Tragédia familiar é alerta sério, mas não pode dar corpo à intolerância política

Especialistas distanciam o caso da morte do filho pelas mãos do pai da constatação de conflito puramente ideológico e advertem: quanto falta o diálogo, sobra pouco do humano

Renato Mendonça Lucas, Valéria Pedroso, Daniel Emídio de Souza, Cristiano Pimenta e Roberta Arciprett discutem a trágica morte de um jovem pelo próprio pai: mais do que política, a pura intolerância | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção; François Calil; Divulgação

Renato Mendonça Lucas, Valéria Pedroso, Daniel Emídio de Souza, Cristiano Pimenta e Roberta Arciprett discutem a trágica morte de um jovem pelo próprio pai: mais do que política, a pura intolerância | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção; François Calil; Divulgação

Elder Dias

Nada a ver com uma questão pontual de divergência política. Ou, pelo menos, muito pouco, pouquíssimo. A história da tragédia que levou um pai a matar o filho e depois dar fim à própria vida em Goiânia, na semana passada, tem raízes bem mais profundas. Esse é um consenso entre os profissionais ouvidos pelo Jornal Opção sobre o caso. O fato de ver Guilherme Silva Neto, seu filho único, participando de um movimento de ocupação estudantil na Universidade Federal de Goiás (UFG), não seria suficiente para levar Alexandre José da Silva Neto a tomar o ato extremo, a não ser como uma “gota d’água” em uma relação já conturbada.

O psicanalista Renato Mendonça Lucas chama a atenção para a cena do crime, no Setor Aeroporto. Após perseguir, atirar e matar seu filho, o engenheiro de 60 anos se ajoelha diante do corpo e dispara contra si mesmo. Na boca. “O ser humano, diferentemente dos demais animais, usa sempre a palavra. É com as palavras que se mata ou que se acaricia. A própria sedução se dá pelo diálogo. O sexo se realiza com as palavras, o ato em si é para ‘conferir’ o que de fato já ocorreu”, explica.

O “tiro na palavra”, simbolicamente, já tinha ocorrido antes, como diz o psicanalista. “Quando a palavra cessa, comparece o resto animal que sobra. Isso vale para todos os crimes.” Renato diz que é uma tragédia que choca por mexer com questões inconscientes, edípicas, com o desejo de matar o pai e ter a mãe. “Só existimos porque alguém quis. Somos filhos do desejo, e Lacan (psicanalista discípulo de Freud) fala que somos filhos da metáfora — o desejo como metáfora da falta. Na nossa vida, quem está simbolicamente na mira? Sempre será o pai, como lei, alteridade. Mas é isso mesmo que nos faz geralmente não matar: estar diante da lei.”

Por isso, para o psicanalista, é preciso entender, em um caso assim, uma figura esquecida: o pai do pai. “Esse caso só se explica se remontarmos à geração anterior, muito provavelmente com esse senhor tendo tido um pai extremamente severo, e isso ter então se transformado em um ódio ambivalente. Provavelmente um filho submisso que teve de lidar com um insubmisso. E aí, um curto-circuito resultando no desejo de aniquilar”. Uma certeza óbvia: o pai atirador ultrapassou a linha limítrofe que barra os desejos e o lado primitivo. E pela falta da palavra.

Limiar tênue

A psicóloga clínica Valéria Pedroso explica que no processo natural de desenvolvimento do ser humano há uma busca pela autonomia, autorrealização, autoexpressão. “Ninguém deveria roubar isso do outro. Mas com pais castradores desse nível não se sabe como isso vai se dar.” Concomitante a uma insubmissão, estabelece-se também muita raiva, ainda que não expressa, processos ansiogênicos etc.

“O limiar entre a sanidade e a loucura é tênue. Sutilmente, nós o ameaçamos quando batemos uma porta, o testamos quando nos irritamos com uma fechada no trânsito, por exemplo. Isso se dá também no ambiente familiar”, ressalta Valéria. “Mas, para destruir alguém é preciso estar em um momento de ódio. Por trás de tudo isso, há muita coisa a ser observada. E, embora muitos digam ‘jamais’, todos nós somos capazes de cometer um homicídio. Há aspectos sombrios em nós que ignoramos”, avisa Valéria.

Para o psicanalista Cristiano Pimenta, o engajamento político do filho se liga a seu drama da vida pessoal. “Suas posições, como a de lutar contra qualquer opressão, de não apoiar ‘governo nenhum’ (frase que consta da foto de seu perfil no Facebook), acabam por revelar o que ele sofria em sua intimidade. Algo que pode ser lido como uma via pela qual ele enfrentava um problema que era só seu, o de ter um pai como o que tinha”, relata.

