Roberto Naves ganha musculatura para disputar a reeleição em Anápolis

Eleição que se desenhava acirrada ganha novos contornos com desistência de Antônio Gomide de disputar a prefeitura do terceiro maior município de Goiás

Roberto Naves na sala de aula: prefeito preserva a imagem de um gestor fora da política tradicional | Foto: Diretoria de Comunicação / Prefeitura de Anápolis
Roberto Naves na sala de aula: prefeito preserva a imagem de um gestor fora da política tradicional | Foto: Diretoria de Comunicação / Prefeitura de Anápolis

Mesmo com as datas das eleições ainda indefinidas (o Senado aprovou a mudança para os dias 15 e 29 de novembro, mas a proposta enfrenta resistência na Câmara dos Deputados) e em plena pandemia de Covid-19, os atores políticos não deixam de se movimentar. Em Anápolis, um desses movimentos, já esperado, se confirmou: com problemas de saúde, o ex-prefeito Antônio Gomide (PT) saiu do páreo. A decisão consolidou um novo cenário e a eleição, que se desenhava acirrada no terceiro maior município goiano, agora caminha cada vez mais em direção a uma natural reeleição do atual prefeito, Roberto Naves, do PP.

Ao contrário do que os petistas anapolinos queriam fazer crer, mesmo com Gomide na lista dos pré-candidatos, Naves sempre esteve entre os nomes mais fortes. Em três anos e meio de mandato, construiu a imagem de gestor. Fez política, claro, como todo agente público. Mas segue sendo visto pela população do município como um administrador que não está no rol das figuras da política tradicional. A desistência do ex-prefeito, que ainda se recupera das sequelas de uma cirurgia para retirada de um tumor e de uma paralisia facial, apenas reforça o roteiro que, salvo uma reviravolta no meio do caminho, deve culminar com a renovação do mandato do pepista.

Naves estreou na política nos ventos que pediam mudança em 2016. Naquela eleição, havia (como ainda há) um forte desejo de renovação e de rejeição ao PT, no rastro das denúncias contra os líderes maiores da legenda (como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, José Dirceu e Antônio Palocci) e do impeachment de Dilma Rousseff, que ocorrera menos de dois meses antes. Vindo da iniciativa privada, Naves obteve 51% dos votos, vencendo o petista João Gomes ainda no primeiro turno.

Apoio de Caiado, João Campos e Baldy

Desde que assumiu o cargo, conseguiu um fato raro para novatos em política: aglutinar apoio de diferentes legendas, consolidando não apenas uma base na Câmara de Vereadores que lhe permitisse governar, mas também se fortalecendo eleitoralmente. Entre os 23 vereadores de Anápolis, 16 fazem parte da base do prefeito, o que lhe dá uma maioria confortável na casa. Faltando quatro ou cinco meses para a eleição (a depender do que for votado no Congresso), ao menos 15 partidos já declararam apoio à sua pré-candidatura.

Ronaldo Caiado, com Jair Bolsonaro e Roberto Naves | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção
Ronaldo Caiado, com Jair Bolsonaro e Roberto Naves | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Um passo importante na questão política foi a aproximação com o ex-ministro das Cidades Alexandre Baldy (hoje secretário de Transporte do governo de São Paulo) e com o deputado Adriano do Baldy. Essa proximidade culminou com a filiação ao Progressistas no final de 2019. A solenidade reuniu o governador Ronaldo Caiado e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maias, ambos do DEM; o senador Vanderlan Cardoso (PSD), vários parlamentares e prefeitos. No rol de políticos que estão do lado de Naves também podem ser citados o deputado federal João Campos (Republicanos) e o deputado estadual Amilton Filho (Solidariedade), que foi vereador em Anápolis.

O perfil dos políticos que estão em torno do projeto é eminentemente conservador, o que é uma vantagem competitiva. Anápolis é uma das cidades com maior proporção de evangélicos: segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, aproximadamente um em cada quatro moradores professam a religião. Assim, natural também foi a conquista do apoio do governador Ronaldo Caiado, explicitada verbalmente pelo democrata.

