Vacinação no Brasil despenca há 7 anos

Movimentos pseudocientíficos, falta de campanhas de imunização e desigualdade na distribuição de doses causam queda de até 65% na cobertura vacinal

Foto: Reprodução/SecomGO

O Programa Nacional de Imunização (PNI) já foi tido como um modelo de sucesso para o mundo, mas a população brasileira hoje bate recordes de abandono das vacinas. Essa plataforma do Sistema Único de Saúde (SUS) manteve o Brasil protegido contra 17 doenças infecciosas graves por quase cinco décadas – sendo que por mais de vinte anos, o índice de cobertura vacinal média se manteve dentro do recomendado pelas autoridades de saúde. Desde 2015, entretanto, a cobertura vem caindo e nove entre 15 vacinas que deveriam ser administradas até o quarto ano de vida estão abaixo da meta. 

As vacinas são oferecidas gratuitamente pelo SUS e a rotina de imunização com 19 vacinas se inicia ainda nos recém-nascidos e pode se estender por toda a vida. Entretanto, a análise dos dados do sistema de informação SI-PNI/DataSUS revela que a faixa etária que mais tem falhado na prevenção de doenças infecciosas é a das crianças. A redução de até 65% em alguns estados tem assustado profissionais da saúde pela ameaça de retorno de doenças como a poliomielite, erradicada em 1994. 

Imunizantes aplicados nos recém-nascidos, como a BCG, que protege contra tuberculose e é aplicada ainda na maternidade, foi a vacina que sofreu maior queda em pontos percentuais: em 2014 foi aplicada em 107% do público alvo; em 2021, em apenas 68%. A vacina dTpa para gestantes, que protege o bebê contra difteria, tétano e coqueluche, atingiu apenas 43% em 2021. Para as vacinas que necessitam de mais de uma dose, a taxa de abandono (ou seja, de responsáveis que deixaram de levar crianças para tomar a dose de reforço) atingiu no ano passado a marca de 19,6%.

São Paulo – Iuna Shoy, 23 anos, vacina a filha Larissa, de 10 meses, no primeiro dia da campanha nacional de vacinação contra influenza na Unidade Básica de Saúde – UBS Boracéia, na Barra Funda.

Profissionais afirmam que diversos fatores contribuem para esse fato. A erradicação de doenças como sarampo e poliomielite cria a falsa sensação de que vacinas não são mais necessárias, enquanto os 26.827 casos da doença entre 1968 e sua erradicação em 1989 formavam um quadro assustador de crianças com dificuldade de locomoção que incentivava pais imunizarem seus filhos. A vacina contra sarampo (tríplice viral, que também protege crianças da rubéola e da caxumba) tinha 112% de cobertura vacinal em 2014 e apenas 73% em 2021.

A meta é alcançar 95% do público alvo com cada vacina. O propósito é criar imunidade coletiva. Isso quer dizer que, mesmo que nem todos estejam vacinados, a maioria dos imunizados dificulta a multiplicação do vírus ou bactéria, pois é improvável que um infectado encontre outra pessoa desprotegida para transmitir a doença. Atualmente, estima-se que 900 mil crianças estejam expostas a sarampo, coqueluche, meningite, poliomielite e outros – um patamar equivalente ao que o Brasil vivia na década de 1980, segundo o que Carlas Domingues, ex-coordenadora do PNI, afirmou à Revista Pesquisa FAPESP em março de 2022. 

Onde mora o problema

Goiás esteve entre os estados com maior cobertura vacinal Brasil do ano de 2000 até 2014, chegando em 2011 a ser a unidade da Federação que vacinava a maior porcentagem de sua população alvo. Entretanto, o estado caiu para 12º lugar na lista no último ano. A taxa de abandono do programa de imunização, que era a menor do país em 2015, decolou para 25% em 2021. 

