“A Páscoa é a oportunidade para se renovar”

Dom Pedro Guimarães fala do verdadeiro sentido da data e diz que o papa Francisco é a pessoa certa na hora certa para a igreja católica

Dom Pedro Brito, arcebispo metropolitano de Palmas | Foto: Arquidiocese de Palmas

O piauiense Dom Pedro Brito Guimarães, arcebispo metropolitano de Palmas, ingressou no Seminário Menor de Oeiras (PI) em 1976 e, dois anos depois, iniciou seus estudos no Seminário Maior de Fortaleza (CE), onde cursou Filosofia. Já a graduação em Teologia ocorreu na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma (Itália), concluindo, após três anos, seus estudos preparatórios ao sacerdócio.

Em meados da década de 1980, foi ordenado diácono e, no ano seguinte, sacerdote. Em 1988, retornou à capital italiana com a finalidade de elaborar e concluir seu mestrado em Teologia Dogmática e, logo em seguida, também obteve o título de doutorado em Teologia Dogmática, ambos chancelados pela mesma universidade em que se formara em Teologia, a Pontifícia Universidade Gregoriana.

Em 2002, o Papa João Paulo II o elevou à condição de bispo da Diocese de São Raimundo Nonato, no Piauí e, em 2010, foi nomeado arcebispo de Palmas, pelo Papa Bento XVI.

Nesta entrevista ao Jornal Opção, Dom Pedro Brito fala sobre a Páscoa, comemorada neste domingo, esclarece algumas distorções sobre o sentido desta celebração, assim como pontua a visão do cristianismo sobre o tema.

A Páscoa é cheia de simbologias e, muitas vezes, as pessoas não conseguem entender o seu real significado. Como poderíamos sintetizar esse acontecimento?
É necessário, antes de tudo, enfatizar o conceito histórico da data religiosa. A páscoa já era comemorada antes do cristianismo, pelos judeus. Enquanto bebê, assim como todos outros recém-nascidos, Moisés havia sido condenado à morte por um faraó egípcio. Contudo, sobreviveu após a astúcia de sua mãe – uma escrava do palácio – que, ao colocá-lo numa cesta e deixar descer vagarosamente o rio, viu o filho ser recolhido pela filha do Faraó. Ele foi criado, sem que ninguém soubesse, por sua própria mãe biológica, dentro do palácio daquele que havia mandado assassiná-lo.

Assim como ocorreria posteriormente com Jesus Cristo, o menino Moisés foi um vencedor desde o seu nascimento.  Ele se tornou muito sábio e um grande homem. Moisés sabia que não possuía origem egípcia, mas que seus pais eram escravos. Após um acontecimento em que ele matou um hebreu para defender um escravo, Moisés foi obrigado a fugir do Egito.

Ele se fixou em Midiã, uma terra longínqua, onde contraiu matrimônio com Zípora e se tornou pastor das ovelhas do seu sogro, Jetro. Viveu assim por longos anos, até protagonizar o episódio denominado “sarça ardente”. Segundo a narrativa bíblica, após empreender busca por uma ovelha desgarrada, acabou por encontrá-la no alto de uma montanha, onde um arbusto [sarça] ardia em chamas, mas não era por elas consumido, produzindo um efeito poderoso. A Bíblia relata que, naquela ocasião, Moisés foi convocado por Deus para libertar o seu povo – ora escravizado – e retirá-lo do Egito em direção à terra prometida, Canaã, próxima a Jericó e Jerusalém.

Quando Moisés concluiu a façanha, muitos anos depois, conseguindo guiar seu povo e fugir do Faraó e seus cavaleiros, após atravessar o Mar Vermelho e o Rio Jordão, para livrá-los da escravidão e chegar à terra da libertação – onde atualmente localiza-se o Estado de Israel –, materializou-se a Páscoa judaica e suas comemorações. Trata-se, portanto, da celebração dessa passagem pelo Mar Vermelho, que significa o símbolo da saga de lutas, que culminou com a liberdade e a obtenção da terra prometida.

Coincidentemente Jesus Cristo ressuscitou exatamente no dia que comemorava-se a Páscoa judaica?
Por certo que sim, uma vez que, no ano 33 d.c. isso ocorreu. Jesus Cristo chegou a Jerusalém, montado em um jumento – símbolo da simplicidade e humildade – no domingo que antecedia a Páscoa judaica. Os reis geralmente faziam entradas triunfais montados em  cavalos – os símbolos da força e da guerra, naquele tempo. Esse dia ficou conhecido como Domingo de Ramos, visto que o povo cortou ramos de árvores para cobrir o chão por onde ele passava. Jesus era chamado de rei do judeus e isso causou fúria e perseguição por parte dos governantes.

A partir de sua morte e ressurreição durante a semana subsequente, o cristianismo faz, a partir daí, uma modificação na interpretação: deixa de comemorar a passagem pelo Mar Vermelho e a libertação dos escravos do Egito para, doravante, celebrar a libertação espiritual, passando pelo renascimento, através da ressurreição de Cristo.

O vocábulo Páscoa, de origem hebraica, vem da palavra “Pessach” que significa, na essência, “passagem”. Portanto, este é sentido da Páscoa cristã.

“Assim como as flores viram frutos na época certa, nós também nos refazemos a cada Páscoa”

E quanto aos símbolos adotados para a data comemorativa?
A princípio foram adotadas figuras relacionadas a um novo tempo, uma vida regenerada. A Páscoa é a oportunidade para se renovar, se redimir dos pecados, promover uma verdadeira limpeza espiritual. Assim como a natureza se renova a cada ano, as flores viram frutos na época certa, nós também nos refazemos a cada Páscoa.

