Fila do SUS não se resolve apenas com mutirões e exige profissionais onde a população está, diz presidente do Simego
14 setembro 2026 às 12h45

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A redução das filas do Sistema Único de Saúde (SUS) passa por mais do que a realização de mutirões ou a abertura de novos serviços. Para o presidente do Sindicato dos Médicos no Estado de Goiás (Simego), Eduardo Santana, o enfrentamento da espera por consultas, exames e procedimentos exige principalmente financiamento adequado, contratação e distribuição de profissionais de saúde conforme a necessidade da população e descentralização da assistência.
A avaliação ocorre em meio ao debate sobre os rumos da saúde pública brasileira nas eleições de 2026. Em artigo publicado pelo jornal O Globo, a médica Ludhmila Hajjar defendeu uma mudança na forma como o país administra a alta complexidade do SUS. Entre os pontos apresentados por ela estão a transformação das filas em instrumentos de gestão clínica, o uso de inteligência artificial para identificar pacientes em maior risco, a integração de dados e a adoção de mecanismos de financiamento baseados na qualidade e nos resultados dos serviços.
Para Santana, porém, antes de discutir apenas tecnologia e gestão, é necessário garantir que exista uma estrutura capaz de atender à população. Segundo ele, o financiamento do SUS é um dos primeiros pontos que precisam ser enfrentados.
“Pessoalmente, acho que a primeira prioridade é dar sustentação a uma política de financiamento para que todos os serviços que precisam ser realizados sejam realizados”, afirma.
O presidente do Simego avalia que existe um processo de “desfinanciamento progressivo” do sistema e lembra que a responsabilidade pelo custeio é compartilhada entre União, estados e municípios.
“O financiamento é tripartite. A União tem uma responsabilidade de financiamento, mas o Estado também tem uma responsabilidade de financiamento, bem como os municípios também o têm”, diz.
Falta de profissionais também alimenta as filas
A segunda questão apontada por Santana está relacionada à disponibilidade de profissionais. Na avaliação dele, o problema é particularmente grave em municípios menores, que têm dificuldades para atrair e manter médicos e outros trabalhadores da saúde.
O cenário, segundo o dirigente, não é exclusivo de outras regiões do país e também pode ser observado em Goiás. O Estado possui centenas de municípios com diferentes níveis de estrutura e capacidade de contratação de profissionais.
“Temos um número significativo de municípios que têm dificuldade, uma pequena dificuldade, grande dificuldade, em prover os seus munícipes de profissionais de saúde”, afirma.
Para Santana, a solução passa pela criação de uma carreira de Estado para os profissionais do SUS, com uma política nacional de recursos humanos capaz de distribuir trabalhadores de acordo com as necessidades de cada região.
“Uma carreira de Estado que olhe, que disponibilize profissionais do município à União, conforme as necessidades da população”, defende.
Na avaliação do presidente do Simego, colocar sobre os municípios a maior parte da responsabilidade pela contratação de profissionais não é suficiente, principalmente diante das diferenças de arrecadação e estrutura existentes entre as cidades brasileiras.
O problema da fila começa antes da alta complexidade
Um dos exemplos usados por Santana para explicar o funcionamento das filas é o caminho de um paciente que procura uma unidade básica de saúde e recebe a solicitação de um exame.
Segundo ele, não é razoável que o paciente precise esperar seis meses, oito meses ou até um ano para realizar o procedimento e retornar ao médico com o resultado.
“Esse paciente, dependendo da condição de saúde dele, vai ter seu quadro agravado no período. Esse quadro agravado vai levar ele para uma outra porta que era desnecessária até então”, afirma.
O problema, segundo ele, é que uma demanda que poderia ser resolvida na atenção básica, com menor custo e menor complexidade, pode evoluir para uma situação de urgência ou até exigir internação e cirurgia.
