“Desejo por mudança está consolidado no sentimento do povo”

Deputado e pré-candidato ao governo pelo PV diz que não há como desvincular o governador Sandoval Cardoso do ex-governador Siqueira Campos e que o eleitor tocantinense tem opinião consolidada por mudança e não apenas por alternância de poder

Deputado Júnior Coimbra: atuando em favor do siqueirismo e contra os companheiros do PMDB / Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

Deputado Júnior Coimbra: atuando em favor do siqueirismo e contra os companheiros do PMDB / Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

Ruy Bucar

O deputado federal Jú­nior Coimbra volta a dar as cartas no PMDB. Ele reassumiu o comando do diretório regional do partido na quarta-feira, 11, depois de três meses e meio de licença em que a sigla viveu um breve período de paz interna. Período em que ficou evidente a importância do ex-governador Marcelo Miranda e a senadora Kátia Abreu, indispensáveis para o partido voltar ao poder, e do quanto o grupo moderado, leia-se Júnior Coimbra, tenta escamotear esta verdade.

Coimbra retorna ao comando da legenda antes do prazo combinado com a direção nacional e surpreendeu o meio político e peemedebistas, que agora já não sabem mais o que pode acontecer. O presidente voltou causando polêmica. Marcou para o dia 24 a data da convenção e mantém restrições à senadora Kátia Abreu, numa clara manifestação que trabalha contra o partido e não a favor, como diz. Como deixar sob ameaça de ficar sem legenda uma parlamentar que todos os partidos gostariam de tê-la em seus quadros? A resposta não é difícil encontrar. É só perguntar quem é o seu principal oponente nessa disputa.

Na primeira reunião como presidente Coimbra faz duras críticas ao ex-presidente Leomar Quintanilha. Avalia que encontrou o partido mais desorganizado do que quando o deixou e mandou recado para os autênticos. Disse que dependendo das decisões que tomar daqui para frente, a senadora Kátia Abreu pode ficar sem legenda. O deputado fala com empáfia não de dirigente partidário que sabe que toda decisão para ser legítima precisa da aquiescência dos líderes, mas de dono do partido que pensa que todos são obrigados a acatar as suas decisões.

O então presidente Leomar Quintanilha não consegue disfarçar o desapontamento com o processo, queixou-se que nem sequer foi informado da decisão e lamentou pelo futuro do partido. O acordo com o grupo dos “autênticos” mediado pelo presidente nacional do PMDB, senador Valdir Raupp, previa que o presidente interino ficaria no comando da legenda até a realização das eleições.

Em visita ao Tocantins, na época, Raupp, que veio dar posse a Quintanilha, manifestou preocupação com as movimentações de Júnior Coimbra, que segundo informações de líderes locais buscaria ser candidato para tentar minar o prestígio de Marcelo Miranda. O senador ponderou que o afastamento do deputado da direção até as eleições evitaria qualquer tentativa de prejudicar o nome preferido da cúpula nacional e com melhores condições para levar o PMDB ao poder.

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Pelas primeiras declarações o deputado Júnior Coimbra cria mais dúvidas que certezas e reacende a guerra interna, que já dura quase dois anos e que esfacelou o partido. Pode ser o tiro de misericórdia contra o maior partido do To­cantins, que tem o me­lhor nome para disputar as eleições, mas não tem certeza se terá can­didato. E a quem interessa o enfraquecimento da oposição? Certamente ao siqueirismo, que já concluiu que só tem alguma chance, se é que tem, se tirar os Miran­da de cena (Mar­celo e Dulce) e Kátia Abreu.

Coimbra garante que será candidato a governador se Marcelo Mi­ran­da não puder disputar e apresenta o empresário Benedito Faria, o Di­to do Posto (sócio de Gaguim), co­mo candidato ao Senado em lugar do ex-governador Carlos Henrique Ga­guim, que desistiu de postular a indicação. O que dizer de um dirigente que tira de campo seus melhores atacantes? Que no mínimo joga para perder, ou para o adversário ganhar. É isso que acontece com Coimbra e seus apaniguados.

A decisão de Coimbra vem na esteira de dois outros fatos que ainda repercutem no meio político, que aparentemente não têm nenhuma relação direta, mas fazem parte do mesmo cenário de movimentação do siqueirismo para retomar o poder. Na terça-feira, 10, a Assem­bleia Legislativa aprovou substitutivo do deputado Iderval Silva (SD) que desvincula as contas dos ex-governadores Miranda e Gaguim.

