Solidariedade se reinventa para minimizar impactos sociais da pandemia

Crise provocada pelo coronavírus atingiu em cheio pessoas em situação de vulnerabilidade social. Por outro lado, estimulou a inovação de  trabalhos voluntários executados por  entidades classistas e grupos assistenciais

Atitudes de ajudar ao próximo se tornaram mais constantes com a chegada da pandemia do coronavírus e toda crise sanitária resultante dela. Novas iniciativas surgiram e se somaram a grupos que já promoviam a solidariedade. Mas em um ambiente tão novo quanto o do enfrentamento a a Covid-19 as boas ações também tiveram que se reinventar para fortalecer e beneficiar quem precisa de ajuda.

Drive-thru beneficente, lives solidárias, banhos em trailers e instalação de torneiras e pias em espaços públicos. Essas são algumas das ações que nasceram e fazem parte de uma reinvenção da solidariedade. São iniciativas individuais, de grupos, de entidades representativas ou do poder público, que foram multiplicadas para tentar combater o impacto social do distanciamento, desemprego, queda da renda, aumento das pessoas em situação de rua, demanda por atendimento a saúde e outros problemas que acompanham a pandemia do novo coronavírus.

O isolamento não permite contato e aglomeração, mas nem por isso a solidariedade parou. Daí vale reunir doações com vizinhos do condomínio, participar de vaquinhas online para compra de cestas básicas, doar sangue, contribuir para lives beneficentes ou proporcionar meios para que pessoas em situação de rua possam tomar banho e se higienizar.

“Tudo parou no começo da pandemia. As pessoas tinham medo por não saber o que e como fazer para manter o trabalho voluntário. Compramos jalecos, luvas e máscaras, depois fomos para rua ajudar quem precisava”, relata o coordenador do grupo Banho Sagrado, Diego Gontijo. Ele explica que viu a necessidade não só da continuidade das ações de solidariedade, mas também de ampliar e se adaptar à nova realidade.

Antes da pandemia do coronavírus o grupo, que é composto por mais de 70 voluntários ligados a Igreja Católica, ofertava banhos e roupas limpas para pessoas em situação de rua. O trabalho social que era feito uma vez por semana, se tornou diário. E não se limita mais a oferta de banhos. Além de levar para as ruas de Goiânia o trailer que possui dois banheiros (um masculino e outro feminino) e distribuir semanalmente cerca de 100 kits de roupas e de higiene, os voluntários passaram a fazer cortes de cabelo e distribuir cestas básicas e marmitas.

“Temos feito cisternas para levar água para famílias carentes e até construir muros para pessoas humildes que têm crianças pequenas em casa e que precisam de uma sensação de segurança. Nosso trabalho se diversificou e agora é de segunda a segunda”, conta Diego Gontijo.

Pia comunitária | Foto: Divulgação

O coordenador do grupo Banho Sagrado aponta que solidariedade na pandemia exige mais do que boa vontade e o desejo de ajudar. A Covid-19 tornou necessário cuidados que garantam a saúde dos voluntários e das pessoas em situação de vulnerabilidade. Assim, o distanciamento mínimo, uso de máscaras, luvas e álcool em gel se tornou protocolo de segurança. Todas as ações também são feitas de forma a não gerar aglomeração. “É um novo formato, tanto para quem quer ajudar na linha de frente ou faz doações, como para fazer chegar a quem precisa. Estamos fazendo de uma forma que não existia, mas o trabalho voluntário não pode parar”, diz.

Entidades classistas reforçam ações de solidariedade

O novo coronavírus alterou comportamentos, gerou desemprego e, consequentemente, queda da renda. Ao mesmo tempo à ameaça diante da pandemia e as alterações na vida de todos fizeram com que despertasse o sentimento de cooperação. Contribuir para minimizar os efeitos da pandemia foi um papel assumido também por entidades classistas.

Exemplos de solidariedade que partiu de entidades representativas são as lives beneficentes promovidas por cantores goianos e que tiveram apoio da Federação de Comércio de Goiás (Fecomércio). Toda arrecadação foi revertida em ajuda para pessoas em situação de vulnerabilidade. “A Fecomércio trabalha a parte social por meio do programa “Mesa Brasil”. Fomos nós que inauguramos as lives com cantores de renome nacional com objetivo de arrecadar doações e repassar às famílias carentes. Conseguimos mais de 36 mil cestas”, relata o presidente da Fecomércio-GO, Marcelo Baiocchi.

Donativos entregues pela Fecomércio Mesa Brasil | Foto Divulgação

Essa reinvenção da solidariedade que por meio de lives consegue ajudar quem mais precisa surpreendeu até mesmo os que estavam à frente da ideia. “Como as lives de shows vão para todo canto do mundo, as doações também partem de todos lugares. Assim se uma empresa, por exemplo, do Acre faz uma doação para uma live que promovemos aqui, essas doações são remetidas para as famílias carentes daquele Estado. Assim estamos ajudando também quem está fora de nossa região”, avalia Marcelo Baiocchi. 

O programa Mesa Brasil também realiza campanha virtual de arrecadação de fundos. Neste período de enfrentamento à Covid-19, valores pode ser repassados por meio de transferências ou depósitos bancários e é possível contribuir com qualquer quantia. Uma forma de facilitar para quem doa e para quem precisa receber. 

A solidariedade não se prende às cestas básicas ou doação de alimentos. A pandemia causou tantos impactos que é preciso várias frentes de enfrentamento para minimizá-los. A orientação para distanciamento social refletiu na redução de estoques nos bancos de sangue. Daí surgiu uma demanda ainda mais forte para abastecer esse setor da saúde que vive exclusivamente de doação. 