A lógica ajuda a explicar por que o debate sobre a alta complexidade não pode ser separado das demais etapas da assistência. Para Ludhmila Hajjar, conforme publicado por O Globo, o país precisa transformar a fila em um instrumento de gestão clínica, com informações sobre diagnóstico, risco, tempo de espera e necessidade terapêutica de cada paciente.
Santana concorda que a espera precisa ser enfrentada na origem, mas enfatiza que não basta organizar melhor a fila se não houver profissionais e serviços disponíveis para atender a demanda.
“Não temos pouca gente. Temos pouca porta”
Ao analisar as filas, Santana questiona a ideia de que o problema esteja simplesmente relacionado à quantidade de pessoas que precisam de atendimento.
“Qual é o problema da fila? É a superlotação? […] O fato concreto é que nós temos pouca porta”, resume.
Na visão dele, a população continuará existindo e demandando atendimento. Portanto, a política pública precisa ampliar a capacidade de entrada do cidadão no sistema, com profissionais e serviços suficientes.
É nesse ponto que o presidente do Simego também faz uma crítica à dependência excessiva dos mutirões como estratégia para diminuir filas.
Para ele, os mutirões podem produzir resultados pontuais, mas revelam justamente a existência de capacidade profissional que não está permanentemente disponível para a população.
“Como é que a gente reduz a fila? Aumentando esses mutirões? Disponibilizando os profissionais, os recursos humanos do tamanho da necessidade da população”, afirma.
A avaliação coloca em discussão a diferença entre reduzir uma fila de maneira emergencial e criar uma estrutura permanente capaz de impedir que ela volte a crescer.
Atendimento precisa estar mais perto do paciente
Outro ponto central da entrevista é a regionalização da saúde. Para Santana, o paciente não deveria precisar percorrer grandes distâncias para ter acesso a um atendimento que poderia ser oferecido mais próximo de sua residência.
Ele cita como exemplo situações em que moradores de municípios do interior precisam se deslocar para cidades mais distantes em busca de atendimento especializado ou de uma vaga de UTI.
“É complicado eu pensar que alguém vai sair de Porangatu para poder receber um atendimento de UTI em Itumbiara ou em Catalão. É incompreensível isso. O serviço tem que estar lá perto da casa dele”, afirma.
A defesa da descentralização dialoga com outro ponto apresentado por Ludhmila Hajjar em O Globo. A médica propõe que a alta complexidade seja organizada em redes regionais de excelência, sem a necessidade de que todos os hospitais ofereçam todos os tipos de procedimentos.
A lógica seria concentrar procedimentos extremamente complexos em centros capazes de garantir maior volume e qualidade, enquanto diagnóstico, acompanhamento e parte da recuperação poderiam permanecer mais próximos do paciente.
Para Santana, entretanto, a regionalização precisa vir acompanhada de profissionais e estrutura suficientes para garantir resolutividade.
Fim da “ambulância-terapia”
O presidente do Simego também defende uma mudança na lógica de deslocamento dos pacientes dentro do sistema.
Segundo ele, o SUS não pode funcionar como uma rede na qual o paciente entra em uma ambulância e percorre diferentes municípios à procura de uma porta de atendimento.
“Nós precisamos acabar com aquela lógica de que o melhor serviço de saúde que nós temos é a ambulância-terapia: é colocar as pessoas dentro de uma ambulância para sair procurando porta para poder entrar”, afirma.
Para ele, a meta deve ser criar serviços regionalizados e capazes de resolver os problemas de saúde da população no local ou o mais próximo possível de onde ela vive.
A ideia também se aproxima da proposta de integração defendida por Hajjar. No artigo publicado pelo O Globo, ela afirma que o sistema precisa saber onde estão as filas, leitos, equipamentos, especialistas, salas cirúrgicas e eventuais capacidades ociosas. A integração dessas informações permitiria encaminhar o paciente para o serviço mais adequado sem depender de deslocamentos sucessivos.
Tecnologia pode ajudar, mas não substitui estrutura
A inteligência artificial aparece como outro ponto de convergência entre as duas análises.
