A repercussão sobre o diagnóstico de um nódulo pulmonar e a intervenção cirúrgica a que o Papa Leão XIV foi submetido acendeu o alerta sobre a saúde respiratória e a importância do diagnóstico precoce de lesões nos pulmões. O quadro do pontífice, associado à detecção de nódulos que podem evoluir para um câncer pulmonar, reforça a relevância de compreender as causas, as formas de investigação e as medidas preventivas para essa condição.

Ao Jornal Opção, a médica pneumologista Dra. Cristiani Chamel Sarkis analisou o tema e detalhou, nesta terça-feira, 13, os critérios clínicos para o acompanhamento e ressaltou a necessidade de rastreamento periódico em grupos de risco.

Segundo a médica, a presença de um nódulo pulmonar é, na maioria dos casos, uma descoberta acidental em exames de imagem e não indica obrigatoriamente um tumor maligno. “O nódulo pulmonar é um achado na maioria das vezes. A pessoa realiza um exame, por vezes sem sentir nenhum sintoma, e consegue o diagnóstico do nódulo, que é nada mais do que uma pequena alteração na estrutura do pulmão”, disse.

Médica pneumologista Dra. Cristiani Chamel Sarkis | Foto: Divulgação

“Diante dessa descoberta, é necessário analisar o histórico do paciente, verificando se há doenças pulmonares prévias, como asma ou enfisema, pois isso direciona uma conduta médica diferente. Se o paciente possui algum tipo de doença inflamatória, ele pode desenvolver nódulos inflamatórios no pulmão, sem que isso seja um câncer, podendo decorrer apenas da doença de base que não está sendo tratada. Pessoas com enfisema ou asma podem apresentar processos inflamatórios a ponto de formar nódulos, mas isso não significa necessariamente uma neoplasia maligna, dependendo fundamentalmente da avaliação do pneumologista”, explicou.

A pneumologista ressaltou que os nódulos pulmonares costumam ser assintomáticos, o que dificulta a percepção do problema sem a realização de exames preventivos. “O nódulo pulmonar, na maioria das vezes, não dá sinal e constitui um achado tomográfico ou radiológico. Há pessoas que o descobrem ao apresentar sintomas como dor no peito ou tosse persistente por três semanas, momento em que realizam o exame e constatam a lesão para posterior investigação”, apontou.

“A conduta depende do tamanho do nódulo, do seu tipo de apresentação e do tempo de evolução, sendo muito difícil para o próprio paciente sentir que possui um nódulo”, acrescentou.

Para diferenciar uma lesão benigna de um nódulo com suspeita de malignidade, como no caso do câncer pulmonar, os médicos analisam características específicas nas imagens tomográficas. “A diferenciação vai depender muito do tamanho, da superfície da lesão, se ela é bem regular ou não, da presença de múltiplos nódulos e de estarem isolados ou agrupados. Todas essas características precisam ser rigorosamente avaliadas na tomografia”, disse.

Em relação às causas e aos fatores de risco para o aparecimento dessas lesões, a médica elencou as principais origens clínicas e ocupacionais. “O nódulo pulmonar pode ser consequência de três situações mais comuns. A causa mais frequente é a inflamação do pulmão decorrente de bronquite, enfisema ou pneumonia”, afirmou.

“Uma outra causa importante envolve pacientes que foram fumantes ou que tiveram exposição a fatores mais graves, como produtos químicos, inalação de poeiras não orgânicas e diversas profissões que propiciam o surgimento de doenças granulomatosas. Além disso, existem os nódulos benignos e os nódulos malignos, quando há suspeita de câncer”, esclareceu.

A decisão entre indicar uma intervenção cirúrgica ou manter apenas o acompanhamento periódico envolve uma análise individualizada da saúde do paciente. “A indicação cirúrgica depende muito da história do paciente e do diagnóstico. Se identificarmos que se trata de um nódulo inflamatório, não encaminhamos para cirurgia, mas tratamos a causa base e fazemos o controle tomográfico e o acompanhamento especializado”, disse.

