Universidades têm capacidade para suprir falta de testes para coronavírus, mas faltam insumos

Apesar de ter as ferramentas para lidar com adversidades da pandemia, cortes de verba na ciência brasileira podem paralisá-la quando o País mais necessita 

Testes coronavírus

Cientistas do Laboratório de Análises Clínicas e Ensino em Saúde da Universidade Federal de Goiás recebem EPIs para realizar diagnósticos do coronavírus | Foto: Reprodução/Daniela de Melo e Silva

A testagem em massa é apontada por especialistas como a melhor maneira de controlar a pandemia. Esta foi a medida que países como Alemanha, Coreia do Sul e Japão tomaram que lhes permitiu reconhecer os indivíduos infectados e isolá-los rapidamente. Além disso, a testagem em massa revela a gestores públicos a extensão do problema e facilita decisões, como alocação de recursos de saúde e prevenção de impactos econômicos.

O Ministério da Saúde anunciou na semana passada a chegada de meio milhão de testes rápidos para diagnóstico de coronavírus em profissionais de saúde e segurança pública, que já começaram a ser distribuídos em todos os Estados. Os kits foram doados à pasta pela Vale e parecem ser um promissor sinal de que o Brasil está no caminho certo. Entretanto, um dia antes da chegada dos testes, a Secretaria Estadual de Saúde de Goiás (SES-GO) cancelou a compra emergencial de 300 mil testes rápidos que custariam R$ 38,7 milhões. O órgão justificou a decisão em nota ao Jornal Opção:

“A SES-GO informa que, após obter mais informações sobre os kits de ‘teste rápido’, optou por adquirir os testes após o Laboratório Estadual de Saúde Pública (Lacen) fazer comparação do controle de resultado com o RT-PCR, considerado padrão-ouro para o exame. A proposta é que as empresas forneçam 50 kits para serem testados com o objetivo de identificar o percentual dos resultados confiáveis, já que alguns testes, segundo o Ministério da Saúde, apontam até 30% de erro”.

Testes coronavírus

Avião da FAB que levou testes rápidos para diagnóstico do novo coronavírus para a Região Nordeste | Foto: FAB

Margem de erro

Outros cientistas dizem que a margem de erro pode ser ainda maior. Uma análise feita a pedido do Ministério da Saúde por um laboratório particular indicou 75% de chance de erro em resultados negativos para o novo coronavírus. Isso não significa que os testes rápidos são defeituosos, segundo Gabriela Silvério, diretora do Laboratório de Análises Clínicas e Ensino em Saúde da Universidade Federal de Goiás (Laces/UFG). 

Foto: Daniela de Melo e Silva/Acervo Pessoal

A biomédica afirma que os testes rápidos indicam a presença de anticorpos no sangue, ou seja, proteínas das células de defesa produzidas pelo próprio organismo contra o novo coronavírus, o SARS-CoV-2. O falso negativo pode ocorrer se o paciente estiver doente e fizer o teste antes da resposta imunológica – anterior à produção destas proteínas. Por isso, o exame deve ser feito entre o 5º e o 7º dia após o aparecimento dos primeiros sintomas.

O teste rápido não é inútil, diz Gabriela Silvério. Por dar resultados em apenas 15 minutos, é importante para a triagem de pacientes que merecem atenção médica. Entretanto, sozinho não garante um retrato autêntico do número de casos da Covid-19 em um país. Para isso, é importante a realização da análise de RT-PCR, estudo apontado pela SES-GO como padrão-ouro para a detecção do vírus no organismo. 

O PCR em tempo real (a sigla em inglês significa reação em cadeia de transcrição reversa da polimerase) detecta diretamente a presença do material genético do vírus. Logo, é eficaz desde o primeiro momento da contaminação. A técnica possui alguns poréns: é mais lenta, exige profissionais altamente qualificados e requer aparelhos especializados. 

Testes coronavírus

Lacen recebeu insumos do Ministério da Saúde para fazer identificação do coronavírus | Foto: SES-GO/Divulgação

Cem diagnósticos por dia

O Laboratório Estadual de Saúde Pública é capaz de produzir cerca de cem diagnósticos por dia, muito menos que o estado São Paulo atualmente necessita, e que Goiás precisará com o crescimento do número de casos, que acelera exponencialmente. A Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo divulgou que há fila de 15 mil testes a serem realizados, e resultados estão são entregues com semanas de atraso. Em Goiás, especialistas entrevistados afirmam que também há demanda reprimida, embora números não tenham sido divulgados. Um convênio entre Lacen e UFG pode resolver o problema.

Gustavo Rodrigues Pedrino é diretor do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFG e afirma que houve uma mobilização pela universidade como um todo: “Temos o Laces credenciado nacionalmente pela Anvisa e demais órgãos de certificação. Temos toda estrutura, diversos aparelhos para fazer exames de RT-PCR e temos profissionais qualificados. Tudo isso foi investimento da sociedade. Estudantes e professores se voluntariaram para sair do nosso quotidiano, que é a pesquisa, para disponibilizar esse serviço de diagnóstico para a sociedade”.

Gustavo Pedrino afirma que a estrutura convertida para testagem será capaz de oferecer 130 diagnósticos por dia, pelo menos no princípio das operações. O professor de Neurociências lembra a infecção de 450 funcionários do hospital Sírio Libanês para justificar a cautela inicial, com atenção às práticas de segurança e ao equipamento de proteção individual (EPI). “Mas, no futuro, poderemos multiplicar em cinco ou até mais vezes a realização de diagnósticos diários”, afirma o docente.

