Saúde mental ganha espaço, mas psicólogos ainda enfrentam falta de estrutura e oportunidades em Goiás
24 agosto 2026 às 15h11

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O reconhecimento da saúde mental como elemento central do bem-estar, da saúde pública e até da produtividade corporativa vive um momento de visibilidade inédita em Goiás. Em escolas, hospitais, empresas privadas e órgãos governamentais, a procura por acolhimento e suporte emocional cresceu significativamente. No entanto, o aumento da procura por atendimento não tem sido acompanhado, na mesma proporção, pela estrutura oferecida aos profissionais. A valorização do tema no debate público ainda esbarra na falta de concursos, na precarização dos vínculos e na insuficiência de investimentos e condições adequadas de trabalho.
Essa pauta foi levantada pela presidente do Conselho Regional de Psicologia da 9ª Região – Goiás, Jéssica Amorim, em entrevista ao Jornal Opção. Em meio às reflexões do Mês do Psicólogo, a dirigente aponta que a categoria lida todos os dias com remunerações defasadas, desrespeito às legislações de contratação e avanço da informalidade, especialmente no terceiro setor.
“Vivemos um momento de expansão do reconhecimento da Psicologia como área estratégica na educação, na saúde, nas empresas, nas políticas públicas, mas o mercado de trabalho ainda não acompanha esse reconhecimento no mesmo ritmo. Isso aparece na remuneração, na quantidade de vagas em concursos públicos e na formalização dos vínculos”, pontua.
Para enfrentar esse cenário, o Conselho tem atuado em três frentes principais: investimento na formação técnica e continuada dos profissionais; articulação política com gestores municipais e com o Legislativo estadual; e aproximação constante com a categoria por meio de comissões temáticas. A fiscalização de práticas irregulares e de falsas “terapias” oferecidas por pessoas sem habilitação técnica também foi intensificada.

Além disso, a evolução das rotinas sociais e do comportamento digital também trouxe novas queixas aos consultórios goianos. O aumento de demandas complexas reacende outra discussão urgente: a própria saúde mental do psicólogo. Lidando diariamente com a dor e os traumas de terceiros, muitas vezes em ambientes precarizados, a categoria também está sujeita ao esgotamento.
“Psicólogas(os) lidam diariamente com o sofrimento alheio, e isso cobra um preço quando falta suporte institucional. Por isso a proximidade do Conselho é fundamental, e a formação que oferecemos também trata do cuidado com quem cuida, não só da técnica”, adverte a presidente.
Educação ainda é um dos principais gargalos
Uma das contradições mais marcantes no cenário goiano está no ambiente escolar. A Lei Federal nº 13.935/2019 estabelece a obrigatoriedade de equipes multiprofissionais, compostas por psicólogos e assistentes sociais, na rede básica de educação pública. No entanto, anos após a promulgação da lei, a presença desses profissionais ainda está distante da realidade de muitos alunos no Estado.
Segundo Jéssica Amorim, a legislação federal ainda é descumprida pela maioria dos municípios goianos. Para tentar mudar esse quadro, a Comissão Especial de Psicologia da Educação do CRP-GO tem acompanhado o cumprimento das diretrizes e prestado suporte técnico aos municípios que desejam estruturar os cargos.
“Na educação, esse quadro tem um agravante: a legislação federal ainda não está sendo cumprida na prática pela maioria dos municípios goianos. É por isso que temos articulado politicamente com o poder público para avançar nessa pauta”, explica.
Além da educação, a escassez de profissionais é sentida na atenção primária, nos hospitais gerais e na rede socioassistencial, como CRAS e CREAS. Para mapear essa demanda com mais precisão, o CRP-GO está desenvolvendo o Observatório de Concursos Públicos, projeto que pretende catalogar a oferta de vagas e subsidiar a cobrança técnica por novos editais, com parâmetros mínimos de profissionais por habitante.
Com o aumento constante na procura por atendimento nos últimos anos, a desigualdade no acesso à psicoterapia também se tornou mais evidente. Para a população de baixa renda, que depende principalmente da rede pública, o acolhimento muitas vezes acaba limitado a momentos isolados de crise.
Jéssica Amorim enfatiza que o cuidado em saúde mental não pode ser tratado como um serviço de emergência. Para ela, é necessário garantir acompanhamento de médio e longo prazo no Sistema Único de Saúde (SUS) e na rede socioassistencial.
“O SUS e a rede socioassistencial são as principais portas de entrada da população de baixa renda para o cuidado em saúde mental. Ampliar sua estrutura, mais vagas, mais continuidade, mais equipes fixas, é o que garante que o cuidado não se limite ao momento de crise. Nosso papel tem sido defender a ampliação da cobertura dos CAPS e das equipes de atenção básica para colocar a prevenção na pauta dos gestores locais”, destaca.
As mudanças no campo da saúde mental também passam pelo avanço da ciência e pela forma como novas descobertas são incorporadas ao debate público. A entrevista também abordou um estudo publicado na revista Nature Genetics, que identificou regiões do genoma associadas a um maior risco para o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB).
Embora a descoberta represente um avanço científico, Jéssica alerta para o risco de a sociedade interpretar o diagnóstico como um destino biológico definido.
“Esse risco existe. A informação circula de forma simplificada e gera a ideia equivocada de que ‘está no DNA, não tem o que fazer’. A genética explica parte do risco, não o destino da pessoa”, ressalta a especialista.
Ela explica que o transtorno resulta da combinação entre vulnerabilidade biológica e elementos ambientais, como histórico de traumas, ambiente familiar e contexto social.
“Ter a predisposição genética não significa que a pessoa vai necessariamente desenvolver o transtorno, da mesma forma que não tê-la não é garantia de proteção. Reduzir esse debate a ‘é genético’ tira de cena algo essencial: o papel do cuidado, do tratamento e da rede de apoio, podendo inclusive aumentar o estigma”, conclui.