A análise dos dados dos municípios revela que o problema reside na capital: desde o início da crise de imunização, em 2016, Goiânia apresenta média de cobertura vacinal menor do que a média do estado. Dentro dos últimos seis anos, Goiânia vacinou em média 59,8% da população alvo; e Goiás, 66,2%. Neste período, apenas 25 dos 246 municípios goianos atingiram a meta de 95% para o total de imunizantes – as recordistas são as cidades pequenas, com menos de cinco mil habitantes: Avelinópolis, Aparecida do Rio Doce, Campestre de Goiás, Palmelo e Castelândia.

Fonte: SI-PNI/Datasus

O estado com pior cobertura vacinal média na Federação é o Amapá, que registrou em 2021 apenas 44% de sua população alvo coberta por vacinas e foi pelo terceiro ano consecutivo a unidade federativa com maior taxa de abandono vacinal. Mato Grosso do Sul deixou as últimas posições em 1996 para ser o estado com maior cobertura vacinal média do Brasil em 2014 e permaneceu em primeiro lugar até 2019. Neste ano, o estado registrou queda de 65% em cobertura vacinal média e, atualmente, está em 13º da lista.

Fonte: SI-PNI/Datasus

As razões do fracasso

O movimento antivacinação tem se tornado um problema crescente, sendo incluído na lista dos dez maiores riscos à saúde global da Organização Mundial de Saúde (OMS) em 2019. A ideia de que vacinas fazem mal foi importada juntamente com outras teorias da conspiração dos Estados Unidos e da Inglaterra. Em 1989, o médico britânico Andrew Wakefield forjou uma pesquisa e emplacou sua publicação no periódico Lancet. Ele associou o autismo à vacina tríplice viral em 12 pacientes, mas teve sua fraude descoberta ao ser constatado que recebia pagamentos de advogados que processavam os fabricantes das vacinas.

Wakefield teve sua licença cassada e a Lancet removeu sua publicação e publicou um pedido de desculpas pelo ocorrido. Entretanto, a associação entre autismo e vacinas ficou. Seu estudo falso se propagou, dando origem ao movimento dos anti-vaxxers nos Estados Unidos e causando medo infundado de vacinas por todo o mundo. Propiciada pela internet, uma modernização da teoria antivacina tem se espalhado, envolvendo Bill Gates, eugenia e a esterilização disfarçada da população. 

A infectologista Renata Bernardes, comenta: “É um problema de internet, mas é onde as pessoas se informam atualmente. Fake News recebida por uma pessoa próxima pelo WhatsApp tem mais apelo do que a informação de um médico confiável. Essa geração perdeu o medo por falta de contato com doenças graves.” Outro fator que afasta pessoas das vacinas é o medo de efeitos colaterais, mas segundo Renata Bernardes, reações graves são extremamente raras. “Para serem liberadas à população, as vacinas passam por muitos testes que provam que seus benefícios são superiores aos malefícios”.

Renata Bernardes explica que doenças como caxumba, sarampo e catapora estão voltando / Foto: Fábio Costa / Jornal Opção

Renata Bernardes ressalta que a situação atual não é culpa da população. Em sua opinião, faltam campanhas que comuniquem a importância da vacinação como um todo, ao invés de campanhas específicas para vacinações sazonais, como acontece atualmente. A médica também enumera a cobrança do cartão de vacinação como pré-requisito para matrícula escolar como uma medida que era eficiente, mas vem sido abandonada.

A Secretaria de Estado da Saúde de Goiás reconhece que teorias da conspiração são um problema, mas ainda não há dados para mensurar quanto do problema se deve às Fake News. A comunicação da SES-GO afirma: “É fato que o movimento anti-vacina é expressivo em países da Europa e Estados Unidos, e vem crescendo em outros países como o Brasil. Este movimento está elencado entre os fatores para a baixa cobertura vacinal, porém não temos dados para informar se ele contribui de forma expressiva para essa queda nos números de vacinados no estado e no país”.

