Sobreviventes de outras crises, pequenas empresas sucumbem à pandemia do coronavírus

Com uma queda expressiva no faturamento e dificuldade de acesso às linhas de crédito prometidas, pequenos empresários padecem com a pandemia

Dificuldade de acesso ao crédito e queda no faturamento são as principais causas de colapso dos pequenos negócios | Foto: Reprodução

É provável que em algum momento durante o período de pandemia, ou até antes dele, você tenha se deparado com a seguinte frase num aplicativo de comida ou em alguma propaganda ou outdoor por aí: “Apoie pequenas empresas”. O slogan tornou-se quase uma corrente de pensamento nesta época em que os pequenos comerciantes e empresários perecem com o baixíssimo faturamento e a injusta concorrência com os “grandões”. Lançando-se em busca de linhas de crédito, renovação e até mesmo de redução de operações e funcionários, eles tentam se manter de pé, mas a tempestade trazida pelo coronavírus não tem facilitado.

Suspendendo parcial ou integralmente suas atividades e com a demanda consideravelmente reduzida – uma vez que, com a renda menor, as pessoas estão comprando cada vez menos -, as pequenas empresas estão caminhando na corda bamba da falência. Para se ter uma noção da gravidade do cenário, segundo os dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, o Sebrae, pelo menos 600 mil pequenos negócios baixaram suas portas em razão da pandemia. São quase 9 milhões de funcionários demitidos.

Dono de um negócio do ramo de eventos e festas infantis há 13 anos em Goiânia, a Diversões Infantis, o empresário Henrique Camargo conta que mesmo com uma clientela vasta e sólida teve que interromper suas atividades. Uma vez que aglomerações são extremamente não recomendadas nesta época de Covid-19, Henrique ficou impossibilitado de continuar a realização de festas infantis, que têm justamente como intenção a aglomeração de crianças.

Henrique, que costumava lucrar o suficiente para tocar seu negócio e manter sua família – esposa e quatro filhos -, viu seu faturamento desmoronar com a chegada do coronavírus. A situação chegou a ponto de o empresário paralisar tudo e passar a depender de programas de auxílio individual propostos pelo governo federal. “Meu faturamento zerou. Ano passado eu faturei em média quatro mil reais livres por mês. Neste ano eu estou, infelizmente, vivendo de auxílio emergencial”, revela.

Além de Henrique, 25 monitores que atuavam como freelancers nas festinhas foram afetados. Segundo o empresário, são famílias que deixaram de ter uma renda semanal. “Eu não faço locação de brinquedos sem monitoria. Vou para sua casa, monto o brinquedo, organizo tudo e deixo o monitor lá. Então trabalham de freelancer comigo, diretamente, vinte e cinco pessoas. Agora, nessa situação, são vinte e cinco membros de famílias que perdem o que poderia ser um botijão de gás, um talão de energia”, diz.

Mesmo estando há 12 anos mercado, Henrique (ao fundo, de camiseta preta), relata desespero ao ver suas atividades paralisadas. Na foto, uma festa infantil promovida por ele / Foto: arquivo pessoal

Henrique relata que tentou conseguir socorro financeiro dos bancos públicos, como a Caixa Econômica Federal. Porém, até mesmo para cancelar a Cesta de Serviços o empresário teve dificuldades. “A Caixa cancelou todos os atendimentos. É fictício essa história de conseguir socorro financeiro, a gente não consegue ser atendido”, conta.

Atualmente, Henrique está se virando como pode. Ele tem feito paçocas em casa para vender e tentar complementar a renda, agora que o touro mecânico, o pula-pula e o high jump, alguns dos brinquedos que faziam sucesso em suas festas, estão parados, juntando poeira. O empresário, que tem 40 anos, conta seu medo: não conseguir uma nova inserção no mercado profissional. “Estou há doze anos no mercado, faz treze este ano. A minha maior preocupação é não dar conta de procurar uma nova atividade para trabalhar. Eu preciso sustentar minha família, e hoje minha família depende de toda logística que eu desenvolvi em doze anos de mercado. Mas hoje eu estou proibido de trabalhar”, finaliza.

