Trinta anos após Collor, democracia brasileira ainda carece de maturidade

Em 1989, eleitor voltava a escolher diretamente o presidente da República. Governador Ronaldo Caiado lembra-se de embate com Lula na Band

Collor, observado por Kajuru: primeiro presidente pós-redemocratização | Foto: Waldemir Barreto / Ag. Senado

Em 1989, o brasileiro finalmente comparecia a um encontro adiado por 25 anos: as eleições presidenciais. No dia 15 de novembro daquele ano, o eleitor voltaria a escolher o presidente da república por voto direto. A última vez que isso havia ocorrido fora em 1960, quando Jânio Quadro foi eleito. Como consequência da deposição de João Goulart em 1964 pelo golpe civil-militar, o pleito direito prometido para 1965 foi suspenso, por meio de dois Atos Institucionais: o AI 1 e o AI 2.

Entre 1964 e 1985, os presidentes foram escolhidos por eleições indiretas. De Castello Branco a João Batista Figueiredo (1979/1985), a escolha de cartas marcadas era feita pelo Congresso. Em 1985, o Colégio Eleitoral decidiu pelo povo pela última vez, com a vitória do oposicionista Tancredo Neves (PMDB), ex-governador de Minas Gerais.

Com uma Constituição novinha e folha, promulgada em outubro de 1988, o Brasil foi às urnas em 1989 em clima de euforia. Vinte e dois candidatos se apresentaram. Alguns deles continuam até hoje nos holofotes, inclusive os dois protagonistas do segundo turno: Fernando Collor (PRN) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Outros marcaram história, como Ulisses Guimarães (PMDB), Leonel Brizola (PDT) e Mário Covas (PSDB). Alguns despareceram sem deixar rastros, como Marronzinho (PSP) – o que dizia que todos o queriam calar – e Antônio Pedreira – que se apresentava convicto da vitória porque seria votado pelos negros e evangélicos.

No período conhecido como Nova República, foram oito eleições diretas. Naquela primeira, Fernando Collor venceu Lula no segundo turno, realizado no dia 17 de dezembro de 1989. Desde então, o Brasil teve dois presidentes cassados (o próprio Collor e Dilma Rousseff), cujos vices assumiram (Itamar Franco e Michel Temer, respectivamente). No período, o Brasil elegeu um sociólogo (Fernando Henrique Cardoso, 1995-2002), um torneiro mecânico (Lula, 2003-2010), a primeira mulher (Dilma Rousseff, 2011-2016) e, por último, voltou a escolher um militar da reserva (Jair Bolsonaro).

Robert Bonifácio: “Podemos afirmar com convicção que vivemos numa democracia no Brasil” | Foto: arquivo pessoal

Nesse período, apesar das turbulências, a democracia brasileira vem se aperfeiçoando gradativamente. “Podemos afirmar com convicção que vivemos numa democracia no Brasil, desde o fim da ditadura militar (1964-1985). Fatos históricos e medidas de democratização confirmam isso. O pleno gozo dos direitos políticos, a alternância de poder a nível nacional e um sistema eleitoral seguro, que permite eleições limpas e livres são as nossas maiores virtudes”, diz o professor de Ciência Política da Universidade Federal de Goiás Robert Bonifácio.

Segundo o cientista político, essa construção, porém, não está concluída. “Essa é uma construção diária e isso se mostra ainda mais importante para jovens democracias, como a nossa. Na prática, isso significa que uma cultura política pró-democrática ainda é frágil. Não temos um reservatório robusto de valores democráticos e isso é uma janela de oportunidades para atores políticos relevantes agirem de maneira autoritária, discriminatória e passando por cima do primado da lei”, diz.

Em três décadas, algumas características permanecem intactas. Uma delas é uma certa crença em um salvador da pátria – talvez herança do sebastianismo português. Em 1989, Collor foi eleito com a pecha de “caçador de marajás”. Lula, o presidente mais popular desde a redemocratização, e Bolsonaro também carregam uma forte imagem pessoal. “Nossa cultura política é personalista. Ou seja, o eleitor brasileiro, em geral, se guia por pessoas e não por ideias e partidos”, diz Bonifácio. Essa peculiaridade, segundo o cientista político, possivelmente isso ocorre porque a maior parte dos direitos sociais tenha sido concedida por governos autoritários, como o Estado Novo e a ditadura militar.

“Isso contribuiu para a supervalorização do Poder Executivo e para a subvalorização do Poder Legislativo e também para que as expectativas dos cidadãos fossem sempre voltadas para um líder salvador da pátria. Superar essa característica culturalista é necessário, uma vez que é mais benéfico para o país guiar-se por projetos de nação do que por pessoas”, afirma.

Esse comportamento do eleitor, segundo Bonifácio, é prejudicial. “A valorização de um líder salvador da pátria gera um descompromisso das elites com projetos de médio e longo prazo, sendo privilegiadas as ações políticas que tragam retorno eleitoral imediato. Persistindo esse cenário, torna-se difícil superar a condição estrutural do subdesenvolvimento socioeconômico e das patologias políticas”, diz.

