Vício em bets faz grupos de apoio dobrarem atendimentos em Goiás após pandemia
08 maio 2026 às 14h00

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Com mais de 67 salas em 20 estados brasileiros, incluindo uma unidade em Goiás, a Organização Não Governamental (ONG) Jogadores Anônimos (JA) funciona como um grupo de apoio para pessoas que lidam com comportamento compulsivo relacionado às apostas. Contudo, a popularização das bets levou a organização, que atua por meio do compartilhamento de experiências, a intensificar ainda mais os trabalhos e expandir o número de salas de atendimento.
Ao todo, são mais de 80 reuniões semanais presenciais, além de encontros em salas virtuais, tudo para oferecer um espaço seguro de recuperação e acolhimento. O modelo de tratamento aplicado se assemelha ao utilizado pelos Alcoólicos Anônimos (AA), devido aos fatores de tratamento análogos ao alcoolismo.
Em Goiás, o grupo de Goiânia funciona no Centro Pastoral D. Antônio R. de Oliveira, na Rua 24, no Centro. As reuniões acontecem todas as segundas-feiras, das 19h às 21h. Contudo, essa frequência de encontros semanais nem sempre foi uma constante, com o cenário alterando-se há quatro anos.
Segundo o servidor e responsável pelas relações públicas da organização, Antunes (nome fictício pela política de privacidade do órgão), o número de salas e reuniões mais que dobrou em resposta ao aumento da demanda provocado pela pandemia de Covid-19 e pela popularização das bets.
“Tivemos a pandemia [em 2020], depois tivemos a chegada dos jogos online. Então, a procura aumentou muito e tivemos que ampliar, abrir novas salas e aumentar o número de reuniões para atender a maioria das pessoas que estão chegando”, revelou em entrevista ao Jornal Opção.
O relato entra em consonância com a divulgação de que a plataforma digital do Sistema Único de Saúde (Meu SUS Digital) atende mais de 600 brasileiros por vício em jogos de apostas desde a abertura de vagas para o sistema, em março de 2026.
Devido a esta “epidemia” silenciosa, Antunes afirma que hospitais psiquiátricos e consultórios de psicologia firmaram parcerias para entender melhor o tratamento e como oferecer suporte às pessoas compulsivas. “Atualmente, os especialistas estão começando a entender melhor o problema dos jogos de apostas.”
Em muitos casos, como relata Antunes, trata-se de um processo ardiloso que envolve o combate a um vício capaz de destruir vidas. Há situações de pessoas encaminhadas em condições financeiras e emocionais críticas, incluindo transtornos depressivos e pensamentos autodestrutivos.
Para isso, existem dois tipos de reuniões: as abertas e as fechadas. As abertas, segundo o representante, permitem a participação, além dos jogadores, de amigos, familiares e profissionais da saúde que estudam e acompanham os tratamentos.
Os momentos mais intensos de trabalho e recuperação ocorrem durante as reuniões fechadas, em que os membros compartilham suas experiências.
“Ninguém trata melhor de um jogador compulsivo do que outro jogador compulsivo em recuperação.” A frase, segundo Antunes, resume a linha de ação do programa, emprestada de outros métodos de recuperação em grupo, como o AA, pela utilização dos 12 passos para a superação.
Sobre isso, a irmandade aposta na formação de laços e na criação de um ciclo de recuperação, em que pessoas em tratamento motivam outras a tomarem decisões saudáveis e que levem à cura.
Contudo, antes de tudo, o representante, que já foi jogador compulsivo, defende que o jogador deve olhar para si com atenção e humildade para entender que pode não conseguir enfrentar sozinho os problemas do vício, mesmo se convencendo do contrário.
Segundo Antunes, essa aceitação da impotência, como ele define, é o que leva a pessoa a procurar ajuda externa e reformular a vida de maneira mais saudável. Em muitos casos, isso envolve a busca por atendimento psicológico ou psiquiátrico, levando os pacientes a se juntarem aos grupos de apoio como mecanismo de suporte.
Costumamos dizer que o programa de recuperação atual não é só para parar de jogar; ele também é um programa de vida.
Para Antunes, os processos também envolvem trabalhos sociais na organização que impedem que as pessoas migrem para outros vícios, como bebidas e drogas, e continuem no caminho da cura. “Por isso, temos pessoas com 10, 20 e até 25 anos sem fazer a primeira aposta, mas atuando na organização, prestando serviço por gratidão e para levar a mensagem a outros jogadores.”
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