Sócrates não foi um craque que era boêmio: foi um boêmio que virou craque

O ídolo corintiano não foi o primeiro nem o último jogador a priorizar os prazeres em vez da forma atlética, mas sua história é única e interessantíssima. Livro do jornalista Tom Cardoso tem passagens que só um personagem como ele poderia produzir

Elder Dias

Data da foto: 1987 Sócrates, Casagrande e Wladimir, jogadores do Corinthians.

1987: Sócrates, Casagrande e Wladimir, jogadores do Corinthians.

Foi um pequeno teste feito cinco vezes: abrir o livro aleatoriamente e procurar as palavras “futebol” ou “cerveja”, a que primeiro saltasse aos olhos. Ambas com três sílabas e sete letras, coisa bem justa e democrática, então. O placar da busca: 4 a 1 para a bebida, com um “gol de honra” do rival no último lance da partida.

Com escrita envolvente, livro cumpre papel de resgate de Sócrates

Com escrita envolvente, livro cumpre papel de resgate de Sócrates

A obra em questão é “Sócrates – A História e as Histórias do Jogador Mais Original do Futebol Brasi­lei­ro” (Editora Objetiva, 262 páginas), do jornalista Tom Cardoso. Um subtítulo perfeito ao biografado: afinal, o que dizer de alguém que conseguiria ser jogador e fumante inveterado, craque de uma das maiores seleções brasileiras de todos os tempos e um dos maiores antiatletas da história do esporte, entusiasta das Diretas e fã de Fidel Castro, médico e vítima do alcoolismo?

Sócrates era isso, um acampamento da dicotomia. Em sua curta vida — morreu em dezembro de 2011, aos 57 anos —, o futebol foi o maior rival da cerveja, não o contrário. Na saborosa biografia do ex-jogador, esse ponto fica evidente em cada um dos 23 capítulos. Obviamente, o ídolo corintiano não foi o primeiro nem seria o último jogador a priorizar seus prazeres em detrimento da forma atlética, mas sua trajetória é de uma complexidade que faz toda a diferença.

Bastaria sua alcunha para que isso pudesse ser notado. No meio que tornou popular apelidos como Pelé, Zico, Garrincha, Vavá e Didi, de repente surge um Sócrates. Grande na estatura de 1,93 metro — altura rara para um jogador de meio de campo, ainda mais no futebol dos anos 70 e 80 — e grande também na extensão do nome.

Sócrates Brasileiro Sam­paio de Souza Vieira de Oliveira foi o primogênito na linha de fabricação de seu Raimundo e de dona Guio­mar, que teria mais cinco filhos (além de quatro abortos espontâneos): Sóstenes, Sófocles — ambos igualmente herdeiros da obsessão do pai por nomes gregos —, Raimundo, Raimar e Raí. O caçula e segundo craque da família por pouco não se chamou Xenofonte. Como foi avisado de que a insistência com nomes helênicos implicaria o fim do casamento, seu Raimundo prudentemente optou por preservar o matrimônio.

Essa é a família de Sócrates apresentada no capítulo 2, intitulado, não por acaso, “O filósofo de Messejana”. Não pelo filho, mas pelo pai — Messejana é um bairro de Fortaleza em que Raimundo deu os primeiros passos. Muito do que seria o boêmio-craque se deveu ao ambiente em que cresceu. Seu pai, como relata o livro, além de apaixonado por futebol, era um ávido leitor de obras clássicas, a ponto de ter um excerto de Kant como lema de vida: “Um homem não é nada além daquilo que a educação faz dele”. E foi com muito esforço, estudo e leitura que passou em um concurso para a Receita Federal e teve como prover Guiomar e seus seis rapazes com certa tranquilidade.

Ao lado de personalidades do futebol e da televisão, Sócrates discursa pelas Diretas Já: de apolítico a superengajado

Ao lado de personalidades do futebol e da televisão, Sócrates discursa pelas Diretas Já: de a político a superengajado

Só de uma mistura assim, com prioridade aos livros e devoção ao futebol, que poderia surgir uma figura como Doutor Sócrates, um médico formado em meio aos treinos nas categorias de base do Botafogo paulista. Algo raríssimo, senão único — Tostão e Afonsinho, também craques, se tornaram médicos, mas depois de abandonarem os campos. Foi entre os bancos da academia da Universidade de São Paulo (USP) e os gramados de Ribeirão Preto (SP) que se construiu esse personagem singular, literalmente regado a muita cerveja, nunca é demais ressaltar.

A questão era tão peculiar, como conta Tom, que sua ida para o Corinthians só pôde se concretizar com o diploma debaixo do braço. Era a condição de Raimundo para que o filho seguisse como jogador. Já no time do Parque São Jorge, depois de se destacar no Botafogo de 1977, uma nova frente de batalha daria suporte definitivo a seu perfil: Sócrates peitou o então todo-poderoso Vicente Matheus para renegociar seu contrato, que tinha salário de 30 mil cruzeiros, bem inferior a outros astros da época. Para ter ideia, Zico ganhava 450 mil cruzeiros, 15 vezes mais. Acabou dobrando o cartola. Eram os tempos da abertura do regime militar. Poucos anos depois, Sócrates se tornaria um arauto da democracia no movimento das Diretas, mas já fazia a lição de casa no clube.