Caiado cita troca de farpas com Lula
em debate como ponto alto da campanha

Lula e Caiado no debate da Band em 1989 | Fotos: Reprodução

Talvez muita gente mais jovem não saiba, mas o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), estava entre os 22 candidatos que disputaram a Presidência da República em 1989. “Meu pai [Endeval Caiado] não queria, mas ninguém tiraria da minha cabeça que eu deveria disputar aquela eleição, mesmo nunca tendo sido candidato a nada anteriormente”, conta o democrata.

Caiado vinha da presidência da União Democrática Ruralista (UDR) e filiou-se ao PSD. Ele lembra, com especial carinho, dos debates, principalmente os realizados pela Rede Bandeirantes. Em um dele, protagonizou um embate com o candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva.

A troca de farpas começou porque Lula havia se referido a Caiado como “o homem do cavalo branco”. “Quando Lula tentou ironizar, repliquei com um cheque da Lubeca, uma empreiteira da época, que havia repassado um valor substantivo ao [Luiz Eduardo] Greenhalgh, que assumiu a prefeitura [de São Paulo] e liberou uma área para a empreiteira”, conta o governador. “Então, escancarei que meu cavalo pastava na minha fazenda e ele [Lula] comia no lombo das empreiteiras”. O caso foi arquivado apenas em 1998, mas marcou a campanha.

Para Caiado, os debates foram o ponto alto da campanha. “Eram improvisados, no bom sentido. Ninguém tinha marqueteiro ou assessor de campanha. Cada um [falava] pelo seu conhecimento geral, sua capacidade pessoal, sem assessoria, respondia as perguntas, fazia o contraponto e fazia novas perguntas”, lembra. Para o governador, isso tornava a campanha menos engessada que as de hoje.

“Foi o lado bonito, uma campanha como nunca mais existiu, com tanto espaço para o debate como o de 1989. Hoje, a campanha é mais cansativa, cada um tem de cumprir um script pré-determinado”, avalia o democrata, que lembra ter sido o mais jovem entre os postulantes ao cargo.

O governador goiano vê semelhanças entre a eleição de 1989 e a de 2018. “A campanha de 1989 já tinha um componente ideológico muito forte”, afirma. Caiado lembra que Collor, assim como Bolsonaro, não tinha uma grande estrutura partidária e nem tempo de televisão.
Ainda assim, o ex-presidente fez uma campanha inovadora para a época. “Ele foi um dos primeiros a usar o marketing seriamente”, cita Caiado.
“Parece ser cíclico. O Brasil, de 30 em 30 anos, tem uma eleição totalmente fora do script político. Gostaria de estar vivo daqui a 30 anos para assistir uma nova virada como a de 2018”, diz.
Caiado terminou o primeiro turno com 488.846, sendo o décimo mais votado. Mesmo com o desempenho acanhado, o democrata considera que a partipação foi positiva. “Eu era o mais jovem entre os candidatos e pude debater com a elite política da época”, afirma.
Na época, ele tinha acabado de completar 40 anos de idade. No ano seguinte, 1990, foi eleito deputado federal pelo PSD, com 98.256 votos, sendo o de mairo votação em Goiás naquele ano.

Como era o Brasil em 1989

Presidente – José Sarney havia assumido com a morte de Tancredo Neves (que nem tomou posse). Entre outras coisas, seu mandato ficou marcado pelas vergonhosas “fiscais do Sarney”.

Cruzado Novo: moeda de vida curta

Moeda – Cruzado Novo. A hiperinflação, que chegou a 1.700% no ano, obrigou o governo a fazer o Plano Verão (que, ironicamente, durou como os sonhos dessa estação). Algumas cédulas vinham carimbadas, com corte de três números 0 da moeda anterior, o Cruzado.

Costumes – O presidente Sarney sanciona a Lei do Divórcio, que diminui o prazo para separação

Futebol – A Seleção ainda era tricampeã, jejum que só foi quebrado cinco anos depois. O campeão brasileiro foi o Corinthians e o goiano, o Goiás Esporte Clube.

Telefone era coisa para poucos

Telefonia – Um telefone chegava a custar 5 mil dólares e era declarado no imposto de renda. Quem podia comprar, tinha de esperar.

Televisão – Foi o ano de estreia do Domingão do Faustão. Em Goiânia, foi inaugurada a TV Serra Dourada.

Música – Foi lançado As Quatro Estações, álbum de maior sucesso da Legião Urbana. Foram vendidas 2,6 milhões de cópias em vinil (era assim que se ouvia música)

Cultura – Morreu o lexicólogo Aurélio Buarque de Holanda, autor do dicionário que leva seu nome, um dos mais usados no Brasil. Aurélio era primo de Chico Buarque e não pai, como muita gente pensa.

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