Transplantes de órgãos de porcos em humanos abre possibilidades na medicina

A promessa dos xenotransplantes de reduzir a demanda por doadores de órgãos está mais próxima com avanços na edição genética

Pesquisadores da USP esperam realizar xenotransplante em 2 anos | Foto: Elza Fiúza/Agência Brasil

No dia 25 de setembro, uma cirurgia inédita ocorreu no centro médico Langone Health, da Universidade de Nova York. Pela primeira vez, um rim de porco foi transplantado para um corpo humano com sucesso. Pelas 54 horas observadas, o órgão funcionou sem desencadear rejeição pelo sistema imunológico do receptor.

O procedimento de transplantar tecidos e órgãos entre espécies diferentes tem o nome de xenotransplante, e é tentado por cientistas há pelo menos 340 anos. Há registros de um médico russo que realizou um enxerto ósseo de cão para reparo de um crânio em 1682. Entretanto, foi apenas a partir dos anos 1990, com a possibilidade de se editar geneticamente os animais doadores, que a técnica começou a se tornar mais útil. A maior promessa da novidade é suprir a demanda por órgãos em países onde doadores são raros. 

No caso de Nova York, a receptora foi uma paciente com morte cerebral com sinais de disfunção renal, cuja família autorizou o experimento. Os resultados dos testes do rim transplantado foram animadores: o cirurgião Robert Montgomery, que liderou o estudo, afirmou em entrevista à DW que o rim produziu a quantidade de urina esperada e que o nível anormal de creatinina da receptora – um indicador de função renal deficiente – voltou ao normal após o transplante.

No Brasil, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) já realizaram edição genética em porcos como parte de estudo que tem como objetivo o xenotransplante no futuro. O grupo está em busca de recursos e planejam testes em humanos daqui a dois anos. O pesquisador do Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco da USP, Ernesto Goulart, disse que, neste momento da pesquisa, estão sendo produzidos os primeiros embriões de porcos a partir das células geneticamente modificadas, que são os primeiros experimentos de clonagem deste estudo. 

“A primeira etapa para produzir um suíno geneticamente modificado, para que os órgãos desse animais sejam utilizados para transplante em humanos, é a etapa de edição genética. Nós já concluímos essa etapa”, disse. Até agora, nessa primeira etapa, ele explicou que os pesquisadores concluíram a edição do DNA das células de suínos, para que aqueles genes que causam a rejeição aguda fossem inativados.

O objetivo é que, no futuro, quando essas células derem origem a um animal, os órgãos a serem transplantados não causem rejeição no paciente humano. No caso da paciente transplantada em Nova York neste setembro, a equipe de Montgomery eliminou o gene suíno para um carboidrato que desencadeia a rejeição – uma molécula de açúcar, ou glicano, chamada alfa-gal – e assim evitou o problema.

Entrevista com a especialista

Livia Mendonça Pascoal é pesquisadora na área de xenotransplantes e professora da Escola de Veterinária e Zootecnia da Universidade Federal de Goiás (EVZ-UFG). A cientista afirma que conheceu esse campo na Universidad de Murcia, Espanha, onde concluiu parte de seu doutorado em Ciência Animal.

Livia Mendonça Pascoal afirma “conscientizar as pessoas sobre a importância de doar órgãos é uma coisa que podemos fazer hoje para combater um problema de saúde” Foto: Reprodução/UFG

Qual é o estado da arte? Em qual ponto estamos no desenvolvimento dos xenotransplantes? 

Quando falamos de órgãos inteiros, cientistas já conseguiram transplantar rins, coração e fígado suínos em primatas. Os animais transplantados com rins viveram com o órgão funcional por nove meses; com o coração por seis meses; e com o fígado por 28 dias. As pesquisas ainda são iniciais e os procedimentos foram experimentais. 

Agora, quando falamos de tecidos, células e proteínas transplantadas entre espécies, temos uma longa lista. Válvulas cardíacas, córneas, insulina, células sanguíneas, tudo isso já foi feito no passado com maior sucesso.

Por que se usa porcos?

A maioria das pessoas pensa que o transplante de primatas para humanos seria mais fácil, pela proximidade evolutiva. Entretanto, há alguns problemas: primeiro, grandes primatas estão em extinção. Além disso, há a barreira ética de se criar um primata para o abatimento – os mesmos questionamentos éticos servem para os porcos, mas a barreira já foi superada pela sociedade, já que milhões de porcos são abatidos para alimento todos os dias. 

Depois, há questões práticas: o tamanho e formato dos órgãos suínos é adequado. Uma porca dá à luz a muitos leitões por ninhada, enquanto apenas um chimpanzé é gerado por gravidez. Para que o fígado atinja o tamanho e maturidade ideal para o transplante em uma pessoa de cem quilos, o porco de quatro meses de idade serve; enquanto teríamos de esperar até oito anos para o primata ter o fígado no tamanho adequado. 

Por último, os parasitas, bactérias, vírus e patógenos em geral que são capazes de causar doenças em um primata próximo podem conseguir nos infectar também – já que somos tão parecidos. É mais improvável que patógenos de porco nos causem problemas. Isso é importante porque o receptor do órgão é imunossuprimido (isto é, suas defesas estão baixas e o paciente está mais suscetível aos patógenos) justamente para evitar a rejeição ao órgão. 

Quais são os maiores desafios para o sucesso de um xenotransplante?

Primeiro, a rejeição hiperaguda. Esta é a reação do sistema imune do receptor, que ataca o órgão novo imediatamente após o transplante como um corpo estranho. A genética tenta superar essa questão. Embora no caso de Nova York o rim suíno tivesse apenas uma modificação simples, em um único gene relacionado à produção de um antígeno que desencadeia a rejeição hiperaguda, existem animais com até 62 modificações nesse sentido.

Depois, existem as dificuldades de cada caso. Na Universidad de Murcia, onde fiz meu doutorado, os cientistas pesquisavam principalmente o xenotransplante de fígado suíno em primatas. Esse é um órgão especialmente complicado porque o fígado é uma “fábrica” muito complexa que produz mais de 2.500 proteínas. As proteínas que um porco produz são diferentes daquelas que um primata necessita.

Como você vê o futuro dessa área?

É difícil dizer, pois é uma área muito incipiente. Não me arrisco a prever uma data para quando os xenotransplantes vão fazer parte da nossa rotina médica. Mas um fator que determina a velocidade das pesquisas entre países é a disponibilidade de órgãos humanos para o transplante. 

No Japão, essa é uma área muito pesquisada porque o país tem uma das mais baixas taxas de doação de órgãos do mundo. Nos Estados Unidos, para cada milhão de pessoas existem 26 doadores; na Coréia do Sul são 8,4; e no Japão apenas 0,7 pessoas doam órgãos a cada milhão de habitantes. Há 25 anos a doação de órgãos era ilegal. As razões são culturais e têm a ver com o tabu da manipulação de cadáveres para a religião Xintoísta. 

Como os xenotransplantes estão longe de se tornar prática corrente na medicina, é mais seguro apostar no estímulo à doação de órgãos como política de saúde pública. No Brasil,  nossa taxa de doação de órgãos tem muito espaço para crescer. Enquanto a ciência não dá a solução dos xenotransplantes a curto prazo, conscientizar as pessoas sobre a importância de doar órgãos é uma coisa que podemos fazer hoje para combater um problema de saúde. 

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