Segundo Carlas Domingues, ex-coordenadora do PNI, à Revista Pesquisa FAPESP, o Ministério da Saúde percebeu a queda nas taxas de imunização em 2017 e agiu em parceria com sociedades científicas para promover campanhas de mobilização nacional pela imunização. Entretanto, manter níveis elevados de cobertura vacinal é um trabalho que exige continuidade. 

Com campanhas de vacinação abandonadas – e com o descrédito da ciência por autoridades – uma espécie de campanha de antivacinação surgiu durante a pandemia de Covid-19. Não apenas as vacinas que protegem contra o coronavírus sofreram os impactos, é o que revela a análise dos dados do SI-PNI/DataSus. Com queda de mais de 25% nas aplicações de doses que imunizam contra o sarampo, a doença foi registrada novamente no Brasil. Erradicada desde 2015, houveram 40,2 mil casos da doença de 2018 a 2020, com dezenas de óbitos de crianças.

Os imunizantes foram responsáveis por reduzir o número de casos de sarampo no mundo de 854 mil em 2000 para 150 mil em 2020, e de caxumba de 544 mil para 270 mil no mesmo período. Em 1990, quase 12 milhões de crianças morreram por infecções que poderiam ser evitadas. Por meio da vacinação, o número caiu para 5,5 milhões em 2017. Entretanto, segundo estimativa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), o número de crianças vulneráveis a doenças evitáveis quase dobrou de 2010 para a data atual, saltando de 14,5 milhões de crianças vulneráveis uma década atrás para 23 milhões hoje.

Por que o movimento antivacina venceu

Cristiano Novaes de Rezende é professor da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Goiás (UFG), atuando na área da Teoria do Conhecimento. Rezende auxilia a compreender por que o conspiracionismo sobrepõe o peso das evidências e como notícias falsas em redes sociais vêm complicando a atuação de profissionais sérios.

Por que a ciência é mais confiável do que outras formas de conhecimento? Por que alguém deveria dar mais ouvidos a cientistas do que a anônimos na internet?

A ciência é a forma de conhecimento que é capaz de responder à pergunta “como se sabe?”. Ou seja, ela é responsável não apenas pelo resultado, mas também pelo método – palavra que deriva do termo grego “caminho”. Nesse sentido, ela tem responsabilidade pelo que diz. Quando prova algo, é capaz de dizer como isso foi encontrado. O anticientificismo se concentra unicamente nos resultados, mas é irresponsável quanto aos métodos. 

É possível explicar por que a anti-vacina se tornou popular?

Essa é uma pergunta muito complexa, não dá para dizer de forma rápida. Mas eu acho que há um “borramento” das fronteiras entre conhecimento científico e opinião. Há uma espécie de privatização do conhecimento, no sentido de que um grupo se identifica com uma determinada posição e, no interior desse grupo, membros apoiam uns aos outros mantendo uma verdade como construto. 

É possível discriminar três concepções de verdade: a primeira é a coerência. Por exemplo, uma igualdade em uma expressão matemática. Dois mais dois é igual a quatro. Essa expressão não necessariamente aponta para algo fora dela mesma, mas é verdadeira. Depois temos a verdade como correspondência, que é a verificação dos fatos objetivos, que a Terra gira em torno do Sol. A terceira concepção é a verdade como construto simbólico; no caso, das experiências humanas como participantes de uma comunidade que entram em acordo sobre determinados conceitos. Me parece que há uma confusão entre a correspondência e construto simbólico. São pessoas que fazem parte de comunidades em que, para receber apoio, é necessário sustentar essas “verdades”, que são muito mais questão de construção do que de correspondência com a realidade. 

Um dos fatores que explica isso é a privatização e mercantilização do conhecimento. O princípio segundo o qual o freguês sempre tem razão faz parte da lógica do mercado. Com o conhecimento tratado como mercadoria, haverá de haver também cientistas dispostos a satisfazer a demanda de opiniões anti científicas.

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