Tarefa para quando o próximo prefeito de Goiânia descer do “planeta campanha” para o mundo real

Passado o momento eleitoral, será a hora de o vencedor se deparar com os problemas da capital. Quais deles atacar primeiramente?

Elder Dias

Campanha eleitoral é uma festa. Ou melhor, é o paraíso. É a vivência daquela piada – que, de cada duas pessoas que lerem este texto, ao menos uma já vai ter ouvido – na qual um político morre e é convidado a conhecer o céu e o inferno para, então, escolher onde quer passar a eternidade. Depois de visitar ambos, avisa São Pedro pessoalmente que vai ficar lá no andar de baixo, porque lá encontrou bebidas, mulheres bonitas, todos os seus amigos e o capeta é gente boa. Despede-se do santo e ao descer novamente, coitado, só vê fogo, enxofre e todas as criaturas no sofrimento. Pergunta ao chifrudo, já aflito:

— Ué, e cadê aquele lugar em que eu estive agora há pouco?

O demônio, sarcástico e definitivo:

— Ah, é que naquela hora nós ainda estávamos em campanha; agora, nós já ganhamos seu voto!

Não é privilégio de Goiânia que apareçam no horário eleitoral imagens bonitas, músicas emotivas e ensaios de gestões perfeitas, com melhorias asseguradas em transporte, segurança, saúde, educação e tudo o mais. No mundo idealizado pelas campanhas, toda capital brasileira poderia estar na Suíça. Sim: tudo isso é para ganhar o voto. E todo eleitor, mesmo os mais racionais, nem que seja por um instante imagina como seria esse conto de fadas metropolitano.

Na vida real, a partir de 1º de janeiro, o próximo prefeito de Goiânia vai encontrar uma cidade bem brasileira e nada europeia: transporte coletivo precário, saúde pública aquém da dignidade humana, bairros com falta de infraestrutura básica, deficiência de pessoal técnico para trabalhar no serviço público e excesso de aliados políticos para abrigar na mesma máquina. Tudo isso com um caixa no vermelho e, muito provavelmente, com uma contenção de gastos a ser obedecida e reforçada.

A partir daí surgem os questionamentos. Especialmente um: se não vai dar para fazer tudo o que estava no programa de governo, por onde começar, então? Quais são os verdadeiros desafios e mais emergenciais? Em que áreas? Nesta matéria, enumeramos, por uma ordem decrescente de urgência (de acordo com o autor do texto), os maiores desafios que terá o próximo administrador de Goiânia.

1 – SEGURANÇA PÚBLICA

Segurança, ou a falta dela, é a maior dor de cabeça do goianiense: prefeito fará muito se fizer o simples | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Segurança, ou a falta dela, é a maior dor de cabeça do goianiense: prefeito fará muito se fizer o simples | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

A segurança é hoje, disparadamente, o artigo de maior necessidade para os goianienses. A ponto de, se tivessem certeza de que alguém conseguiria sucesso nesse aspecto, a eleição de tal candidato seria favas contadas. O problema começa pelo fato de segurança pública não ser atribuição direta da gestão municipal. Mas como a indústria do medo está aí e rende votos – basta ver a preocupação dos partidos em escolher policiais como candidatos na maioria das chapas majoritárias – , o armamento da Guarda Civil Metropolitana (antiga Guarda Municipal) e a instalação de câmeras de segurança “por toda a Goiânia”, principalmente, estão na pauta. A questão é que isso custa dinheiro, e não é pouco. Guardas são guardas, não policiais; armados, precisarão de treinamento, coisa que nem a Polícia Militar tem conseguido oferecer a contento para seu (pequeno) efetivo. E o custo das centenas de câmeras de segurança – compra, instalação, operação e manutenção – seria algo incompatível com o orçamento arrochado de hoje.

Um bom prefeito começaria muito bem, cumprindo seu devido papel na segurança, se tornasse eficiente a iluminação pública de Goiânia: todas as lâmpadas funcionando, com a necessária poda das árvores que cercassem os postes, para impedir algum lastro de escuridão pelas ruas. A limpeza de espaços públicos e lotes baldios (nem que fosse pela multa a seus proprietários) seria outra medida simples, mas altamente eficaz. Aplicando a sociológica teoria da janela quebrada – segundo a qual resolver os problemas urbanos quando eles são pequenos é um bom princípio para pacificar uma sociedade –, uma cidade bem cuidada visualmente já seria, por si só e em tese, mais segura.

