Uso de Viagra pode aumentar risco de cegueira em até 85%, diz estudo

Veja o que especialistas goianos falam sobre pesquisa realizada com mais de 213 mil homens e constatou relação entre uso de medicamentos para disfunção erétil e condições ópticas graves

Para que uma pessoa possa enxergar, a luz que sai dos objetos passa pela córnea, tem o foco ajustado pela lente por trás dela e então chega até a retina, uma camada composta por fotorreceptores no fundo dos olhos. Aí, então, a luz recebida é convertida em sinais elétricos que viajam por meio de nervos ópticos até o cérebro, onde os sinais são interpretados em imagens. Qualquer problema nesse percurso pode gerar problemas de visão e, em casos graves ou sem tratamento, à cegueira.

Agora, pesquisadores da Universidade da Columbia Britânica, no Canadá, descobriram que o uso contínuo e prolongado de remédios para disfunção erétil, como o Viagra, pode aumentar em até 85% o risco para contrair doenças como descolamento de retina, oclusão venosa da retina (OVR), neuropatia óptica isquêmica (NOI), entre outras. Tanto OVR como NOI são condições marcadas por impedimento de fluxo sanguíneo para o nervo óptico. O diagnóstico de OVR, inclusive, é uma das principais causas de cegueira no mundo.

Para o estudo, publicado na revista científica JAMA Ophthalmology, no último 7 de abril, foram analisados 213 mil homens que consumiam regularmente medicamentos utilizados para o tratamento de disfunção erétil, como o Viagra (mais antigo e mais popular remédio utilizado nos casos). As análises dos pacientes foram comparadas com dados de 4,5 mil homens que não faziam uso regular do composto. A média de idade dos pacientes observados era de 64,6 anos.

Durante o período de observação, foram observados 278 casos de descolamento de retina, 628 casos de OVR e 240 casos de NOI, entre 1º de janeiro de 2006 e 31 de dezembro de 2020. Os pacientes que apresentaram os problemas tinham maior propensão a sofrer com condições crônicas de saúde, como hipertensão e diabetes, por exemplo. Mesmo controlando outros fatores de risco, o risco de problemas oculares, em média, foi 85% maior nos pacientes medicados. De forma específica, o risco de descolamento de retina cresceu em 158%, enquanto o OVR cresceu em 44% e o de NOI, 102%. Em números absolutos, isso indica cerca de 3,8 casos de descolamento, 8,5 de OVR e 3,2 de NOI, num grupo de 10 mil pessoas, por ano.

Resposta médica

Apesar do estudo ser recente, a novidade não chega a ser surpresa dentro do meio médico. De acordo com Fernando Cruvinel, médico urologista especialista em andrologia, nos últimos anos já eram percebidas possíveis relações no uso constante dessas medicações no aumento de casos de problemas oculares graves. “Já havia na comunidade científica relatos tentando fazer essas relações. O grande mérito desse estudo é que ele conseguiu reunir um grande número de homens pesquisados”, explica.

A discussão também já ocorria entre especialistas da visão, de acordo com Carlos Eduardo Gonçalves Pereira, oftalmologista mestre pela Universidade Federal de Goiás e especialista em retina. Segundo ele, os medicamentos para disfunção erétil ocupam o segundo lugar na lista que mais chama a atenção para efeitos colaterais em clínicas oftalmológicas. O primeiro lugar fica com medicamentos utilizados no tratamento contra o aumento da próstata.

Para o especialista, o principal alerta que o novo estudo acende é para o acúmulo de fatores de risco em pacientes que já sofrem com outras condições e podem vir a ter quadros gravados pelo uso dos medicamentos. “O próprio paciente que tem dificuldade de ereção já pode ter um fator de risco para desenvolver problemas oftalmológicos. Se ele tem isso, já tem o controle prejudicado da circulação e os remédios vão mexer justamente com isso. A grande questão é que o remédio surge com algo mais, somando-se a vários outros fatores de risco”, aponta. Ao mesmo tempo, Carlos Eduardo reconhece que o estudo gera a necessidade de novas observações, para que possam ser identificados os mecanismos que provocam esses danos. “Talvez até para conseguir fazer uma medicação contra disfunção erétil que não mexa com microvasculatura de outros locais do corpo”, sugere.

O aumento do risco, porém, não significa que pacientes em tratamento precisam interromper o consumo dos medicamentos contra a disfunção. Uma vez que se trata de um estudo epidemiológico, ainda não é possível estabelecer de forma absoluta as associações de causa e efeito entre os remédios e os problemas oculares. De acordo com o alerta do urologista Fernando Cruvinel, é preciso entender o organismo do paciente como um todo. “Não dá para estabelecer de forma definitiva a relação porque, hoje, as principais causas orgânicas de disfunção são doenças que provocam alterações nos pequenos vasos, como diabetes e pressão alta. Então as lesões nos vasos do pênis podem indicar lesões já presentes nos vasos oculares”.