Quanto à simbologia, os ovos de Páscoa, por exemplo, simbolizam o nascimento para uma nova vida, já que os cristãos do Oriente foram os primeiros a dar ovos coloridos na Páscoa com essa intenção. Já a galinha e o coelho são símbolos da fertilidade plena e estão associados à capacidade que a igreja tem de produzir novos discípulos e espalhar a mensagem de Cristo. Há ainda a luz das velas iluminando um novo caminho, os óleos santos, entre outros.

É mais do que natural a existência de símbolos que representam tradições de fé. Até mesmo o Papai Noel – enquanto um dos símbolos do natal –, desde que entendido como o bom velhinho, singelo e fraterno, o bom cristão que não se apega a coisas materiais, é uma imagem abstrata válida, se excluídos os apelos comerciais.

A Páscoa está sempre relacionada ao solstício de verão?
O dia 25 de dezembro foi estabelecido para o Natal pela igreja católica. Essa data foi fixada pelo catolicismo no primeiro dia do solstício de inverno do hemisfério norte. A escolha deste dia é baseada numa fala de João Batista no evangelho de São João: “Eu devo diminuir, ele deve crescer”. O solstício de inverno é exatamente o menor dia do ano no hemisfério norte – que no hemisfério sul é o solstício de verão – e, a partir dele, os dias começam a durar mais do que as noites. Ele é interpretado como uma vitória da luz sobre a escuridão.

Por sua vez, a data da Páscoa católica segue o calendário lunar. Pode ocorrer entre os dias 22 de março e 25 de abril. É o primeiro domingo, depois da primeira Lua cheia, após o equinócio da primavera no hemisfério norte – que é o equinócio de outono, no sul. Pela definição católica, todas as culturas antigas do norte celebravam as estações do ano com festas de semeadura e colheita. O catolicismo adotou essa tradição, assim como o judaísmo e outras religiões também fizeram.

Qual é a orientação aos padres, como também aos fiéis, sobre as reflexões católicas acerca da Páscoa?
Na quarta-feira que antecede a Páscoa, promovemos, na Casa de Maria, em Palmas, a missa dos santos óleos, que conta com a participação de todos os padres. Naquele momento, todos nós fazemos a renovação das promessas sacerdotais na vigília de Páscoa. Já os óleos sacramentais simbolizam o Espírito Santo e são utilizados nos batismos, crismas e em unções de enfermos abençoados por bispos e sacerdotes durante essas celebrações.

A pregação, naturalmente, versou sobre a “sarça ardente” e seu significado. Os padres passam o ano pastoreando as ovelhas, ou seja, os fiéis. Na Páscoa, é tempo de ouvir Deus, renovar os votos e as alianças com ele. Metaforicamente, ao invés de resgatar ovelhas desgarradas, é tempo de salvar pessoas/almas que ainda não encontraram o caminho da salvação.

O que foi dito a todos na missa dos santos óleos é o que está retratado na figura abaixo, pois Jesus era orante, misercordioso e pacífico:

“O papa Francisco sobrepujou alguns dogmas e apresentou uma realidade mais próxima dos fiéis”

Pode-se afirmar que o papa Francisco é um líder diferente que se adequou, como uma luva, aos novos tempos que a igreja católica vivencia?
Sem dúvidas, o papa Francisco sobrepujou alguns dogmas, apresentou uma realidade mais próxima dos fiéis. É a pessoa certa na hora certa. Entretanto, há um problema sério dentro do seio da igreja que é a eclesiologia, pois cada um tem uma igreja na sua própria cabeça.

Quem não possui um coração ou a cabeça mais aberta e cultiva, ainda, uma igreja fechada e arcaica, tem dificuldade para compreender as ideias propostas por Francisco e, acham até mesmo, escandaloso. Já aqueles que possuem uma visão mais ampla, conseguem vislumbrar um período de boas novas para a igreja, aceitam e aproveitam todos os ensinamentos do papa, que são preciosos, diga-se de passagem.

A abertura de conversações com os líderes das mais diversas nações ou religiões o diferencia. Para Deus, todos os povos merecem benevolência e compreensão. É dever e missão do papa Francisco, portanto, como representante de Deus na Terra, pregar a união dos povos, e não excluí-los ou rejeitá-los por não professarem a mesma fé. Muitas vezes, o papa é incompreendido por muitos católicos, exatamente por essa visão retrógrada, aliada a eclesiologia – que é a igreja concebida em sua própria mente – que impede-lhes de enxergar os avanços e as refelxões propostas pelo chefe da igreja.

Em relação à campanha da fraternidade de 2019, lançada a pouco tempo pela igreja católica e que trouxe como tema as políticas públicas, qual a sua percepção?
O tema escolhido foi “Fraternidade e Políticas Públicas” e o lema “Serás libertado pelo direito e pela Justiça” (Is 1,27). A campanha da fraternidade é permanente, pois, apesar de ser pontual e temática, ano após ano, a campanha nunca se encerra. A coleta já foi iniciada e arrecada grandiosas quantias que serão destinadas a fomentar projetos – por todo o Brasil – que se encaixam no tema da campanha atual. Vamos apoiar a economia solidária e a igreja católica buscará chamar a atenção dos cristãos para o tema das políticas públicas, ações e programas desenvolvidos pelo Estado para garantir e colocar em prática direitos que são previstos na Constituição Federal e em outras leis.

Nesta Campanha, a igreja pretende estimular a participação dos cristãos em políticas públicas, à luz da palavra de Deus e da doutrina social da igreja para fortalecer a cidadania e o bem comum, sinais da fraternidade. O texto-base da campanha descreve, entre outros tópicos, o ciclo e etapas das políticas públicas e faz a distinção entre as políticas de governo e as políticas de Estado, bem como apresenta os canais de participação social, como os conselhos previstos na Constituição Federal de 1988.

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