“Nos casos em que há indicação cirúrgica, a decisão considera diversos fatores, incluindo as comorbidades do paciente e a presença de histórico neoplásico em outros órgãos, avaliando-se a possibilidade de metástase”, afirmou.

A especialista comentou também sobre a luta da Sociedade Brasileira de Pneumologia (SBPT) pelo rastreamento sistemático, visto que o câncer de pulmão frequentemente evolui de forma silenciosa. “O câncer de pulmão não tem como ser descoberto precocemente a não ser por meio do rastreio, e por isso é tão grave, já que muitas vezes a pessoa só descobre a doença quando surgem os sintomas”, apontou.

“Pacientes que já foram fumantes, especialmente aqueles que fumaram por mais de cinco anos, precisam passar por rastreamento contínuo. Nesses casos, o controle tomográfico deve ser realizado pelo menos a cada dois anos ou anualmente para pessoas com 50 anos ou mais, mantendo o acompanhamento mesmo que o exame inicial não mostre alterações, pois novas lesões podem surgir posteriormente”, alertou.

O rastreamento também deve abranger indivíduos expostos ao tabagismo passivo e a ambientes de trabalho insalubres. “O fumante passivo e as pessoas expostas a ambientes contaminados por gases, indústrias químicas, fábrica de colchões e exposição ao amianto possuem maior risco de complicações e suspeita de condições graves”, disse.

“Da mesma forma, pacientes com histórico de câncer em outros órgãos, como intestino ou próstata, precisam de rastreamento pulmonar para descartar o comprometimento do órgão”, observou.

Ao abordar as formas de prevenção e cuidado contínuo com o sistema respiratório, a pneumologista ressaltou que o tratamento adequado de doenças crônicas é fundamental. “Todo tipo de doença respiratória deve ser tratado, considerando que a maioria delas tem caráter crônico, como asma, bronquite e rinite alérgica. Pacientes com enfisema, histórico de Covid-19, tuberculose ou fibrose pulmonar são mais propensos a desenvolver complicações e até câncer de pulmão, necessitando de acompanhamento e vigilância constantes”, frisou.

A especialista analisou a conduta adotada no caso do Papa Leão XIV, explicando os procedimentos cabíveis diante de uma lesão com suspeita de malignidade. “Tive conhecimento de que o próprio Papa comunicou que seria submetido a uma cirurgia de retirada do nódulo por indicação médica. A realização de uma cirurgia de ressecção ocorre quando se trata de uma lesão suspeita, pois a lesão com essa característica precisa ser removida para análise”, explicou.

“Existem diferentes abordagens, desde a biópsia por agulha guiada por tomografia até a remoção cirúrgica direta, e a confirmação exata da natureza do tecido depende do resultado histopatológico. A indicação para a retirada evidencia que se tratava de um nódulo suspeito”, pontuou.

Por fim, a especialista reforçou a necessidade de mudar a cultura de busca por atendimento médico apenas no surgimento de sintomas graves. “É fundamental conscientizar a população de que o paciente com qualquer doença respiratória precisa de vigilância e controle adequados, mesmo em casos de alergias ou asma na infância, pois lesões pulmonares podem surgir como consequência ao longo do tempo”, disse.

“O foco principal deve ser a prevenção, uma vez que as pessoas costumam procurar o médico apenas quando já apresentam sintomas e o nódulo pulmonar raramente se manifesta em estágios iniciais”, concluiu.

Leia também:

Papa Leão XIV passa por cirurgia para retirar nódulo no pulmão e cancela agenda até 20 de outubro

Eleições 2026: como uma possível vitória de Flávio Bolsonaro pode mudar o equilíbrio entre os Três Poderes e afetar a vida dos goianos

Hospital Alfredo Abrahão supera 5 mil atendimentos pediátricos e alcança quase 100% de resolutividade em Anápolis