Vacinas e tratamentos em desenvolvimento para Covid-19 são promissores

Junto com o pânico global causado pela pandemia do coronavírus, veio o esforço coordenado para encontrar soluções para a nova doença

Pesquisadores de todo o mundo trabalham para desenvolver vacinas contra o novo coronavírus. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), são 145 candidatas a vacina em fase pré-clínica (testadas em cultura de células ou em animais) e 20 são experimentadas em humanos ao redor do mundo. Como mostrado em reportagem do Jornal Opção, o desenvolvimento de novas vacinas geralmente leva anos, mas há expectativa de que a imunização contra o Sars-CoV-2 seja produzida até 2021. 

O Brasil foi um dos primeiros países a obter o sequenciamento do genoma do coronavírus Sars-CoV-2, ainda em fevereiro. Em dois dias, a contar da confirmação do primeiro caso, um homem de 61 anos que viajara à Itália, equipes do Instituto Adolpho Lutz e do Instituto de Medicina Tropical, em cooperação com a Universidade de Oxford, no Reino Unido, conseguiram decodificar o RNA do vírus. A média em processos desse tipo é de 15 dias.

Com o mapeamento do material genético do vírus, os primeiros testes de segurança de vacinas em seres humanos começaram em março. O caminho permanece incerto – existem diversos métodos para estimular o sistema imunológico a produzir anticorpos eficazes contra o vírus e a prioridade é que sejam seguros. Como todos passam pela exposição do organismo ao material infeccioso (ou parte), há exaustivas etapas para certificar que o produto será seguro para ser administrado a toda a população.

Vacinas promissoras 

Diferentemente do que havia no passado recente, quando todas as vacinas consistiam no agente infeccioso atenuado ou em pequenas quantidades, atualmente há diversas maneiras de se desenvolver vacinas. O professor João Bosco Siqueira Júnior, do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública (IPTSP) da Universidade Federal de Goiás (UFG), é especializado em vigilância de doenças transmissíveis, epidemiologia e investigação de surtos e epidemias, diz que tudo depende da resposta produzida.

“Tudo nasce do vírus em si, mas a técnica adotada dependerá do tipo de resposta imune que se consegue produzir com cada uma das abordagens. A prioridade é dada para a segurança da vacina desenvolvida. Quando se usa o vírus replicante atenuado, existem chances de falhas, embora pequenas. Além disso, existem experiências com produtos que já existiam para combater outros vírus e estas estão adiantadas pelos estudos acumulados ao longo do tempo. Há ainda empresas de biotecnologia que utilizam o genoma do vírus para estimular a imunologia.”

João Bosco Siqueira Junior afirma que o Brasil tem instituições, recursos humanos e know-how para produzir vacina em larga escala| Foto: Reprodução/Rádio Universitária UFG

As vacinas gênicas ou de DNA/RNA são aquelas que inserem genes do coronavírus nas células humanas para que estas produzam cópias de alguma proteína do vírus. As proteínas irão estimular uma resposta imune. Pelo menos 20 equipes farmacêuticas em todo o mundo, como Inovio, Imperial College London, BioNTech, Moderna e outras, trabalham no desenvolvimento de vacinas gênicas.

A vacina de vetor viral usa outro vírus, como sarampo ou adenovírus, alterado geneticamente para liberar proteínas do coronavírus nas células do inoculado e provocar uma resposta imune. Não há risco de contaminação por coronavírus porque a alteração genética extingue a capacidade de se replicar do coronavírus. Aproximadamente 25 grupos, como AstraZeneca, CanSino Biologics, Gamaleya Research Institute e Johnson & Johnson, trabalham com vacinas do tipo vetor viral.

Vacinas à base de proteínas usam uma proteína de coronavírus ou um fragmento de proteína para provocar uma resposta imune. Fragmentos ou invólucros de proteínas do coronavírus são injetadas diretamente no corpo e “imitam” a forma como uma infecção natural ocorreria e “treinam” o sistema imune para responder. Existem pelo menos 28 equipes que trabalham no desenvolvimento de vacinas que utilizam subunidades proteicas, como Novavax, Clover Biopharmaceuticals e Chinese Academy of Medical Sciences.

