Sobre vândalos, drogados e posseiros: o País “cristão” diante do valor da vida e das coisas

Não há mais Brasil, mas brasis que se fecham em si mesmos. Um país de guetos que se recusam a conversar fora de seu centro

Black blocs nos protestos em Brasília, a ação contra a cracolândia em São Paulo e o massacre dos posseiros no Pará: flagrantes da realidade que insiste em aparecer, ainda que o País a tente pôr debaixo do tapete

Uma fumaça preta subiu pelo céu da tarde de Brasília, na quarta-feira, 24 de maio. Era o sinal de incêndios em prédios de Brasília, que pegavam fogo na manifestação contra o que se achava um governo moribundo de Michel Temer (PMDB). A Polícia Militar agiu e reagiu. Um black bloc ficou com a mão dilacerada ao apanhar um rojão perdido para arremessá-lo em direção à tropa.

No mesmo dia, em São Paulo, a intifada promovida pelo prefeito João Doria (PSDB) contra a região da cracolândia demolia um prédio com pessoas dentro. Naquele momento, muito longe de Brasília, coração político do Brasil, e de São Paulo, a capital financeira da Nação, dez posseiros eram assassinados em Pau d’Arco, no sudeste do Pará.

Nos três atos, uma semelhança: a reação exacerbada nas redes sociais contra os marginais. Por “marginal”, aqui, não se entenda o sentido dado pelos mesmos reacionários que chamaram o rapaz que perdeu a mão de “bandido maconheiro”, os moradores pobres do Centro de São Paulo de “escória de vagabundos” e os sem-terra de “invasores comunistas”. Marginal é adjetivo de um sujeito oculto ou, melhor dizendo, indeterminado: aquele que vive à margem do processo, aquele que come, quando come, somente pelas beiradas do sistema.

Essas pessoas têm muito pouco a perder – mesmo que seja a mão, a casa, a vida. “Pouco” porque foi isso que as fizeram crer a respeito do que possuem. Na dança da nula autoestima, elas se prestam a papéis camicases. São, na verdade, o que restaram de si mesmas. E, quando resta pouco, custa pouco arriscar jogar de volta o rojão, morar na divisa do inferno ou enfrentar PMs armados com uma carabina de pressão.

Não se sabe exatamente como isso aconteceu – precisaria de um estudo sociológico ou antropológico mais avançado –, mas a sociedade brasileira, em plena era da informação, passou a se desconhecer. Não há mais Brasil, mas brasis que se fecham em si mesmos. Um país de guetos que se recusam a conversar fora de seu centro, que negam o diálogo a quem pareça ter qualquer diferença mínima.

É nesse contexto que proliferam pensamentos repletos de determinismo, ideologias radicais e líderes populistas. Por isso, não há qualquer novidade fora da lógica em ver Jair Bolsonaro ser recebido no aeroporto como um astro do futebol ou Lula ainda liderar as pesquisas eleitorais, depois de tantos processos envolvendo seu nome. Não há espaço para moderação: o “nós contra eles” – que, admita-se, o PT usou bastante – se impõe acima de qualquer espaço para a humanização. Até mesmo porque salvadores da pátria são messias, não humanos.

Se de um lado criam-se super-homens e alimentam-se seus superegos, do outro há os restos da humanidade. Não há, então, por que prezar pessoas desqualificadas. Não merece respeito quem não se dá ao respeito – ainda que isso se dê por um conceito particular e até psicanalítico de quem julga – e então se encontram abertas as portas da total desumanização.

A partir de então, maconheiro tem de engolir o cigarro que fuma, “para aprender a lição”; presidiário tem de sofrer muito, “para servir de exemplo”; matar sem-terra é trabalhar contra a invasão comunista e a venezuelização do Brasil, “para mostrar quem manda no País”. Esses são alguns dos pensamentos que assombram os mais lúcidos e que, não sem razão, têm proliferado – pelas redes sociais, especialmente.

O interessante é observar como ocorre essa inversão de valores em relação ao que seriam os “sentimentos cristãos” em um País de origens católicas e que teve uma disparada vertiginosa no número de evangélicos nas últimas décadas.

Não que o Deus da Bíblia seja pacífico. Mas o Jesus histórico e evangélico – na acepção da palavra, ou “Palavra” –, este sempre foi lido e entendido assim, dessa forma. Uma liderança bem mais perto de Gandhi, Buda ou Sócrates do que de Moisés, Josué e Davi, seus bélicos coadjuvantes de Escrituras Sagradas.

A questão é que a maioria dos que se radicalizam e se dizem “cristãos” ou “evangélicos”, na verdade, forma apenas um conjunto de fundamentalistas de ocasião: serve-lhes o que consta do “dente por dente” mosaico – o viés do Antigo Testamento –, por dar embasamento ao que querem na conjuntura. O “dar a outra face” pregado na mensagem de fato evangélica não pertence à bíblia dessas pessoas.

Pecam por falta de formação cultural e informação integral. Na verdade, uma porcentagem bastante baixa de brasileiros ficou ciente do massacre de posseiros do Pará. E uma ínfima parcela dos que souberam entendeu com alguma profundidade qual é a condição de vida dos que vivem nas terras de ninguém do meio da Amazônia, onde manda, em pleno século 21, o poder da bala.

É uma verdade ainda mais clara o desconhecimento que se repete com relação aos que se confundem às coisas da paisagem urbana: o mendigo, o catador de papel, o vendedor do semáforo, o drogado. Todos são tornados menos humanos: à realidade dos posseiros se acrescenta, portanto, a dos craqueiros de São Paulo e até mesmo a dos vândalos de Brasília.

Sem saber o que se passa com cada um desses que optaram por viver à margem, sem nenhum interesse por seu destino, resta a condenação simplista por seus atos ou, simplesmente, o alívio com a restrição a sua presença. Que sejam tirados da frente, que desocupem o alcance da visão.

Nesse sentido, o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB) é a personificação do ato de buscar a solução mais fácil para protelar o enfrentamento de questões complexas. O Brasil não pode ficar levantando o tapete para sempre para jogar lá essa população de “diferentes” (diferentes de quem?). Essa fatura já está sendo cobrada e a saída tem sido os condomínios horizontais para quem pode e o salve-se quem puder para os que ficam fora dos muros deles.

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