“A união das mulheres é necessária para que candidaturas femininas tornem-se, cada vez mais, competitivas”

Eleita vereador em Palmas, Janad Valcari relata qual será o carro chefe de seu mandato

A empresária do ramo educacional Janad Valcari se elegeu vereadora de Palmas no domingo, 15. Estreante na política, surpreendeu ao obter mais de dois mil votos, pelo partido Podemos. Mulher empreendedora, nesta entrevista ela relata que o carro-chefe do seu mandato – como não poderia deixar de ser – será a educação, a luta contínua por escolas de tempo integral, como também as demandas decorrentes deste segmento como esporte, arte e cultura.

Janad Marques de Freitas Valcari é goianiense, radicada no Tocantins desde 1992, graduada em direito, administração e, também, neuropsicopedagoga, além de empresária. Tornou-se uma das mais bem-sucedidas empresárias do ramo da Educação em Palmas, através da “Rede Criativo”, que emprega centenas de pessoas. Atualmente é presidente do Sindicato das Escolas e Faculdades do Estado do Tocantins – SINEP. Uma vez eleita vereadora, a professora assegura que a Capital precisa de investimentos para gerar oportunidades.

Na condição de empresária bem sucedida, porque a Sra. optou por entrar para política?
Primeiramente, cumpre ressaltar que não deixei o empresariado. As empresas continuarão funcionando normalmente, uma vez que conto com supervisores e diretores competentes. Fiz um foco e quis entrar na política porque, na verdade, nunca me vi representada pelas pessoas que estão no poder. É preciso fazer algo diferente, que pode ser feito, mas não fazem. 

Muitos projetos – mesmo que aprovados no parlamento – muitas vezes não são executados. Isso me revolta muito, porque há projetos e proposições interessantes, que beneficiam a população, porém, ficam engavetados. 

Tenho várias críticas, por exemplo, à metodologia de sorteio e distribuição de casas populares. A ordem cronológica muitas vezes não é obedecida e pessoas há longos anos na fila, são preteridas por outras que se cadastraram há pouco tempo. Quero transparência no que concerne a isso, como também em várias outras demandas. Resolver isso junto ao poder municipal é uma bandeira a partir de 2021, mesmo porque fiz compromisso com o eleitorado, neste particular.  

Contudo, antes mesmo de entrar para vida política, já vinha empreendendo um belo trabalho social desde 2007, principalmente em razão de ter vivido na pele todas as amarguras que os menos favorecidos enfrentam. Venho de família muito humilde e já passamos por muitas dificuldades. Assim que minhas condições permitiram e eu pude ajudar as pessoas, comecei fazê-lo, porque acho muito importante esse espírito fraterno. Atualmente fazemos doações mensais de alimentos, brinquedos, etc. Ofertamos bolsas de estudos em nossas instituições, como também ajudamos muitos jovens a adentrarem no mercado de trabalho. 

Em relação a escolha do partido, quais foram as razões que a levaram a optar por esta sigla?
Fui recebida muito bem pelo Podemos. Visando fomentar novas lideranças, o partido exigiu que os candidatos a vereador não estivessem no curso do mandato, nem tampouco tivesse grau de parentesco com políticos. Preenchi os requisitos e me filiei. Trata-se de uma sigla que não está nem à direita e nem à esquerda, mas sim caminha para frente. Isso chamou muito a minha atenção, pois este foco e esta ideologia me convenceram. 

Logicamente, a presença de líderes como Ronaldo Dimas e Alan Barbiero fortaleceu, ainda mais, minha vontade. Contudo, o fato deles respeitarem minhas convicções e minha independência contribuiu muito para minha filiação.  

Quanto ao trabalho a ser desenvolvido no âmbito do parlamento, qual será o foco do seu mandato, a partir de 2021?
Pretendo ser uma vereadora atuante, cujo contato com a população seja diário. Uma das minhas revoltas estão ligadas ao fato dos políticos andarem nas ruas apenas de quatro em quatro anos. No dia seguinte ao resultado da eleição, já estava nas ruas novamente para agradecer à população a votação recebida. 

Logicamente, por estar nessa área, o foco será a educação, porque entendo que isso transforma a vida das pessoas. Quando se estuda, tudo melhora e a profissionalização das pessoas permite condições dignas de vida, como moradia, alimentação e transporte, por exemplo. 

Temos excelentes profissionais e boas estruturas no município de Palmas, mas fico decepcionada ao constatar que a educação infantil está condicionada a meio período de estudos. Elas precisam se transformar em escolas de tempo integral, visto que as mães dessas crianças precisam se colocar no mercado de trabalho e, com isso, sustentarem suas famílias com mais dignidade. 

Também vai ser foco, no exercício do mandato, o direito das mulheres e as oportunidades para que elas possam, cada vez mais, assumir melhores cargos e tornar-se iguais, enfim. É preciso também dar voz a essas mulheres, além de lutar com todas as forças contra a violência doméstica. 

Qual a sua avaliação acerca dessa representatividade feminina e o aumento do número de eleitas em 2020? As mulheres estão se interessando mais pela política?
Durante a campanha vi muitas mulheres com potencial para desenvolver excelentes trabalhos, não apenas no parlamento, mas nas mais diversas áreas de atuação. Falta-lhes oportunidade, mas cabe a nós, enquanto mulheres, nos unirmos cada vez mais, para mostrarmos que temos voz, que somos capazes e que podemos competir de igual para igual. Só assim será possível fazer com que as candidaturas femininas sejam realmente competitivas, quer seja pela coesão do eleitorado, quer seja pela distribuição igualitária do fundo eleitoral. 