Gustavo Pedrino afirma que comunidade acadêmica se voluntariou para combater pandemia | Foto: Reprodução/Adufg

Insumos necessários

Só o que seria necessário para atingir todo o potencial, explica o cientista, são os insumos – reagentes importados. Por meio do convênio estabelecido entre Lacen-GO e UFG, determinada quantidade de reagentes foi garantida, embora a data de recebimento e a quantidade não tenham sido especificadas pela SES-GO. Gabriela Silvério, diretora do Laces, e Gustavo Pedrino afirmam que têm toda estrutura e profissionais a postos. Apenas esperam receber insumos para começar o trabalho. 

Flúvia Amorim, superintendente de Vigilância em Saúde (Suvisa) da Secretaria de Estado da Saúde, afirma que a quantidade de reagentes repassada pelo Ministério da Saúde não é suficiente para laboratórios e que a SES-GO tem pedido mais insumos ao governo federal. A superintendente diz que existem reagentes suficientes para produzir de cem a duzentos diagnósticos por dia. 

Os reagentes necessários para realizar o ensaio de RT-PCR são produzidos por nações tecnologicamente desenvolvidas e, neste momento de pandemia, são importados por todo o mundo. Como mostrou o jornal O Globo, a compra em massa dos EUA levou a China a cancelar contratos de importação de reagentes pelo Brasil. O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou ao jornal O Globo que não importa quanto dinheiro se ofereça às fábricas chinesas, elas simplesmente não conseguem fornecer insumos ao mundo todo.

Solução nas universidades

Novamente, as universidades poderiam oferecer uma solução ao problema. Gustavo Pedrino afirma que, para contornar a dificuldade, o Instituto de Ciências Biológicas tenta desenvolver o kit diagnóstico com seus próprios insumos. O cientista afirma: “Com a ausência de kits diagnósticos, um grupo de pesquisadores em biologia molecular do ICB está padronizando o diagnóstico por PCR ‘in house’. Caso tenham sucesso, isto tornaria o diagnóstico mais acessível financeiramente. Entretanto, este novo diagnóstico deverá ser acreditado e passar por toda a regulamentação da Anvisa. É mais rápido e simples comprar o kit pronto, mas como há dificuldade de encontrá-lo no mercado, estamos trabalhando nesta nova alternativa”.

Representante da SBPC Goiás afirma que desvalorização da ciência é um projeto | Foto: Reprodução/Ubes

Surge então um obstáculo muito mais profundo e complexo. Segundo a secretária regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC-GO), Márcia Pelá, o maior desafio enfrentado pela ciência brasileira hoje é o corte de bolsas de pós-graduação. A representante dos cientistas diz: “A ciência vem sendo alvo de sucateamento há tempos, mas o mais recente corte que veio por meio da Portaria 34 da Capes feriu de morte a pesquisa neste momento em que sua importância está escancarada para o mundo”.

A portaria 34 da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) levou à perda de mais de três mil bolsas de pós-graduação no País, segundo levantamento contabilizado pela Associação Nacional de Pós-Graduandos. Um caso que ganhou atenção pela infâmia foi o de Ikaro Alves de Andrade, doutorando na Universidade de Brasília que estuda sequenciamento do vírus no Distrito Federal e depende do auxílio concedido pela Capes, mas teve o benefício cortado.

Mais ferramentas

Gustavo Pedrino diz que novas pandemias podem surgir e a ciência é a única maneira de estar preparado | Foto: Reprodução / Acervo Pessoal

Gustavo Pedrino afirma que a ciência tem as ferramentas para proteger a sociedade, não apenas ao fazer diagnóstico. “Também podemos sequenciar o genoma do vírus para entender os genes e, com ferramentas de bioinformática, identificar possíveis alvos para produção de vacinas e medicamentos. Podemos monitorá-lo e entender o processo de mutação deste coronavírus. Isto é de grande importância para nos prepararmos para futuras pandemias, que provavelmente ocorrerão.” O neurocientista conta que pesquisadores sentem o dever de proteger a comunidade, da qual também fazem parte, mas que cortes de recursos e bolsas põem tudo a perder.

“Quem equipou nossos laboratórios foi a sociedade”, Gustavo Pedrino diz. “Estes equipamentos são caríssimos; nossos profissionais levaram décadas para se especializar. O investimento em ciência aparece nesse momento. Nós estamos prontos para ajudar e podemos dar a resposta. Cortar bolsa agora é jogar tudo isso fora. É um caminho sem volta.” 

Márcia Pelá alerta para os problemas que o corte de verbas no órgão subordinado ao Ministério da Educação e as sucessivas escolhas erradas que inviabilizaram o socorro da sociedade brasileira pela ciência criam. “Esse corte continua o processo de desmonte da pós-graduação e da ciência e tecnologia no Brasil. Não há nada de novo, nenhuma intenção que não tenha sido anunciada pelo ministro Abraham Weintraub ou pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Contra a pandemia que põe em evidência para todo o mundo a importância do conhecimento científico, estão apostando na ignorância e no obscurantismo”, conclui a secretária regional SBPC.

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