Considero essa conduta como uma grande prepotência e a repudio veementemente.

Temos condições de ajudar a cidade a crescer, afinal este grupo político é composto por quatro deputados federais, dois senadores, além de vários deputados estaduais que podem direcionar emendas parlamentares que beneficiarão nossa capital. Se a prefeitura contar com esses recursos, além dos convênios federais, não será mais necessário tributar arbitrariamente como fez e vem fazendo o prefeito Amastha. O valor do IPTU foi vertiginosamente majorado após a irreal supervalorização dos imóveis; a indústria das multas e as taxas estão inviabilizando a vida do cidadão palmense. Ora, não existem milagres em gestão pública: ou se administra a cidade apenas com recursos próprios ou divide-se a responsabilidade, uma parte com verbas do tesouro municipal e os outros recursos viabilizados através de parcerias e convênios. Ocorre que o prefeito de Palmas se isolou – no alto do pedestal da arrogância – e acabou por afastar os parlamentares estaduais e federais de sua gestão. Sendo obrigado a administrar apenas com recursos próprios, ele foi obrigado a irresponsavelmente punir a comunidade através das cobranças abusivas de um IPTU caro, multas de trânsito, estacionamento rotativo sem carência, entre outros, para que ele pudesse gerir a cidade de forma regular. Essa é a matemática dessa gestão e está completamente equivocada.

Nas outras principais cidades do Estado do Tocantins, como o sr. tem visto e analisado as candidaturas majoritárias?
Em Gurupi, estamos apoiando o prefeito Laurez Moreira e sua eleição é bem provável. Em Porto Nacional, o apoio é ao prefeito Otoniel Andrade, que também tem grandes chances de se reeleger. Na cidade de Araguaína, estamos apoiando o atual gestor, Ronaldo Dimas, que também é um forte concorrente. Nesta cidade, há possibilidades reais de elegermos um vereador oriundo de uma família tradicionalíssima naquela região, Joaquim Quinta Neto.

Após o período eleitoral, suas atividades voltarão a ser exclusivas ao parlamento federal. Dentro desse contexto, o que há de importante para ser votado neste último trimestre?
A votação do orçamento de 2017 talvez seja a questão mais importante nesse período. A LDO e LOA serão detidamente analisadas, destacando-se os cortes, as previsões de receitas e despesas, além dos investimentos que o governo federal pretende fazer em áreas prioritárias. Em dezembro também será a época de definir o destino das emendas individuais de cada um dos deputados, reservando minha quota para distribuir de forma equilibrada e justa em prol dos municípios tocantinenses.

No que concerne à cassação do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, como o sr. votou?
Como a maioria esmagadora dos parlamentares, votei a favor da cassação. As condutas do deputado eram reprováveis e, havendo provas acerca da quebra do decoro, era medida que se impunha.

espero e torço para que o  novo governo do presidente michel temer acerte em  suas decisões” | Foto: Lula Marques/ AGPT

“Espero e torço para que o novo governo do presidente Michel Temer acerte em
suas decisões” | Foto: Lula Marques/ AGPT

Na votação da admissibilidade do impeachment de Dilma Rousseff na Câmara Federal o sr. votou contrário. O processo foi julgado procedente pelo Senado e depois o plenário daquela Casa afastou-a definitivamente do poder. Michel Temer foi empossado como presidente da República e um novo tempo se inicia. Na condição de deputado federal, quais são suas perspectivas para o Brasil em 2017/2018?
Vamos trabalhar para ajudar a tirar o País dessa crise em que, momentaneamente, se encontra. Quanto ao processo de impeachment, considero que foi um grande equivoco. A própria injustiça com a presidente Dilma, que foi condenada antecipadamente, sem o devido julgamento técnico-jurídico e sim meramente político, foi aviltante. Tenho inclusive receio dos desdobramentos disso futuramente, abrindo precedentes em relação a presidentes, governadores e prefeitos. Essa recorrência ao processo de impeachment para solucionar problemas administrativos me preocupa. Na minha visão, o conjunto da obra deve ser julgado na eleição, nas urnas. Da forma como ocorreu, vi a nossa democracia ser fragilizada. Que fique claro: não estou analisando o mérito dos atos da ex-presidente. A minha discordância é quanto à metodologia adotada.

Seguindo em frente, precisamos retomar o crescimento econômico, diminuir o alto índice de desempregados, combater a inflação que já beira as duas casas decimais. Muito me preocupa o endividamento das empresas e das famílias brasileiras, visto que a médio e longo prazo pode se tornar um problema sem solução.

Espero e torço, com toda franqueza, que o novo governo – legítimo ou não – acerte nas suas decisões. Evidente que naquilo que for bom para o País e obedecer meus princípios, na condição de parlamentar, estarei pronto para ajudar. Sou absolutamente contra o aumento de impostos e votarei contra se essa for a medida adotada pelo presidente Temer, no entanto, não farei oposição irresponsável nem terrorismo. Vou torcer para dar certo.

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