Todos os olhares levam ao Centro

Revitalização da região está na mira do Poder Executivo e da Câmara de Goiânia. Conheça as ideias e caminhos que estão sendo pensados para esse espaço

Discussão em torno da Zona 40 divide opinião dos vereadores da capital | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

O Centro de Goiânia é um espaço que abriga grande parte da nossa história e cultura, com suas construções art déco, monumentos e comércio intenso. Tanto que a região é costumeiramente apontada como um local onde as pessoas de todos os lugares se encontram, o que cria uma mistura de elementos e referências que, juntos, fazem com que esse ambiente seja vivo e tão cheio de identidade. No entanto, apesar da pouca idade de nossa capital, que tem 85 anos, podemos dizer que o Centro está “cansado”, sem energia. E o que pode ser feito para trazer mais vida a esse espaço?

Para começar, é urgente que a cidade se volte para seu local de origem, fazendo com que seu coração seja ouvido, sentido e acolhido. A revitalização de nossa goianidade passa pelo cuidado com a Região Central. Por isso, o Jornal Opção procurou alguns personagens para entender o que os Poderes Executivo e Legislativo desenvolvem atualmente para devolver a vitalidade ao Centro de Goiânia.

Ao conversar com os vereadores da capital, percebemos que esse é um tema que deve receber atenção nesta Legislatura, principalmente por conta da tramitação de duas matérias de grande importância para a cidade e, consequentemente, para seu centro: o Plano Diretor e o Código Tributário.  

Compromisso com a história
Para o vereador e líder do prefeito na Câmara, Oséias Varão (sem partido), existe uma diretriz muito clara da Prefeitura de Goiânia para que a revitalização do Centro Histórico da nossa cidade seja efetivada. “Isso é um compromisso da atual gestão com a nossa história”, afirma o parlamentar, ao pontuar que o Executivo tem realizado uma série de ações com esse objetivo. Segundo Varão, isso pode ser observado no Código Tributário, que contempla medidas que pretendem incentivar a boa ocupação do Centro de da capital.

“No Plano Diretor não é diferente. Estamos estabelecendo uma série de regras para construções novas que deve incentivar a ocupação do Centro de Goiânia”, destaca o vereador. “Um aspecto fundamental é entender que onde há gente há vida. Por isso nosso desafio é levar pessoas para essa região.” Para o líder do prefeito, é preciso melhorar as regras de construção e atrair novos moradores, o que traz mais dinâmica ao local.

O parlamentar explica que o poder público dará incentivos tanto de natureza tributária como de padrão construtivo. “Todo o Centro sofria muitas restrições de construção, mas, a partir do novo Plano Diretor, as restrições mais rígidas ficarão apenas em torno dos patrimônios tombados.” 

Teatro Goiânia é um dos prédios mais icônicos do patrimônio art déco da cidade | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Outras iniciativas
Outro vereador que defende a revitalização do Centro é Álvaro da Universo (PV). O parlamentar apresentou um projeto que dispõe sobre a substituição gradativa das áreas de distribuição de energia elétrica de baixa tensão, de telefonia, de comunicação de dados via fibra óptica, de televisão a cabo e de cabeamentos por uso de rede de infraestrutura exclusivamente subterrânea. O projeto foi aprovado em primeira votação e segue em tramitação na Câmara.

Na justificativa, o parlamentar argumenta que o Projeto de Lei visa obrigar as empresas e concessionárias a enterrar o cabeamento aéreo da capital para evitar que os galhos tenham contato com a fiação elétrica. E também para alertar as concessionárias a realizar as podas nas árvores com mais cuidado para que as plantas não sejam mutiladas e fiquem sujeitas as pragas e doenças que podem causar sua morte.

“O projeto abrange toda a cidade, mas com início justamente pela Região Central por conta de seu patrimônio material art déco aflorado e por ser um local onde o prefeito Iris Rezende (MDB) tem interesse em revitalizar. A fiação ali é uma coisa horrorosa, então, se vamos pensar em embelezar e atrair as pessoas para aquela região, esse é um ponto fundamental”, explica Álvaro. “A ideia da Prefeitura de Goiânia é deixar o Centro bonito para atrair a população, como outras cidades fizeram. Com o Plano Diretor temos essa oportunidade.”

Zona 40 não é consenso
Em relação à mobilidade, Álvaro pondera sobre a decisão que determinou a implantação da Zona 40 no Centro. O limite de 40 quilômetros por hora vale para a área entre a Praça Cívica e as avenidas Araguaia, Paranaíba e Tocantins. O tráfego nas avenidas Anhanguera e Goiás também segue a determinação que, segundo a prefeitura, foi implantada com o objetivo de aumentar a segurança no trânsito ao evitar acidentes e atropelamentos.

“Tem muita gente que reclama, não só os comerciantes, mas também as pessoas que transitam de carro por ali. Creio que a Zona 40 deve ser repensada, assim como a questão da mobilidade como um todo. Ao autorizar o estacionamento na região, você está chamando a população para ir ao Centro de carro. Precisamos rever isso e pensar em melhorar o transporte coletivo”, pontua Álvaro.