“Meus colegas vão fechar, desempregar e morrer de fome”, diz dono de cervejaria

Dono há 25 anos da Cervejaria Cerrado, em Goiânia, o empresário Rafael Todinho tem cortado na carne para conseguir sobreviver à crise do coronavírus. O pequeno negócio, onde trabalham 20 funcionários, tem feito uma série de adaptações em vários sentidos para não ter o mesmo destino de vários outros comércios: a falência.

Segundo Rafael, ninguém foi demitido até o momento, mas todo o quadro de colaboradores está com o contrato suspenso. A condição é salvaguardada pela Medida Provisória (MP) 936, publicada pelo governo federal no início do mês de abril. A MP permite redução de salários e jornada e suspensão de contratos durante o período de pandemia do coronavírus, e determina que o governo federal pague a complementação do salário aos trabalhadores atingidos pelas medidas. As regras valem para quem tem carteira assinada e para os contratos de aprendizagem e de jornada parcial.

Antes lotado, o pequeno empreendimento de Rafael hoje acumula poeira / Foto: divulgação

Mesmo assim, Rafael relata que a situação tem sido problemática e afetado sobretudo os pequenos comerciantes. “Nós estamos sem receita, minha receita é zero. Não estou trabalhando nem com delivery, não estou operando com nada. Mas eu ainda tenho estrutura, ainda bem. Mas os meus colegas, a maioria, não vão aguentar. Eles vão fechar, vão desempregar e vão morrer de fome. Esse é o cenário hoje”, diz Rafael.

Rafael conta que não teve nenhuma ajuda financeira por parte do governo, e considera que o financiamento propagandeado “não chega na ponta”. É só promessa, essa ajuda não chega pra gente”. Para o empresário, o essencial no momento era o retorno das atividades, com as adaptações necessários no combate ao coronavírus. “Tem que entender que nesse novo momento as pessoas vão estar próximas. Mas não podemos ficar desse jeito. Do jeito que a gente está, é pior. Nós vamos falir, né, vamos quebrar. Não vejo outra forma a não ser voltar de forma responsável”, pontua.

Crise também chega a negócios de médio porte

Empresário e presidente da Federação das Associações de Jovens Empreendedores e Empresários do Estado de Goiás (Faje), Emerson Tokarski vê o cenário como “estarrecedor”. Ele é proprietário do Cateretê, restaurante em Goiânia com 24 anos de existência. O estabelecimento, que tem cerca de 70 funcionários e é considerado de médio porte teve uma queda brusca de faturamento e tem sido sustentado pelas entregas delivery e a MP do governo.

Para Emerson, se a dificuldade do pequeno e médio comerciante já existia, agora, com o coronavírus, ela é ainda maior. “A grande dificuldade do pequeno comércio é isso, é a gente ter preço, ter condições de marketing, de competir com os grandes. E agora, que a população está sendo descapitalizada, o cenário vai piorando, porque o consumo diminui”, expõe.

Ele relata que mesmo se atendo às entregas de comida e venda de marmitas, o faturamento geral do restaurante caiu cerca de 80%. “Essa é uma queda média de bares e restaurantes. E por mais que a gente esteja vendendo por delivery, mas não tem nem comparação com a venda de balcão, de salões”, explica Emerson. Segundo o empresário, o pequeno comerciante precisar “medir no dia a dia quanto está sendo faturado” para decidir se é compensatório chamar os funcionários e custear despesas como água, energia e etc.

“Tem crédito no mercado, mas eles não liberal”, diz Emerson sobre dificuldade de acesso de socorro financeiro em bancos / Foto: arquivo pessoal

Conforme Emerson, o Cateretê tinha 80 funcionários no começo da crise do coronavírus. Alguns acertos foram feitos na tentativa de não demitir, mas em certos casos foi inevitável. Segundo ele, 90% dos funcionários que ainda trabalham no restaurante tiveram os contratos suspensos durante os dois meses garantidos pela MP do governo federal. Porém, os efeitos para a suspensão de contratos especificados pela MP já caducaram, e para Emerson, caso não haja uma nova iniciativa nesses moldes, os impactos sobre o comércio podem ser enormes.

