Amastha desafina

Em vez de manter a postura anunciada de lutar para mudar a velha política, parece que o prefeito se conforma com a realidade e já até admite não participar do processo

Prefeito Carlos Amastha: se não quiser liderar o futuro, vai dar espaço para o atraso

Prefeito Carlos Amastha: se não quiser liderar o futuro, vai dar espaço para o atraso

Ruy Bucar

O prefeito de Palmas, Carlos Amastha, do PP, até aqui foi impecável. Tanto no aspecto político como no administrativo. Faz um governo correto, criterioso e bem intencionado, ainda que sem as inovações que prometeu. O que explica talvez o alto índice de aprovação (que se mantém sempre acima de 70%) medido por institutos de pesquisas que monitoram o desempenho do seu governo.

Mas ninguém é perfeito, muito menos Amastha, o gestor mais bem avaliado na história da Capital. Apesar de uma série de medidas antipopulares, talvez num vacilo involuntário ou intencional, parece abandonar a postura de combate ao retrocesso na política das forças conservadoras que comandam o Estado para se adequar ao sistema. Pelo menos é o que se pode concluir de suas últimas declarações.

Amastha, o idealizador da terceira via e o seu principal cabo eleitoral, de repente passa a ser obstáculo para a sua consolidação. Se não bastassem as restrições a pessoas e partidos, o prefeito se dá ao luxo de dizer que conforme for o processo pode até se recusar a participar das eleições. O que isso quer dizer? Só o prefeito pode explicar. Na ausência de explicação se pode concluir que Amastha está retirando o seu apoio à terceira via e decretando a sua inviabilidade. Por que estaria fazendo isso? É o que buscaremos entender.

Quem acompanha a trajetória do prefeito e torce pela sua ascensão no contexto regional, e não são poucos, deve ter estranhado as suas últimas declarações sobre a terceira via. O prefeito se nega a acompanhar a decisão da coligação se tiver que dialogar com o PMDB da senadora Kátia Abreu e ameaça cruzar os braços, numa atitude absolutamente incompreensível para não dizer entreguista. Se um líder como Amastha resolve cruzar os braços em uma das mais importantes eleições do Tocantins, o que se pode esperar do futuro do Estado?

Amastha tem todo o direito de mudar de opinião. De reavaliar suas posições. De abrir mão de ser protagonista, de querer ficar em casa em vez de sair por aí pedindo voto para alguém que não sabe se vai corresponder aos seus interesses políticos. Na política esse é um exercício natural. Aquilo que parecia viável ontem hoje pode ser algo superado. Mas isso não o desobriga de dar a sua contribuição para o avanço político do Tocantins. Sua eleição é resultado do amadurecimento do eleitor que fez uma aposta na mudança.

Amastha não tem muitas opções. Ou apoia a terceira via que está ajudando a criar, ou o governo ou a oposição. Se ameaça abandonar a terceira via pelo risco desta se aproximar da oposição, só resta ao prefeito apoiar o governo. E isso não é muito difícil de acontecer — se já não estiver acontecendo. Pois cruzar os braços como chegou a anunciar significa apoiar (indiretamente) o governo. É inevitável. Amastha fora do palanque da oposição vira presa fácil do governo, cabo eleitoral, melhor dizendo.

A decisão que Amastha tomar decide o seu futuro. O prefeito sabe disso e é justamente o recuo de postura que chama atenção. Postura que não combina em nada com o seu histórico de confronto com as forças que chama de atrasadas e superadas. O que o fez mudar de opinião? A constatação do limite do seu prestígio ou a omissão por conveniência?

O prefeito, que até aqui foi impecável, vai ter que explicar esse recuo, para não dizer contradição, que terá certamente algum reflexo no futuro. Amastha não é um político qualquer. É um líder que tem percepção, que tem consciência da sua importância no cenário político do Estado. Sabe muito bem que essa postura dúbia já atrasou em muito a formação do bloco que chama de terceira via. Sem Amastha no comando a terceira via não será a mesma, corre sério risco de não vingar.

Mudança estranha

Não é possível saber ao certo o que provocou esta mudança de posicionamento. É bom frisar que a mudança ocorreu no momento em que o prefeito comemorava o avanço no diálogo com o governo em busca de parceria. Daí dizer que houve algum tipo de acordo político não faz sentido. O prefeito, que vem construindo sua trajetória política no combate ao siqueirismo, não iria mudar tão facilmente de posição, pois seria um suicídio político. E Amastha pode ser um estreante na política e na gestão pública, mas não um amador.

O equívoco de Amastha não está em negociar com o governo e buscar apoio para promover o desenvolvimento de Palmas, mas na suposição de que a eleição de Eduardo Siqueira Campos favoreceria a sua candidatura ao governo do Estado em 2018. Visto que Eduardo se eleito não poderá ser reeleito, portanto permitiria que o candidato de oposição concorresse em pé de igualdade. Esta percepção arrebatou pelo menos dois pretendentes de 2018 para a base do governo, os prefeitos de Gurupi, Laurez Moreira (PSB), e o de Araguaína, Ronaldo Dimas (PR).

