“Doula da morte”: entenda o que é a profissão que veio à tona com Nicole Kidman e como é o mercado em Goiás
16 abril 2026 às 14h14

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Assim como a vida, a morte é uma certeza e um fenômeno incontornável da existência, mas que pode ser suavizado antes de sua chegada inevitável.
O trabalho de amenizar e ressignificar a partida das pessoas é hoje conhecido na atuação das doulas da morte, uma vertente da assistência paliativa voltada ao cuidado mental, emocional e espiritual.
A profissão ganhou visibilidade mundial quando a atriz norte-americana Nicole Kidman revelou estudar a área para se tornar uma facilitadora do “parto dos viajantes”. A revelação ocorreu após a morte de sua mãe e do sentimento de desamparo diante do fim.
Segundo o médico geriatra e paliativista Ricardo Borges, as doulas da morte se especializam no enfrentamento do sofrimento espiritual e emocional. “Uma pessoa que possui uma doença mortal, por exemplo, experimenta sofrimento em diversas dimensões humanas. […] A doula atua como uma fonte de apoio para ajudar essa pessoa.”
De acordo com Borges, essa linha de atuação também estimula um diálogo aberto com os pacientes sobre o que se pode esperar do processo de morte. Além do atendimento ao paciente, o profissional conversa com a família sobre o momento de buscar intervenção técnica ou sobre a possibilidade de permanência no domicílio, além de auxiliar na tomada de decisões conscientes — com o objetivo de favorecer um luto mais saudável.
Ao mesmo tempo, o médico defende que os cuidados paliativos sejam iniciados precocemente, no momento em que doenças fatais atingem estágio avançado de evolução e apresentam os primeiros marcadores da fase final da vida, como perda de peso, múltiplas internações e perda da capacidade funcional ou cognitiva. “Quando a doença atinge estágio avançado, com marcadores de fim de vida, também começam a surgir sintomas físicos, emocionais, espirituais e sociais do sofrimento”, afirma.
Nesse momento, existe a possibilidade de qualquer intercorrência levar a pessoa a entrar em processo de morte. Então, os cuidados paliativos precisam se iniciar precocemente quando a doença atingir estágio avançado”, acrescenta.

Cenário em Goiás
Em Goiás, o cenário dos cuidados paliativos está em crescimento após o Parecer nº 265, de 2022, que alterou a Resolução CNE/CES nº 3, de 2014, e tornou obrigatório o ensino de cuidados paliativos nas faculdades de Medicina.
Em Goiânia, esse avanço também é percebido à medida que novas equipes estão em processo de habilitação — tanto para atendimentos matriciais quanto assistenciais — e o serviço de atenção domiciliar vem sendo estruturado. “Ocorreu todo um trabalho colaborativo em rede para que os pacientes do SUS possam receber esses cuidados”, diz Borges.
Contudo, o médico, que também é conselheiro do Conselho Regional de Medicina de Goiás (CRM-GO), avalia que ainda existe um estigma em torno da palavra “morte”. Segundo ele, esse preconceito também aparece entre profissionais da área paliativa, que por vezes evitam falar diretamente sobre o tema, que ainda cercado de tabus sociais e profissionais.
“A morte revela a potência da vida”
Para a doula da morte e cofundadora do Death Café Brasília e da Sol Nascente Compassiva, Silvia Modesto, esse preconceito em relação à morte segue como um dos principais desafios da área. Por isso, ela defende uma maior alfabetização social sobre a morte e sobre os profissionais que atuam no enfrentamento do luto. “Por incrível que pareça, a morte revela a potência que é viver. […] O contrário de morte não é vida, o contrário de morte é o nascimento.”
Por isso, ela afirma que o trabalho de uma doula da morte se aproxima do de uma assistente espiritual, embora sem qualquer proselitismo religioso associado ao termo. Segundo Silvia, a dimensão espiritual está relacionada à perda de sentido e propósito que muitos pacientes enfrentam ao lidar com doenças terminais. O trabalho consiste em acompanhar continuamente pacientes e familiares para tornar o processo do luto mais saudável.
Silvia conta que sua trajetória na profissão começou há mais de 20 anos, quando atuou como capelã domiciliar e hospitalar espírita, com foco na chamada “dor espiritual” de pacientes em terminalidade. “Quando trabalhei nas casas ou nos hospitais como capelã, os pacientes mais ‘difíceis’ eram deixados para mim e envolviam aqueles em processo de terminalidade. Isso foi mexendo muito comigo, porque eu visitava e achava um ambiente extremamente estéril de afeto.”
Em 2018, ela conheceu formalmente a profissão por meio de uma divulgação e, no ano seguinte, integrou a primeira turma do primeiro curso de Doula da Morte no Brasil, o AmorTSer realizado em Porto Alegre. Em 2021, Silvia se tornou a primeira profissional contratada formalmente por uma empresa de home care no país, onde trabalhou por quatro anos.
Para futuros profissionais, a especialista defende que o interessado precise desenvolver profundo autoconhecimento, para não projetar no paciente as próprias dores e traumas. Isso envolve escuta sem julgamento, críticas ou conselhos indesejados, além da capacidade de acolher a dor do outro sem se desestruturar. “Tenho que ter esse autoconhecimento para acolher e permitir que a dor do outro me atravesse, para continuar na minha vestimenta de Silvia.”

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