“A gente está esperando uma renovação da MP, porque se essa medida não renovar, vai ser uma tragédia para os bares e restaurantes. A expectativa é que mais de cinco mil funcionários serão demitidos”, prevê.

O futuro da MP 936 ainda segue indefinido. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, transferiu para a próxima terça-feira, 16, a votação da medida provisória. A matéria estava marcada para a última quarta-feira, 10, mas foi adiada após os líderes não chegarem a um consenso sobre o tema. Alcolumbre justificou o adiamento a partir da “complexidade” da medida provisória e da sua repercussão no Congresso: o texto recebeu mais de mil emendas de deputados e senadores.

Emerson também é crítico ao modo como as operações de liberação de crédito estão sendo feitas, e avalia que o pequeno empresário tem sido pouco beneficiado. “O que o pessoal tem mais me relatado é muita dificuldade para adquirir essas linhas de crédito. Quase ninguém tem conseguido acesso, nos bancos privados, públicos, FCO. Porque foram feitos grandes anúncios e tudo o mais, mas na ponta não chega. Eles continuam pedindo a mesma documentação que pediam antes. Nesse momento de crise tem um monte de gente que está negativado, porque é normal acontecer isso. Tem crédito no mercado mas eles não liberam”, conclui.

Os impactos do coronavírus nos pequenos empresários do interior

Se na capital do Estado os pequenos negócios têm perecido com os efeitos da pandemia, nos interiores os impactos também são sentidos, mas ao que tudo indica, em menor proporção.

Leila Rodrigues tem uma loja de tecidos e aviamentos em Goianira, a Leila Rodrigues Empório, e relata que quase não percebeu baixas em suas vendas. Ela relata que teve que fechar seu estabelecimento em março, depois do decreto estadual, mas recentemente, quando pôde reabrir – com limitações no atendimento ao público e cumprimento das medidas sanitárias –, as vendas se mantiveram dentro da curva esperada. Porém, a comerciante também atribui a estabilidade às demandas da atual conjuntura.

“A nossa sorte é que quando a gente fechou, logo houve a demanda de máscaras, foi logo no início. Então a gente acabou trabalhando pelo fundo e logo abrimos meia porta, começando a atender com os devidos cuidados. Não ficamos totalmente parados, porque senão é difícil você viver do comercio e baixar as portas”, diz Leila.

Ao contrário dos pequenos empresários da capital, Leila, de Goianira, revela não ter sentido grandes impactos em seu negócio / Foto: arquivo pessoal

Um outro fator que, nesse caso, pode ter contribuído, foi o baixo custo de manutenção das atividades, uma vez que o quadro de funcionários se resume a Leila e seus pais. Mesmo assim, a pequena empresária revela preocupação com o futuro. “Não está fácil. É um cenário completamente novo para a gente. Não só para os empresários, mas para as pessoas em geral”, desabafa.

Já o empresário Cláudio Carvalho, que possui um supermercado e uma agência lotérica no município de Petrolina há cerca de 20 anos, relata que, ao contrário da regra da época atual, percebeu um aumento do movimento em seus negócios. Porém, sua lucratividade sofreu uma leve queda.

A estabilidade do faturamento de Cláudio pode ser atribuída ao caráter essencial de seus estabelecimentos, já que nenhum deles precisou interromper as atividades com o decreto do governo estadual. “Uma vez que você não tem restaurante aberto para ir, não tem festar pra fazer, viagens, a pessoa então fica em casa. O que a pessoa faz em casa? Vai no supermercado e garante o alimento. Então no meu caso fez foi aumentar o movimento”, revela.

Dificuldade de acesso ao crédito

Com o coronavírus circulando, medidas sanitárias de segurança precisam ser tomadas. Consequentemente, o operacional e o fluxo de caixa de pequenas empresas precisa ser afetado. Resultado: menos trabalho, menos dinheiro e menos renda para funcionários. Uma das soluções encontradas são as linhas de créditos oferecidas pelas instituições financeiras em parceria com o governo federal. Entretanto, obter esse “voto de confiança” financeiro é muito mais difícil do que os pequenos comerciantes poderiam imaginar.

