Servidores denunciam “propaganda enganosa” da SMS

Ao mesmo tempo em que equipe médica tentava conseguir marcapasso para idosa, produtora de vídeo filma no Ciams Novo Horizonte

Mesmo sem conseguir resolver problemas da saúde da capital, Secretaria Municipal planeja divulgar vídeo que é considerado “farsa” por servidores

Enquanto enfermeiras, médicos e técnicos de en­fermagem se desdobravam para não deixar o coração de Terezinha Maria da Silva, de 60 anos, parar de bater na manhã de sábado, 17, uma produtora contratada pela Prefeitura de Goiânia encenava um atendimento que a Secretaria Mu­ni­cipal de Saúde (SMS) não consegue oferecer aos goianienses, no sa­guão de atendimento ambulatorial do Centro Integral de Atenção Médico Sanitária (Ciams) Novo Horizonte, em Goiânia. O ambulatório, contudo, não funciona aos finais de semana.

O vai e vem de atores se ma­qui­ando ou recebendo instruções em um camarim improvisado, operadores de câmera, luz e áudio chamaram a atenção dos servidores de plantão. Revoltados, funcionários da unidade interpelaram a equipe de gravação.

“Isso é uma farsa, vai lá no fundo, lá é a realidade”, irritou-se a técnica de enfermagem que, no mesmo plantão, teve de com­prar com o próprio dinheiro ma­terial de limpeza. “Pedi para a SMS me reembolsar, mesmo que se­ja pouco. Mandei até o comprovante de pagamento”, conta ao jornal Opção.

Titular da SME, Fátima Mrué, não consegue explicar motivo do caos

A comunicação da prefeitura não confirmou a gravação para fa­zer propaganda do “atendimento” na unidade de saúde municipal. “Gra­var comercial de um sistema que não funciona é brincar com a ca­ra da sociedade. É um absurdo”, reclama a vereadora Cris­ti­na Lopes (PSDB).

Terezinha chegou ao Ciams Novo Horizonte em uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). De acor­do com a nora da idosa, Leu­ci­lene Borges, 42, não havia equipamentos funcionando na unidade.

“Com isso, os socorristas tiveram de emprestar o equipamento pa­ra os médicos e a ambulância ficou parada lá fora”, revela.

Levada para a sala de reanimação, a idosa ia sobrevivendo sob o olhar desesperado dos paramédicos e dos familiares que conseguiam espiar pela janela da sala. Enquanto isso, uma maratona en­vol­via a equipe médica durante quase 24 horas na regulação de Goiânia em busca de um leito numa Uni­da­de de Terapia Intensivo (UTI).

Cristina Lopes (PSDB): “A saúde virou um corredor da morte”

Uma possível vaga teria surgido no Hospital Santa Casa de Miseri­cór­dia de Goiânia já no início da madrugada de domingo, 18. “Mas lá não tinha vaga e a ambulância do Sa­mu novamente teve de emprestar os equipamentos. E, pior, um médico ainda pediu para nós, da fa­mília, comprarmos um marcapasso”, denuncia Leucilene. Terezinha morreu cerca de uma hora depois.

A Santa Casa não quis informar quando a paciente chegou ao hospital, mas reconhece que ela foi “admitida na Unidade de Terapia In­tensiva cardiológica do hospital em estado geral gravíssimo, dependendo de ventilação mecânica e marcapasso transvenoso” e que, “devido à gravidade do quadro clínico em que Terezinha se encontrava, não resistiu e foi a óbito”. A superintendência técnica do hospital ressalta ainda que “todos os cuidados inerentes à paciente foram realizados pela equipe que estava de plantão na UTI”.

Ainda muito abalados com a morte de Terezinha, mãe de cinco fi­lhos, os familiares não quiseram dar mais detalhes sobre ela. “A gen­te sabe que todo atendimento che­gou até minha sogra tardiamente”, desabafa.

Situação dramática

A gravação da “pílula” não foi con­firmada pela comunicação da Pre­feitura, mas foi o assunto debatido durante toda a semana passada nos corredores do Ciams Novo Horizonte e em grupos de funcionários. Não à toa. A titular da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), Fátima Mrué, não reconhece, mas médicos e servidores da rede municipal unanimemente afirmam: a situação calamitosa da saúde em Goiânia piorou nos 13 meses da gestão Iris.

Nos últimos meses, após o início do trabalho da Comissão Es­pe­cial de Inquérito (CEI) que investiga irregularidades da saúde municipal, Fátima Mrué precisa lidar com os vereadores integrantes da CEI que já a convocaram seis ve­zes para prestar esclarecimentos.

O Ministério Público do Es­ta­do de Goiás (MP-GO) pediu seu afas­tamento e até a Delegacia de Re­pressão a Crimes contra o Pa­tri­mô­nio Público (Dercap) investiga sua atuação frente à pasta.
A secretária não consegue ex­pli­car o motivo de o Sistema Úni­co de Saúde (SUS) remunerar mal, com falta de reajuste há 12 anos, e por que os hospitais particulares não se interessam em atender pa­ci­en­tes oriundos da rede. Com isso, o goianiense não consegue ser atendido. “Não consigo trabalhar, perdi toda a autonomia”, reclama um médico.

Elias Vaz (PSB): “Mrué não tem qualquer articulação administrativa”

O relator da CEI da Saúde, ve­re­ador Elias Vaz (PSB), reconhece que a intenção de Iris de colocar Fá­tima Mrué era inicialmente boa, mas falta a ela entender de gestão. “O prefeito a nomeou por não ter li­ga­ções com máfia, mas a secretária não tem qualquer articulação administrativa. Não tem capacidade. Não tem ex­pe­riência. Tem 9 mil funcionários, equivalente ao funcionalismo de prefeituras e não consegue gerir”, avalia.

“A saúde de Goiânia virou um cor­redor da morte, a falta de comprometimento com a vida é visível. É estarrecedora a forma com que a secretária lida com as vidas”, lastima a vereadora tucana.

“Não é possível que essa situação continue, com mortes nas unidades de saúde”, finaliza.

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ziro

É simples, propaganda enganosa é crime, então é caso de polícia. Cadê a polícia?