Cristiano considera que somente o conflito típico e até clássico de gerações não explica a barbárie: “É um caso fora da norma, para além da norma. Não é jamais o que se espera desses conflitos. Não se trata de um pai de família tradicional e conservador — ou até autoritário — que expulsa o filho de casa por não seguir suas referências. As relações de posse desse pai excederam tudo o que se definiria como relação entre pai e filho”, salienta.

Ele também não crê em surto psicótico. “Porque foi um crime premeditado. As ameaças já aconteciam e o ato final prova que o fundamento da relação era ‘se você não for o que eu quero, eu te mato’. Não é o caso de um surto, mas de uma personalidade estruturada nessa maldade”, infere. A disputa ideológica, que foi a razão imediata divulgada para o crime, serve como aprofundamento de contradições que já existiam mesmo sem a conjuntura política.

Doença antiga

Médico e psicanalista, Daniel Emídio de Souza exerceu a psiquiatria por cerca de 30 anos. Hoje se ocupa da psicanálise e diz que “definitivamente” um caso como o de Goiânia não se explica por desavença de opinião político-ideológica. “Eu como pai, posso não concordar de forma alguma com o que faria meu filho, mas eu estaria com ele onde ele estivesse”, resume. É uma desavença, diz o psicanalista, que não começou agora. “É uma doença, e doença antiga, uma história que começou há 20 anos, quando ele se investiu da função de pai.”

Um pai mau e um mau pai? O psicanalista coloca uma metáfora pertinente para o caso. “Pense em um oleiro que faz um pote: precisa ser habilidoso para lidar com a argila para moldar, mas precisa dea argila de boa qualidade. Um bom pote é a soma de um bom ‘oleiro’ — a criação recebida pelos pais — com uma boa ‘argila’, que é o material biológico humano, que em geral é bom, porque se aperfeiçoa através das gerações. Então, uma criança nasce sempre com grande potencialidade. Mas o pai é um facilitador.”. Longe, portanto de ser um definidor, que parecia ser a obsessão do engenheiro. “Muitos pais pensam ter a obrigação de modelar o filho, fazer um modelo de sua cabeça. Isso é violência.”

A psicóloga Roberta Arciprett Oliveira, que aplica em seu trabalho o método da teoria da inteligência multifocal, vê na tragédia um reflexo das relações adoecidas do mundo atual. “Isso vem da falta de diálogo e tem refletido nas famílias. Deixamos de valorizar o essencial para dar valor ao trivial”, explica. O quadro conjuntural — a instabilidade política e econômica por que passa o Brasil — reflete também na qualidade de vida. “É um agente ansiógeno a mais em um quadro no qual as pessoas deixaram de se relacionar de uma forma saudável.”

Para Roberta, é cada vez mais comum relacionar-se com quem está distante em vez de próximo, o que acaba por criar relações idealizadas. “Não se preparam para lidar com pessoas reais. As pessoas criam alta expectativa e não toleram frustração. Transportando isso para a questão da sinergia na família, criam-se estruturas unilaterais, sem empatia.”

O efeito manada e a cadela do fascismo

Rastros da intolerância, do alto abaixo: Jorge Marum em sua primeira polêmica virtual, com declaração machista; manifestantes “patriotas” invadem sessão em Brasília; e Caco Barcellos é agredido durante manifestação no Rio | Fotos: Reprodução

Rastros da intolerância, do alto abaixo: Jorge Marum em sua primeira polêmica virtual, com declaração machista; manifestantes “patriotas” invadem sessão em Brasília; e Caco Barcellos é agredido durante manifestação no Rio | Fotos: Reprodução

Ele é promotor de Justiça do Estado de São Paulo, professor de Ciência Política e Teoria Geral do Estado na Faculdade de Direito de Sorocaba (Fadi), mestre em Direito do Estado pela Universidade de São Paulo (USP) com a dissertação “O Papel do Ministério Público na Promoção e na Defesa dos Direitos Humanos” e autor do livro “Mi­nistério Público e Direitos Hu­manos”. Com a palavra, Jorge Alberto de Oliveira Marum:

— Nesse caso foi impróprio, porque é um drama que escrevi sem saber as circunstâncias do caso. Foi um comentário de momento, sem reflexão, em uma página pessoal em que acabamos escrevendo por impulso. Tenho um cargo público, mas sou um cidadão como qualquer outro, com liberdade de expressão e opinião.

A escolha para começar o texto com as palavras de um professor, jurista, promotor de Justiça e acadêmico é feita por ser exemplar. Jorge Marum escreveu o que escreveu acima porque dias antes havia compartilhado uma notícia publicada pelo portal Globo.com, intitulada “Jovem foi perseguido antes de ser morto a tiros pelo pai, diz delegado”.