Em relação às políticas públicas voltadas para as mulheres, quais a Sra. considera como relevantes e poderia lutar por elas na tribuna?
A viabilização e construção de um Centro de Parto Normal por parte Prefeitura está sendo estudado para ser uma das minhas propostas. Sendo o parto procedimento relativo à atenção básica, deve ser entregue à população pelo poder público municipal. 

É necessário que gestão volte os olhos para essas mães que, muitas vezes, ocupam o Hospital e Maternidade Dona Regina de forma equivocada. Aquela unidade hospitalar foi concebida, prioritariamente, para atender parturientes que tenham problemas durante a gravidez e parto ou mesmo para aquelas crianças que nascem com enfermidades. É papel da gestão municipal, portanto, atender essas mulheres num espaço adequado, com dignidade, assim como implantar a humanização do parto.  

Me revolta muito também a falta de um hospital municipal em Palmas. Muitos políticos já prometeram, ganharam as eleições e não fizeram. Veja, se a cidade de Araguaína, com população e recursos menores do que Palmas, conseguiu construir e equipar dois hospitais municipais, porque a capital não consegue? Está faltando gestão, logicamente. Fui eleita para cobrar ações dos gestores e será isso que vou fazer a partir de 2021.

Como a Sra. viu a condução e enfrentamento da pandemia em Palmas?
Pelo que percebi, houve muitos equívocos. Não vi cuidados por parte do poder público municipal com aqueles mais carentes e, muitos deles, foram a óbito. Isso é revoltante. Nos postos de saúde faltavam médicos, remédios, testes, etc. A população mais carente não conseguia adquirir os medicamentos ou testes e isso foi desumano. Também não foi erguido um hospital de campanha. 

A gestão simplesmente baixou decretos e implantou “lock-down” como se isso fosse a solução para tudo. Pequenos comerciantes acabaram por “quebrar” e não conseguiram manter seus negócios, deixando suas famílias em condições de miserabilidade. Havia cestas-básicas nos CRAS, mas não havia critérios para a distribuição delas. Enfim, o caos. 

Pela quantidade de verbas que a Prefeitura recebeu do governo federal, como também pelo redirecionamento do orçamento municipal para esse fim, o que constatei foi que houve má gestão dos recursos. 

Como vai ser o seu posicionamento na Câmara de Vereadores? Base ou oposição?
Fui uma candidata independente e dessa forma é que pretendo me posicionar no parlamento. Não fui eleita sob o comando de nenhum padrinho político, portanto, vou votar de acordo com as minhas convicções. Pode parecer um discurso retórico, mas a verdade é que acredito que os bons projetos – que realmente beneficiam a população – devem receber o meu respaldo e voto favorável, independente de quem os propôs. Da mesma forma, os projetos que nada acrescentam ou são – por assim dizer – ruins, devem ter votação contrária, não importando se a autoria é da base ou da oposição.

A votação do orçamento de 2021 está em trâmite na Câmara de Vereadores de Palmas, contudo, muitos daqueles que vão fiscalizar a aplicação dos recursos no ano que vem, não participarão das discussões e nem tampouco poderão direcionar emendas, cabendo esta tarefa a parlamentares que sequer estarão no exercício do mandato no ano vindouro. A Sra. não acha que essa regra é um tanto quanto injusta?
Sem dúvidas. Seria razoável que a regra fosse alterada para que no último ano das legislaturas, o orçamento e direcionamento de emendas não fosse feito pelos vereadores ou deputados em exercício, em pleno final de mandato. 

Se tudo isso ocorresse, excepcionalmente, no primeiro mês de legislatura dos novos eleitos, certamente seria muito mais justo. Isso também beneficiaria os novos prefeitos e governadores, uma vez já poderiam incluir e direcionar no orçamento, os projetos que fizeram parte dos seus planos de governo e, por consequência, os elegeram. 

Algumas pessoas e veículos de comunicação questionaram os seus gastos durante a campanha, classificando como um dos votos mais caros da eleição. O que a Sra. tem a dizer sobre esse tema?
Posso lhe garantir que não fui a candidata que mais gastou, aliás creio que eu não esteja nem entre os dez que mais gastaram. A diferença é que o quê foi gasto na campanha foi realmente declarado ao TRE-TO, porque obedeci regiamente a planilha de custos.

Prezo pela moralidade, pela transparência, pela honestidade e pelos meus princípios. Não posso cometer falcatruas, tenho que honrar meu nome. Fiz a contabilidade da campanha como sempre fiz das escolas. Luto ferrenhamente pela educação e sei que nenhum pai vai matricular seu filho na escola de uma professora que, uma vez vereadora, tornou-se pilantra, bandida, corrupta. Esse comportamento, para mim, é inadmissível.  

O espaço está aberto para suas considerações finais, como também, expor suas perspectivas acerca do exercício do mandato que se aproxima…
Quero agradecer as 2083 pessoas que votaram em mim. Fui a terceira candidata mais votada – a primeira entre as mulheres – e estou muito feliz por isso. Quatro mulheres se elegeram e acredito que em 2021 a representatividade feminina no parlamento municipal será pujante. 

Meu mandato será marcado pela luta em prol da educação, do esporte, da cultura, do primeiro emprego, da inclusão social e, por fim, da geração de emprego e renda, porque o “trabalho dignifica o homem”. Lutarei para que os projetos desta natureza – de minha autoria ou dos outros colegas – não fiquem adormecidos em gavetas. Vou fiscalizar a aplicação dos recursos incansavelmente.

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