Estima-se que mais da metade da população global (cerca de 4 bilhões de pessoas) estará acima do peso ou com obesidade até 2035 caso não sejam adotadas ações significativas para conter o problema. O Atlas Mundial da Obesidade 2023 revela que o crescimento anual é de 2,8% entre adultos e 4,4% na infância. No Brasil, a estimativa é de que 41% dos adultos tenham obesidade nos próximos 12 anos. Atualmente, esse percentual é de 17,1%, segundo o Ministério da Saúde. Dados da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) apontam que entre 60% e 90% dos portadores da doença estejam também com obesidade, sendo que a incidência é maior após os 40 anos.

Filhos de pais que consomem frutose em excesso apresentam precocemente distúrbios nos sistemas nervoso autônomo, cardiovascular e metabólico – o que aumenta o risco de desenvolverem doenças crônicas, como diabetes e obesidade, na fase adulta. A conclusão é de uma pesquisa realizada por cientistas brasileiros e publicada no International Journal of Obesity.

Os resultados confirmam dados da literatura científica relacionados ao surgimento de distúrbios metabólicos – como níveis elevados de triglicérides (a partir de 150 mg/dL) e resistência à insulina – em descendentes de pais com consumo excessivo de frutose. Além disso, os filhos apresentaram aumento da pressão arterial e um comprometimento na sensibilidade do barorreflexo, um mecanismo de regulação fisiológica do sistema cardiovascular que ajuda a manter a pressão arterial dentro dos limites considerados normais.

Frutas não são vilãs

Apesar de a frutose ser popularmente conhecida como “açúcar natural das frutas”, esse carboidrato simples (monossacarídeo) é utilizado em escalas absurdas para compor o xarope de milho, amplamente utilizado pelas indústrias alimentícia e de bebidas na produção de bolachas recheadas, doces e refrigerantes. Adoça entre 20% e 80% a mais do que a glicose pura. Seu consumo excessivo tem sido associado às altas taxas de sobrepeso e obesidade na população mundial, principalmente crianças.

“Estamos com uma bomba-relógio para as próximas gerações caso não haja avanço nesse tipo de prevenção”, avalia a fisiologista Kátia De Angelis, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Segundo a pesquisadora, o estudo reforça a importância do sistema nervoso autônomo (SNA) na regulação de várias funções corporais, podendo ser um sinalizador para detectar precocemente a propensão de crianças a desenvolver esses tipos de doença na fase adulta. É o SNA o responsável por regular automaticamente funções corporais involuntárias, como frequência cardíaca, pressão arterial, respiração, digestão e regulação da temperatura.

“É claro que não é o fator único para obesidade, mas esse excessivo consumo de frutose veio acompanhado das tendências de crescimento do acúmulo de sobrepeso e obesidade na população”, complementa De Angelis, que foi orientadora de doutorado da primeira autora, Camila Paixão dos Santos, no Programa de Medicina Translacional da Unifesp. Ao ser metabolizada no fígado, a frutose ingerida em grande quantidade pode aumentar a produção de ácidos graxos, promovendo o acúmulo de triglicérides e o ganho de peso corporal, que está associado à elevação de moléculas inflamatórias envolvidas no desenvolvimento de outras doenças.

A Associação Americana do Coração (AHA) recomenda limitar a ingestão de açúcar a 100 calorias por dia para mulheres (equivalente a 26 gramas) e 150 calorias para homem (39 gramas) para uma dieta saudável. Cerca de 350 ml de refrigerante, por exemplo, chega a ter 38 gramas de açúcar. Já a Organização Mundial da Saúde (OMS) preconiza um consumo máximo equivalente a 10% das calorias diárias – exemplo: para 2 mil calorias seriam 50 gramas de açúcar por dia ou cerca de dez colheres de chá.

*Com informações de Luciana Constantino | Agência FAPESP

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