Sem jogos há seis meses, Serra Dourada luta pela sobrevivência

Prejuízo, que foi de R$ 2,3 milhões em 2018, caiu para R$ 900 mil em 2019, mas estádio busca receitas para se tornar atrativo e sustentável financeiramente

Estádio Serra Dourada: maior palco esportivo de Goiás completou 45 anos | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção
Estádio Serra Dourada: maior palco esportivo de Goiás completou 45 anos | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Em março, o Estádio Serra Dourada completou 45 anos. A data passou quase despercebida. Também, pudera: o último jogo oficial no maior palco do esporte goiano foi realizado em 8 de dezembro; portanto, há mais de seis meses. E, com a pandemia de Covid-19 e os planos dos times da capital que têm calendário garantido no segundo semestre, a tendência é que ele permaneça vazio – em longo prazo, o destino do estádio é incerto.

O Serra Dourada recebeu grandes jogadores (como Pelé, Zico, Linconl, Fernandinho e Baltazar), sediou jogos históricos (como o Flamengo e Atlético Mineiro pela Copa Libertadores, em 1981) e foi palco de shows antológicos (como a apresentação do beatle Paul MacCartney, em 2014). Mas uma série de fatores tem afastado os clubes de futebol e os torcedores de suas arquibancadas.

Em 2019, foram disputadas 40 partidas no estádio. Menos de uma por semana, portanto. A média de público foi de 9,8 mil. A receita para a administração do equipamento público, com os jogos, foi de R$ 928,6 mil, o que dá uma média de R$ 23,2 mil por rodada. Outras fontes de receita, com o futebol, são os bares e placas de publicidade.

O clube que mais utilizou o estádio foi o Goiás, que mandou 21 jogos ali, nenhum deles pelo Campeonato Goiano, apenas pelo Campeonato Brasileiro e Copa do Brasil. O Vila Nova mandou 15 partidas, também pelas competições nacionais. O Goiânia mandou quatro jogos no Serra Dourada e o Atlético, nenhum.

Secretário Rafael Rahif (c), com o ex-jogador Túlio e o secretário Adriano da Rocha Lima | Foto: Mantovani Fernandes

Fora do esporte, o Serra Dourada fatura com aluguel do estacionamento para shows e para o feirão de automóveis, que é realizado semanalmente. O maior evento local, o Villa Mix, por exemplo, pagou R$ 150 mil para usar o espaço, no ano passado. A receita com o feirão flutua, de acordo com a quantidade de carros que acessa o estacionamento (grande parte fica nas ruas adjacentes). Em fevereiro, último mês em que ele foi realizado (com a pandemia, as atividades foram suspensas), o estádio recebeu pouco mais de R$ 19 mil. Durante todo o ano passado, o estádio teve um faturamento de R$ 1,4 milhão. As despesas ficaram em R$ 2,3 milhões. Feitas as contas, o prejuízo foi de quase R$ 900 mil.

A situação financeira, porém, já foi pior. Em 2018, a receita foi de R$ 996 mil, diante de gastos na ordem de R$ 5,7 milhões. O que redundou em um déficit de R$ 4,7 milhões. “Cortamos gastos, repactuamos contratos e transferimos alguns custos para os clubes”, explica o secretário de Esporte e Lazer (SEEL) de Goiás, Rafael Rahif.

Entre esses custos está o quadro móvel – funcionários que cuidam, por exemplo, da limpeza e das bilheterias. Essa despesa era custeada pela administração, que tinha um contrato com uma empresa terceirizada, no valor de R$ 20 mil por jogo, em média, segundo a Secretaria de Esporte e Lazer. Esse montante oscila conforme o tamanho do evento.

Com todos esses ajustes, o déficit operacional do estádio recuou aproximadamente 80%. Mas o secretário conta que há planos para novas receitas. O estacionamento, por exemplo, atualmente é gratuito, pois o contrato com a empresa que explorava o serviço foi rompido. “Estamos trabalhando para que o Serra Dourada seja autossustentável”, diz Rahif.

Obras

Para tornar o estádio mais atrativo, a SEEL fez algumas melhorias, aproveitando o intervalo por causa da pandemia. De acordo com o secretário, foram investidos R$ 300 mil para recuperação do gramado, “que estava péssimo”, segundo ele. Foi construída uma sala para o árbitro de vídeo (VAR), sala de recepção para os times visitantes e feitas adequações para possibilitar a setorização das arquibancadas, como exigido pelo Corpo de Bombeiros. Assim, a capacidade, que estava limitada a 33 mil torcedores, agora é de 42 mil.

Gramado do Serra Dourada foi restaurado | Foto: Mantovani Fernandes

 Outras intervenções estão previstas, como uma reforma geral dos banheiros (um dos pontos fracos do estádio) e adequação da iluminação aos padrões exigidos pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF). A pandemia, contudo, obrigou o secretário a adiar alguns planos. “A prioridade, no Brasil, hoje é outra: a saúde”, justifica. A reforma dos banheiros 32 banheiros teve de ser revista. Para a iluminação, a licitação está em andamento e, segundo Rahif, os R$ 3 milhões necessários estão garantidos.

Times preferem jogar em estádios próprios

Marcelo Almeida, presidente do Goiás, na nova arquibancada do Estádio Hailé Pinheiro | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

O secretário de Esporte e Lazer de Goiás, Rafael Rahif, diz que o Serra Dourada está pronto para receber os jogos dos clubes goianos no Campeonato Brasileiro. Essa hipótese, porém, não é a preferida dos dirigentes de Goiás, Atlético e Vila Nova. Especialmente se os jogos voltarem sem público, como é a tendência, por causa da pandemia de Covid-19.