Em suma, próximo prefeito: faça o básico – coleta de lixo, limpeza urbana, troca de lâmpadas, podas corretas, ajardinamento – e já será uma contribuição e tanto para a questão da segurança pública. Acresça-se a isso apenas um item fundamental: tornar eficaz o trabalho da assistência social no encaminhamento e proteção das pessoas em situação de rua, as mais vulneráveis da sociedade e vítimas primeiras da violência.

2 – SAÚDE

Entrada do Cais Jardim América: situação da saúde em Goiânia melhoraria com atendimento humanizado | Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Entrada do Cais Jardim América: situação da saúde em Goiânia melhoraria com atendimento humanizado | Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Se segurança – ou a falta dela – diz respeito a um perigo iminente à vida, a saúde – ou a ausência dela – é naturalmente a preocupação seguinte. A cada dia, a rede municipal, com seus postos e Cais, vira notícia, por mau atendimento – ou por ausência dele. Outro problema sério é a sobrecarga por conta do sistema único, que faz com que a população da capital segundo o SUS (os que são “fichados” para tratamento em Goiânia) seja pelo menos o dobro de seus habitantes. Em muitos bairros, principalmente os localizados em pontos mais distantes, faltam remédios e, principalmente, profissionais.

Novamente, não será com promessas de obras físicas que o caminho do sucesso de gestão será trilhado após as eleições. Com o município no limite da responsabilidade fiscal com sua folha de pagamento, as contratações e concursos serão mínimos. Assim como para a segurança, a saúde pede algo menos tecnológico e mais simples: humanização. Parece pouco e parece fácil, mas se o próximo gestor de Goiânia conseguir fazer com que os pacientes e seus acompanhantes – que, ressalte-se, se encontram quase sempre em situação de estresse físico e mental – se sintam bem atendidos, já terá produzido um ovo de Colombo. A solução urgente para a saúde goianiense é puramente de gestão: relocação de pessoal, auditoria para saber onde estão os rombos, aprimoramento e transparência das licitações e reformulação do atendimento ao público.

3 – TRANSPORTE E MOBILIDADE

Resolução da questão de mobilidade urbana passa pela prioridade ao transporte coletivo em detrimento do individual | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Resolução da questão de mobilidade urbana passa pela prioridade ao transporte coletivo em detrimento do individual | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Desta vez estão falando, nas propagandas eleitorais de rádio e TV, que vão resolver o problema do transporte público. Ah, mas já falaram isso outras vezes. Sim, mas “desta vez” não falaram que vão fazer isso em seis meses. Já é um progresso, aos poucos vão aprendendo. O fato é que Goiânia tinha tudo para possuir a melhor rede de transporte do Brasil: afinal, é uma cidade nova, plana e que foi planejada. E até começou bem – nos anos 70, foi a primeira no Brasil a implantar, na Avenida Anhanguera, o corredor que mais tarde seria conhecido como BRT, sigla em inglês para “trânsito rápido de ônibus”, um nome que é uma espécie de “raio gourmetizador” para “eixão”.

É das coisas mais indignas que se possa ter em um serviço público a experiência de ser usuário do transporte coletivo em Goiânia. Se vivêssemos em um país sério, cada viagem em tais condições seria também uma garantia de indenização por danos morais. Duas coisas são imprescindíveis para mudar esse quadro de colapso, e têm pouco a ver com o valor da tarifa: a primeira é obviamente rever o contrato de concessão ou pelo menos fazê-lo ser cumprido de verdade – o mínimo que um gestor decente faria pela coisa pública; a segunda é priorizar, de fato e não só no discurso, o ônibus como modal. Isso significa tirar espaço dos carros, cada vez mais, e tornar a viagem de coletivo mais célere do que a de carro. Ainda com isso tudo, será missão complicada convencer o goianiense, com a cultura do automóvel já arraigada em si, a dar meia volta e trocar seu conforto por uma eventual maior rapidez no deslocamento.

