Goiás já registrou 7.783 casos de sífilis em 2026, segundo dados da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO). Do total, 62,89% dos registros são entre homens, enquanto as mulheres representam 37%. O cenário chama atenção não apenas pelo número de casos, mas também pelo avanço da infecção entre gestantes, adolescentes e crianças.

Somente neste ano, foram registrados 2.613 casos de sífilis em gestantes e 482 casos de sífilis congênita, quando a infecção é transmitida da gestante para o bebê durante a gravidez ou no parto. Entre os casos congênitos registrados em 2026, houve um óbito.

Goiás já soma 7.783 casos de sífilis em 2026; dados também mostram avanço da infecção entre gestantes e registros de sífilis congênita. Fonte: SES-GO e SMS Goiânia.

Ao Jornal Opção, a coordenadora de Apoio Estratégico em Atenção às Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) e Agravos Transmissíveis da SES-GO, Ana Paula Vieira de Deus, explicou que o aumento dos registros não é uma realidade exclusiva do Estado. “O que nós temos observado, não só em âmbito estadual, mas também nacional, é um aumento dos casos de sífilis.”

Segundo ela, a ampliação do diagnóstico ajuda a explicar parte desse crescimento, principalmente pela oferta dos testes rápidos nas unidades de saúde. Mas a especialista ressalta que existem outros fatores envolvidos. “Isso não pode ser atribuído exclusivamente pela oferta do teste rápido”, explicou.

Ana Paula cita entre os fatores a falta de conhecimento sobre a doença, o início precoce da vida sexual, a falta de informação sobre prevenção e as dificuldades na continuidade do tratamento. “A gente tem que falar que esses números que têm aumentado também são referentes à falta de conhecimento sobre o agravo, o início precoce da vida sexual e muitas vezes sem informação sobre as infecções e sobre as formas de prevenção.”

Outro problema apontado pela coordenadora é o tratamento das parcerias sexuais. Para ela, essa é uma das principais dificuldades para interromper a cadeia de transmissão da doença. “A gente tem um déficit muito grande, que é a questão de tratar as parcerias sexuais, e tudo isso tem influenciado muito nesse aumento dos dados”, completou.

Coordenadora de Apoio Estratégico em Atenção às Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) e Agravos Transmissíveis da SES-GO, Ana Paula Vieira de Deus | Foto: Arquivo Pessoal

Homens são maioria entre os casos

Os homens representam 62,89% dos registros de sífilis em Goiás em 2026, enquanto as mulheres correspondem a 37%.

De acordo com Ana Paula, os dados mostram uma prevalência da sífilis entre o público masculino, especialmente quando são observados os registros de sífilis adquirida. Ao mesmo tempo, quando entram na análise os casos de sífilis em gestantes, o cenário feminino também ganha destaque.

A faixa etária mais atingida, segundo a coordenadora, continua sendo a de 20 a 35 anos. Mas a Secretaria também acompanha com atenção os registros entre pessoas acima dos 40 e 60 anos e, principalmente, entre adolescentes e crianças. “A idade mais acometida ainda é de 20 a 35 anos, mas a gente fica em alerta também tanto para as pessoas com mais de 60 anos, com mais de 40 anos, e também em adultos jovens e também em crianças e adolescentes”, explicou.

Um dos números que mais chama atenção no levantamento é o de 127 casos entre crianças de 10 a 14 anos registrados somente em 2026.

A situação exige uma investigação cuidadosa por parte dos serviços de saúde. Segundo Ana Paula, diante de um diagnóstico nessa faixa etária, o primeiro passo é verificar a possibilidade de sífilis congênita. Também é necessário investigar se houve violência sexual. A coordenadora explica que, em menores de 14 anos, mesmo quando há alegação de consentimento, a situação é considerada violência sexual.

O dado, segundo ela, também chama atenção para o início cada vez mais precoce da vida sexual e para a necessidade de ampliar o acesso à informação e às formas de prevenção. “Tem sido um dado alarmante para a gente quando a gente observa o quão precoce estão sendo os casos também identificados, o quão precoce tem sido na vida sexual e a falta de informação e a falta de acesso às formas de prevenção.”

Sífilis em gestantes cresce em Goiás

Os dados históricos mostram que o problema vem se intensificando nos últimos anos. Entre 2021 e julho de 2026, Goiás registrou 17.319 casos de sífilis em gestantes e 2.743 casos de sífilis congênita.

A taxa de detecção em gestantes passou de 27,7 casos para cada mil nascidos vivos em 2021 para 43,5 casos por mil nascidos vivos em 2025. No ano passado, foram registradas 3.879 notificações, o maior número do período analisado.

Entre as gestantes atingidas entre 2021 e 2026, 71,9% tinham entre 20 e 34 anos, enquanto 20,6% tinham entre 15 e 19 anos.

A presença da doença durante a gravidez preocupa porque a bactéria pode ser transmitida para o bebê. Por isso, o acompanhamento pré-natal, a testagem e o tratamento adequado são fundamentais.