O Goiás, por exemplo, está construindo uma nova arquibancada, que levará o Estádio Hailé Pinheiro, popularmente conhecido como Serrinha. A meta era terminar a obra no início do segundo semestre, a tempo de jogar a maior parte da Série A, cujo início estava programado para o dia 2 de maio. Com a nova estrutura, que inclui banheiros e bares, a capacidade será para 14 mil torcedores – o mínimo exigido pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) são 13 mil lugares. No ano passado, apenas 7 dos 15 jogos do Goiás no Serra tiveram mais de 14 mil presentes (o recorde ficou para o confronto com o Flamengo, que recebeu 38 mil torcedores).

A quarentena para impedir a disseminação do coronavírus Sars-CoV-2, causador da doença, porém, interrompeu os trabalhos por 60 dias. Agora, a nova projeção é de que tudo esteja concluído em dezembro. “Mas pode haver alguma surpresa e ficar pronto em outubro”, diz o presidente do Goiás, Marcelo Almeida. De toda forma, sem a possibilidade da presença da torcida, os primeiros jogos, quando ocorrerem, devem ser disputados na Serrinha.

Marcelo Almeida cita alguns problemas que tornam o Serra Dourada menos atrativo: a sonorização, a iluminação e a impossibilidade de setorização do estádio. Além, é claro, de questões econômicas, como as taxas cobradas pelo uso e a impossibilidade de exploração dos bares.

Há, também, questões esportivas e efetivadas envolvidas. O Estádio Hailé Pinheiro está sendo transformado em uma arena, em que a torcida fica mais próxima dos jogadores. “Será um caldeirão. No Serra, com 20 mil pessoas, parece que tem pouca gente”, afirma o dirigente. Além disso, o projeto inclui a construção de um museu, para que o local se transforme em um ponto turístico. “O torcedor quer ter sua própria casa”, afirma.

A ala Leste, que está sendo construída, terá cadeiras para cerca de 5 mil pessoas, quatro banheiros e um grande bar, que será explorado pelo clube. O investimento é de aproximadamente R$ 10 milhões, que se somam aos R$ 8 milhões investidos para construir o tobogã, onde fica a torcida organizada e demais torcedores que preferem assistir aos jogos em pé. Futuramente, será construída a ala Oeste, com camarotes, restaurantes, etc. O orçamento atual previsto é de cerca de R$ 37 milhões.

Atlético

Adson Batista, presidente do Atlético, acompanha
as obras no Antônio Accioly

O Atlético, que também disputa a Série A, já optou há mais tempo por mandar seus jogos no Estádio Antônio Accioly, em Campinas, ou no Estádio Olímpico, no Centro. Em 2019, o rubro-negro só atuou uma vez no Serra Dourada, mas foi como visitante, contra o Vila Nova. No Campeonato Goiano deste ano, o time também preferiu jogar em casa.

Para o Brasileiro, a expectativa é que os jogos iniciem sem público, mas a diretoria corre contra o tempo, depois de ter de parar a construção por causa da pandemia, para mandar a maioria das partidas no Accioly. “Tivemos de parar, perdemos alguns recursos, mas estamos normalizando e a esperança é jogar todo o Brasileiro em casa”, diz o presidente Adson Batista.

No local, além de novas arquibancadas, que vão ampliar a capacidade de 10 mil para mais de 13 mil pessoas, estão projetados o Museu do Dragão, a ampliação da loja oficial do clube e uma lanchonete, com acesso ao público externo, que funcionará mesmo em dias sem jogos. Outra obra importante é a adequação da iluminação aos padrões exigidos pela CBF. O valor investido, porém, não é revelado. “É uma questão interna do clube, que muda a toda a hora. Quando tudo estiver pronto, vamos divulgar”, afirma Adson.

Vila Nova

Com a queda para a Série C, o Serra Dourada ficou ainda menos atrativo para o Vila Nova. A expectativa é que o público dos primeiros jogos não seja tão grande, tornando inviável o mando no maior estádio goiano. Dessa forma, as partidas serão no Onésio Brasileiro Alvarenga, o OBA, que fica no Setor Leste Universitário, em Goiânia.

Segundo o gerente de futebol do Vila Nova, Wagner Bueno, no OBA o clube pode explorar os dois bares, além de citar, também, o fator “nossa casa”. “Assim que for possível a volta da torcida, vamos fazer do OBA nosso caldeirão”, afirma. Alguns intervenções pontuais foram realizadas no estádio, como o asfaltamento do estacionamento.

Wagner Bueno: “O Serra ainda é o melhor
estádio de Goiás”

Ainda assim, o dirigente colorado elogia o Serra Dourada, que, para ele, é o melhor estádio do Estado. “O Serra dourada já foi palco de grandes jogos e decisões e até jogos de Seleção Brasileira. Estava meio abandonado e agora com a reforma creio q poderá sediar jogos maiores com mais torcidas”, acredita. Caso avance para as fases finais da Série C, a intensão do Vila Nova é recorrer ao velho e bom Serra.

O outro time da capital, o Goiânia, ainda aguarda a definição da CBF sobre a realização da Série D para se planejar para o segundo semestre. O clube ainda não retomou as atividades, mesmo com a liberação pelo prefeito Iris Rezende (MDB).

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