Na prática a matéria isenta Gaguim de responsabilidade pelas contas do exercício de 2009 e mantém a rejeição do balanço geral das contas de Miranda. Na quinta-feira, 12, o ex-governador Siqueira Campos (PSDB) quebra o silêncio que vinha mantendo desde que deixou o governo para anunciar que é candidato ao Senado. O que estes fatos têm de ligação entre si? É só observar os desdobramentos para entender. Lembra da pergunta acima, quem é o principal adversário da senadora Kátia Abreu?

Observem que os mesmos líderes do PMDB que há poucos dias admitiam as candidaturas de Miranda para o governo e Kátia Abreu para o Senado agora já se levantam contra, como é o caso do deputado José Augusto Pugliesi, que em entrevista na semana passada dizia o seguinte: “não vejo no PMDB ninguém com ostensividade para não aceitar a senadora Kátia Abreu. Nós já a elegemos ao Senado junto com Marcelo Miranda numa coligação na eleição passada e podemos fazer de novo”. O deputado agora apoia Dito do Posto e diz que Miranda é inelegível.

Pugliesi é velho aliado do Palácio Araguaia, e por extensão do siqueirismo, embora imagine conseguir disfarçar com um discurso agressivo, radical e inócuo. Em 2012, foi um dos principais articuladores da aliança do PMDB em Palmas, com seu mais tradicional adversário, o siqueirismo. E deu no que deu. O surgimento de um fenômeno eleitoral (Carlos Amastha) que tinha como motivação a fato de ser visto como não político e distante do governo. A coligação do PMDB com PSDB gerou suspeita de acordo espúrio e foi repudiada pelo eleitor.

Um pouco antes, em 2000, José Augusto Pugliese manteve uma candidatura isolada à Prefeitura de Palmas, contra a vontade do partido que não queria candidatura própria e defendia uma composição com o então candidato da oposição, Raul Filho. Nilmar Ruiz, candidata governista, venceu as eleições com 1.700 votos de frente, a mesma quantidade de votos que Pugliesi obteve. O mais curioso é que o peemedebista fazia a sua campanha na mesma agência que fazia a da Nilmar. A produtora Verbus, de propriedade dos publicitários Eduardo Garcia e Mônica Calaça em sociedade com Eduardo Siqueira Campos.

O ex-governador Marcelo Miranda explica que vem acompanhando a movimentação da nova direção pela imprensa e que não foi informado da reunião que deliberou sobre a data da convenção. Garante que está tranquilo, mas revela que tem recebido ligações de líderes municipais preocupados com o futuro do partido. Para ele nada mudou e acredita na palavra de Coimbra, de que não haverá disputa na convenção. “Não vou disputar convenção, estou acreditando na palavra do presidente, que garantiu que o melhor nome será homologado na convenção”, ressalta.

A volta de Júnior Coimbra ao comando do PMDB assim de supetão, traindo um acordo feito com os dois grupos que disputam o comando do partido, terá consequências imprevisíveis. Afeta diretamente o ex-governador Marcelo Miranda, principal nome na disputa pelo Pa­lácio Araguaia, e a senadora Kátia A­breu, candidata à reeleição. Miranda terá dificuldade para garantir o direito de ser candidato com o partido sob o comando de um grupo que já deu inúmeras provas de que atua em favor do Palácio Araguaia.

Coimbra alardeia por todos os cantos que tem maioria no PMDB, mas para derrotar Miranda, que é pré-candidato quase imbatível, detém mais de 50% das intenções e baixa rejeição, Coimbra tem apelado para a Justiça. Aliás, só está no comando do PMDB por força de mandato judicial. Coimbra não tem a simpatia da cúpula nacional nem da militância, mas tem do Palácio Araguaia, que atua nos bastidores para lhe dar sustentação. E todos sabem por que o deputado tem tido tanta coragem para combater os que ele deveria promover. Porque ninguém mais fala das suas contas na presidência da Assembleia, tão contestadas pelo ex-secretário de Relações Institucionais Eduardo Siqueira Campos?

Nem mesmo uma intervenção da direção nacional pode evitar o que está se configurando como um golpe branco para deixar os principais nomes do PMDB sem legenda para disputar as eleições. Se isso acontecer, como já aconteceu, Coimbra recorre à Justiça e fatamente ganha e volta ao comando do partido para fazer o que bem entender, como vem fazendo. Por outro lado, o golpe contra o PMDB revela a fraqueza do siquerismo, que não governa, mas não deixa ninguém governar. A força política que diz ter sido fundamental para a criação do Tocantins agora virou entrave para a democracia e desenvolvimento do Estado, que vive a maior crise da sua história, inclusive crise de ética na política.

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