Não se sabe se chegou a ler a nota ou se só a repassou — comportamento bastante comum nas redes sociais, diga-se. O fato é que, ao compartilhá-la, comentou que o pai de Guilherme Silva Neto não necessariamente deveria tê-lo matado. “Não precisava tanto. Era só cortar a mesada do vagabundo e chorar no banho”.

Advertido pela filha da indignação produzida nas redes sociais, reservou-se o direito de dizer que foi “comentário de momento”, “sem reflexão”, escrito “por impulso”. Em outras palavras, na retratação o promotor Marum reconheceu que aderiu ao que se chama “efeito manada”. E se deu ao direito disso: apesar da expressão “tenho um cargo público”, ele se considera um “cidadão como qualquer outro, com liberdade de expressão e opinião”. Mas ele já tinha usado essa tal “liberdade” para classificar o perfil feminista como o de uma “baranga francesa que não toma banho”.

Mártir e vagabundo

Por conta do envolvimento de Guilherme com a causa da ocupação estudantil na Universidade Federal de Goiás (UFG), o que teria motivado a fúria de seu pai, o crime de homicídio seguido de suicídio foi associado diretamente com a questão político-ideológica. O estudante de Matemática era mais uma vítima da intolerância que abre asas sobre o País contra movimentos sociais, na visão de grupos de esquerda que logo classificaram o caso como um crime político. O jovem de 20 anos ganhou, “post-mortem”, uma arte hagiográfica da União da Juventude Socialista (UJS), ligada ao PCdoB. Uma condução sumária ao posto de mártir do socialismo para o anarquista Guilherme “Irish”.

Do outro lado, também pela afetação inicial do crime, as notícias sobre o caso foram invadidas por comentários de “haters”, perfis especializados em disseminar o ódio. “Um comunista vagabundo a menos”. Uma guerra onde, novamente, sobram insultos e a empatia nem arrisca passar perto.

De fato, o Brasil atravessa um perigoso movimento de instabilidade, como há muito tempo não se via. Grupos mais radicais, unidos pelas manifestações “pacíficas” que exigiam o impeachment de Dilma Rousseff e o fim da corrupção, agora se desgrudaram da massa amarela, em forma de dissidência relativamente coesa e sólida. E estão prontos para impor suas exorbitâncias, como se consumou na última semana, com a tomada do plenário durante sessão da Câmara dos Deputados. Denominavam-se “patriotas”, alguns dos quais de tal envergadura que clamavam por intervenção militar. Uma senhora denunciava a “invasão comunista” apontando para uma arte que unia a bandeira brasileira à japonesa.

No Rio, trabalhando em mais uma pauta para seu “Profissão Repórter”, o jornalista Caco Barcellos foi expulso de um protesto de servidores públicos contra o governo fluminense aos gritos de “golpista”, por um grupo de manifestantes. Nem quiseram saber da história de engajamento do repórter em causas sociais, talvez nem mesmo soubessem quem ele era. O gatilho que detonou o ódio? A marca da Rede Globo no microfone que Caco Barcellos carregava.

São grupos com os quais é impossível manter razoável diálogo. Cessa-se a “palavra”, como disse o psicanalista Renato Mendonça Lucas na matéria principal. Sem ela sobra o animalesco que há no ser humano. Se a ausência da palavra é a mãe de todos os crimes, o desaparecimento da empatia é o pai. Juntas, ambas as faltas são a fórmula perfeita para o “efeito manada” — expressão usada para entender qualquer fato que se desenvolva com a brutalidade de uma corrida de elefantes em pânico.

Ao repassar uma informação sem profundidade, ao linchar virtualmente alguém de pensamento contrário por uma frase apenas, ao extrair análises e produzir sentenças com as teclas do computador, instiga-se, ainda que de forma digital, aquilo que há de mais primitivo no ser humano. E chegamos perto, bem perto, da cadela do fascismo, que está sempre no cio, como dizia Bertold Brecht. Palavra controversa entre os termos da ciência política, “fascismo” pode ser resumido em uma expressão: nada mais é que a “intolerância ideológica aplicada na prática”. O resultado perfeito do fechamento ao diálogo e à empatia. Não importa que lado se tenha.

3 respostas para “Tragédia familiar é alerta sério, mas não pode dar corpo à intolerância política”

  1. Avatar Carina Tineu disse:

    Até que enfim. Algo escrito com decência sobre o caso.

  2. Avatar Isaac Junior disse:

    matéria foi bem construtiva e muito eficaz.

  3. Avatar Isaac Junior disse:

    algo coerente eficaz

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