Nesse sentido outra entidade classista também mostrou exemplo. A Caixa de Assistência dos Advogados de Goiás (Casag) atuou na campanha para doação de sangue e conseguiu promover mais de 50 atendimentos. Na avaliação do presidente da Casag, Rodolfo Otávio Mota, nada mais pertinente neste momento de pandemia do que um momento de reflexão e, acima de tudo, de contribuição com a administração pública e sociedade civil. “Esperamos que esse exemplo se espalhe por todas as outras entidades, para que a gente possa ampliar essa corrente do bem”, declarou Rodolfo.

O presidente da Casag, Rodolfo Otávio Mota, faz campanha por doação de sangue | Foto: divulgação

Campanhas e parcerias como essas têm contribuído para a manutenção dos níveis do estoque de sangue do Hemocentro, segundo a diretora-geral do Hemocentro, Denyse Goulart. Há aproximadamente três meses é observada queda de 20% nas doações espontâneas. “Temos, entretanto, conseguido manter nossos níveis graças a campanhas e parcerias como essa com a Casag”, diz.

Boa ação vence o distanciamento social

A dimensão da pandemia do novo coronavírus é divulgada diariamente em números. Mas as estatísticas não dão exatamente qual a extensão do sofrimento. O impacto vai além dos 145 mil goianos já contaminados pela Covid-19 e das mais de três mil mortes causadas pela doença em Goiás.

A inquietação diante do isolamento e, sobretudo, o desejo de transformar o momento em atitudes solidárias, também motivaram o surgimento do boas ações. É isso que aponta a Diretora de Ações Sociais da Organização das Voluntárias de Goiás (OVG), Jeane de Cássia Abdala.

A OVG atende mais de 280 entidades sociais cadastradas

“Tivemos uma adesão muito grande de parceiros para ações voluntárias. Foram entidades privadas e classistas, instituições da força de segurança, universidades, empresários, imprensa e pessoas da comunidade. Captamos muitos recursos para doação às famílias em situação de vulnerabilidade”, conta a diretora da OVG. Segundo ela, a mobilização da sociedade depois de março (quando um decreto estadual determinou medidas de isolamento social) aumentou significativamente. 

Entrega de cesta básica para moradores da ocupação Beira da Estrada e no Acampamento Renascer, entre Goiânia com Abadia de Goiás | Foto: Divulgação/OVG

“A pandemia despertou a solidariedade e o voluntariado. Há uma forte mobilização de parceiros do bem. As pessoas se espelham no exemplo, fazem o bem e se sentem parte do dessa transformação”, diz Jeane. “A crise gerada pelo coronavírus fez com que as pessoas também saíssem da zona de conforto e preocupassem com o bem comum. A solidariedade foi mais percebida nestes últimos meses”, completa.

Jeane conta que a OVG também teve que se adaptar a distanciamento social. A reinvenção precisou ser nas duas pontas: voluntariado e beneficiado. “Tivemos que pensar em tudo de outra forma. Exemplo é que nas cidades de Goiânia, Aparecida de Goiânia, Trindade e Senador Canedo a distribuição de cestas básicas foi de porta em porta. Uma logística totalmente diferente que estamos acostumados a lidar, mas necessária para não causar aglomerações”, explica. “As pessoas querem continuar sendo voluntarias. Daí precisamos criar um curso online, nessa plataforma tem ações e formas de ser solidário, mesmo diante do distanciamento social”, pontua.

Uma das reinvenções que a OVG precisou promover foi em relação a doação de agasalhos. Pela primeira vez, motivado pela necessidade do distanciamento, tudo foi feito no modelo Drive Thru. “Foi uma forma de aproveitar solidariedade das pessoas sem expor elas a nenhum risco de se contaminar. Assim conseguimos mais de 3 mil doações em que as pessoas não precisavam sair dos carros para fazer a entrega”, conta.

OVG conseguiu arrecadar e distribuir 453.628 mil cestas básicas

Para garantir a alimentação de muitas pessoas que dependem do Restaurante do Bem (que serve refeições pelo custo simbólico de R$ 2 reais) foi preciso adaptar. “Temos 13 restaurantes para atender pessoas em situação de risco social e nutricional. Com a pandemia a primeira opção seria fechar. Mas sabendo e conhecendo a realidade, passamos a oferecer marmitas. Já são mais de 1,6 milhão de refeição entregues de janeiro a julho. Mudamos a forma de trabalhar para não deixar de fornecer”, enfatiza Jeane.

Restaurante do Bem de Campinas | Foto: Cristina Cabral/OVG

Para a entrega de marmitas criou-se protocolos seguindo as orientações sanitárias do Governo Estadual e da Organização Mundial da Saúde (OMS). Os salões das unidades foram fechados e os usuários buscam os marmitex para consumir em outros locais. Fiscais coordenam as filas de modo que o distanciamento entre os clientes seja de um metro e meio. O uso de máscaras é obrigatório, e a limpeza foi intensificada. Os cidadãos podem lavar as mãos, antes de pegar a refeição, em pias instaladas para higienizar. Atualmente, o Restaurante do Bem beneficia a população mais vulneráveis dos municípios de Goiânia, Anápolis, Rio Verde, Luziânia, Águas Lindas de Goiás, Valparaíso de Goiás, Caldas Novas, Jaraguá, Goianésia e Minaçu.

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