O vereador Lucas Kitão (PSL) diz que a Zona 40 prejudica o comércio e não previne acidentes de forma tão eficaz. “Pelo contrário, deixa os condutores e pedestres mais vulneráveis nos períodos em que o movimento cai, geralmente no final do expediente. Além disso, vejo com preocupação o grande número de proibição de estacionamento, ausência de vagas e a não regulamentação do parquímetro”, dispara Kitão.

O projeto dos parquímetros, que estabelece o controle eletrônico de vagas de estacionamento em vias públicas, já foi regulamentado em Lei Municipal, mas as tentativas para a instalação dos equipamentos eletrônicos de cobrança de estacionamento não saíram do papel. “Essa situação me preocupa Temos que dar condições para que a população se movimente melhor no Centro e tenha mais conforto. Com tanta fiscalização e Zona 40, os consumidores estão preferindo comprar em shoppings e outras áreas comerciais”, pontua Kitão.

Centro de Goiânia vive constantemente a discussão sobre a Zona 40 | Foto: Fernando Leite \ Jornal Opção

“A alteração do horário de funcionamento da Zona 40 no Centro de Goiânia que hoje vigora em todos os dias da semana nas 24 horas do dia, deverá ser alterada para o funcionamento apenas em horário comercial, de segunda a sábado, visto que é notório o crescente aumento de violência no Centro. Fazer com que os motoristas trafeguem neste setor a 40 quilômetros por hora em horário noturno é colocar em maior potencial de risco a população goianiense, deixando-a a mercê de tentativas de roubo”, defende o parlamentar do PSL em requerimento enviado ao prefeito.

De acordo com o secretário municipal de Trânsito, Transportes e Mobilidade, Fernando Santana, a Zona 40 foi criada para dar mais segurança às pessoas que transitam na área central. “O resultado alcançado é muito positivo, com mais de 80% de queda no número de acidentes”, explica. A SMT estuda estender a redução de velocidade para outras áreas com grande circulação de pessoas, como Campinas e Região da 44.

“No Centro, diminuímos drasticamente os problemas de trânsito. Por isso não acreditamos que a proposta de mudança seja viável. Esse assunto precisa ser avaliado com muito critério e pesquisa, até porque o sistema de monitoramento é programado para funcionar 24 horas”, observa Santana. “Estamos garantido fluidez e segurança aos goianienses.”

Compensação fiscal
Kitão também ressalta a importância da conclusão das obras na Rua 8, conhecida como Rua do Lazer, já que os trabalhos de revitalização prejudicam o comércio na região. “Pedi a compensação fiscal aos comerciantes e moradores da Rua 8 que estão sofrendo pelo impacto das obras inacabadas da revitalização da Rua do Lazer. A região é conhecida como núcleo pioneiro da capital, ou seja, a parte da cidade com mais tombamentos pelo Iphan.”

Rua do Lazer quer voltar a ser atrativa e charmosa ao passar por reforma | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

O vereador do PSL defende também a “Fachada Ativa”, iniciativa que já foi implementada em outras cidade. De acordo com Kitão, o projeto que mescla imóveis residenciais e comerciais nas regiões centrais deu muito certo em São Paulo, o que garantiu tornar o Centro uma área movimentada o tempo todo.

“Durante o expediente, temos o comércio. E durante a tarde e a noite temos uma região residencial, além de bares e restaurantes. Também precisamos ver a questão da acústica, que precisa ser mais bem avaliada”, explica o vereador. “Foi assim que outras capitais conseguiram revitalizar o Centro, dando um aspecto cultural e festivo para essas áreas que são históricas.”

Kitão lembra que a maior parte das ações é de competência exclusiva do prefeito. “Mas estamos sempre apresentando requerimentos, cobrando e propondo saídas para as questões pertinentes a esse e outros bairros”, sinaliza.  

Para o parlamentar do PSL, a discussão sobre o novo Código Tributário dá mais esperança aos moradores da região ao diminuir a injustiça tributária. “Neste sistema de cobrança por zonas fiscais, o Centro tem a maior alíquota da cidade. E todos nós sabemos que ele não é o bairro mais nobre de Goiânia. É preciso corrigir essas distorções e desonerar todos que moram, trabalham e investem na Região Central”, destaca Kitão ao defender incentivos fiscais no Código Tributário e incentivos urbanísticos no Plano Diretor.

Áreas de interesse no Plano Diretor
Em relação às áreas tombadas no projeto de revisão do Plano Diretor, Kitão questiona o tamanho das áreas de interesse, que poderiam mumificar o Centro e “empacar” o seu crescimento. “E não é apenas a iniciativa privada que irá sofrer, mas também o poder público.”