Nesse sentido, ele chama a atenção para um paralelo com a famosa questão de quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha. “Será que o homem tem maior incidência de problemas oculares por estar usando os medicamentos ou usa os medicamentos porque já está com condições que levam a esses problemas?”, questiona. “Foi a medicação que fez isso ou foi a doença?”.

Saúde dos olhos

De acordo com o oftalmologista Carlos Eduardo, a maioria dos pacientes que apresentam sinais de OVR ou NOI já sofrem com algum problema crônico, como diabetes ou problemas cardiovasculares, algo que também é observado nos pacientes com problemas de ereção. Assim como acontece na transmissão de dados entre olhos e cérebro, o pênis tem os corpos cavernosos regados de sangue por mecanismos vasculares para poder ficar ereto. Por causa disso, ele explica que ao menor sinal de problema ligado a condições vasculares, é importante fazer check ups completos para analisar as áreas afetadas pelo abastecimento de sangue e evitar o avanço das condições nos olhos, evitando chances de cegueira. “A oclusão venosa, por exemplo, pode ser só de um ramo e não da veia central. Nesses casos, a chance de levar pra uma cegueira é menor, pois quanto mais distante do nervo central, menos risco”, explica o oftalmologista.

Ele também garante que as condições listadas pelo estudo não são consideradas tão comuns e possuem tratamento, quando acompanhadas de perto. Caso o paciente deixe passar muito tempo para buscar alternativas, o médico pode ficar com o tratamento limitado, mas quanto mais cedo ele for se consultar, mais chances terá de recuperação, “Já tive pacientes que chegaram a perder totalmente a visão, assim como também tive pacientes que voltaram com praticamente 100%. Dependendo do caso, ele pode ser recomendado para um cardiologista, por exemplo, para observar outras coisas que agravam o quadro ocular para ajudar no tratamento”, esclarece.

Outros estudos

Pesquisas anteriores a essa já apontavam a relação entre o uso dos medicamentos contra disfunção e problemas de saúde dos olhos. Em outubro de 2018, pesquisadores da Escola de Medicina Icahn no Monte Sinai, de Nova Iorque, publicaram um estudo de caso que concluía que o uso de altas doses de Viagra poderiam levar a danos significativos na visão, a longo prazo. Os estudiosos apresentaram a conclusão baseada no caso de um paciente de 31 anos que chegou ao atendimento de urgência de uma clínica por reclamações de visão avermelhada nos dois olhos por dois dias. O problema começou depois que ele consumiu medicamentos para disfunção erétil.

Em 2020, um outro relatório científico publicado na revista Frontiers in Neurology descreveu o caso de 17 homens saudáveis que procuraram atendimento médico depois de usarem remédios contra disfunção pela primeira vez. A princípio, a prescrição desse tipo de droga começa com a recomendação de doses de 50 mg, que podem ser elevadas ou reduzidas de acordo com a necessidade. Para todos os pacientes observados, entretanto, o consumo foi da quantidade mais alta recomendada, de 100 mg. Após o consumo, todos eles relataram incômodo na visão, entre sensibilidade à luz, embaçando, visão azulada e até mesmo perda da percepção de cores. De acordo com o relato da pesquisa, os sintomas persistiram mesmo após o fim do efeito dos medicamentos, tendo duração de até três semanas em alguns dos casos.

Uso recreativo

É por isso, inclusive, que os dois médicos demonstram a mesma preocupação em relação ao uso dos remédios contra disfunção erétil de forma causal e indiscriminada, sem indicação e acompanhamento médico. Para Fernando Cruvinel, a segunda conclusão a se observar sobre o estudo, “e talvez a mais importante”, pontua, é do uso abusivo e desnecessário do medicamento. “Todo remédio tem seus efeitos colaterais e complicações, e a gente tem visto cada vez mais o uso recreativo do indivíduo que não precisa.O estudo acende o alerta de que é uma medicação para ser usada por quem precisa, e não por quem quer ter expectativa irreal de desempenho sexual”, pontua o urologista.

Ele ainda alerta para os possíveis efeitos colaterais que podem surgir a partir do uso dos remédios, que podem surpreender quem não recebe a orientação de um profissional antes do uso. Sintomas como dores de cabeça, sensação de orelha e nariz quente, congestão nasal, dor muscular e dor no estômago podem aparecer para quaisquer pacientes. Apesar disso, o médico garante que nenhum deles é considerado grave e todos podem ser controlados a partir da administração da dosagem no tratamento, o que chama a atenção para a importância de fazer uso somente com acompanhamento de especialista.

Para piorar, casos de uso recreativo ou indiscriminado de remédios contra disfunção em pacientes com rendimento sexual considerados normais e saudáveis podem gerar impotência por dependência psicológica. “A gente observa um fenômeno comum que não é de dependência orgânica, mas de condicionamento que o homem cria por ter aprendido a precisar daquilo para entrar numa relação, então se ele não tem, mesmo sem precisar pode ficar inseguro e sofrer com o risco da falha”, explica.

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