Hajjar defende o uso da tecnologia para organizar filas, identificar pacientes com maior risco, prever demanda, otimizar centros cirúrgicos, acompanhar ocupação hospitalar e medir resultados.
Santana também considera necessário discutir o uso da inteligência artificial e das novas tecnologias na saúde, mas coloca a questão dentro de um debate mais amplo sobre políticas públicas.
“Nós temos que estar discutindo como é que nós vamos usar esse avanço tecnológico, por exemplo, inteligência artificial, para qualificar e melhorar o sistema de assistência à saúde no país”, afirma.
A tecnologia, portanto, pode ser utilizada para tornar a gestão mais eficiente, mas, na avaliação do dirigente, não resolve sozinha a falta de profissionais, serviços e financiamento.
Remunerar por resultado
Outro ponto levantado por Hajjar é a mudança do modelo de remuneração do SUS. Para a médica, o sistema não deveria medir seu desempenho apenas pela quantidade de procedimentos realizados. O tempo de espera, mortalidade, complicações, reinternações, permanência hospitalar e desfechos clínicos deveriam fazer parte da avaliação.
A proposta é avançar para um modelo de financiamento orientado por valor, com possibilidade de contratos de desempenho para hospitais de alta complexidade.
A discussão ganha importância porque, segundo essa visão, realizar uma cirurgia depois de um longo período de espera não produz necessariamente o mesmo resultado que realizar o procedimento no momento clinicamente adequado.
O raciocínio também reforça a necessidade de integrar atenção básica, serviços especializados e alta complexidade. Um paciente que aguarda meses por um exame pode ter seu quadro agravado e posteriormente precisar de um atendimento muito mais caro.
Carreira de Estado como estratégia nacional
Para Eduardo Santana, contudo, nenhuma dessas mudanças será suficiente sem uma política permanente de recursos humanos.
O presidente do Simego considera a criação de uma carreira de Estado para os profissionais da saúde uma das principais medidas que deveriam entrar na agenda do próximo governo federal.
A proposta seria criar mecanismos para que médicos e demais profissionais possam ser distribuídos pelo território nacional de acordo com as necessidades da população, reduzindo a desigualdade entre municípios com maior e menor capacidade de contratação.
Em Goiás, a medida teria impacto especialmente nos municípios menores, que enfrentam dificuldades para manter serviços especializados e equipes permanentes.
“A carreira de Estado para os profissionais de saúde é a política de recursos humanos mais importante mesmo nesse atual momento”, afirma Santana.
Um SUS que não apenas faça mais, mas consiga resolver
O debate apresentado por Ludhmila Hajjar e as observações do presidente do Simego convergem em um ponto: a discussão sobre a saúde pública brasileira não deveria se limitar à quantidade de procedimentos realizados.
De um lado, a médica defende uma transformação da gestão da alta complexidade, com integração de dados, inteligência artificial, avaliação de resultados, regionalização e remuneração baseada em qualidade.
De outro, Santana chama atenção para uma etapa anterior: a necessidade de financiar adequadamente o sistema e garantir profissionais e portas de entrada suficientes, especialmente nos municípios mais distantes dos grandes centros.
As duas abordagens colocam a fila do SUS como um problema que começa muito antes da chegada do paciente ao centro cirúrgico. O tempo de espera pode ser consequência da falta de profissionais, da ausência de serviços próximos, de falhas na regulação, da dificuldade de realização de exames ou da insuficiência de financiamento.
No fim, o desafio é fazer com que o paciente não apenas consiga entrar no sistema, mas encontre nele uma resposta no tempo adequado.
Como resumiu Ludhmila Hajjar no artigo publicado pelo O Globo, “tempo é tratamento”. Para o SUS, reduzir esse tempo depende tanto de tecnologia e gestão quanto de profissionais, financiamento e uma rede capaz de atender a população onde ela está.