Entre 2021 e 2026, Goiás registrou 2.743 casos de sífilis congênita. No período, 91,7% dos recém-nascidos sobreviveram, mas houve 130 casos de aborto ou natimortalidade e 67 óbitos.

Em 2026, são 482 casos de sífilis congênita, com um óbito registrado.

Ana Paula explica que a sífilis pode começar com manifestações discretas, como lesões e manchas na pele, mas evoluir para problemas graves quando não é tratada. “Essa bactéria, se não tratada, ela pode acometer órgãos importantes como o cérebro, o coração, os ossos”, explica.

E mesmo quando o tratamento é realizado posteriormente, os danos provocados pela infecção podem permanecer. “O tratamento, ele trata a infecção da sífilis. Ele mata, no caso, falando de forma bem grosseira, ele vai matar a bactéria. Mas os danos causados, neurológicos, cardíacos e ossos, não.”

Outro ponto de alerta é que as manifestações mais graves podem aparecer muitos anos depois da infecção inicial. “A sífilis pode manifestar de forma grave até 40 anos após a infecção.”

Na sífilis congênita, as consequências podem ser ainda mais graves para a criança. A infecção pode provocar abortamento, prematuridade, alterações oculares, cegueira, surdez e comprometimento ósseo. “Na criança, aí é um dos grandes pontos, assim, que tanto a Secretaria Estadual quanto a gente tem orientado muitos municípios também para tratar a gestante de forma adequada para evitar que essa transmissão passe para o bebê.”

Goiânia já soma 2.772 casos em 2026

Na capital, a Secretaria Municipal de Saúde registrou, somente em 2026, 2.642 casos de sífilis adquirida e outros 130 casos de sífilis congênita.

Somados, os números chegam a 2.772 registros das duas formas da doença em Goiânia neste ano.

A sífilis adquirida é a classificação utilizada para os casos identificados na população em geral. Já a sífilis em gestante é registrada durante a gestação, parto ou puerpério. A forma congênita ocorre quando a bactéria é transmitida da mãe para o bebê.

Teste rápido está disponível gratuitamente

Um dos caminhos para identificar a infecção é ampliar a testagem. O teste rápido está disponível gratuitamente nas unidades básicas de saúde e também em serviços hospitalares.

A SES-GO orienta que todas as pessoas com vida sexual ativa realizem o teste pelo menos uma vez. Para quem está em situações de maior vulnerabilidade, a recomendação é realizar a testagem com maior frequência.

Para pessoas com múltiplas parcerias, profissionais do sexo ou outras situações de maior vulnerabilidade, a recomendação apresentada pela SES-GO é que o teste seja feito pelo menos a cada seis meses.

Tratamento cura a doença, mas não impede uma nova infecção

A sífilis tem tratamento e cura. A penicilina benzatina é o tratamento de primeira escolha, e a duração depende da classificação clínica da doença. Em alguns casos, é administrada uma dose; em outros, o tratamento ocorre durante três semanas.

Mas existe uma informação importante que muitas pessoas desconhecem: ter sífilis uma vez não significa estar protegido contra uma nova infecção. “A sífilis é uma infecção causada por uma bactéria, ela tem cura, ela tem tratamento e cura, porém ela não gera imunidade.”

Isso significa que uma pessoa pode ser diagnosticada, fazer o tratamento, ser curada e, posteriormente, ser infectada novamente. Por isso, tratar também as parcerias sexuais é fundamental.

Segundo Ana Paula, o tratamento das pessoas que tiveram contato sexual com o paciente diagnosticado ajuda a interromper a transmissão e evita que a pessoa tratada seja novamente infectada.

O Estado disponibiliza gratuitamente preservativos internos e externos e gel lubrificante. A orientação é utilizar os métodos de prevenção mesmo quando a parceria sexual não apresenta sintomas.

Isso porque a sífilis pode permanecer sem sinais evidentes e, ainda assim, ser transmitida.

No caso das gestantes, o cuidado precisa ser redobrado. Para a SES-GO, não basta tratar somente a mulher: a parceria sexual também precisa ser chamada, diagnosticada e tratada.

Ao resumir a principal orientação para a população, Ana Paula destaca justamente a combinação entre prevenção, diagnóstico e tratamento adequado. “Deixar como foco o importante, que é uma doença, que ela é tratável e curável, mas ela não gera imunidade”, diz.

E completa: “A importância do tratamento adequado, seguindo as doses adequadas conforme preconizado. E o tratamento das parcerias sexuais.”

Com milhares de casos registrados em Goiás e em Goiânia somente em 2026, os dados reforçam a importância de ampliar a informação sobre a sífilis e facilitar o acesso ao diagnóstico e ao tratamento. Para as autoridades de saúde, quanto mais cedo a infecção for identificada, maiores são as chances de evitar complicações e interromper a cadeia de transmissão.

Leia também: Emagrecimento após os 60: “O paciente pode perder muita massa magra”, alerta nutricionista