Quando se sentia acuado pelo mundo cruel do futebol, o Doutor tinha uma reação típica: falar que largaria o esporte para se dedicar à medicina. Várias vezes fez isso, até que o discurso entrasse em descrédito. Com a Fiel, foi um caso estranho: Sócrates não tinha nada a ver com a voluntariedade característica dos que se tornavam ídolos da torcida corintiana, como Idário, ainda nos anos 50, Zé Maria e Rivelino, já nos anos 70. Era um jogador frio em campo e que comemorava seus gols como quem carrega as compras da feira. Junte-se isso às polêmicas em relação a questões salariais e não deu outra: foi tratado várias vezes como “mercenário”. A ponto de levar um “corre” da torcida depois de uma derrota para o Juventus. Nem o fato de ter marcado um dos gols do time o livrou de ter seu Fiat 147 cercado. O meia Palhinha, que o acompanhava, gritou: “Pô, Magrão! Quantas vezes eu falei para você vibrar nos gols? Não custa nada! Vai lá no alambrado, grita, esperneia!”. O pior: o carro era verde — a cor do rival Palmeiras.

Com o ex-jogador Afonsinho e a inseparável cerveja que o mataria

Com o ex-jogador Afonsinho e a inseparável cerveja que o mataria

A torcida ainda se dobraria ao ídolo, entenderia aquele ser difícil, que tentava ser de tudo um pouco — até ator e cantor —, como se uma vida só não fosse o bastante. O fato é que Sócrates tratou o futebol com um espírito romântico, até amadorístico.

Para ser mais exato, a única oportunidade real que ele se deu para ser um atleta na acepção da palavra foi em 1982. O ano da Copa do Mundo da Espanha, que todos os brasileiros já contavam como “nossa”. A seleção brasileira de Telê Santana era uma máquina. Sócrates, então, se propôs a algo inédito: parar de fumar e reduzir drasticamente o consumo de cerveja.

Deu resultado: apesar da eliminação trágica para a Itália, ele “voou” no torneio, ficando acima da média em um grupo de talento inquestionável. Mas perdeu a Copa, no que considerou, em artigo escrito para a revista “Placar” (ele foi convidado, e aceitou, a ser colunista durante a Copa), “o momento mais triste da minha vida”.

Desilusão comparável foi a derrota da emenda Dante de Oliveira, a das Diretas, em 1984. Sócrates tinha passado pela experiência da Democracia Corintiana: ele, juntamente com o lateral Wladimir (um dos mais politizados jogadores da história brasileira) e Casagrande (então garoto ainda e cheio de rebeldia e irreverência), mais o diretor de futebol Adilson Monteiro Alves, inovaram o futebol. Todas as decisões, até mesmo folgas ou contratações, eram discutidas e resolvidas por meio de votação, que incluía até funcionários do clube.

A derrocada da Democracia, agravada pela decepção com a política brasileira, o fez ir para a Europa, jogar pela Fiorentina. Rebelde, não se adaptou à rigidez de métodos nem à família que controlava o clube. Nunca mais Sócrates reencontraria seu melhor futebol. E nunca mais abandonaria o vício da cerveja. Acabou seu casamento com Regina, depois outro, com a tenista Silvana Campos, até chegar ao terceiro e último, com a empresária Kátia Bagnarelli. Em meio a tudo isso, foi secretário de Esportes de Ribeirão Preto, a convite do então prefeito Antonio Palocci, dono de uma clínica em Ribeirão Preto e um negligente comentarista esportivo de TV — seu costume de se atrasar (e de descaradamente torcer para o Corinthians) o fez ter uma experiência bem curta na área. Tom Cardoso conta outras passagens inigualáveis do já ex-jogador, como quando, no Rio, depois de desistir de jogar pelo Flamengo, foi fazer sua residência médica no Hospital Universitário e transformou uma ala abandonada em zona boêmia.

Em 2011, o álcool cobrou a fatura. Hemorragias, internações e a necessidade de um transplante de fígado. Sócrates admitiria enfim seu alcoolismo, vício no qual entrou já aos 14 anos. Prometeu que não mais beberia. Era tarde. Ele morreu em 4 de dezembro, no dia em que o Corinthians ganhou seu quinto título brasileiro. Com o punho erguido e num semicírculo, os jogadores do time imitaram o gesto tradicional do ídolo da Fiel.

Um livro que mais parece um bate-papo e que aproxima o leitor da cena, envolvendo-o. Tom Cardoso é também autor das biografias de seu colega de profissão Tarso de Castro, referência do jornalismo no período da ditadura e fundador do “Pasquim”, e do empresário Paulo Machado de Carvalho, chefe da delegação brasileira na Copa de 58 e por isso considerado o “Marechal da Vitória”. Foi vencedor do Prêmio Jabuti 2012 com “O Cofre do Dr. Rui”, um livro-reportagem sobre o assalto ao cofre (com dinheiro desviado) do ex-prefeito e ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros, em ação comandada pelo grupo guerrilheiro VAR-Palmares.

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