Caiado pode atrair Jair Bolsonaro

Dessa forma, é possível que Caiado atraia o presidente Jair Bolsonaro, que também teve votação consagradora em Anápolis, para a futura campanha de Naves. O presidente ainda não se manifestou sobre qual será seu posicionamento nas eleições municipais. Mas, como a parceria com o governador foi retomada, é possível que Bolsonaro se coloque ao lado do pepista em um eventual segundo turno, especialmente se a pré-candidata do PT, Professora Geli, esteja nele.

Toda essa articulação formada ao longo de três anos e meio dará musculatura na campanha deste ano. A maior parte das chapas para vereador que estão sendo formadas é de partidos que estão ao lado de Roberto Naves. Ainda que não exista a coligação proporcional, a capacidade de mobilização em torno do nome para o Executivo pode fazer toda a diferença. Mesmo com a força das redes sociais, o corpo a corpo ainda decide eleições. Principalmente se, até o início da campanha, a questão do coronavírus tenha sido controlada ou ao menos amenizada.

Administração

Uma candidatura à reeleição, porém, não se faz apenas de alianças políticas. Há muitos exemplos de prefeitos que naufragaram nas urnas ao tentarem um segundo mandato. O exemplo mais próximo, é claro, é o do próprio João Gomes, em 2016. Em Goiânia, outro petista histórico, Pedro Wilson, foi derrotado em 2014 por Iris Rezende (MDB). O que o eleitor quer são obras e serviços que resolvam seus problemas.

Naves entrega hospital para tratamento da
Covid-19 | Foto: Divulgação

Nesse ponto, Roberto Naves tem o que mostrar. O pepista afirma que, até o momento, concluiu 80% dos compromissos de campanha – e diz que chegará aos 100% até o fim do ano. Uma dessas promessas foi entregue em julho de 2019: a primeira Unidade de Pronto Atendimento (UPA) com perfil pediátrico do Centro-Oeste. Ao custo de R$ 1,6 milhão, está sendo gerida pela Fundação Universitária Evangélica. Outra UPA, que substituirá o Cais do Jardim Progresso, está com mais de 90% das obras concluídas.

Outra ação importante na área da saúde foi a implantação de unidades para atendimento básico com horário estendido. O modelo, inclusive, inspirou medida semelhante adotada pelo Ministério da Saúde em todo o País. Ainda na mesma área, foi criado o Zap da Saúde. A ferramenta, inovadora e acessível, foi utilizada para o agendamento de mais de 10 mil consultas.

Na área de segurança, outra demanda constante dos eleitores, Naves criou a Força Tática Municipal. Segundo dados da própria prefeitura, a medida, aliada à ação das polícias civil e militar, resultou na diminuição de 60% nos indicadores criminais no município. A parceria com Caiado, nesse setor, pode render bons frutos eleitorais – afinal, nada mais normal que ações administrativas redundarem em confiança eleitoral.

Bom trânsito entre católicos e evangélicos

Retomando um ponto citado anteriormente neste texto. O eleitorado anapolino é, majoritariamente, conservador e religioso, com destaque para os cristãos, sejam católicos ou evangélicos. Ter apoio de líderes religiosos, portanto, pode ser um diferencial em uma eleição em Anápolis. Cristão, Roberto Naves tem a simpatia de boa parte desse segmento no município.

A primeira-dama, Vivian Naves, é católica praticante e tem feito um trabalho reconhecido na área social. Ao lado da secretária de Desenvolvimento Social de Anápolis, Eerizania Eneas Lobo, concebeu projetos como o Natal do Coração e o Voluntários do Coração, que tiveram boa repercussão junto à população.

Entre os evangélicos, a situação não é diferente. O vice-prefeito é o pastor Márcio Cândido, que atraiu boa parte das lideranças para o projeto político de Roberto Naves. Muitos, inclusive, declararam verbalmente esse apoio. São os casos, por exemplo, do presidente da Assembleia de Deus Madureira, pastor Bertiê Magalhães, do presidente da Assembleia de Deus de Anápolis, pastor José Clarimundo, e do presidente estadual da Igreja Quadrangular, Washington Luiz.

Enfim, como dizia o governador mineiro Magalhães Pinto, “a política é como nuvem, você olha, está de um jeito; olha de novo, está de outro jeito”. Contudo, a menos que ocorra uma tempestade que não está no radar, a reeleição de Roberto Naves tende a ocorrer sem muita turbulência.

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