Para a quem tem interesse em 2018 não interessa a eleição do oposicionista Marcelo Miranda, que se vencer o pleito certamente será candidato à reeleição com amplas chances de sucesso. Isso já aconteceu no passado. Se foi esse o motivo que levou o prefeito a mudar radicalmente de posição, pode-se afirmar que Amastha cometeu um erro grosseiro, ajudar (ainda que indiretamente) eleger alguém que ele considera um retrocesso para o Tocantins, apenas porque pode favorecer as suas pretensões futuras. A declaração de que pode ficar fora do processo das eleições pode soar como manifestação de conformismo que favorece o candidato governista. Se o principal cabo eleitoral da oposição cruza os braços, quem ganha com isso?

É preciso que fique claro que não se está aqui apontando quem Amastha deve apoiar ou não. Essa é uma decisão que só ele pode tomar. Também não há nenhum problema em Amastha apoiar Eduardo Siqueira Campos, a não ser o fato de ser uma incoerência. Amastha sabe que esse apoio representaria um suicídio político, pois sua eleição foi justamente resultado da negação do siqueirismo. Seria uma traição aos que o elegeram. É o discurso do prefeito que indica isso.

Então vejamos. Ao sair das urnas como fenômeno eleitoral de 2012, o novo prefeito deu a seguinte declaração ao Jornal Opção, que indicava qual seria o seu papel nas eleições de 2014: “Tenho uma motivação muito especial para fazer dois anos fantásticos de prefeitura, para, em 2014, ser um grande eleitor no Tocantins com o meu voto, com o meu apoio. Com o resultado dessa administração junto à população de Palmas, a cidade, como um todo, será muito importante na definição do próximo governador”, declarou na oportunidade, em outubro de 2012.

Em janeiro de 2013, manteve a posição assumida depois das eleições de líder emergente das oposições, que via na sua eleição o exemplo da necessidade de mudança. “É muito prematuro discutir 2014, mas nós vamos nos esforçar para fazer uma excelente administração durante 2013 e no primeiro semestre de 2014, de maneira que o PP da capital seja determinante, seja o fator mais importante da eleição”, disse o prefeito mantendo a mesma motivação e o entendimento de que deveria exercer papel decisivo nas eleições.

Em janeiro de 2014, o prefeito começa a mudar sua posição. Em entrevista ao Jornal Opção anunciou que pode até cruzar os braços e não participar do processo. Postura muito diferente da que vinha defendendo, o que não deixa de ser curioso. “Se ninguém for o suficientemente convincente para a gente entrar no processo nós vamos cuidar de Palmas, tem tantas coisas para se preocupar e independente de quem esteja no Palácio em 1º de janeiro de 2015,” declarou, explicando que quem for eleito será o seu governador. “O meu governador vai ser aquele que tome posse no dia 1º de janeiro de 2015 porque Palmas precisa estar afinada com o próximo governador, seja ele da velha política, da nova, terceira, quarta via, seja lá o que for a gente vai estabelecer uma relação de diálogo e de respeito com quem quer que seja o próximo governador desse Estado”, disse.

Uma coisa é estar aberto a qualquer gestor que for eleito, isso é respeitar o resultado das urnas e ter disposição para lutar por Palmas; outra coisa é cruzar os braços e nada fazer para mudar o sistema político que está caindo de podre, principalmente da parte do prefeito que é resultado do desejo de mudança. Amastha sabe que não se trata de apoiar esse ou aquele candidato, mas de conquistar espaço político com vistas a um futuro próximo. Sabe que se fizer tudo correto chegará a 2018 na frente de seus concorrentes. E que das alternativas colocadas a de não envolvimento é a pior delas.

Amastha é um político que tem demonstrado preparo e que sabe o que quer. Uma revelação no meio político que veio da iniciativa privada com possibilidade de acrescentar, mas não pode errar em suas escolhas. Ele é o novo, mas não está sozinho na disputa deste espaço. O deputado Marcelo Lelis (PV) também disputa a condição de líder do futuro, que pode levar o Tocantins a um novo tempo, e não está parado. Percorre o Estado como pré-candidato com discurso de alternativa de mudança que está ganhando apelo popular por onde passa. Tem para onde crescer. E na medida em que cresce se torna ameaça para Amastha.

O prefeito de Palmas tem um desafio importante pela frente. Se deseja realmente ser um líder influente terá que mudar seus conceitos, arregaçar e mangas e obrigatoriamente participar ativamente nas eleições. Se não tentar exercer papel decisivo nestas eleições, imaginando se preservar de desgastes, será automaticamente engolido pela velha política que diz combater ou pelas novas forças que ele está se negando a liderar agora. O prefeito precisa se restabelecer do apagão político que sofreu neste início de ano. Ainda dá tempo de reconquistar a posição de líder da terceira via que pode se tornar a segunda ou a primeira, mas não chegará ser força nenhuma se não estiver disposto a confrontar o novo que diz representar com o velho modelo de política que demonstra cansaço exaustão.

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