Temer bate recorde de popularidade negativa, mas população não vai às ruas

As multidões nas avenidas foram pá de cal na derrubada de Dilma Rousseff. A presidente chegou ao fundo do poço em popularidade, com apenas 7% de apoio. Temer acaba de bater em 3%. Por que a população não está nas ruas novamente?

Presidente Michel Temer: mesmo com 3% de popularidade, as ruas não protestam contra ele. Por quê? | Foto: Divulgação

Militantes pró-Dilma Rousseff (PT) ou tudo aquilo que ela representa no campo ideológico, costumam perguntar nas redes sociais, em tom de provocação, pelos panelaços que perturbaram os últimos dias de vida do governo petista. A cada escorregão ou denúncia séria envolvendo o presidente Michel Temer e integrantes do núcleo central de seu governo — o que tem sido rotineiro — e lá estão os militantes opositores com a tal pergunta sobre povo nas ruas e panelaços nas varandas e sacadas dos apartamentos.

Pesquisa nacional mais recente mostra que o presidente Michel Temer chegou a incríveis 3% de apoio. É um recorde negativo de respeito. Provavelmente, o maior entre todos os atuais governantes do mundo democrático. Maior até que o auge da impopularidade da então presidente Dilma, que foi derrubada quando tinha só 7% de aprovação.

A pergunta mais complicada que se pode fazer é: por que a população não exige mais uma vez a deposição do governo pelo qual ela tem tanta antipatia? As respostas são as mais variadas possíveis, e algumas vezes trafegam em teses francamente antagônicas. Em linha geral, um lado costuma dizer que o povo simplesmente se cansou, e sabe que a eventual substituição de Michel Temer não colocaria no lugar dele alguém melhor. Já os opositores acreditam na tese conspiratória de que o único objetivo que existiu antes era a queda de Dilma e de tudo o que ela representava. A tal história de golpe.

Poucas análises sobre a atual passividade da população avaliam a possibilidade de que a população realmente não gosta de Michel Temer, mas não está descontente com o fato inegável de que a economia está melhor hoje do que estava antes. Os dados abaixo mostram exatamente esse cenário, que ainda permanece dramático em alguns momentos, mas estão, ainda assim, menos dramáticos do que já foram.

A taxa de inflação medida pelo IPCA totalizava 9,28% no acumulado de 12 meses fechado em abril de 2016 — quando Dilma foi apeada do poder. No acumulado de 12 meses fechado em agosto deste ano, a taxa despencou para 2,46%. A Selic, taxa referencial de juros, atingiu 14,15% em maio de 2016. Em setembro deste ano, caiu para 8,25%. A indústria, que recuou 9,8% entre janeiro e maio do ano passado, cresceu 0,8% entre janeiro e julho deste ano. E assim seguem inúmeros outros aspectos da economia, como produção de veículos, com crescimento de 25,5% agora contra queda de 24,3% com Dilma; a safra agrícola, que saltou de 184 milhões de toneladas para 240 milhões; o saldo da balança comercial, que era de US$ 19 bilhões, disparou para US$ 48 bilhões. O nível de desemprego também apresentou leve melhora: de quase 500 mil cortes no primeiro semestre de 2016, este ano o saldo de novas contratações é de 103 mil vagas. Obviamente, é uma gota de água num oceano de desemprego.

Esses aspectos podem ser a única grande e real motivação que faz com que a população tenha real ojeriza a Michel Temer e toda sua trupe instalada no Palácio, mas ainda assim não vá às ruas para mandá-los embora como fez com Dilma e sua turma. A queda na popularidade de Temer não se explica somente pelas denúncias bastante sérias que surgiram contra ele, especialmente com a gravação de Joesley Batista numa conversa na garagem do Palácio do Jaburu. Além desse petardo moralmente desolador, Temer não tem nem mesmo cumprido o que prometeu solenemente em várias oportunidades. Antes, quando assumiu o governo, dizia que iria passar para a história como o presidente das reformas. Conse­guiu apenas duas, sendo uma delas considerada importante, que limitou o aumento nas despesas da máquina pública. A outra, a trabalhista, foi somente uma mão de verniz numa lei de meados do século passado. As demais, ficam para as calendas. Talvez ainda passe alguma coisa na previdência social, um tema sempre explosivo em qualquer país do mundo.

Outra promessa de Temer que ele também não cumpriu é que afastaria ministros que fossem acusados formalmente e demitiria se fossem processados. A turma dele, toda ela nessa situação, permanece no Palácio do Planalto como se nada tivesse acontecido. Aliás, se a regra tivesse mesmo validade, o próprio Temer deveria se licenciar.

Deixe um comentário