Tratamentos inovadores revertem perda de olfato causado pela Covid-19

Anosmia afeta maioria dos pacientes leves de Covid-19. Além de proporcionar sensações agradáveis, o sentido do olfato é importante para a segurança

Perda de olfato e paladar afeta 86% dos pacientes de Covid-19 leve | Foto: Reprodução

O coronavírus provoca anosmia (perda de olfato e paladar) em 86% dos pacientes que tiveram a forma leve da Covid-19, segundo estudo que acompanhou 2,5 mil pacientes de 18 hospitais europeus e que foi publicado no Journal of Internal Medicine. A condição dura em média de 14 a 21 dias, mas alguns pacientes podem levar meses para tornar a sentir cheiros sem distorção ou hipersensibilidade. Algumas pessoas relatam que, desde que tiveram a doença, nunca voltaram a ter o olfato como antes. Porém, cientistas brasileiros têm feito avanços para solucionar o problema.

Perder o olfato implica em riscos para a saúde. Uma rinologista entrevistada no artigo dá como exemplos o consumo de alimentos deteriorados e a impossibilidade da pessoa se dar conta de um vazamento de gás como situações de risco até de morte. A incerteza quanto à recuperação e ao tempo que ela vai levar incomoda bastante esses pacientes.

Segundo Sérgio de Andrade Nishioka, médico infectologista e doutor em Epidemiologia, explica por que o fenômeno acontece: “A entrada do novo coronavírus (SARS-CoV-2) nas células se dá pela ligação da proteína S (de spike, espícula) a receptores da enzima conversora da angiotensina 2 (ACE2), que ficam na sua superfície. Os neurônios olfativos não têm esses receptores, o que não é o caso das células de sustentação, que têm muitos. Essas células mantêm um delicado equilíbrio iônico no muco de que os neurônios dependem para enviar sinais para o cérebro. Se esse equilíbrio é rompido a sinalização neuronal pode ser interrompida, e em consequência o olfato é afetado. As células de sustentação também dão apoio físico e metabólico necessários para os cílios dos neurônios olfativos, onde os receptores que detectam os odores se concentram. A lesão desses cílios leva à perda do olfato.”

Sérgio de Andrade Nishioka, epidemiologista na Fiocruz Brasília | Foto: Reprodução

Sérgio de Andrade Nishioka esclarece também como o sentido do olfato retorna: “O epitélio olfativo tem a capacidade de se regenerar, e por isso a anosmia é quase sempre reversível. Na maioria dos pacientes ela se instala subitamente, e a recuperação é rápida, mas em uma pequena parte deles a perda de olfato é persistente e a recuperação, lenta.” Sérgio de Andrade Nishioka afirma que a ciência conhece melhor e há mais tempo a perda de olfato provocada pela gripe. “Há uma probabilidade de recuperação espontânea entre 30 a 50 por cento em até seis meses, mas há relatos de casos extremos em que ela só ocorreu dois anos depois. Passado esse tempo, a chance de recuperação pode ser considerada mínima.”

Situação de risco

Além de proporcionar sensações agradáveis, o sentido do olfato é importante para a segurança. A aposentada Terezinha Rios perdeu o olfato em decorrência da Covid-19 que contraiu há mais de um ano, em junho de 2021, e relata nunca ter voltado a sentir aromas como antes. “Passei seis meses sem perceber nenhum cheiro”, diz. “Meu paladar também ficou prejudicado – eu sabia apenas se a comida era doce, salgada ou azeda, mas não conseguia identificar o que comia.”

Conforme pesquisadores da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública publicaram no periódico Research, Society and Development, as modalidades de tratamento que demonstraram maiores benefícios para a função olfativa foram os corticoides e o treinamento olfativo. O treinamento consiste em aproximar do nariz produtos como laranja, limão, hortelã, alho, café e ervas; ao longo de períodos estabelecidos pelo médico.

As drogas e o treinamento não puderam ajudar Terezinha Rios, entretanto, que passou por diversos otorrinolaringologistas. “Essa condição me colocou em situações de risco, quando o gás de cozinha estava vazando e eu não percebi. Foram meus vizinhos que vieram me alertar do perigo.” Terezinha Rios também conta que o olfato tem papel importante para estimular o apetite, e que por não sentir o cheiro dos alimentos, tem se alimentado mal. 

Após o período de seis meses sem sentir aroma nenhum, Terezinha Rios passou a sofrer de  fantosmia, alucinação do olfato que faz com que se perceba odores que estão ausentes, e  parageusia, distorção que ocorre nos sabores dos alimentos. “Muito frequentemente sinto o cheiro de acetona. Também é frequente que as comidas tenham um estranho gosto amargo, metálico”.

Tratamento inovador

Aplicação de fotobiomodulação (PBM) por pesquisador da IFSC/USP | Foto: Reprodução

Pesquisadores têm tido sucesso em experimentos de novos tratamentos para a anosmia. Publicado na revista científica “Journal of Biophotonics”, um grupo de cientistas do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP) conseguiu reverter totalmente as sequelas olfativas decorrentes da Covid-19 em uma paciente de 34 anos. O grupo usou equipamento de emissão de luz na faixa do vermelho e infravermelho, também desenvolvido pelo Instituto, para melhorar a cicatrização dos tecidos danificados. Este uso de lasers é conhecido como fotobiomodulação (PBM).

Após dez sessões da aplicação do laser intranasal e na lateral da língua, ao longo de 25 dias, o olfato e o paladar da paciente voltaram totalmente ao normal. Os pesquisadores escreveram no artigo publicado que as células sensoriais dos sistemas olfativo e gustativo são danificadas nos pacientes da Covid-19 por diversos fatores. Há os efeitos da tempestade inflamatória de citocinas desencadeada pela infecção viral; há o dano viral às células da cavidade oral e células epiteliais respiratórias; há as lesões no sistema nervoso periférico, que podem afetar as vias centrais de processamento da informação sensorial.

Aplicação de fotobiomodulação (PBM) por pesquisador da IFSC/USP | Foto: Reprodução

“Nesse sentido, a aplicação de terapias não medicamentosas já consolidadas que possuem efeitos anti-inflamatórios como no caso da fotobiomodulação, podem contribuir para a recuperação desses pacientes”, se lê no artigo publicado. “A PBM tem se mostrado eficiente e eficaz no tratamento de diferentes sequelas relacionadas à Covid-19 porque proporciona neuroproteção por meio de vias anti-inflamatórias e antioxidantes.”

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