Os números são alarmantes. Segundo uma pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) em parceria com o Sebrae entre os dias 30 de abril a 5 de maio, uma maioria de micro e pequenas estão sendo impactadas diretamente pela pandemia do novo coronavírus. Conforme mostram os dados obtidos pela pesquisa, de uma amostra de 296 pequenos negócios em Goiás, 48,3% tiveram que interromper temporariamente suas atividades; 45,6% mudaram o funcionamento de alguma forma, e 1,1% decidiu fechar de vez.

Os números representam, em termos práticos, uma perda significativa de capital e de clientes, uma vez que as formas de atendimento passam a chegar a bem menos pessoas do que numa situação de funcionamento rotineiro. De acordo com os dados levantados, 88,7% dos pequenos comércios perceberam redução de seu faturamento. A média de queda é de quase 58%.

Como forma de manter as portas abertas, uma maioria esmagadora de pequenos comerciantes está recorrendo às chamadas linhas de crédito oferecidas pelos bancos, tanto públicos quanto privados. Porém, poucos são os que obtêm sucesso. Como mostra a pesquisa da FGV com o Sebrae, 90,1% dos pequenos empresários goianos que integraram o estudo precisaram buscar empréstimos bancários. Porém, apenas 14,8% deles conseguiram. Daqueles que precisaram de um socorro financeira, 65,2% ficaram de mãos abanando e com o risco de fechar, desempregando todos os seus funcionários.

Busca por formas de financiamento aumenta

Para o coordenador da Unidade de Estratégia e Diretrizes do Sebrae Goiás, Francisco Lima, houve um desencontro de informações no meio do pequeno empresariado. “A grande confusão que ficou na cabeça do empresário foi sobre as promessas de linhas de crédito facilitadas prometidas pelos bancos e pelo governo. Entre o anúncio e a operacionalização pelos bancos, existe um tempo. Às vezes a pessoa recebe a informação da linha de crédito, chega no banco e ouve do gerente “Olha, não estamos operando com essa linha ainda”. Então teve muita frustração, muita dificuldade de acessar crédito”, explica.

Francisco revela que houve um aumento de cerca de 12% da procura de pequenos empresários por atendimento do Sebrae. Muitos deles, segundo o coordenador, buscando orientações e informações no que concerne a soluções para seus negócios, o que, como esclarece Francisco, é viabilizado pela entidade.

Francisco Lima, coordenador da Unidade de Estratégia e Diretrizes do Sebrae Goiás / Foto: arquivo pessoal

“A gente tem um conjunto de consultores que ficam à disposição para atender esses clientes e mostrar para eles não só quais as instituições, politicas, programas dão acesso ao crédito, mas também para ensinar a tomada de crédito consciente”, relata. Conforme o coordenador, o empresário que queira falar com o Sebrae, receber uma orientação ou ter acesso a alguns dos produtos, consegue o mesmo nível de profundidade nos atendimentos pela internet e pelo telefone que o atendimento presencial.

O presidente da Federação da Micro e Pequena Empresa do Estado de Goiás (Fempeg), Hélio Rodrigues, vai mais além no que tange a críticas ao sistema de obtenção de crédito. Segundo ele, existe um oligopólio bancário que dificulta que o pequeno empresário consiga o socorro financeira necessário para manter as atividades de seu negócio.

“Existe um problema sério no Brasil. Oitenta por cento das operações de crédito do país são de quatro bancos, então você não tem competição. Não adianta o governo botar dinheiro, garantir o crédito da pequena empresa sendo que eles, os bancos, não vão repassar para a pequena empresa. Então é isso, existe um oligopólio sobre o crédito”, avalia.

Para o presidente da Fempeg, há a necessidade de reestruturação da concessão de crédito aos pequenos negócios, e que só assim o crescimento e a empregabilidade são viabilizados. “Esse é um momento em que as pessoas estão precisando de dinheiro e capital de giro. Nós temos que quebrar esse paradigma para que a gente possa financiar o desenvolvimento econômico e consequentemente a geração de emprego”, pontua.

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