O vereador cita o caso da Praça do Trabalhador, que é um bem tombado. “Se o Plano for aprovado da forma como está no projeto, a prefeitura irá impossibilitar que a Leste-Oeste passe ao lado da Câmara por invadir uma área de interesse da Praça do Trabalhador”, explica. “Não sou contrário ao tombamento, mas as áreas de interesse precisam ser revistas para não atrapalharem o desenvolvimento da cidade”, acrescenta Kitão.

Praça do Trabalhador está em fase de revitalização, assim como já ocorreu com a Estação Ferroviária | Foto: Lívia Barbosa/Jornal Opção

O parlamentar do PSL pontua ainda que algumas cidades brasileiras que tomaram atitudes severas em relação às fachadas são, atualmente, elogiadas pela conservação de sua arquitetura original em detrimento de propagandas publicitárias. “Depende muito de incentivo político. Projetos na Câmara temos muitos.”

ReViva Goiânia
O secretário municipal de Planejamento Urbano e Habitação (Seplanh), Henrique Alves, afirma que a prefeitura tem investido pesado em diversas frentes para promover a revitalização, zoneamento da área histórica e fortes incentivos fiscais na Região Central. “Estamos isentando todas as taxas urbanísticas para tornar o Centro mais atrativo.”

O titular da Seplanh aposta que o projeto ReViva Goiânia, em tramitação na Câmara, será decisivo para a região. A iniciativa prevê uma série de ações, que vão desde a limpeza das fachadas, com o ordenamento dos engenhos publicitários, até a concessão de benefícios fiscais para a construção de novas moradias.

“A matéria está na comissão temática e nossa expectativa é que a Câmara aprove para executarmos o quanto antes. Daremos isenção no IPTU por dois anos para quem adequar a fachada e revitalizar o prédio. A ideia é incentivar a revitalização do Centro”, pontua Alves. O secretário enfatiza que pela primeira vez existe efetivamente um projeto desta envergadura para a Região Central. “Nunca chegamos a esse ponto.” Além disso, Alves destaca a recuperação de pontos importantes, como Rua do Lazer, Estação Ferroviária, Coreto, entre outros.

Coreto da Praça Cívica é um dos monumentos que passa por revitalização para dar vida nova ao Centro da cidade | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

O vereador Paulo Magalhães (PSD) também diz estar atento às demandas do Centro e garante que trabalhará por melhorias no Plano Diretor. “Precisamos desencardir as fachadas, dar mais atenção aos comerciantes e reorganizar o Centro. O Café Central, por exemplo, era um ponto de referência e hoje é um ponto de tráfico e venda de armas. Os locais históricos precisam ser preservados com a orientação do Iphan”, defende. “O Mercado Central também precisa da nossa atenção, faz parte da nossa história”, acrescenta Magalhães.

A vereadora Dra. Cristina Lopes (PSDB), por sua vez, faz a defesa do Circuito Cultural, que começa perto do Colégio Lyceu de Goiânia, passa pelo Banana Shopping, Grande Hotel e vai até a Rua do Lazer e o Cine Goiânia Ouro. “Já temos o projeto e pretendemos viabilizá-lo com uma emenda”, explica. Outra proposta que tem recebido o apoio e atenção da parlamentar é a da Galeria Aberta: “Uma iniciativa genial que marcou toda uma geração e que não pode ser esquecida”.

Memorial do Césio
A tucana também trabalha em articulação com outras vereadoras para viabilizar o projeto do artista Siron Franco de criação do Memorial do Césio 137. “Estamos buscando emendas parlamentares no Senado, já com sinalização positiva dos três senadores – Jorge Kajuru (Patriota), Vanderlan Cardoso (PP) e Luiz Carlos do Carmo (MDB). Mas o município também precisa participar”, declara.

Dra. Cristina foi uma das articuladoras do projeto de revitalização da Estação Ferroviária. A vereadora do PSDB pontua que os trabalhos realizados naquele espaço, assim como na Praça Cívica, fizeram parte do PAC das Cidades Históricas e tiveram coordenação do Iphan. “Isso fez com que fosse tudo executado de maneira exemplar. Não houve alteração alguma em relação ao projeto original. Isso não pode ser dito em relação às obras na Rua 8”, pondera.

Pessoas na fila para medição de radiação após o acidente radioativo | Foto: Reprodução

Para Sabrina Garcêz (sem partido), a criação do Memorial do Césio 137 é fundamental para resgatar um capítulo triste da história de Goiânia “para que não se perca essa memória coletiva”. Sabrina detalha que a estrutura será erguida no Centro onde a cápsula do Césio 137 foi aberta. “Hoje muitas pessoas passam por aquele local e sequer imaginam o que aconteceu ali. É preciso resgatar essa história evitar que esses erros sejam novamente cometidos”, observa.

“O Centro é um local que já tem toda a infraestrutura pronta e que precisa ganhar mais vida durante o período noturno. É preciso que levemos cultura para esse espaço. Também é fundamental que as pessoas voltem a querer morar na Região Central. E para isso são necessárias políticas públicas de incentivo”, defende Sabrina. “Precisamos fazer a conjugação entre desenvolvimento e a manutenção do patrimônio histórico”, conclui.

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