Há ainda a forma mais simples e antiga de imunização, que é a exposição do corpo ao vírus enfraquecido ou inativado. O risco é eliminado ao submeter o Sars-CoV-2 a processos – que podem ser biológicos, químicos ou físicos – que fazem o vírus mutar até que não consiga mais se replicar ou que o façam menos capaz de causar doença. Pelo menos sete grupos trabalham para desenvolver vacinas que usam o próprio vírus: Sinopharm, Institute of Medical Biology at the Chinese Academy of Medical Sciences, Indian Council of Medical Research e o National Institute of Virology.

Quando a vacina for descoberta

Fiocruz e Butantan fazem parte de pesquisas da vacina contra Covid-19 | Foto: Reprodução

João Bosco Siqueira Júnior explica o que aconteceria caso uma vacina seja segura e eficaz em prevenir a Covid-19: “A imunização começa por determinados grupos da população. Grupos preferenciais são definidos de acordo com a mortalidade, provavelmente idosos seriam priorizados, como acontece com a influenza. No caso do corona, outros fatores são levados em consideração. Em Goiânia, a prevalência de anticorpos no grupo dos profissionais da saúde é três vezes maior do que no resto da população. Então, este segmento também deveria ser vacinado”.

Quanto à dificuldade de importação, João Bosco Siqueira Júnior afirma que o produto não deveria ter prioridade para a população de um país ou outro e este é o consenso entre organizações de saúde e lideranças globais. Caso uma vacina seja descoberta em um país, começa o processo de transferência de tecnologia para que outras nações sejam capazes de produzi-la. “Neste aspecto, estamos em muito boas condições, porque temos institutos como a Fiocruz e o Butantan que possuem recursos humanos, laboratorial e know-how para produzir esta vacina hipotética em larga escala.”

O professor do IPTSP lembra que o Brasil é um dos dois fabricantes mundiais da vacina contra a febre amarela e que, no passado, em circunstâncias de epidemia da doença, o País já forneceu ajuda a outras nações. “O lucro não é um interesse neste primeiro momento. Todos que têm condições, produzirão. Em um mundo globalizado, com grande fluxo de pessoas entre continentes, é interesse de todos que outros países também tenham a pandemia sob controle.”

Novos tratamentos antigos

Concomitantemente às tentativas de desenvolver vacinas, fármacos e técnicas de tratamento estão sendo pesquisadas ao redor do mundo. No Instituto Goiano de Oncologia e Hematologia (INGOH) e em outros bancos de sangue, uma antiga terapia tem sido testada para tratar tratamento casos graves da Covid-19. Trata-se da administração do “plasma convalescente”. A hematologista explica que o principal desafio no momento é conseguir maior número de doadores de sangue que já tenham tido a Covid-19 confirmada e que estejam sem sintomas há 14 dias.

Mireille Guimarães afirma que os estudos envolvendo plasma convalescente são promissores | Foto: Reprodução/Ingoh

A transfusão do sangue dos curados para os doentes é uma técnica conhecida desde a pandemia de gripe espanhola. A eficácia de até 50% foi registrada em estudos de qualidade incipiente, naquela época e na Primeira Guerra Mundial, em que a ciência não havia se formalizado e atingido o rigor dos dias atuais. Estudos do gênero foram repetidos nas últimas décadas com as epidemias de ebola, Sars (2002) e Mers (2009). 