Outra cultura difícil de superar será a do desrespeito aos mais frágeis no trânsito, os pedestres e os ciclistas. Estes precisam ter seu espaço garantido, até porque, num futuro não tão longínquo, as rotas de bicicletas deverão ser integradas às plataformas e terminais de ônibus. Uma das políticas mais importantes da atual gestão, ainda que tenha se dado de forma aquém ao desejável, foi iniciar a malha cicloviária na capital. Para os pedestres, no mínimo deveriam haver calçadas decentes, mas é missão quase impossível encontrar uma quadra em que não haja obstáculos para quem transita a pé ou com mobilidade reduzida. O próximo prefeito já fará uma boa sinalização de resgate da cidade para as pessoas se tornar trafegáveis todas as calçadas do Centro, onde é grande a população idosa.

4 – PLANEJAMENTO URBANO

Adensamento em torno dos eixos e restrição total a novos loteamentos são medidas necessárias | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Adensamento em torno dos eixos e restrição total a novos loteamentos são medidas necessárias | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Uma cidade mal planejada será, por consequência, uma cidade cara para o governo. E é exatamente neste tópico – ligado ao anterior – que se percebe o que fizeram de Goiânia. Pelo último Plano Diretor – que será revisado no próximo ano –, a ideia era de que a capital fosse adensada, cada vez mais, ao longo de seus principais eixos. Isso é um conceito básico nas metrópoles modernas e serve para reduzir as distâncias do cidadão entre sua moradia, o local de trabalho e o acesso a serviços e lazer.

Pois, mesmo com essa definição, nos últimos dez anos surgiram novos bairros a quilômetros do perímetro urbano. Dois exemplos: o Jardins do Cerrado, na região oeste, e o Residencial Orlando Morais, na região norte. Não para por aí: um edital da Secretaria Municipal de Planejamento e Habitação (Seplanh) quer “homogeneizar” a linha da macrozona construída. Isso significa tornar “loteável” toda a área compreendida entre esses bairros isolados e a zona habitada dentro da atual mancha urbana. Isso em uma cidade onde há 120 mil lotes vagos.

Com planejamento correto, caberia outra Goiânia, em população, dentro da mesma área já ocupada. Pela lógica da boa gestão, o mais sensato seria, portanto, não abrir mais nenhum loteamento durante décadas, porque cada novo bairro traz um alto custo adicional aos cofres públicos, pela necessidade de infraestrutura. Pelo contrário, se fosse mais radical, o gestor poderia até “desabitar” alguns setores, integrando sua população às zonas centrais da cidade.

Para gerir bem a cidade, o próximo prefeito precisará resistir à pressão dos setores imobiliários e pensar na Goiânia para muito além de seu próprio mandato. Missão difícil – até porque pode gerar prejuízo eleitoral –, mas necessária a um gestor que queira ser digno de ser chamado assim.

5 – ÁGUA E MEIO AMBIENTE

Não há vida sem água, é um princípio físico-químico. O interventor Pedro Ludovico sabia disso na década de 30, ao escolher o lugar da futura capital. Goiânia foi erguida em meio a córregos, rios e ribeirões: Botafogo, Buritis (hoje totalmente subterrâneo), Capim Puba, Vaca Brava, Areião, Cascavel, Anicuns, Macambira, Caveirinha, João Leite, Meia Ponte. A urbanização desregrada destruiu todos eles.

Hoje, a capital da água abundante corre o risco de desabastecimento. Não de imediato, por conta do reservatório do João Leite, iniciativa do governo estadual. Mas é preciso que a gestão da capital volte seus olhos para a preservação dos poucos mananciais que restam ainda com alguma vitalidade e que inicie a recuperação dos já degradados, especialmente de suas nascentes.

Nesse sentido, é essencial a preservação da região norte da capital, de onde provêm as águas que abastecem não só Goiânia, mas boa parte das demais cidades da região metropolitana. É nessa parte do município que ainda se encontra um pouco de vegetação ainda intocada e que amenizam o microclima urbano. O norte do território goianiense é protegido de maior adensamento tanto pela Carta de Risco de Goiânia como pelo Plano Diretor. Mas já sofre com a degradação: uma lagoa natural, que servia de recarga para o Rio Meia Ponte e onde se podia pescar e usar canoa, secou completamente, por conta do desmatamento e da ocupação com pastagens e confinamento de gado.

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