Mireille Guimarães, hematologista do Ingoh, afirma que são promissores os estudos referentes à doação de plasma convalescente para doentes graves da Covid-19: “O primeiro estudo do gênero é chinês, foi feito com cinco pacientes e revelou que todos os receptores deixaram de registrar o vírus em exames de RT-PCR após 30 dias da transfusão. O maior estudo, feito pela Mayo Clinic e FDA, teve 5 mil voluntários e registrou menos de 0,5% de complicações em decorrência do tratamento, o que indica que é seguro. Em outro, realizado com 40 voluntários em um hospital de Nova York, se registrou 12% de óbitos no grupo tratado com plasma convalescente, enquanto no grupo não tratado o número de mortes chegou a 24%. Tudo isso é preliminar, mas é promissor”.

Com base neste estudo preliminar, a Food and Drugs Administration (FDA) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) liberaram o tratamento associado a protocolos de pesquisa. Isto é, desde que se realize o procedimento com a metodologia e que se publique os resultados, pode-se tratar pacientes com o plasma convalescente. Não é necessário autorização prévia da Anvisa, apenas que se siga políticas de segurança e de pesquisa. 

Mireille Guimarães explica que o doador deve ter sido um paciente de Covid-19 confirmado que tem de estar há pelo menos 14 dias sem sintomas, embora o ideal sejam 28. O sangue deste doador tem anticorpos – proteínas com função de garantir a defesa do organismo – contra o novo coronavírus. A quantidade destas proteínas e do sangue em geral será analisada de acordo com critérios da doação de sangue. Caso todos os requisitos sejam atingidos, homens acima de 28 anos e mulheres que não tenham tido filhos podem doar em bancos de sangue como o Ingoh.

“É realizado um procedimento aférese – uma máquina separa o plasma sanguíneo que nos interessa (a parte líquida do sangue que corresponde a 55% do volume total, composto por proteínas, sais minerais, gás carbônico e outras substâncias dissolvidas em água). O restante, como hemácias, glóbulos vermelhos que carregam o oxigênio, é devolvido ao doador. Isso faz com que se possa doar até uma vez por semana, enquanto o tempo normal de espera é de até quatro meses”, explica Mireille.

Como novas vacinas e tratamentos são desenvolvidos

Pesquisadoras do Laboratório de Virologia e Cultivo Celular da UFG estudam genoma do novo coronavírus | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Os estudos para a aprovação de uma vacina ou de um tratamento são divididos em quatro fases, com número progressivo de “sujeitos” testados – células, animais ou pessoas. O processo, no total, leva em média dois anos. Na primeira etapa, chamada de pré-clínica, o objetivo é testar com segurança a biodisponibilidade do remédio – isto é, a quantidade e velocidade na qual o princípio ativo é absorvido, tornando-se disponível para a sua atuação no sítio de ação alvo. 

Na “fase I” do estudo clínico, a vacina é usada pela primeira vez em um ser humano, geralmente um indivíduo saudável e que não tem a doença para a qual a imunização é estudada. Nesta fase, serão avaliadas diferentes vias de administração e diferentes doses, na qual são realizados testes iniciais de segurança e de interação com outras drogas ou álcool. Cerca de 20 a 100 indivíduos participam dessa fase. 

Na “fase II”, cerca de 100 a 300 indivíduos que têm a doença ou condição para a qual o procedimento é estudado são expostos. O objetivo é obter mais dados de segurança e começar a avaliar a eficácia da nova vacina. Diferentes dosagens, assim como diferentes indicações, também são avaliadas nesta fase. 

A “fase III” é um grande estudo multicêntrico. Diversos países acompanham milhares de pacientes para descobrir a eficiência da vacina. Em geral, testes são comparados a outros tratamentos existentes e recomendados para o mesmo problema, mas isto é impossível para o novo e relativamente desconhecido coronavírus.  

Existe ainda uma quarta etapa, chamada de farmacovigilância, que ocorre após a vacina ser aprovada e levada ao público. Testes de acompanhamento de seu uso são elaborados e implementados em milhares de pessoas, o que possibilita o conhecimento de detalhes adicionais sobre a segurança e a eficácia do produto. Um dos objetivos importantes dos estudos fase IV é detectar e definir efeitos colaterais previamente desconhecidos ou incompletamente qualificados, assim como os fatores de risco relacionados.

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